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Cláudia Trevisan

31.julho.2008 02:30:55

A proeza chinesa

Os chineses cumpriram o cronograma, e a rua que parecia longe de terminada foi inaugurada ontem, dia 30, como prometido. No post anterior, eu coloquei a foto da mais antiga via comercial de Pequim, a Dashilan, que estava em processo de restauração para os Jogos Olímpicos. Tirada no dia 20 de julho, a imagem mostrava a rua ocupada por entulho e ladeada por prédios com fachadas inacabadas.
Com um exército de mão-de-obra barata, a China consegue realizar suas construção em um ritmo três vezes mais veloz que a média dos países ocidentais. Abaixo estão as fotos do antes e depois de Dashilan, separadas por uma distância de dez dias.

Dashilan no dia 30 de julho
nova dashilan

Dashilan no dia 20 de julho
dashilan velha

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dashilan

É difícil acreditar que isso seja possível, mas a rua acima, fotografada ontem, terá de estar impecável dentro de dez dias, a tempo de receber os primeiros turistas que chegarão a Pequim para a Olimpíada. Mais antiga via comercial da cidade, com cerca de 600 anos de existência, Dashilan é objeto de um dos mais polêmicos projetos de restauração realizados pelo governo chinês, que levantou debates acalorados sobre a maneira adequada de preservar o passado.

Muitos dos edifícios foram reconstruídos, supostamente para recuperar a aparência que tinham quando eram novos. Os que já estão prontos exibem cores vivas e parecem tão perfeitos que poderiam estar em uma obra de hiper-realismo. Dashilan tem a mais antiga loja de seda, a mais antiga farmácia de medicina tradicional chinesa e mais antiga sapataria de Pequim, onde os sapatos ainda são costurados à mão. Todas elas foram fechadas temporariamente para o trabalho de renovação.

A rua fica em uma região chamada Qianmen, que na época do império estava fora da muralha que cercava Pequim, ao sul da Cidade Proibida. O bairro era o local onde os viajantes se hospedavam e reunia os teatros, grupos de acrobacia, restaurantes e bordéis. À noite, muitos dos mandarins do império escapavam pelo portão Qianmen para freqüentar os bordéis da região.
No século passado, Qianmen, como quase todos os bairros de Pequim, empobreceu e viveu um processo de degradação. As casas foram transformadas em cortiços, camelôs tomaram conta das ruas e os edifícios ficaram sem manutenção.

Há dois anos, o governo anunciou um plano de restauração da área, que incluiu a destruição de muitas das casas antigas e a recuperação dos edifícios de valor históricos relevante. Para seus críticos, o projeto criará uma espécie de Disneylândia ou parque temático onde os turistas terão uma mostra totalmente artificial de como era a vida na velha Pequim. Os defensores afirmam que a região estava degradada e que os elementos de valor históricos serão preservados.

Na sexta-feira, fui a uma palestra de dois arquitetos italianos e a questão da preservação do passado foi discutida. Na opinião de ambos, os chineses têm uma concepção diferente da ocidental, que privilegia a manutenção dos monumentos históricos em sua condição original, como as ruínas romanas e gregas. Para os chineses, preservar é reconstruir os edifícios como eles eram originalmente, da maneira mais perfeita possível.

Para minha surpresa, os arquitetos não tinham uma visão totalmente negativa do modelo chinês. Para eles, a opção Ocidental está longe do ideal e a cidade onde vivem, Roma, estaria “congelada” pela obsessão de preservar o passado. O melhor caminho, disseram, é um meio-termo entre os dois extremos.

Alguns dos prédios já restaurados:
prédio pronto

prédio pronto

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16.julho.2008 06:45:15

INTERNATIONAL?!?!?!?!

Se o inglês dos funcionários do International Media Center for uma mostra do que vai imperar durante a Olimpíada…Houston, we have a problem! Falei com seis pessoas diferentes hoje e apenas uma tinha um inglês fluente. Infelizmente, ele me deu apenas o seu nome inglês, Boris, e quando liguei de novo a pessoa que atendeu o telefone não tinha a menor idéia de quem se tratava _obviamente, ela o conhece por seu nome chinês, que deve ser algo como Wang, Li ou Wei. “Boros? Borus?”, perguntava, enquanto eu dizia “Boris, Boris”. “Ah! Talvez você queira falar com o nosso BOSS”, falou, em um inglês capenga. Poderia ser, mas obviamente o boss não estava disponível.

Desisti do Boris e decidi começar tudo de novo, dizendo que gostaria de falar com alguém sobre visto para jornalistas estrangeiros _”visa”, em inglês, provavelmente uma das palavras mais pronunciadas no INTERNATIONAL Media Center. “Visa?!?!”, perguntava meu interlocutor. E eu: “Yes! Visa! Passport!”. Depois do terceiro “Visa?!?!”, desisti e decidi tentar mais tarde.

Finalmente consegui falar com outra pessoa que tinha um inglês razoável e tomei o cuidado de anotar seu nome em chinês. Quando liguei de volta para uma informação banal ela não estava na sala. Como queria apenas o número do fax do INTERNATIONAL Media Center, perguntei para a pessoa que havia atendido o telefone e recebi uma resposta com o mesmo tom de perplexidade da que está no primeiro parágrafo deste texto. “Fax?!?!”. “Yes, fax”, dizia eu, várias vezes, sem talento para repetir meu amigo Gilberto Scofield e começar a imitar o som do sinal de fax para tentar ser entendida. Desisti de novo, para finalmente conseguir o número quase no fim da tarde com a única pessoa com a qual era capaz de me comunicar.

INTERNATIONAL?!?!?!?!

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14.julho.2008 11:52:58

Pequim maquiada

As inúmeras lojas que vendem DVDs piratas em Pequim fecharam as portas e colocaram avisos de que os negócios estão “temporariamente” suspensos, em mais uma medida de maquiagem da cidade para os 500 mil turistas esperados para a Olimpíada. Os jardins estão impecáveis, o número de carros nas ruas será reduzido à metade e as centenas de construções serão interrompidas no período dos Jogos.

O governo pretende limitar o espaço para a diversão e determinou que todos os bares e casas noturnas fechem às duas da manhã durante a Olimpíada. Muitos estrangeiros que vivem na cidade tiveram que voltar a seus países em razão das restrições impostas pela polícia. Os trabalhadores migrantes que construíram todas as instalações para os Jogos também serão obrigados a deixar Pequim.

As autoridades proibiram a venda de carne de cachorro e continuam a campanha pelos “bons modos”, que incluem o respeito às filas e a proibição de que as pessoas escarrem nas ruas.
Não se sabe ainda o que vai acontecer com a meca da pirataria, o Mercado da Seda, localizado na mais importante avenida de Pequim. Fechá-lo pode provocar uma onda de instabilidade social _o maior temor das autoridades_ já que centenas de pessoas dependem dele para sobreviver.
Deixá-lo aberto pode comprometer a intenção do governo chinês de apresentar uma cidade livre de características vistas como comprometedoras, ainda que todo o mundo saiba que elas existiam antes e continuarão a existir depois da Olimpíada.

O grande risco é transformar Pequim em uma cidade morta e plastificada, onde todos estarão apresentando um grande espetáculo chapa-branca.

Não sei se todos aqui lêem o Estadão. Por isso, decidi reproduzir alguns textos da série sobre Pequim que o caderno de Esportes está publicando desde o dia 8. Agradeceria se vocês dissessem se têm interesse em que eu continue a colocar aqui os textos já publicados no jornal. Aí vai o primeiro:

A China que sediará a Olimpíada de 2008 é protagonista da mais espetacular transformação econômica da história, que tirou o país do isolamento e da pobreza de 30 anos atrás e mudou de maneira radical a vida de seu 1,3 bilhão de habitantes. O restante da humanidade assiste assombrada à emergência dessa nova potência, que no curto período entre 2005 e 2008, saiu da sétima para a terceira posição entre os maiores PIBs do mundo, deixando para trás Alemanha, Inglaterra, França e Itália.

A velocidade da mudança é tão grande que não é necessário recorrer à trajetória de pais e avós para relatá-la. A mesma geração viveu em diferentes Chinas ao longo das últimas três décadas, quando foi implementada a política de reforma e abertura.

Quem tem 40 anos hoje nasceu em um país mergulhado no delírio igualitário e violento da Revolução Cultural (1966-1976), passou a infância em um ambiente no qual a comida era racionada e o “terno Mao” dominava o guarda-roupa e chegou à adolescência logo depois de Deng Xiaoping, o idealizador das reformas, proferir a frase “o enriquecer é glorioso” _senha para as mudanças que estavam por vir.

O país onde ter uma bicicleta era o grande sonho de consumo é hoje o segundo maior mercado automobilístico do mundo, com 8 milhões de unidades vendidas no ano passado. Os chineses que viviam de costas para o mundo e combatiam o imperialismo americano se ocidentalizam com uma rapidez estonteante _na maneira de vestir, na crescente liberação sexual, na multiplicação de redes de fast-food, na paixão por grifes estrangeiras e no incipiente consumismo.

A reclusão das primeiras décadas da Revolução Comunista foi substituída pela sedução ao capital estrangeiro e a rápida integração à economia mundial. Deng Xiaoping e seus seguidores abraçaram com fervor a globalização e levaram a China a entrar na OMC (Organização Mundial do Comércio) em 2001. No mesmo ano, o país venceu a disputa para sediar a Olimpíada de 2008, concebida para coroar sua ascensão no cenário mundial.

Desde 1978, a China cresce a uma média de 9,6% ao ano, feito que nenhum outro país exibiu por tanto tempo. Neste ritmo, o tamanho da economia dobra a cada oito anos. A rápida expansão resgatou 400 milhões de pessoas da pobreza absoluta, segundo estimativa do Banco Mundial, no mais bem-sucedido programa de combate à pobreza da história.

Mas o Partido Comunista que perseguiu o sonho da igualdade sob Mao Tsé-tung (1893-1967) hoje governa um país no qual a distância entre ricos e pobres cresce de maneira alarmante. A meteórica ascensão é acompanhada do aumento das tensões e dos contrastes internos, na medida em que a prosperidade beneficia mais os moradores das prósperas cidades do leste do que os 56% da população chinesa que ainda vive na zona rural.

Enquanto Pequim e Xangai exibem uma legião de bilionários, milhões de camponeses ainda trabalhavam a terra com o mesmo arado de madeira puxado por búfalos utilizado há séculos no país.

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