A visita a qualquer banca de jornal da China revela que a parcela da população com uma conta bancária ligeiramente superavitária quer aprender a ser “cool”, ter estilo e estar na moda. O que mais vende no país são as revista que dão às mulheres _e aos homens_ uma bússola para se mover em um universo no qual a aparência e os símbolos de status têm influência crescente nas relações sociais. Em razão da estrita censura do governo, revistas semanais como “Veja” e “Época” não têm sucesso na China. Há uma ou outra que resumem as notícias da semana, mas o conteúdo político é totalmente oficialesco. As revistas que se dedicam à economia, finanças e a números supostamente desprovidos de conotação política têm tiragem e respeitabilidade maior.
Mas o que tem apelo mesmo é o mundo da moda e das celebridades. A brasileira Gisele Bündchen está na capa da “Vogue” chinesa de julho, vendida por 20 yuans, o equivalente a R$ 5. Madonna estampa a “Elle”, enquanto o ator Tony Leung, do filme “Lust Caution”, divide a capa da “Marie Claire” com a modelo taiwanesa Lin Zhi Ling. O vendedor da banca em frente à minha casa disse que vende entre 20 a 30 exemplares de “Vogue” por mês e apenas cerca de 5 ou 6 da “Oriental Outlook”, uma das revistas semanais. Em outra banca, a vendedora informou que vende cerca de 60 números de “Vogue” a cada mês e entre 30 e 40 de “Caijing”, a principal revista financeira do país.
As chinesas também compram a “Cosmopolitan” _nome internacional de “Nova”_, que tem a mesma linha que a versão brasileira, centrada em sexo, carreira e táticas para agarrar o homem ideal. O primeiro item do índice da edição de julho era “estrelam falam de luxúria e moda”.
A busca de estilo não está restrita às mulheres e há várias revistas destinadas aos homens. Entre elas, a versão chinesa da “Bazaar Man´s Style”. Na capa de julho, está Li Ning, o ex-atleta que enriqueceu depois de criar sua própria grife de materiais esportivos. Nas 218 páginas da revista, uma profusão de anúncios de marcas de luxo e reportagens sobre carros, Olimpíada, esportes, estilo, moda, consumo e decoração. Os homens chineses não podem comprar revistas pornográficas, vetadas pela censura, mas têm à disposição títulos que trazem mulheres em fotos sensuais, mostradas normalmente em ensaios de moda e consumo, como a “For Him Magazine”. A China é o único país do mundo em que os homens consomem mais produtos de luxo que as mulheres (para mais detalhes, leiam minha reportagem publicada hoje no caderno de Economia do Estadão).
Outro sucesso de vendas são as revistas de fofocas. Como em qualquer lugar do mundo, os chineses também querem conhecer os detalhes da vida de seus ricos e famosos. As revistas falam sobre casamentos feitos e desfeitos, flertes, traições, triângulos amorosos e sexo. Os personagens são as novas celebridades da China e das vizinhas Hong Kong e Taiwan, de onde vêm muitos dos artistas que fazem sucesso no país.
Aí vão algumas fotos das revistas chinesas:
Detalhe de banca de revista em Pequim

Detalhe de banca de revista em Pequim

Capas de algumas edições de julho de revistas de moda

Duas das revistas masculinas

Comprar DVDs piratas está entre as diversões inescapáveis dos habitantes de Pequim. A cidade está cheia de lojas que parecem as vídeolocadoras do Brasil, mas ao invés de alugar, elas vendem os filmes. Os preços variam de R$ 2,50 a R$ 4,00, dependendo do lugar e da qualidade da cópia. Depois de jantar ontem, fui a uma loja de DVDs piratas em Sanlitun, um dos bairros boêmios de Pequim. Era quase meia-noite, o lugar estava cheio e a vendedora me disse que ele só fecharia às 5h.
No fundo da loja, no meio do corredor no qual os clientes passavam, a linha de montagem trabalhava a pleno vapor: um rapaz colocava o DVD em uma caixa preta e o passava a uma moça, que empurrava a embalagem dentro do invólucro que identificava o filme e dava ao produto uma aparência de autêntico _havia uma pilha de DVDs,caixas e embalagens entre eles. Em seguida, uma outra garota embrulhava a caixa em um plástico, que era selado com a ajuda de um ferro de passar roupa que estava à sua frente.
O resultado que vai parar nas prateleiras parece perfeito, ainda que todo mundo saiba que as cópias à venda são piratas. Ontem, comprei “Piaf” (ou “La Vie em Rose”) pelo equivalente a R$ 2,50, o que não paga nem a pipoca de um cinema no Brasil. A caixa com 44 filmes de Wood Allen custa um pouco mais que R$ 100. Ao lado dela, são vendidas as obras completas de Kubrick, Fellini, Hitchcock, Almodovar etc., por preços irrisórios.
As casas de DVDs piratas escapam à censura do governo chinês e vendem uma infinidade de filmes que não serão mostrados nos cinemas ou nas telas de TV do país. O mais novo hit é “Sex and the City”, para o qual muitas lojas fazem listas de espera entre seus clientes, em razão da grande demanda e a escassa oferta. Por incrível que pareça, o filme está proibido na China em razão do seu conteúdo demasiadamente sexual. “Lust, Caution”, de Ang Lee, também pode ser encontrado em qualquer loja de DVD, apesar de ter sido cortado e finalmente banido dos cinemas chineses.
Todos os seriados de TV norte-americanos de relativo sucesso podem ser comprados na China por um preço ridículo, apesar do fato de que quase nenhum deles tem autorização para ser mostrado na TV dentro do país. Nem mesmo o inofensivo “Friends” ganhou o aval da censura chinesa. Imagine “Nip, tuck” ou mesmo “Sex and the City”!
Claro que o baixo custo tem seu preço e muitos filmes vêm com problemas como legendas que não têm nenhuma relação com o que se passa na tela _o que significa que pertencem a outro filme_ ou legendas que correspondem ao que se vê na tela, mas contêm tantos erros de ortografia que acabam se transformando na atração da noite. Também há surpresas bizarras na apresentação dos produtos, como um DVD de “Sex and the City” que traz estampada a fotografia de quatro mulheres que NÃO são as atrizes da série.
Antes que eu seja acusada de apologia do crime, gostaria de dizer que a pirataria é absolutamente institucionalizada na China, com lojas instaladas em alguns dos melhores pontos comerciais da cidade. E ela está longe de se limitar aos DVDs. Mas isso é tema para outro blog…
Se você é daqueles que acham que os chineses são todos iguais, aviso que não apenas não são, como têm dentro de seu território 55 grupos que o governo chama de “minorias étnicas”, cada um com seus próprios costumes, língua e religião. Do 1,3 bilhão de chineses, 91,6% pertencem à etnia majoritária, chamada de “han”. Os outros 8,4% integram outras etnias, que representam um universo de 110 milhões de pessoas, mais que a população de muitos países.
Parte dessa diversidade étnica é uma herança do passado imperial da China, que levou à anexação de territórios pelas sucessivas dinastias, principalmente na região oeste. A província muçulmana de Xinjiang, no extremo oeste, é a maior da China e passou a fazer parte do território do país na última das dinastias imperiais, a Qing, que durou de 1644 a 1911. Os integrantes da etnia uighur, que representam 45% da população local, não se parecem em nada com os chineses han e têm mais identidade cultural com os habitantes da Ásia Central. Xinjiang é sede de um movimento separatista que defende a criação do Estado do Turcomenistão do Leste, acusado pelo governo chinês de promover uma série de atentados terroristas.
No Tibete, que fica ao sul de Xinjiang, cerca de 90% da população é formada por tibetanos, a maioria dos quais não fala o mandarim dos chineses han. A diferença entre as duas etnias é gritante em tudo _língua, religião, arquitetura, atividade econômica e organização familiar.
Na província de Yunnan, ainda mais ao sul, há 25 diferentes grupos étnicos, o maior número em toda a China. Entre eles, um dos mais interessantes são os Naxi, que possuem uma organização social matriarcal. As mulheres são responsáveis pelos negócios e o trabalho, enquanto os homens se dedicam à música e à poesia. Quando os Naxi recebem visitas em casa, cabe ao homem entretê-los com suas habilidades artísticas.
Nada menos que 60% do território chinês é dominado pelas minorias étnicas, que estão em regiões de fronteira, no norte, sul e oeste, e em áreas montanhosas de difícil acesso. As províncias habitadas majoritariamente por povos que não pertencem à etnia han são chamada de “regiões autônomas” pelo governo de Pequim.
Há cinco regiões que se enquadram nessa categoria: Xinjiang, Tibete, Mongólia Interior, Guangxi e Ningxia. As três primeiras são as maiores províncias do país. Muitas dessas regiões são ricas em recursos naturais, o que explica em parte a obsessão das autoridades de Pequim em manter a unidade nacional a qualquer custo.
Mulheres da etnia Yao, de Guangxi, que não cortam o cabelo
Campos de arroz cultivados pela etnia Yao em Guangxi
Casal Naxi em Yunnan
Grupo de músicos em Yunnan
Mulheres Naxi em Yunnan
Tibetanas saem de templo em Xigazhe

Escorpiões e bichos da seda não fazem mesmo parte do cardápio diário dos chineses. Para muitos, eles parecem tão esquisitos quanto para nós, como observou Renato em seu comentário no post anterior. Mas o exotismo é parte integrante da gastronomia local e quem criou o ditado segundo o qual eles comem de tudo foram os próprios chineses.
A base da dieta é constituída de arroz, legumes, massas e carne de porco, mas coisas como ninhos de pássaros e barbatanas de tubarão são consideradas iguarias e é possível encontrá-las em vários restaurantes e farmácias de medicina tradicional chinesa. Patas de urso estavam entre os pratos mais sofisticados na época imperial (que acabou há menos de um século). Apesar de sua venda ser proibida atualmente, há traficantes que as oferecerem pelo preço de US$ 1 mil cada uma para os novos-ricos chineses. Cérebro de macaco é outra das iguarias imperiais e ainda é servido em algumas regiões da China.
Cachorros são consumidos no sul, a região campeã em esquisitices, e estima-se que 10 milhões são mortos a cada ano só para atender a demanda chinesa. Eu vi um cachorro inteiro sendo assado em um espeto na cidade de Lijiang, na província de Yunnan, no sudoeste chinês. Fiquei tão perturbada que não consegui fotografar a cena.
A vão outras imagens:
Chineses comem em rua do centro de Pequim
Chinês vende espetinhos em feira de comida
Da esquerda para a direita: escorpiões, gafanhotos, objeto não identificado, bichos da seda, objeto não identificado e cavalos marinhos
Cachorros no “corredor da morte” em Lijiang
Barraca de comida em Lijiang
Sábado à noite eu fui jantar em um dos mais sedutores bairros de Pequim, chamado Ho Hai, e
fiquei assombrada com a transformação do lugar desde a última vez que o havia visitado, há três anos. Com casas antigas espalhadas ao redor de dois grandes lagos, Ho Hai já era um dos principais endereços de bares e restaurantes da capital, mas a multidão que tomou conta de suas ruas acabou com qualquer vestígio de placidez oriental que existia até pouco tempo. Os restaurantes estavam absolutamente lotados, com esperas que giravam em torno de uma hora, e o número de pessoas tornava a caminhada uma empreitada comparável a um congestionamento no horário do rush.
A explosão da vida noturna e a popularização do hábito de comer fora são sinais do enriquecimento chinês e da mudança de comportamento que ele provoca. Pessoas que visitavam Pequim há cerca de 20 anos, viam uma cidade sem carros e luzes à noite, na qual a única opção viável para comer eram os restaurantes dos hotéis.
Para os chineses, o lazer era limitado pela falta de oferta e pelo pouco dinheiro para desfrutá-la. O primeiro restaurante privado da capital, chamado Yuebin, foi aberto em 1980, mas o boom do lazer aconteceu na década atual. Hoje há casas especializadas nas cozinhas de todas as regiões da China e de várias partes do mundo, incluindo o Brasil. Os preços variam de menos de 10 reais a mais de 500 reais e há bolsos para todos eles.
A culinária é um elemento central na cultura chinesa e comer é comparado a uma arte. Até pouco tempo, quando dois chineses se encontravam eles não se saudavam com um “oi, tudo bem?”, mas com “chi le ma?”, que quer dizer “você já comeu?” Os restaurantes lotados de sábado reuniam grupos de pessoas ao redor de mesas fartas, cada uma com vários pratos que invariavelmente iriam sobrar e seriam embrulhados para viagem. Comer na China é uma celebração coletiva e não existe o conceito de prato individual dos restaurantes ocidentais. O grupo pede vários pratos e todos comem o que vêm à mesa. Também não há tabus nem divisões entre carnes. A mesma refeição pode ter porco, peixe, frango, carneiro e crustáceos, por exemplo. Quanto aos tabus, meus vizinhos de mesa no jantar de sábado se deliciavam com pequenas taturanas fritas, uma das iguarias de Yunnan, província do sudoeste da China na qual o restaurante era especializado.
Barracas que servem comida na rua também são extremamente populares e reúnem longas filas no horário de almoço. Algumas só abrem à noite e estão entre as principais opções de lazer dos moradores de Pequim. São essas barracas que vendem escorpiões e bichos da seda fritos, ao lado de cavalos marinhos e estrelas do mar, que ajudam a comprovar o popular ditado segundo o qual os chineses comem tudo o que voa e não é avião, tudo o que anda e não é carro e tudo o que se move na água e não é navio.
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