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20 janeiro de 2012

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A fábrica de bilionários

por Cláudia Trevisan

Seção: Economia

Sem categoria

15.março.2010 12:48:29

O socialismo com características chinesas continua a produzir bilionários em escala industrial. O número de endinheirados do país com patrimônio superior a US$ 1 bilhão que aparecem na última lista da Forbes mais que dobrou neste ano. Agora, a terra de Mao Tsé-tung tem 64 representantes no ranking, o segundo maior grupo do mundo, atrás apenas dos norte-americanos. Em 2008, havia 28 na lista da Forbes.

 O primeiro colocado da China ocupa a 103ª posição entre as 500 pessoas mais ricas do mundo elencadas na revista. Ele é Zong Qinghou, fundador da empresa de bebidas Wahaha, e possui um patrimônio de US$ 7 bilhões. Como quase todos os bilionários chineses, Zong tem um passado de pobreza e uma fortuna construída a partir do zero. O homem mais rico da China recebeu pouca educação formal, trabalhou no campo e começou seu negócio com um empréstimo de US$ 20 mil. Como muitos outros, Zong é filiado ao Partido Comunista e é delegado do Congresso Nacional do Povo desde 2002.

 Os ricos chineses são autênticos novos-ricos, já que não se valeram do dinheiro de suas famílias para construírem seus negócios. A própria existência de bilionários é algo absolutamente recente no país _os primeiros apareceram só em 2004 e eram apenas três. A partir daí, o grupo se expandiu com rapidez superior ao alucinante ritmo de crescimento da economia chinesa.

 O segundo lugar entre os chineses na lista da Forbes é ocupado por Liu Yongxing (154ª posição no ranking global), dono da empresa de alimentos East Hope Group e detentor de um patrimônio de US$ 5 bilhões. A exemplo de quase todos os chineses da lista, Liu é definido pela Forbes como um “self made” bilionário.

Em seguida aparece Zhang Jindong, que aos 47 anos tem uma fortuna de US$ 4,5 bilhões construída com uma rede de lojas para a venda de eletrônicos.  A quarta posição é de Wang Chuangfu, de 44 anos, dono da montadora de carros elétricos BYD. Wang tem um patrimônio de US$ 4,4 bilhões segundo a Forbes e apareceu em primeiro lugar em outro popular ranking de ricos chineses, o Hurun Report, divulgado em outubro de 2009.

 A lista da Forbes pode ser vista  aqui e da Hurun, aqui.

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Chi le ma?

por Cláudia Trevisan

Seção: Chinesisses

12.março.2010 07:01:07

Comer é uma das coisas mais importantes da cultura chinesa. Até pouco tempo, as pessoas se cumprimentavam com a expressão “chi le ma?”, que significa “você já comeu?”, em vez do atual “ni hao”, algo como “tudo bem?”. Chefes de cozinha são extremamente respeitados e os bons restaurantes vivem lotados. Na semana passada fui com amigos a um enorme, especializado em comida de Sichuan, e tivemos que esperar uns 40 minutos por uma mesa. Isso apesar de chegarmos mais tarde que o horário no qual as pessoas costumam jantar por aqui (a partir das 18h ou 18h30).

Mas os chineses também adoram comer na rua e os mercados de comida estão entre as principais atrações das cidades. Pequim é cheia de minúsculas portas, muitas com uma só mesa na calçada, que vendem comida no local ou para levar. Sei que estou ficando repetitiva, com o terceiro post sobre o tema comida em pouco tempo, mas o assunto é inesgotável…Prometo mudar no próximo post.  

Aí vão algumas imagens da gastronomia de rua da China:

Espetinhos em rua de Pequim

Espetinhos em rua de Pequim – CláudiaTrevisan/AE

 

Banca de comida - Cláudia Trevisan / AE

Banca de comida – Cláudia Trevisan / AE

 

Comida ao ar livre - Cláudia Trevisan/AE

Comida ao ar livre – Cláudia Trevisan/AE

 

"Vitrine" em Suzhou - Cláudia Trevisan/AE

"Vitrine" em Suzhou – Cláudia Trevisan/AE

 

Espetinhos em Pequim - Cláudia Trevisan/AE

Espetinhos em Pequim – Cláudia Trevisan/AE

 

"Janela" de venda de massas em Pequim - Cláudia Trevisan/AE

"Janela" de venda de massas em Pequim – Cláudia Trevisan/AE

 

Restaurante muçulmano em Suzhou - Cláudia Trevisan/AE

Restaurante muçulmano em Suzhou – Cláudia Trevisan/AE

 

Sem palavras - Cláudia Trevisan/AE

Sem palavras – Cláudia Trevisan/AE

 

Cozinheiros descansam no distrito artístico 798

Cozinheiros descansam no distrito artístico 798 – Cláudia Trevisan

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Cats and dogs

por Cláudia Trevisan

Seção: Sem categoria

10.março.2010 11:27:38

A CNN transmitiu hoje reportagem sobre mercados de venda de carne de carrocho e gato em Guangdong, a província do sul da China que come tudo o que anda, nada e voa. O vídeo também mostra os restaurantes onde pratos com cachorros e gatos são servidos e apresenta as discussões em torno da proposta de proibir o consumo desse tipo de carne. Quem se interessar, pode ver a reportagem  aqui.

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A bailarina que era soldado

por Cláudia Trevisan

Seção: Sem categoria

08.março.2010 08:30:42

Considerada a maior coreógrafa e dançarina moderna da China, Jin Xing nasceu homem e começou seu treinamento de ballet na trupe do Exército de Libertação Popular, no qual ascendeu até a patente de coronel.

A identidade feminina chegou em 1995, quando a artista realizou a primeira cirurgia de mudança de sexo autorizada pelo governo chinês. Apesar da transformação, Jin Xing manteve o mesmo nome, que significa “Estrela Dourada”.

Com 42 anos, casada e mãe de três filhos adotivos, ela celebra neste ano uma década de sua companhia de dança, a “Shanghai Jin Xing Dance Theatre”, a primeira de caráter privado a ser estabelecida na China comunista. No mês passado, o grupo se apresentou pela primeira vez no Teatro Nacional de Pequim, a imponente construção em forma oval concebida pelo Partido Comunista como o principal centro de apresentação de obras de teatro, ópera, dança e música do país.

Jin Xing tinha 9 anos quando foi selecionado pelo governo para integrar o grupo de dança do Exército de Libertação Popular. Naquela época, já tinha o desejo que definiria sua vida: ser mulher e atuar em um palco. Além de dançarina, coreógrafa e empresária, ela canta, faz filmes e participa de programas de TV.

A cirurgia de mudança de sexo deu a identidade de gênero que ela buscava e ampliou sua liberdade de movimentos como dançarina. “Quando eu era homem e dançava com muita sensibilidade as pessoas pensavam que havia alguma coisa errada. Como mulher, eu posso ter os dois lados. Eu mantenho a força do dançarino masculino e continuo a desenvolver minha sensibilidade como mulher. Essa combinação é que faz Jin Xing única”, disse em entrevista ao Estadão em seu camarim no Teatro Nacional.

O treinamento militar deu disciplina, rigor técnico e capacidade de liderança que ela considera fundamentais para dirigir sua companhia e desenvolver sua carreira. 

“Nós anos 70 nós éramos educados de acordo com os princípios do ballet russo e também recebíamos treinamento em dança chinesa, acrobacia e kung-fu. Esse treinamento físico é o melhor que eu poderia ter. E como eu também era um oficial, recebia ainda treinamento militar”.

O primeiro contato de Jin Xing com a dança moderna ocorreu em 1987, quando ela ainda era “ele” e foi selecionado para estudar em Nova Iorque, dentro de um programa de cooperação cultural entre a China e os Estados Unidos. “Eu não tinha a menor ideia do que era dança moderna e fui a primeira pessoa da China a receber educação em dança contemporânea”, lembra. Depois de quatro anos em Nova Iorque, Jin Xing ficou dois anos na Europa, antes de voltar à China.

Determinada a fazer a cirurgia de mudança de sexo, ela se afastou do Exército em 1994 e começou o trabalho de convencimento das autoridades chinesas para obter autorização. Jin Xing queria ser mulher, dançarina e coreógrafa em seu próprio país.

“Eu poderia ter sido uma ótima artista de minoria étnica na Europa. Isso era fácil. Mas minha identidade cultural é profundamente chinesa e eu queria voltar para desenvolver meu trabalho aqui.”

Apesar da decisão, a bailarina acredita ser mais reconhecida no exterior do que em seu país. “Lá for a eu sou a rainha da dança chinesa. Aqui, eu sou a filha adotiva que não é a predileta dos pais”, diz. Ainda assim, Jin Xing ressalta que não está nos seus planos deixar a China novamente. “Talvez que não concorde totalmente com o sistema e o governo, mas eu amo este país e sua cultura.”

Hoje ela acredita que sua influência vai muito além dos palcos. “A existência de Jin Xing e sua companhia na China significam muito para as pessoas jovens, sobre como você se identifica como indivíduo e como persegue sua visão artística, seus sonhos e crenças”, afirma.

Algumas das criações de Jin Xing são bastante experimentais e outras embaralham os limites de dança, teatro e música. Para a apresentação em Pequim, a dançarina escolheu a peça solo “Sob a pele – perto e longe”, na qual despeja reflexões desconexas sobre a vida moderna enquanto dança sobre um tabuleiro de luzes que acendem e apagam.

Há quatro anos, Jin Xing adicionou mais uma persona à sua múltipla existência artística, ao organizar o primeiro festival de dança moderna independente do país, em Xangai, que teve participação da companhia brasileira Qasar na edição de 2006.

“Na China esses eventos normalmente são organizados pelo governo e os responsáveis por eles não têm formação cultural e não sabem identificar uma boa obra. Eles só dizem ‘ok, vamos comprar’. Mas não se organiza um festival de arte dessa maneira.”

Jin Xing é extremamente feminina e gesticula com delicadeza enquanto fala. A artista observa que a cirurgia para mudança de sexo permitiu que finalmente ela tivesse uma identidade na qual se reconhece. O novo papel lhe caiu tão bem que Jin Xing hoje dá conselhos às mulheres chinesas nas entrevistas que concede a revistas de moda e comportamento. “Eu sempre digo que se uma mulher não está preparada para ser mãe, amante e esposa, ela não deve se casar com um homem. Homens são meninos grandes. Você tem que ser sua esposa e, ao mesmo tempo, ser sua mãe e amante. Se você não faz isso, o casamento se torna muito difícil.”

(Este texto  saiu publicado no Carderno 2 do Estadão no dia 24 de fevereiro)

Aí vão duas fotos dela:

Jin Xing em seu camarim, no Teatro  Nacional - Cláudia Trevisan/AE

Jin Xing em seu camarim, no Teatro Nacional – Cláudia Trevisan/AE

Jin Xing no palco - Foto de divulgação

Jin Xing no palco – Foto de divulgação

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Visão noturna – 2

por Cláudia Trevisan

Seção: Sem categoria

07.março.2010 04:17:36

A nova China adora luzes e todas as grandes cidades são marcadas por neons e alguns prédios que possuem toda a fachada iluminada, como o que vejo da minha janela. Suas luzes mudam de cor, piscam e fazem desenhos. Até as chaminés ganham iluminação colorida. Há uma em frente ao meu condomínio, de uma termelétrica.

Aí vão as fotos:

Prédio com a fachada iluminada de vermelho - Cláudia Trevisan/AE

Prédio com a fachada iluminada de vermelho – Cláudia Trevisan/AE

 

 

Com luzes azuis - Cláudia Trevisan/AE

Com luzes azuis – Cláudia Trevisan/AE

 

 

Agora, em roxo. Embaixo à esquerda está o telão da fachado do shopping, que muda de cores e desenhos constantemente - Cláudia Trevisan/AE

Agora, em roxo. Embaixo à esquerda está o telão da fachado do shopping, que muda de cores e desenhos constantemente – Cláudia Trevisan/AE

 

 

A chaminé da termelétrica que fica do outro lado da rua - Cláudia Trevisan/AE

A chaminé da termelétrica do outro lado da rua – Cláudia Trevisan/AE

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Ai, eles ainda estão vivos…

por Cláudia Trevisan

Seção: Chinesisses

03.março.2010 23:57:37

“Ai, eles ainda estão vivos…” Quando minha assistente Wendy deu o alerta, já era tarde. Os camarões haviam sido deixados em nossa mesa, atravessados por palitos de madeira ao longo de todo o corpo. Ainda mexiam as pernas e a cabeça, o que fazia com que alguns literalmente pulassem no prato. O pior é que não podíamos abreviar sua agonia imediatamente. A água onde deveríamos colocá-los ainda não havia começado a ferver. Ficamos alguns minutos assim, tentando não olhar para os camarões, enquanto os garçons deixavam na mesa cogumelos, verduras, tiras de carne, tofu e wanton, a versão local do cappelletti. Era o início de nosso “hot pot”, uma espécie de fondue chinês, no qual ingredientes escolhidos entre uma infinita variedade são jogados em uma panela com água fervente temperada.

Logo que sentamos, o maitre nos informou que os camarões eram oferta da casa. Só não avisou de que a tarefa de matá-los seria terceirizada do cozinheiro para nós. Os chineses gostam de peixes e frutos do mar realmente frescos e muitos restaurantes têm tanques nos quais os animais são mantidos vivos até o momento em que devem ser preparados. Alguns peixes são cozidos tão rapidamente que chegam à mesa ainda abrindo e fechando a boca. Como o “hot pot” é feito pelos clientes, servir os camarões vivos é a melhor maneira de mostrar que eles acabaram de ser retirados do tanque. Depois de uma breve discussão comigo mesma sobre se deveria ou não comê-los, decidi que sim e os coloquei na água assim que ela começou a ferver.

O sabor era ótimo, mas confesso que a experiência foi perturbadora, o que reafirmou minha convicção de que não posso experimentar outro prato célebre chinês: “camarões bêbados”, no qual os animais não são apenas servidos vivos _eles são comidos vivos. Os camarões chegam à mesa mergulhados em uma travessa cheia de “baijiu”, a aguardente chinesa. Os comensais devem pescá-los com seus palitos, arrancar a cabeça do camarão e colocá-los na boca, com as pernas ainda em movimento. Os mais destemidos mastigam o camarão inteiro, com a cabeça e as antenas.

Pela curta narrativa acima já deu para perceber que os chineses têm uma relação totalmente diferente com animais que os ocidentais. Já pensei muito sobre as razões e uma das hipóteses é a onipresença que a vida rural ainda tem na China. Metade da população ainda vive no campo e os que estão na cidade iniciaram sua vida urbana há pouco tempo. Um exemplo: acabei de pegar um vôo para Pequim em Hangzhou, uma das mais ricas cidades da China. Enquanto esperava, os alto-falantes anunciaram que alguém havia esquecido um saco de laranjas na entrada para os portões de embarque e que poderia retirá-lo na segurança. Quem no Brasil viaja de avião com um saco de laranjas? Na China, muita gente. E alguns descascam as laranjas durante o vôo.

Em 1978, quando teve início o processo de abertura, 82% da população vivia em vilas rurais, onde geladeiras ainda eram objeto de luxo. Por fim, os chineses passaram ao longo de sua história por vários períodos de fomes devastadoras, que provocaram a morte de milhões de pessoas. A mais recente delas foi durante o Grande Salto Adiante (1958-1962), a desastrada tentativa de Mao Tsé-tung de industrializar o país em velocidade recorde. A brutal queda na produção agrícola fez com que cerca de 30 milhões de chineses morressem de fome.

Aí vão as fotos dos camarões e do “hot pot”:

Camarões vivos em espetos - Cláudia Trevisan/AE

Camarões vivos em espetos – Cláudia Trevisan/AE

 

Ingredientes do "hot pot" - Cláudia Trevisan/AE

Ingredientes do "hot pot" – Cláudia Trevisan/AE

 

Os camarões cozidos - Cláudia Trevisan/AE

Os camarões cozidos – Cláudia Trevisan/AE

Tanques de peixes e frutos do mar - Cláudia Trevisan/AE

Tanques de peixes e frutos do mar – Cláudia Trevisan/AE

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Minha vida de repórter

por Cláudia Trevisan

Seção: Sem categoria

01.março.2010 11:31:16

Por trás de muitas das reportagens que saem publicadas no Estadão há uma longa jornada em direção à notícia, em uma das quais estou imeresa neste momento. Saí de Pequim no domingo acompanha de minha assistente, Wendy, em direção a Zhejiang, uma das mais prósperas províncias da China, que faz fronteira com Xangai. Nosso vôo deveria decolar às 18h e embarcamos às 17h40. Por causa de uma súbita e inesperada queda de temperatura, permanecemos em solo _e dentro da aeronave_ por quatro horas. A pista do aeroporto congelou e tivemos que esperar que ela fosse limpa. Com o passar das horas, a água que encobria o avião também congelou e vivi pela primeira vez a experiência de escutar o gelo sendo tirado de cima da aeronova por trabalhadores munidos de pás.

Chegamos a Hangzhou, capital de Zhejjiang, por volta da meia noite e ainda tivemos que encarar duas horas de estrada até nosso destino final. Depois de negociar o preço, eu e Wendy embarcamos em um táxi para uma viagem de 150 km, que se revelou o primeiro choque cultural dos últimos dois dias. Todo o trecho foi percorrido em uma autoestrada com asfalto perfeito e bem sinalizada, mas com motoristas que incorporaram a cultura do carro em suas vidas há pouquíssimo tempo. A situação melhorou nos últimos anos, mas o universo motorizado ainda lembra um território sem lei. Muitos caminhões insistem em trafegar pela faixa da esquerda, ainda que não haja nenhum carro à direita. E nosso motorista, como todos os demais, ultrapassava a todos pela direita. Quando um caminhão iniciava a ultrapassagem de outro, ele não tinha dúvida: ia pela direita e fechava o caminhão que estava realizando a ultrapassagem, em uma “costura” que me deixava de cabelo em pé. Em algumas ocasiões, a manobra era abortada no último minuto, diante da ausência de espaço no qual poderíamos entrar.

Para completar, havia o temor de que o motorista dormisse. Afinal, chegamos ao destino apenas às 2h da manhã de segunda. Wendy começou a fazer perguntas, na esperança de deixá-los desperto e recebia como respostas monossilábicos “hum”. Até que ele emitiu um sinal bem mais contundente, um sonoro e explícito bocejo. “Você está com sono?”, perguntou Wenday, recebendo como resposta um inequívoco “sim”.

Depois de muitas ultrapassagens arriscadas e tentativas vãs de comunicação com o motorista, finalmente chegamos ao destino. Hoje (segunda), acordamos cedo para uma jornada de entrevistas e visitas e uma nova queda de temperatura que nos pegou desprevenidas. Exaustas e congelando, não conseguimos encontrar táxis disponíveis para voltar ao hotel no horário do rush _que aqui também é por volta das 18h. Acabamos nos rendendo a um dos milhares de triciclos que existem em toda a China, incluindo em Pequim. O trajeto foi mais demorado e, o preço, mais caro, mas nos divertimos.

Aí vai a foto de Wendy no triciclo:

Cláudia Trevisan/AE

Cláudia Trevisan/AE

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O modelo coreano

por Cláudia Trevisan

Seção: Economia

Sem categoria

25.fevereiro.2010 10:48:03

Na década de 60, a Coreia do Sul era uma das nações mais pobres do mundo, destroçada por uma guerra que destruiu 25% da riqueza nacional e matou 5% da população civil. Hoje, o país tem um PIB per capita quase três vezes superior ao brasileiro (calculado pela paridade do poder de compra) e uma economia impulsionada pela alta tecnologia. Quando estive em Seul, o que mais me impresssionou foi a onipresença de marcas coreanas no quotidiano das pessoas. Nas ruas, a maioria dos carros são Hyundai, Daewoo ou Kia. Os celulares são LG, Samsung, Anycall e Cyon. Nas casas e hoteis, os aparelhos de TV também são Samsung ou LG.

A trajetória coreana atrai a atenção de todos que se debruçam sobre modelos de desenvolvimento bem sucedidos e isso ficou claro nos comentários feitos no post anterior, “O Brasil e o desafio chinês”. Quando citaram algum país além dos Estados Unidos, esse foi a Coreia. E o aspecto mais ressaltado foi o investimento em educação realizado pelo país desde os anos 60. Decidi ler mais sobre o assunto e encontrei um estudo revelador da economista Irma Adelman, da Universidade Berkeley, que analisa o desenvolvimento coreano de 1953 a 1993. No período de 1953 _quando termina a guerra da Coreia_ a 1961, houve pesados investimentos em educação, que reduziram o analfabetismo de 70% para 20%. Entre 1961 e 1966, a quantidade de alunos matriculanos no ensino primário e secundário cresceu 30%, enquanto o número de estudantes universitários dobrou.

De acordo com Adelman, em 1966 a Coreia atingiu a educação primária universal e tinha um índice de pessoas em universidades superior ao da Inglaterra. Conquistada a universalidade na educação primária, o país experimentou na etapa seguinte (1967-1971) o aumento de 28% da quantidade de estudantes no secundário e de 20% nas universidades. A prioridade dada ao ensino primário e secundário teve um efeito igualitário na sociedade coreana, na avaliação de Adelman.

Advinha qual o exemplo contrário que ela cita no estudo? Sim, o Brasil. A estratégia coreana “contrastou com a do Brasil, por exemplo, onde o ensino secundário era restrito à elite e suficiente apenas para alimentar as matrículas nas universidades”. A situação tupiniquim mudou desde que ela escreveu o estudo, mas a educação ainda está muito longe do grau de penetração que tem na sociedade sul-coreana.

O caráter mais igualitário do país asiático também tem origem em condições que antecedem o período de crescimento econômico, entre elas a distribuição equitativa de terras e de ativos logo depois da guerra, ressalta Adelman. Esse é outro aspecto no qual a Coreia se distingue do Brasil, onde a concentração de riqueza é enorme. A estratégia de Seul tem mais um ingrediente de peso, que é o forte papel do Estado no desenho da economia nacional. No período de 1967 a 1971, o crescimento do país passou a ser impulsionado pela exportação, com indústrias intensivas em mão-de-obra e uma desvalorização de 100% da moeda, que deu competitividade aos produtos coreanos no exterior. Em 2009, a Coreia do Sul foi o oitavo maior exportador do mundo, à frente da Inglaterra.

Na etapa seguinte, de 1973 a 981, o Estado definiu seis setores estratégicos, que passaram a receber incentivos para seu desenvolvimento: produção de aço, indústria naval, eletrônicos, máquinas, petroquímico e metais não-ferrosos. A realidade atual da economia sul-coreana reflete em grande parte as escolhas feitas naquela época. O país é o maior fabricante de navios do mundo, o sexto produtor de aço e possui um setor eletrônico que está entre os mais inovadores do planeta.

Antes que me acusem de omissão, é bom lembrar que o “milagre” sul-coreano se deu sob um regime militar autoriátio, instalado por meio de um golpe de Estado em 1961. As eleições diretas só voltaram em 1987 e o primeiro presidente civil foi eleito apenas em 1993. Grande parte das transformações econômicas vividas pelo país nas décadas de 60 e 70 são fruto do caráter nacionalista e desenvolvimentista do general Park Chung-hee (1917-1979), responsável pelo golpe de 1961 e dirigente do país até seu assassinato, em 1979.

Park instaurou a Lei Marcial em 1972 e governou nos anos seguintes de maneira cada vez mais autoritária, com a prisão de centenas de opositores e a repressão a todo o tipo de oposição.

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Visão noturna da minha janela

por Cláudia Trevisan

Seção: Sem categoria

23.fevereiro.2010 12:17:04

Foto: Claudia Trevisan/AE

Foto: Claudia Trevisan/AE

Foto: Claudia Trevisan/AE

Foto: Claudia Trevisan/AE

 

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O Brasil e o desafio chinês

por Cláudia Trevisan

Seção: Sem categoria

21.fevereiro.2010 06:59:14

O Brasil precisa desenvolver uma estratégia de relacionamento com a China, se não quiser se tornar uma neocolonia cujo papel é fornecer as matérias-primas que o país asiático demanda com voracidade crescente. O alerta foi feito em entrevista que realizei com o especialista em China David Shambaugh, da George Washington University, publicada hoje no Estadão.

A China representa de longe o maior desafio para o futuro econômico do Brasil e requer uma estratégia não apenas para a relação bilateral, mas para nossa inserção global. No sábado, o Estadão publicou reportagem do correspondente em Genebra, Jamil Chade, sobre as recomendações de um grupo de economistas liderados por Joseph Stiglitz para os países em desenvolvimento que têm aspiração de um dia se tornarem desenvolvidos. 

O conselho é óbvio: a agricultura e a exploração de recursos naturais não vão provocar essa mudança. É só pensar no tipo de emprego que esses setores oferecem e no perfil de trabalhadores que demandam. A recomendação do grupo é a de que os países em desenvolvimento invistam em tecnologia e busquem espaços nos quais possam competir com a China.

Isso não significa que o Brasil deixará de exportar produtos agrícolas, minério de ferro e petróleo, áreas nas quais é competitivo. Mas o risco é que o sucesso nessas áreas acabe enfraquecendo a indústria nacional e comprometendo esforços no desenvolvimento de outros setores. Afinal, a China foi o principal destino das exportações brasileiras no ano passado. Reclamar por quê? O fato é que 73% dos US$ 20,2 bilhões que o Brasil vendeu aos chineses no ano passado eram representados por três produtos: minério de ferro, soja e petróleo.

O grupo liderado por Stiglitz , prêmio Nobel de Economia, concluiu que o Brasil precisa de mais “Embraers”, empresas nacionais de alta tecnologia capazes de competir globalmente. A questão é como fazer isso. Há uma antiga discussão sobre o tipo de política industrial que o Brasil deveria adotar e que opõe incentivos horizontais, para todos os setores, ou específicos para segmentos escolhidos como prioritários. A crítica à eleição de determinados segmentos é a de que o Estado estará escolhendo os “vencedores” e, no fim, beneficiando determinadas empresas em detrimento de outras.

Apesar das objeções, me parece cada vez mais inescapável a aposta em certos segmentos que o país considera estratégicos. Também é relevante o empenho no desenvolvimento de companhias genuinamente nacionais, que tenham capacidade de competir globalmente.

A China tem uma estratégica clara de inserção global e tem sido extremamente agressiva na defesa das empresas nacionais que o Estado considera “campeãs” _que são as apostas para a projeção econômica global do país. Além disso, Pequim mudou as regras de atração de investimento estrangeiro direto e deixou de conceder incentivos para os destinados à manufatura barata, como roupas, brinquedos e calçados. Desde 2006, o alvo dos incentivos são inventimentos em alta tecnologia. Com isso, a China quer subir na escala de valor agregado.

Na América Latina, um dos poucos países que não exporta commodities para a China é a Costa Rica, que em 1996 conseguiu atrair um investimento de US$ 300 milhões da fabricante de chips Intel _que quase instalou essa fábrica no Brasil. Hoje a Costa Rica vende chips para a China e tem superávit no comércio com o país asiático.

Talvez o Brasil tenha algo a aprender com a própria estratégia chinesa de planejamento de longo prazo, escolhas estratégicas e defesa de seus interesses nacionais.

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