A foto acima parece a prova de um inquérito sobre lesões corporais, mas as marcas foram provocadas por uma das mais tradicionais técnicas de tratamento da medicina tradicional chinesa, o “guasha”, aplicado até hoje por milhões de avós para tratar gripe ou febre de seus netos. A terapia também é indicada para estimular a circulação sanguínea e combater a estagnação de “qi”, a energia vital que transita em nosso corpo, de acordo com a visão de mundo chinesa. E foi com esse propósito que meu médico a aplicou _sim, as costas da foto são minhas.
A expressão “guasha” pode ser traduzida como “raspar a febre” e tem o propósito de fazer com que a doença saia do corpo. A técnica exige esforço físico de quem a aplica e alguma resistência à dor de quem a recebe. O instrumento indicado é uma espátula de chifre de búfalo, que é usada para raspar a pele em movimentos intensos. De acordo com a medicina tradicional chinesa, o material tem a propriedade de estimular a circulação. A dor é suportável e acaba com o fim da sessão, apesar de as marcas que permanecem indicarem o contrário.
Amplamente utilizado pelas famílias, o “guasha” é fonte de um dos mais traumáticos choques culturais experimentados pelos chineses quando emigram a outros países. Os vergões vermelhos deixados nas costas das crianças são interpretados como sinais de maus-tratos por professores e não raro dão margem a acusações infundadas contra seus pais e avós. Meu terapeuta, Alex Tan, nasceu na Austrália e é filho de pai chinês e mãe australiana. Segundo ele, em seu país, casos como esses ocorrem não só com imigrantes chineses, mas também vietnamitas, que aplicam o “guasha” com moedas.
O filme chinês “O Tratamento”, de 2001, relata as desventuras de um avô que visita a família nos Estados Unidos e decide aplicar o “guasha” em seu neto doente. As marcas que ficam nas costas do garoto fazem com que as autoridades norte-americanas o retirem da família e acusem os parentes de abuso físico. A confusão só é resolvida quando um amigo do pai do garoto se submete ao mesmo tratamento e vê os seus benefícios.
Outra terapia que deixa marcas nas costas é o “baguan”, que consiste na aplicação de ventosas com objetivos semelhantes aos do “guasha”. No “baguan”, o médico esquenta com fogo o interior de um copo de vidro e o coloca em pontos determinados nas costas do paciente. Quando o ar esfria, é formado um vácuo, que suga a pele para o interior do recipiente. O “efeito colateral” são inúmeros círculos roxos ou pinks nas costas, que demoram alguns dias para desaparecer. Abaixo estão algumas fotos que mostram a técnica, aplicada nas minhas costas:
A dois meses do aniversário de um ano do terremoto que deixou quase 80 mil mortos na província chinesa de Sichuan, o artista plástico Ai Wei Wei deu início a uma campanha na internet para identificar os milhares de estudantes que morreram soterrados com o desabamento das escolas onde se encontravam no momento do tremor.
“Já se passaram mais de 300 dias desde o terremoto. O governo de Sichuan continua a adiar a divulgação de informações misteriosas sobre as mortes e a lista de mortos e apagou o fato de que centenas de milhares de estudantes morreram por causa desses projetos de ‘tofu’”, escreveu Ai Wei Wei em seu blog no dia 12 de março.
“Construção de tofu” é a expressão que os chineses utilizam para se referir a edifícios frágeis, que podem vir abaixo por qualquer motivo.
Cerca de 7.400 escolas desmoronaram em razão do terremoto de 8 graus na escala Richter que atingiu Sichuan, no centro da China, no dia 12 de maio. Em muitos lugares, os edifícios ao redor ficaram intactos, o que levantou suspeitas de que as escolas tenham sido construídas com material de baixa qualidade.
No mês de novembro, o governo chinês afirmou que 19.065 estudantes morreram no terremoto, o que representa 23% do total das vítimas. Em razão da política de controle de natalidade, muitos dos mortos eram filhos únicos, o que aumentou ainda mais a carga dramática das perdas.
O assunto desapareceu da imprensa oficial chinesa nos últimos meses e se tornou um dos mais “sensíveis” para as autoridades de Pequim, pelo potencial que tem de alimentar insatisfação em relação às autoridades.
Ai Wei Wei é considerado o pai da arte contemporânea na China e trabalhou na concepção do Ninho de Pássaros, o Estádio Nacional da Olimpíada de Pequim. Totalmente ignorado pela imprensa oficial, ele mantém um blog extremamente popular, no qual manifesta posições críticas ao governo chinês e defende maior liberdade e democracia.
Desde o dia 12 de março, ele faz o que deveria ser realizado pelo governo: divulga listas com nomes, idade, gênero, escola, local da morte e contato dos familiares dos estudantes. Até ontem, Ai Wei Wei havia publicado 71 listas, com um total de 1.790 nomes.
Antes de iniciar a campanha na internet, no dia 15 de dezembro, o artista começou a coletar dados por telefone e em visitas às regiões atingidas pelo tremor. Nos posts em seu blog ele também reproduz conversas que teve com funcionários de Sichuan na busca de informações sobre os estudantes mortos. Os diálogos revelam as dificuldades na obtenção de dados oficiais relativos às vítimas do terremoto. Há casos em que funcionários afirmam que as informações são sigilosas, outros se recusam revelá-las, se negam a dar seus nomes e, na maioria das vezes, o artista ouve a recomendação de entrar em contato com outro departamento.
Também há teorias conspiratórias. O funcionário que atendeu o telefone no Departamento de Manutenção da Estabilidade de Mianyang, uma das cidades atingidas pelo tremor, perguntou por que Ai Wei Wei estava interessado na informação. “Por que não posso me preocupar? Esse é um assunto que diz respeito aos chineses”, disse o artista. O funcionário se recusou a dar as informações com o seguinte argumento: “Eu sou chinês também. E se você for um agente secreto enviado pelos americanos?”.
O governo da China aumentou os controles sobre a atuação da imprensa no país, contrariando as promessas de maior liberdade feitas durante a Olimpíada de Pequim. O alvo das autoridades são os assistentes chineses contratados pelos correspondentes estrangeiros e jornalistas que trabalham para a imprensa local.
Impossibilitadas de controlar as informações que os correspondentes estrangeiros enviam a seus países de origem, as autoridades decidiram impor restrições à atuação dos assistentes, que trabalham como intérpretes e também atuam na coleta de informações.
Pequim anunciou no mês passado um Código de Conduta que determina aos assistentes que propaguem “informações e idéias positivas” sobre a China e os proíbe de realizar entrevistas. O governo também informou que vai criar uma “lista negra” de jornalistas chineses que realizem “reportagens ilegais”. A medida tem por alvo pessoas que cobram propina ou divulgam informações falsas, mas o termo é vago o bastante para incluir qualquer atividade que desagrade o governo.
“Depois de dar alguns passos na direção de maior liberdade de imprensa em 2008, o governo chinês agora está retrocedendo”, afirmou a diretora da Human Rights Watch na Ásia, Sophie Richardson. “Dar maior liberdade para os correspondentes estrangeiros e depois aumentar as restrições sobre seus essenciais assistentes chineses não pode ser considerado progresso”, declarou.
O Clube de Correspondentes Estrangeiros na China divulgou nota neste mês na qual pede a revogação das regras relativas aos assistentes. De acordo com a entidade, vários profissionais chineses relataram ter recebido pressão verbal de funcionários do governo para que não contem a amigos e familiares o que vêem em viagens de trabalho até que as informações sejam publicadas pela imprensa oficial _o que pode não ocorrer.
A pressão sobre os assistentes é uma forma de Pequim cercear o trabalho dos correspondentes estrangeiros e tentar intimidar veículos com representação na China. O caso extremo foi o do jornalista chinês Zhao Yan, que trabalhava para o New York Times e foi preso em 2004 sob a acusação de revelar segredo de Estado a estrangeiros.
A detenção ocorreu logo depois de o jornal norte-americano ter publicado uma reportagem exclusiva na qual revelava que o ex-presidente Jiang Zemin entregaria o cargo de comandante militar do Partido Comunista a seu sucessor, Hu Jintao. De acordo com o New York Times, Zhao Yan não participou da reportagem.
O jornalista acabou condenado a três anos de prisão sob acusação de fraude, em um processo que correu em segredo e que teve motivação política, de acordo com entidades de defesa dos direitos humanos.
“A intimidação dos assistentes chineses vai contra a promessa de maior abertura feita no ano passado. O código [de conduta] deve ser revogado. Assistentes de mídia na China deveriam ter o mesmo escopo de atividade que assistentes de mídia em outras nações”, o presidente do Clube de Correspondentes Estrangeiros na China, Jonathan Watts, na nota divulgada pela entidade.
Com a brutal queda na venda de carros nos Estados Unidos, a China vai assumir neste ano o posto de maior mercado automobilístico do mundo, com vendas de quase 10 milhões de unidades, acima das 9,8 milhões que os norte-americanos devem comprar. Depois da conquista da casa própria, o grande sonho de consumo dos jovens é o carro próprio, o que deixa os ambientalistas de cabelo em pé. Se os chineses tivessem a mesma relação de carros por habitante que os norte-americanos, haveria mais carros no país do que em todo o restante do mundo.
Apesar do avanço das quatro rodas, uma legião de chineses continua a usar suas bicicletas para ir ao trabalho ou ganhar a vida. Pequim já tem mais que 3 milhões de carros, mas continua a ser uma cidade ideal para a proliferação das bikes. Plana e com ciclovias em todas as grandes avenidas, a cidade abriga milhões de ciclistas, que participam do caos coletivo que se instaura em cada semáforo, quando pedestres, bicicletas e carros disputam a primazia das ruas, com evidente vantagem para os motorizados.
O número de ciclistas é menor a cada ano e as estatísticas oficiais indicam que a maioria dos moradores da capital utilizam carros ou transporte público para se dirigir ao trabalho. Mas as duas rodas continuam a fazer parte da paisagem de Pequim e garantem a sobrevivência dos bicicleteiros que vendem seus serviços em toda a cidade. Alguns são ambulantes e carregam sua oficina sobre pequenos triciclos. Outros possuem endereço fixo e anunciam o negócio com pneus colocados na calçada, como os borracheiros no Brasil. Só que os pneus são de bicicleta.
Aí vão algumas fotos deste mundo em extinção:
Ciclistas aproveitam a interrupção do trânsito em razão do Congresso Nacional do Povo, na semana passada, para ocupar uma das pistas da principal avenida de Pequim
As bicicletas também continuar a ser usadas para o transporte de quase tudo, incluindo móveis e geladeiras
Bicicleteiro trabalha no bairro de Ho Hai, uma das áreas antigas de Pequim
Biciletas em uma das ruas de Ho Hai
Mão leva filho na caçamba de triciclo normalmente usado no transporte de cargas leves
Vendedor ambulante leva frutas caramelizadas na garupa de seu triciclo
Outra bicicleteira do Ho Hai
Bicicleteiro anuncia seus serviços
Dezenas de internautas chineses lamentaram nos últimos dias a transferência para a longínqua província de Xinjiang, no extremo oeste do país, de um professor da Universidade de Pequim que no ano passado assinou a “Carta 08″, um documento que desafia o Partido Comunista ao defender profundas reformas democratizantes.
O professor de direito He Weifang foi um dos 300 signatários originais do texto, que depois ganhou a adesão de cerca de 8.000 pessoas online. Apesar de nenhum dos comentários fazer referência à “Carta 08″ _tema absolutamente vetado pela censura_, muitos manifestam a convicção de que a transferência se deu por motivações políticas.
“É triste para toda a sociedade ver isso acontecer na China de hoje, no momento em que a política de reforma e abertura completa 30 anos”, escreveu jing de wei xiao. Outro internauta foi mais dramático: “Como uma pessoa que também trabalha no campo jurídico, eu espero sinceramente que ele volte vivo”, disse miaomiao gonggong.
Divulgada no dia 10 de dezembro, a “Carta 08″ propõe 19 mudanças fundamentais na política chinesa que, se adotadas, representariam o fim do regime comunista. Entre elas, estão eleições diretas, pluripartidarismo, divisão de Poderes e liberdade religiosa, de manifestação, de associação e de expressão.
A reação do governo contra seus signatários começou antes mesmo da divulgação do documento, com a prisão, no dia 8 de dezembro, do dissidente Liu Xiaobo, que continua detido até hoje.
No início de janeiro, o governo tirou do ar o portal bullog.cn, um dos mais populares sites de discussão entre intelectuais chineses, que abrigava blogs de vários signatários da “Carta 08″. Além disso, muitos dos que apoiaram o documento foram chamados pela polícia para prestar “esclarecimentos”.
Em entrevista à Associated Press, o professor He Weifang disse não ter recebido uma justificativa para sua transferência e evitou afirmar que ela está relacionada a seu apoio ao documento. Não é raro que professores das grandes universidades de Pequim passem temporadas em instituições de províncias distantes.
O momento atual é especialmente sensível para o governo chinês em razão da proximidade do aniversário de 20 anos do massacre da praça da Paz Celestial. No dia 4 de junho de 1989, tanques do Exército de Libertação Popular colocaram fim a dois meses de protestos de estudantes por reformas democráticas, deixando um saldo de 1.000 mortos, na avaliação da Anistia Internacional.
As reuniões do Congresso Nacional do Povo, que se repetem a cada ano em Pequim, são célebres por seu tédio e previsibilidade. Antes que elas comecem, a cúpula do Partido Comunista já decidiu o que será aprovado pelos cerca de 3.000 delegados nas quase duas semanas de reuniões _neste ano, o encontro foi reduzido a nove dias, sob o pretexto de economizar recursos em tempos de crise. Em geral, os projetos submetidos aos representantes são aprovados por unanimidade ou por ampla maioria de votos. Há exceções, como a proposta de construção da mega-usina de Três Gargantas, que gerou debates intensos em 1992 e levou quase um terço dos delegados a se absterem ou votarem contra o projeto.
Mesmo com a reduzida margem de manobra, o Congresso serve para que Pequim tome o pulso do humor do restante do país, por meio dos relatos e pedidos dos delegados vindos do interior. O encontro também tem um forte caráter simbólico e dá ao Partido Comunista a oportunidade de transmitir ao país e ao mundo uma imagem de unidade, que muitos acreditam ser falsa. Como qualquer organização política, o partido é dividido em facções, que disputam influência e poder.
Entre os elementos que compõem a imagem de unidade, um dos mais prosaicos é a semelhança de estilos entre nove homens que integram o Comitê Permanente do Politburo, o órgão máximo de poder na China, liderado pelo presidente Hu Jintao, o presidente do Congresso Nacional do Povo, Wu Bangguo, e o primeiro-ministro, Wen Jiabo. Os nove comparecem aos encontros com ternos escuros, quase pretos, camisas brancas, gravatas vermelhas ou azuis e cabelos pretos retintos, ainda que muitos tenham quase 70 anos.
O fato de que os poderosos da China pintam seus cabelos de preto não é segredo para ninguém. Entre os 25 integrantes do Politburo que exerceram o poder até outubro de 2007, uma das poucas cabeças brancas era a de uma mulher, Wu Yi, que se aposentou naquele encontro. A obsessão pelos cabelos pretos não se restringe à cúpula do poder e permeia toda a sociedade. É raro encontrar um chinês grisalho e muitos associam os cabelos pretos à virilidade. Tenho um amigo brasileiro que estava grisalho por volta dos 40 e não parecia ter problemas com isso até que começou a namorar a sério uma chinesa. Tão a sério que apareceu da noite para o dia com os cabelos totalmente pretos.
Além da questão da virilidade, há outras teorias que tentam explicar o império do Grecian 2000 em terras chinesas. Em seu livro “China´s New Confucionism”, o professor Daniel Bell atribui a adesão à tintura pelos donos do poder aos valores do confucionismo e à idéia de que as “pessoas de cabelos brancos” devem ser objeto de cuidados e não ter a responsabilidade de cuidar dos outros.
Para que vocês não achem que estou exagerando, aí algumas fotos dos dirigentes chineses tiradas da página na internet do jornal oficial do Partido Comunista, o Diário do Povo:
O presidente Hu Jintao, 66

O presidente do Congresso Nacional do Povo, Wu Bangguo, 67
O primeiro-ministro Wen Jiabao, 66

Aqui uma foto não retocada de Hu Jintao e Wen Jiabao
Agora, algumas fotos que eu tirei nesta semana:
A entrada do Grande Palácio do Povo, onde o congresso é realizado; o edifício fica em frente à Praça da Paz Celestial (Tiananmen)
A Praça da Paz Celestial no momento da saída dos delegados
Soldados em frente à Cidade Proibida, que fica na diagonal do Grande Palácio do Povo
O relatório apresentado ao Congresso Nacional do Povo quinta-feira pelo poderoso ministério responsável pelo planejamento na China foi mais cauteloso que o primeiro-ministro Wen Jiabao ao avaliar a capacidade do país de alcançar a meta de 8% de expansão da economia neste ano.
“Considerando a desaceleração da economia mundial, o complexo e volátil ambiente externo e o aumento considerável dos problemas domésticos, esta não é uma meta baixa e exige o apoio de fortes políticas macroeconômicas e trabalho prático e efetivo”, diz o documento de 38 páginas da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento (CNRD) sobre desenvolvimento econômico e social em 2009 entregue aos quase 3.000 representantes reunidos ontem no Grande Palácio do Povo.
A sessão do Congresso Nacional do Povo termina no dia 13 de março, quando Wen Jiabao dará uma entrevista coletiva, a única de cada ano.
Os problemas domésticos não são poucos e alguns, como o excesso de capacidade produtiva, foram evidenciados pela desaceleração da economia mundial. Entre os desafios que ainda estão diante do governo de Pequim, a CNRD listou os seguintes: baixa capacidade de inovação tecnológica, estrutura industrial inadequada, desequilíbrio entre demanda doméstica e externa, o pesado impacto do crescimento sobre os recursos naturais e o meio ambiente, a desproporção entre investimento e consumo e os desequilíbrios entre os desenvolvimentos econômico e social, entre áreas urbanas e rurais e entre diferentes regiões do país.
O documento destaca que o efeito da crise sobre o emprego é devastador e reconhece que os esforços do governo para aumentar a eficiência energética e reduzir a poluição encontrarão mais resistência em um cenário de baixo crescimento.
“Pelo fato de as empresas enfrentarem mais dificuldades e algumas não estarem operando em plena capacidade, elas investem menos em aperfeiçoamento tecnológico e redução da poluição, o que leva a uma queda na eficiência energética e operação ineficaz de seus equipamentos de controle da poluição”, observa o texto.
Mas a CNRD sustenta que o governo chinês pode transformar o desafio atual em oportunidade e realizar os ajustes necessários na estrutura produtiva e na economia do país. Entre os objetivos para 2009 está a consolidação de setores extremamente fragmentados, como o siderúrgico e o automobilístico, que passarão por um processo de fusão de empresas.
Com 300 milhões de usuários, a maior população online do mundo, a internet é um dos fenômenos mais instigantes e de difícil compreensão para quem observa a China de hoje. Sua expansão é promovida e celebrada pelo mesmo governo que bloqueia inúmeras páginas e blogs, na tentativa de manter fora do alcance dos chineses temas “sensíveis” como o conflito no Tibete, a independência de Taiwan ou pressões por uma democracia pluripartidária.
As autoridades de Pequim mantêm um exército estimado em 30 mil censores para “filtrar” as informações a que seus internautas têm acesso, mas é cada vez maior o espaço ocupado por discussões online que seriam impensáveis há poucos anos. Os chineses participam de milhares de fóruns e debatem com paixão os problemas que assolam o país _da crescente desigualdade de renda ao aumento da poluição. A China tem um número estimado entre 30 milhões e 50 milhões de blogs, que vão do estilo “esta é minha vida” aos que defendem mudanças políticas radicais. Neste último caso, os posts costumam cair na rede da censura, mas são colocados no minuto seguinte em outro endereço, em uma corrida interminável.
A grande incógnita é saber se a internet levará necessariamente à democratização da sociedade chinesa ou se será um instrumento de legitimação do Partido Comunista. Os donos do poder em Pequim têm sido agressivos e rápidos na tentativa de transformar a internet em uma arma que funcione a seu favor, com o uso cada vez mais freqüente da rede na identificação de demandas da sociedade e na comunicação com a população. A imprensa oficial chinesa se refere à população online como “wang min”, algo como “internauta cidadão” ou “netizen” em inglês, um termo que reflete a ideia de que a rede seria um canal de expressão da cidadania.
No sábado, o primeiro-ministro Wen Jiabao participou de um chat com milhares de internautas (“wang min”) durante duas horas, nas quais falou sobre corrupção, aumento da desigualdade social, problemas na área de saúde, desemprego, habitação, mercado acionário e até culinária. Claro que os temas “sensíveis” estavam ausentes, mas o debate foi bem menos restrito que o chat realizado no ano passado pelo presidente Hu Jintao. Nada menos que 90 mil perguntas foram apresentadas durante as duas horas.
Entre os pontos que mais me surpreenderam no diálogo de Wen com os internautas foram as críticas feitas à decisão do primeiro-ministro de doar de seu bolso 10 mil yuans para ajudar no tratamento de uma criança que tem leucemia. Ao invés de receber afagos por seu bom coração, Wen foi atacado pelas falhas do serviço público de saúde na China. Para os internautas, é melhor ter um bom sistema do que um bom primeiro-ministro. “Eu notei as severas críticas que dizem que um bom sistema importa mais do que um bom premiê e entendi os argumentos”, escreveu Wen. “A China tem mais de 4 milhões de crianças com leucemia. O tratamento para cada uma delas custa mais de 100 mil yuans. Mas nenhuma empresa de seguro-saúde na China aceitaria o reembolso de uma despesa médica tão alta”, admitiu.
Wen Jiabao afirmou que a corrupção só pode ser combatida com limites ao exercício do poder e sustentou que os governados têm o direito de criticar os governantes _ele só não mencionou que a prática também está sujeita a limites. Ao falar do aumento da desigualdade social, Wen Jiabao citou um de seus autores prediletos, o escocês Adam Smith (1723-1790), considerado o pai do liberalismo econômico e autor da teoria da “mão invisível” como o mais eficaz instrumento de regulação do mercado. “Se a riqueza em uma sociedade é concentrada nas mãos de um pequeno número de pessoas, isso vai contra a vontade popular e a sociedade estará fadada a ser instável”, disse Wen, fazendo referência à “Teoria dos Sentimentos Morais”, obra escrita por Smith antes de a “A Riqueza das Nações”.
Em discurso a dirigentes comunistas há dois anos, o presidente Hu Jintao conclamou os camaradas a aprenderem a usar a internet e a usarem a rede para “aperfeiçoar a arte da liderança”. O jornal oficial do Partido Comunista, “Diário do Povo”, realiza desde o fim de janeiro uma pesquisa online para saber quais os tópicos de interesse dos “netizens” em preparação à reunião anual do Congresso Nacional do Povo, que começa na quinta-feira. Até o dia 2 de março, 300 mil pessoas haviam escolhido entre as 20 opções possíveis e os 10 assuntos campeões eram proteção do meio ambiente, combate à corrupção, segurança de remédios e de alimentos, reforma do sistema de saúde, distribuição de renda, emprego, habitação, educação, seguridade social e sistema Judiciário. A opção “democracia” não estava incluída entre os 20 itens da versão em chinês do jornal, apesar de aparecer na versão em inglês.
A tentativa do governo de transformar a internet em um mecanismo de comunicação com a população e de resposta às demandas dos cidadãos é o principal elemento que leva alguns estudiosos a sustentarem que a rede não levará à democratização e ao pluripartidarismo na China. Pelo contrário. Rebecca MacKinnon, professora da Universidade de Hong Kong, cunhou o termo “cyber-tarianism” para delinear um dos possíveis cenários para o futuro da internet no país, um cenário no qual o governo usa a rede para identificar as inquietações da população, atendê-las quando possível e, assim, reduzir o risco de instabilidade social. Nele, o regime de partido único comandado pelos comunistas não é ameaçado e os cidadãos têm a percepção (real ou ilusória) de participar de alguma maneira do processo decisório. Outro cenário é o de uma “cyber-ocracy”, na qual comunidades poderiam usar a internet para se organizar em torno de questões de seu interesse (agradeço à minha amiga Janaína Silveira por me enviar um texto sobre o assunto).
Muitos continuam a acreditar que a rede levará de maneira inevitável à democratização da sociedade chinesa, na medida em que amplie o acesso à informação e o espaço público para o debate de idéias. Mas ainda é muito cedo para saber quem está certo.
Abaixo, a foto de Wen Jiabao durante o chat, distribuída pela agência oficial de notícias Xinhua:

Todos gostariam que ela tivesse o formato de um “V”, mas a esta altura estariam satisfeitos com um “U”, diante da ameaça de embarcarmos em um instável “W” ou um agonizante “L”. As metáforas alfabéticas estão entre as preferidas dos economistas que analisam a surpreendente crise global e tentam prever de que maneira o mundo e cada país em particular sairá dela _se é que sairão.
Até bem pouco tempo muitos achavam que o “V” era o melhor retrato da trajetória que seria percorrida pela China, com uma brusca desaceleração, seguida de uma rápida e forte reação da economia. Esse cenário está cada vez mais distante e mesmo os otimistas apostam agora no “U”, que indica um período mais longo de recessão, mas com a perspectiva de reação no horizonte. Os mais céticos consideram o “W” mais apropriado e apontam para recuperação em 2010 com nova desaceleração em 2011.
O mais temido por todos é o “L”, no qual a recuperação é tão incerta que não aparece no cenário. Por enquanto, o Japão parece ser o país que melhor se enquadra no desenho, mas pela velocidade do agravamento da crise, ninguém duvida que outros possam lhe fazer companhia.
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2011
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2008