Minha assistente Wu Dan Dan (Wendy para os não-chineses) é meu principal canal de ligação com a cultura chinesa e a principal fonte de explicação de nossas diferenças. Ontem fomos jantar e tivemos uma breve conversa sobre o arroz, alimento mais que fundamental na mesa dos asiáticos. Além de ótima profissional, Wendy é dotada de um surpreendente senso de humor. Enquanto comíamos comida tailandesa com nosso amigo Bill, um chinês americano, eu disse que o conceito de bom arroz no Brasil era totalmente distinto do arroz grudento apreciado pelos asiáticos.
“Quanto mais solto, melhor”, eu falei. “Um chinês acharia que o arroz ainda não está pronto”, respondeu Wendy. Quando eu lembrei que muitas pessoas no Brasil gostam de arroz integral, minha assistente observou que os chineses o consideram “comida de passarinho”, nada apropriada aos humanos. Por fim, veio a condenação do risoto italiano, que Wendy experimentou pela primeira vez com seu namorado de Milão. “Marco, tem alguma coisa errada com o prato!”, sussurrou ela ao namorado quando experimentou a textura consistente do risoto em um jantar de negócios.
Mas as diferenças não ficam no arroz. Durante o jantar, eu tomei cerveja gelada e Wendy e Bill, água quente, algo extremamente comum por aqui. Para os chineses, bebidas geladas atrapalham a digestão, fazem mal à saúde e devem ser evitadas. O ideal é chá ou água quente, consumida até durante a malhação nas academias de ginástica.
Depois de ver um chinês fazer macarrão com as mãos em questão de minutos é difícil duvidar da teoria de que a invenção nasceu no antigo Império do Meio e foi levada a Itália por Marco Polo. Tão fundamental quanto o arroz na mesa dos chineses, o macarrão é conhecido por dois nomes distintos, dependendo do ingrediente principal que o compõe. Quanto é feito de trigo, é chamado de “mián”. O de farinha de arroz e demais produtos (como um tipo de feijão verde) é conhecido como “fen”.
Há inúmeros restaurantes em Pequim nos quais os cozinheiros fazem a massa e abrem o macarrão com as mãos, com uma habilidade impressionante. Na semana passada eu estive em um lugar nos quais os cozinheiros preparam a massa diante dos fregueses e dão pequenos “shows” com suas habilidades culinárias.
Aí vão as fotos:
Sequência mostra o cozinheiro dobrando a massa sucessivas vezes e, finalmente, abrindo o macarrão com os dedos
Nas duas fotos seguintes, o cozinheiro joga de longe um imenso fio de macarrão na panela que está à direita (a massa é de espinafre e por isso é verde); o resultado aparece na foto seguinte, na qual toda a tigela é ocupada por um único fio de macarrão. Como ocorre com vários pratos na China, ele também tem um significado: se for comido no dia do aniversário, a pessoa não pode cortar nem quebrar o fio de macarrão, para que sua vida também não tenha “quebras” e seja completa, do início ao fim
O incêndio que destruiu um prédio de 30 andares da futura sede da rede de TV estatal chinesa CCTV pode ser lido como um emblema da distância em que a China ainda se encontra de algo parecido ao “império da lei”. Se a investigação concluída em tempo recorde pelas autoridades de Pequim estiver correta, o incêndio foi provocado por um show ilegal de fogos de artifício contrato pela administração da própria estatal para marcar o último dia de celebrações do Ano Novo chinês. De acordo com o chefe do Escritório de Controle de Incêndios de Pequim, Luo Yuan, os representantes da CCTV foram alertados pela polícia de que o tipo de fogos que seriam utilizados no show não são permitidos no perímetro urbano, por terem potencial explosivo maior que os demais. Ainda assim, os fogos foram utilizados e a polícia não fez nada para impedir o show pirotécnico.
Este é apenas um dos inúmeros exemplos de poderosos que se esquivam do cumprimento da lei, em um país que não tem Judiciário nem Ministério Público independentes e no qual a imprensa é controlada pelo Estado. Nessas condições, é difícil imaginar como os dirigentes do Partido Comunista vão realizar seu projeto de implantar um modelo de governo que seja regido pelo “império da lei”, que estaria acima de todos, incluindo os mais graduados chefes comunistas.
O incêndio também mostrou a popularidade da internet entre os jovens urbanos e seu poder de disseminar informações sonegadas pela imprensa censurada. Sites de notícias demoraram quase duas horas para registrar o incêndio, mas milhões de pessoas já haviam recebido a informação por fotos e comentários colocados na rede pelas pessoas que assistiam ao incêndio e fotografavam tudo com seus telefones celulares.
Para os que tiverem interesse em saber mais sobre a vida na China, sugiro a leitura de dois blogs escritos por jornalistas brasileiras que também moram em Pequim: www.janajan.blogspot.com e www.comendodepalitinho.blogspot.com
Aí vão algumas fotos do incêndio e do dia seguinte:
O auge do incêndio, com explosões de vidros e um verdadeiro show pirotécnico
À direita da foto está a torre que será a sede da CCTV, com seu desenho futurista
O prédio visto de outro ângulo, quando o fogo começou a ceder; abaixo à esquerda estão alguns carros de bombeiros; acima, a lua cheia que deve ter sido a maior do ano
Chineses assistem ao incêndio
O público de outro ângulo, com o fogo quase sob controle
O dia seguinte
A guerra contra o Japão é a mais dolorida memória dos chineses do longo período em que seu país foi ocupado e colonizado por potências estrangeiras, a partir de meados do século 19. A lembrança do confronto com o país vizinho e das atrocidades cometidas pelos soldados invasores é mantida acessa em um enorme museu a 16 km do centro de Pequim, o maior do gênero em toda a China. Chamado de Museu da Guerra e da Resistência do Povo Chinês contra os Agressores Japoneses, o local é um centro de “educação patriótica”, visitado por milhares de chineses, incluindo inúmeras crianças em idade escolar.
O museu fica próximo à ponte Marco Polo, em Wanping, uma cidade cercada por uma muralha da dinastia Ming (1368-1644). Construída em 1189, a ponte foi o local da batalha que marcou o início da Segunda Guerra Sino-Japonesa, em 1937 _a primeira ocorreu em 1894 e 1895 e foi vencida pelo Japão. Antes de o confronto começar, as forças de Tóquio já haviam ocupado a maior parte da Manchúria, no nordeste da China, e dominavam a ilha de Taiwan.
Várias outras potências ocidentais, como Inglaterra, Alemanha e França, estabeleceram sistemas coloniais em determinadas regiões da China, nas quais valiam suas próprias leis. Mas a invasão japonesa é que deixou a mais profunda cicatriz na alma dos chineses, em razão das atrocidades que foram cometidas na guerra. O principal símbolo da animosidade entre os dois países é “O Estupro de Nanquim”, que se refere à chegada das tropas japonesas à então capital da China, no dia 13 de dezembro de 1937.
Pelo menos 200 mil chineses foram mortos nas seis semanas seguintes à invasão da capital, muitos dos quais civis indefesos. As autoridades de Pequim sustentam que o número de vítimas fatais chegou a 300 mil. Cerca de 20 mil mulheres foram estupradas e mortas, entre elas crianças com menos de 10 anos de idade. Grupos de centenas de chineses eram reunidos e metralhados pelas tropas invasoras. Vários outros foram decapitados com espadas em “competições” realizadas por oficiais japoneses
A guerra continuou pelos próximos anos e só chegou ao fim com a derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial, em 1945. A memória desses fatos alimenta inúmeros grupos que até hoje boicotam produtos japoneses e é fonte de um profundo rancor, que continua vivo mesmo entre os mais jovens.
A seguir, algumas das fotos expostas no museu. Alerto que muitas delas são chocantes.
Criança chinesa é apresentada a alguns dos heróis da resistência contra os japoneses. No alto, à esquerda, está Mao Tsé-tung
Imagens das vítimas da guerra
Prisioneiros de guerra mantidos pelos japoneses em estado famélico
O atual número da revista norte-americana Foreign Affairs traz 10 páginas de anúncio sobre o Brasil nos quais o princípio constitucional que veta a aparição de autoridades em publicidade oficial foi totalmente esquecido. Financiado pelo BNDES, Petrobras, Embratur e um grupo de entidades e empresas privadas, a propaganda traz fotos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Henrique Meirelles, mas tem como estrela a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, apresentada como provável candidata às eleições presidenciais de 2010.
O texto lembra que Dilma também é presidente do Conselho de Administração da Petrobras e cita frases da ministra sobre o programa de biocombustíveis do governo Lula. O titular da pasta de Minas e Energia, Edson Lobão, é a única outra autoridade federal a aparecer no anúncio, que fala de maneira extremamente elogiosa do ex-presidente tucano, Fernando Henrique Cardoso.
“Os bancos brasileiros são sólidos e lucrativos graças à estabilidade criada pelo antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso. De maio de 1993 a abril de 1994, FHC (como ele é conhecido) foi ministro da Fazenda do Brasil e introduziu o Plano Real para acabar com a hiperinflação. Embalado pelo sucesso de seu plano, ele foi eleito presidente em 1994 e reeleito quatro anos mais tarde. Cardoso foi sucedido em 2003 por Lula, que também foi reeleito; o mandato atual de Lula vai terminar em 2011″, diz a propaganda, apresentada em formato de reportagens sobre distintos temas com o título “Brazil, um gigante acorda”.
Meirelles participa com a defesa das políticas fiscal e monetária “conservadoras” que, segundo ele, deram ao país recursos para enfrentar a atual crise econômica. Mas nas dez páginas, o caso mais gritante do desrespeito à regra que proíbe promoção pessoal por meio de publicidade oficial é o anúncio da Embratur. Em uma página, a peça traz uma foto da presidente da estatal, Jeanine Pires, e um texto em forma de entrevista, que tem como última pergunta a seguinte pérola: “Que legado você gostaria de deixar para o turismo brasileiro?”.
A Constituição de 1988 instituiu o princípio da impessoalidade na administração pública e é claríssima em relação aos limites da propaganda feita com dinheiro do contribuinte. Seu artigo 37, parágrafo 1º, diz o seguinte:
A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos.
Será que o princípio não vale para propaganda em inglês?
Aí vão as reproduções de algumas das páginas do anúncio:


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