O governo chinês condenou ontem um ativista pró-democracia a 10 anos de prisão sob acusação de “subversão do poder do Estado”, no terceiro caso semelhante em menos de um mês. O cerco de Pequim aos dissidentes se intensificou a partir de fevereiro de 2011, em resposta a tentativas fracassadas de realização de protestos inspirados na Revolução do Jasmim que derrubou ditadores no mundo árabe.
“As autoridades estão usando essas penas severas para mandar uma mensagem aos ativistas de que eles serão punidos se defenderem reformas democráticas”, disse Wang Songliang, do Chinese Human Rights Defenders (CHRD), entidade com sede em Hong Kong.
A decisão de ontem foi proferida pela Corte Popular Intermediária de Wuhan, capital da província central de Hubei, e atingiu o escritor Li Tie. Segundo informações dadas por sua família ao CHRD, as evidências apresentadas no julgamento foram artigos críticos ao governo, a participação em discussões promovidas na internet por sites “reacionários”, comentários “reacionários” em encontros com amigos e a filiação ao Partido Democrático Social da China.
No dia 23 de dezembro, o dissidente Chen Wei foi condenado a 9 anos de prisão sob acusação de “incitamento à subversão” na província de Sichuan, no centro-oeste do país, em razão de quatro artigos em defesa de reformas democráticas que divulgou na internet. Três dias mais tarde, uma corte na província de Guizhou, no sudoeste, sentenciou o ativista Chen Xi a 10 anos de prisão, sob a mesma acusação.
Ambos os Chen _que não têm relação de parentesco_ participaram dos protestos na praça Tiananmen em 1989 e foram signatários da Carta 08, o documento em defesa de reformas democráticas divulgado em dezembro de 2008.
O principal mentor da Carta 08, Liu Xiaobo, venceu o Prêmio Nobel da Paz de 2010 e cumpre desde dezembro de 2009 pena de 11 anos de prisão.
Os três dissidentes condenados nas últimas semanas se declararam inocentes e ressaltaram que a Constituição chinesa garante a liberdade de expressão. “Não é um bom momento para ser um ativista na China”, lamentou Wang, do CHRD.
Na quarta-feira, o escritor chinês Yu Jie afirmou em entrevista coletiva em Washington que foi torturado sob custódia policial no período de entrega do Prêmio Nobel da Paz a seu amigo Liu Xiaobo, em dezembro de 2010.
Autor de “O Melhor Ator da China: Wen Jiabao”, no qual ataca o primeiro-ministro do país, Yu Jie se autoexilou nos Estados Unidos no dia 11 de janeiro, depois de uma longa negociação com as autoridades de Pequim para ter autorização de deixar o país.
É cada vez mais evidente que os anos de crescimento chinês na casa dos dois dígitos são coisa do passado, mas as previsões sobre o futuro da segunda maior economia do mundo nunca foram tão disparatadas. O time dos otimistas é majoritário e avalia que as autoridades de Pequim estão conduzindo o país para um pouso suave, no qual os índices de expansão do PIB cairão para algo em torno de 8% no curto prazo, antes de desacelerar ainda mais no médio e longo prazos. Mas há um grupo cada vez maior de pesos-pesados que veem um cenário sombrio, em grande parte como consequência dos desequilíbrios criados pelos esforços de Pequim para manter sua economia a todo o vapor quando o mundo fraquejava nos últimos três anos.
Os que apostam no final feliz afirmam que os números do PIB de 2011 divulgados hoje mostram que o Partido Comunista conseguiu controlar os preços sem sacrificar o ritmo de expansão. A economia cresceu 8,9% no quatro trimestre, continuando a descida gradual iniciada no primeiro trimestre, quando o indicador foi de 9,7%. A perda de fôlego era desejada pelo governo, que passou o ano de 2011 lutando contra a dupla ameaça de explosão inflacionária e de formação de uma bolha no setor imobiliário.
“Nós não devemos mais ser obcecados com a velocidade do crescimento”, disse ao jornal oficial China Daily Lu Zhongyuan, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Desenvolvimento do Conselho de Estado, o gabinete comandado por Wen Jiabao. Em sua avaliação, o índice de expansão do PIB ficará em torno de 8,5% em 2012.
Para os pessimistas, esse cenário róseo ignora a ameaça de uma série de bombas-relógio que as autoridades terão dificuldades para desativar. A mais delicada delas é a bolha no setor imobiliário, que coloca o governo entre a necessidade de reduzir o preço das residências e escritórios e o risco de paralisar os investimentos no setor que responde por cerca de 20% da economia (se for incluída a produção de aço e cimento destinada à construção).
Os juros sobre depósitos bancários na China estão negativos e a escassa oferta de investimentos rentáveis levou muitas famílias a destinarem sua poupança à compra de apartamentos e casas, na expectativa de que os preços subiriam no futuro. Com o aumento das compras, os preços subiram, o que estimulou mais compras. O problema é que esse ciclo levou a um excesso de investimentos no setor, argumentam os pessimistas, com milhares de imóveis vazios em todo o país. Se os preços começarem a cair rapidamente, as famílias que colocaram sua poupança no setor podem entrar em pânico ao ver seus ativos se desvalorizarem. Se muitos decidirem vender ao mesmo tempo, pode haver um crash no setor, com impacto devastador sobre diversos setores da economia e os exportadores de commodities que alimentam o boom de construção da China, entre os quais o Brasil e seu minério de ferro.
Para agravar a situação, o governo de Pequim não tem agora a mesma munição de 2008, quando lançou um megapacote de estímulo e deu sinal verde para os bancos emprestarem bilhões e bilhões de dólares que se transformaram em investimentos _em metrôs, rodovias, ferrovias, fábricas, apartamentos, pontes e uma infinidades de outros projetos. Muitos deles não eram necessários e não são rentáveis, o que poderá levar ao aumento da quantidade de créditos podres nos bancos, que já consumiram uma bolada para serem saneados na década passada.
O problema é que o mundo depende muito mais do crescimento da China hoje do que em 2008 e se essa turbina também deixar de funcionar…Houston, we have a problem.
Para um brasileiro que vive em Pequim, o caminho mais rápido para Taiwan pode levar quase 24 horas e exige a passagem por duas alfândegas e câmbio em duas moedas diferentes. A ilha é considerada como uma “província rebelde” pela China e, por isso, não possui representação diplomática no continente, o que obriga os que precisam de visto a viajar até Hong Kong.
A ex-colônia britânica voltou a fazer parte da China em 1997, com a condição de que manterá por 50 anos suas instituições, o que inclui o escritório de Taiwan. Para que saia no mesmo dia, o visto deve ser requerido antes das 11h, o que obriga os que vivem em Pequim a viajarem em Hong Kong no dia anterior.
São três horas e meia da capital chinesa até a ex-colônia britânica, mais do que as três horas e 11 minutos do voo direto que liga Pequim a Taipei. Inaugurada em junho de 2008, a rota pôs fim a 59 anos de interrupção do transporte direto entre a República Popular da China e a República da China, mas é inacessível para os cidadãos de países que precisam de visto para Taiwan, como os brasileiros.
O visto deve ser solicitado no Escritório de Representação Econômica e Cultural de Taipei em Hong Kong, o nome politicamente “neutro” do que na prática funciona como um consulado. Essa é a solução encontrada por Taiwan para ter presença em países com os quais não possui relações diplomáticas.
Se for pedido antes das 11h, o visto é concedido depois das 16h do mesmo dia, o que para mim representava uma dificuldade: o meu voo saía de Hong Kong para Taipei às 15h30. As opções noturnas estavam lotadas e a das 17h30 era US$ 200 mais cara. Restava contar com a boa vontade dos funcionários do escritório, que se comoveram e concederam o visto às 13h, em cima da hora de minha saída para o aeroporto. Cheguei em Taipei às 17h15, exatas 22 horas e 15 minutos depois de ter decolado de Pequim.
Neste link está a reportagem sobre a eleição de Taiwan publicada hoje no Estado:
http://digital.estadao.com.br/download/p…
O governo de Pequim finalmente reconheceu o que era evidente na pesada nuvem esbranquiçada que assombra a cidade há dias: a capital chinesa enfrenta uma crise de poluição, que só será solucionada com o corte de emissões. A posição oficial parece ter colocado fim ao debate que mobilizou os internautas locais nas últimas semanas, sintetizado por uma ótima rima em inglês: “fog or smog?”, algo como “neblina ou poluição?”.
Enquanto os dados oficiais indicavam um grau leve poluição na semana passada, a medição independente feita pela Embaixada dos Estados Unidos em Pequim _e divulgada no Twitter_ acusava um grau “perigoso” de contaminação. A diferença é que os norte-americanos detectam partículas iguais ou inferiores a 2,5 micrômetros, que são extremamente finas e penetram mais profundamente nos pulmões. As autoridades locais medem apenas as que têm tamanho de 2,5 a 10 micrômetros.
Para quem vive há quase quarto anos em Pequim é alarmante saber que a incidência de câncer de pulmão na cidade aumentou 60% na última década, ainda que o percentual de fumantes tenha se estabilizado. A principal vilã é a poluição, que está nos piores níveis desde 2008. Na semana passada, a densa névoa levou ao fechamento de estradas e ao cancelamento ou atraso de centenas de voos.
O debate chegou ao jornal oficial China Daily, editado pelo Conselho de Estado, sob o título “Exposição à poluição é perigo severo”. Zhong Nanshan, da Academia Chinesa de Engenharia, disse que se nada for feito, a poluição poderá substituir o fumo como principal fator de risco para o câncer de pulmão. Shi Yuankai, vice-presidente do Hospital do Câncer da Academia Chinesa de Ciências Médicas, concorda: “Mesmo que consigamos estabilizar a taxa de fumo no país, o câncer de pulmão deve continuar a crescer por 20 a 30 anos e a poluição do ar deverá ser o principal responsável”.
Depois disso, passei a considerar seriamente a possiblidade de comprar um purificador de ar, mas ele não resolve a situação quando estou fora de casa, já que está longe de ser algo portátil. Para me proteger da poluição, teria que usar máscara. O problema é como sair de casa sem parecer uma versão humanizada de Darth Vader _as que têm eficácia contra a poluição são uns trambolhos pretos que cobrem quase todo o rosto. Apesar do choque estético, vejo um número cada vez maior de pessoas nas ruas da cidade com o monstrengo.
O título do post não é meu, mas de artigo de autoria do professor chinês Yan Xuetong, publicado no The New York Times no fim de novembro. Entre os mais respeitados acadêmicos do país, Yan discorreu sobre um tema que ocupa cada vez mais a elite governante de Pequim: como vencer a disputa global por influência que inevitavelmente travarão com os Estados Unidos.
Subjacente à discussão está a ideia de soft power, expressão criada pelo norte-americano Joseph Nye para designar o tipo de influência que não é baseado no poder das armas _o hard power_ e que permite a um país conquistar corações e mentes ao redor do globo. O conceito fundamental é fazer com que os outros queiram o que vocês quer, pelo simples poder de atração de seu modelo ou de suas ideias.
A China já é a segunda maior economia do mundo e investe há anos na modernização do Exército de Libertação Popular. Mas ainda que consiga projeção militar e econômica, o país carece de um modelo que possa servir de inspiração para o restante do mundo, enquanto os norte-americanos possuem um ideário claro que reúne Estado de Direito, liberdade individual e liberalismo econômico _ainda que nem sempre o respeite fora de suas fronteiras.
Em sua tentativa de criar as bases para o desenvolvimento do soft power Made in China, Yan retornou à filosofia clássica chinesa fundada por Confúcio, pensador que o Partido Comunista combateu durante décadas por identificá-lo com os traços retrógrados da sociedade local. Para Yan, o caminho para a China ganhar a disputa com os Estados Unidos é o exercício da autoridade “benevolente” ou “humana”, conceito vago, mas que segundo ele implica justiça social, combate à corrupção e criação de uma sociedade harmônica _você pode ler o artigo aqui.
O problema na tese de Yan é que ela não aponta para a criação de um modelo com regras claras aplicáveis a todos, incluindo aos detentores do poder. Eu levantei esse ponto em uma discussão realizada na semana passada com outros dois jornalistas em Pequim, que você pode ouvir neste podcast podcast. A receita de Yan parece se basear na autoridade moral dos ocupantes do poder, sem nenhuma ênfase nos mecanismos de controle do exercício do poder e de proteção do indivíduo contra o governo. Sem isso, será difícil a China construir um sistema que possa competir com a ideia de Estado de Direito da tradição ocidental.
Para ele, o confronto entre os dois países é inevitável: “Se a história é um guia, a ascensão da China de fato coloca um desafio para a América. Poderes emergentes buscam ganhar mais autoridade no sistema global, e poderes decadentes raramente caem sem luta. E dadas as diferenças entre os sistemas políticos chinês e americano, pessimistas podem até acreditar que existe uma alta possibilidade de guerra”.
No último mês, os norte-americanos levaram a disputa por influência aos países vizinhos da China, em uma tentativa de garantir sua presença na região economicamente mais dinâmica do mundo e contrabalançar a ascensão chinesa. A ofensiva foi tema de reportagem minha que o Estado publicou ontem.
Mesmo em um país onde o governo defende abertamente a censura e o controle da imprensa, é chocante a afirmação do novo presidente da poderosa rede estatal de televisão CCTV, Hu Zhanfa, de que os jornalistas são “operários da propaganda”. Segundo ele, os que se consideram “profissionais” são vítimas de um erro fundamental sobre suas próprias identidades.
O governo chinês investe milhões de dólares no desenvolvimento e internacionalização de seus meios de comunicação, mas é cada vez mais claro que a independência jornalística não integra os planos do Partido Comunista. “ A primeira responsabilidade e ética profissional do pessoal de mídia deve ser entender o seu papel de maneira clara e ser um bom porta-voz”, afirmou Zhanfa, em declarações reproduzidas pela agência oficial de notícias Xinhua. Apesar de terem sido divulgadas em maio, as posições só ganharam destaque ontem, quando um link para o texto da Xinhua foi publicado no Weibo, a popular versão chinesa do Twitter, com cerca de 200 milhões de usuários.
O post gerou uma onda de críticas a Zhanfa, com milhares de internautas atacando a inexistência de uma imprensa independente na China. Grande parte da população do país vê com descrédito o que é veiculado nos meios oficial e confia mais no que lê na internet. O novo presidente da CCTV se encarregou de agravar a falta de credibilidade. Zhanfa ressaltou que os veículos de comunicação devem ser dirigidos por políticos _leia-se membros do Partido Comunista_ e que os jornalistas que não cumprirem seu papel de “porta-vozes” nunca irão longe.
O número oficial de pobres na China saltou de 27 milhões para 128 milhões com a decisão do governo de elevar a linha da pobreza na zona rural para um rendimento anual de US$ 361,00, o que equivale a quase US$ 1,00 ao dia. Essas pessoas poderão a partir de agora receber ajuda governamental. Mesmo com a mudança, a estatística de pobres ainda está abaixo da estimativa de organismos internacionais. O Banco Mundial usa o patamar de US$ 1,25 ao dia e calculou em 2009 que havia 254 milhões de chineses com rendimento igual ou inferior a esse valor.
O aumento da desigualdade é um dos principais problemas da China e fonte de crescente tensão social. O país que pregava o igualitarismo nos anos de Mao Tsé-tung hoje possui um índice Gini superior ao dos Estados Unidos, o porta-voz do mundo capitalista. O indicador mede a desigualdade de renda dentro de um país e no ano passado estava em 0,47 na China, pouco acima do 0,45 dos norte-americano. No Brasil, o índice é de 0,56, um dos piores do mundo.
A nova linha da pobreza chinesa vale apenas para os moradores da zona rural, que representam cerca de metade da população do país. Pelo critério anterior, apenas 2,8% dos habitantes do campo eram considerados pobres, percentual inferior ao registrado em países desenvolvidos, disse Wang Sangui, professor da Universidade do Povo da China. Nos Estados Unidos, o percentual oficial de pobres é de 15% da população, em razão de uma “linha de corte” bem mais elevada: rendimento anual de US$ 22.314 para uma família de quatro pessoas, o equivalente a uma renda diária individual de US$ 15,28.
O problema da desigualdade foi agravado neste ano pela alta da inflação, que atingiu em julho 6,5%, o mais alto patamar em três anos. O índice desacelerou desde então, mas ainda ficou em desconfortáveis 5,5% no mês passado. A alta no preço dos alimentos é o principal fator a pressionar o indicador, o que torna a inflação ainda mais aguda para os pobres. No mês de outubro, os alimentos ficaram em média 11,9% mais caros. Em julho, a alta de preços nesse segmento havia sido de 14,8% _só a carne de porco, a mais consumida no país, teve inflação de 57% naquele mês.
A nova “linha de corte” chinesa representa um aumento de 92% em relação ao patamar que estava em vigor desde 2009. O universo dos que poderão receber auxílio do governo vai quase quintuplicar, mas os recursos do fundo de combate à pobreza terão aumento de apenas 21% neste ano, para 27 bilhões de yuans (US$ 4,29 bilhões). Se esse valor fosse integralmente dividido pelos 128 milhões de pobres, cada um receberia US$ 33,50.
No Brasil, a “linha de corte” é R$ 70,00 ao mês, o que representa renda anual de US$ 454,00 e diária de US$ 1,24. Com isso, o número de pobres no país é de 16,27 milhões, o equivalente a 8,5% da população. Na China, o novo universo de pobres representa 9,5% dos 1,34 bilhão de habitantes. O presidente Hu Jintao afirmou na terça-feira que a tendência de aumento da desigualdade será revertida e que todos os chineses terão suas necessidades básicas atendidas até 2020. “O acesso à educação compulsória, assistência médica básica e habitação será garantido.”
A monja budista Palden Choestso tinha 35 anos quando tirou a própria vida para protestar contra a política chinesa para as regiões habitadas por tibetanos no país. No dia 3 de novembro, ela ateou fogo a seu corpo e gritou “longa vida ao dalai lama” e “deixem o dalai lama voltar ao Tibete”, de acordo com relatos transmitidos por testemunhas a entidades pró-Tibete sediadas no exterior. Palden morreu no mesmo local onde o monge Tsewang Norbu, 29, havia se imolado em agosto, na cidade de Tawu, província de Sichuan.
Desde março, 11 monges ou ex-monges tibetanos atearam fogo a seus corpos, uma forma extrema de protesto político que está sendo cada vez mais utilizada pelos tibetanos. Só em outubro foram 7 casos. Das 11 pessoas que se imolaram neste ano, 6 morreram e o paradeiro das demais é desconhecido, segundo as mesmas entidades.
Antes de 2011, o único episódio de imolação entre os tibetanos na China havia sido registrado em fevereiro de 2009 e envolveu um monge chamado Tabe, que sobreviveu às queimaduras. A primeira mulher a se imolar antes de Palden foi a também monja Tenzin Wangmo, 20 anos, que morreu no dia 17 de outubro. Todos os casos ocorreram em áreas habitadas por tibetanos na província de Sichuan, vizinha ao Tibete. O centro dos protestos é o mosteiro Kirti, onde vivem 2.500 monges na cidade de Aba, que foi ocupada por forças militares e paramilitares depois da imolação de março e vive sob um não declarado estado de sítio. Há barreiras policiais nas estradas que levam à região e jornalistas são impedidos de chegar ao local. Apenas dois conseguiram furar o bloqueio nas últimos meses.
No mês passado, painel da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre liberdade religiosa manifestou preocupação com as medidas de segurança impostas em Aba, que incluem constante presença de policiais dentro e fora dos monastérios e monitoramento das atividades religiosas. Segundo o grupo, as ruas estão ocupadas por integrantes da tropa de choque, soldados armados com fuzis automáticos e caminhões militares. “Essas medidas restritivas não apenas limitam a liberdade religiosa ou de crença, mas exacerbam as tensões existentes e são contraproducentes”, declarou Heiner Bielefeldt, relator especial sobre liberdade religiosa e de crença da ONU. Bielefeldt avaliou que as medidas de segurança agravaram ainda mais a tensão entre a população tibetana e Pequim. “A intimidação da comunidade leiga e monástica deve ser evitada e o direito da comunidade monástica e toda a comunidade de praticar sua religião deveria ser totalmente respeitado pelo e garantido pelo governo chinês”, ressaltou.
Além de aumentar a repressão na região, as autoridades chinesas reagiram com acusações ao dalai lama, a quem classificam de separatista e “terrorista disfarçado”. Na quinta-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hong Lei, responsabilizou os tibetanos no exílio pelas imolações. “Os grupos ‘pró-independência’ do Tibete elogiaram esses suicídios e até defenderam sua imitação”, declarou Hong, em briefing regular com a imprensa. “O que eles estão fazendo desafia a moral humana e eles nunca vão conseguir o que querem. Os budistas chineses sabem que o suicídio deve ser condenado. Pessoas de comunidades religiosas acreditam que a vida deve ser valorizada e que eles devem seguir a verdadeira doutrina do budismo”, acrescentou o porta-voz.
Despois de um fracassado levante contra o domínio chinês em 1959, o dalai lama deixou o Tibete e se exilou na Índia, onde onde está instalado o chamado governo tibetano no exílio. Sua imagem é banida dentro da China e monges tibetanos são obrigados a frequentar classes de “educação patriótica”, nas quais devem renega-lo e prometer lealdade a Pequim. “O dalai lama é a mais importante figura religiosa para os tibetanos e esses monges manifestaram devoção a ele durante todas as suas vidas. Para alguns é preferível perder a vida do que ter que renegá-lo”, disse ao Estado Andrew Fischer, professor do Instituto de Estudos Sociais de Haia, na Holanda.
Em sua opinião, as imolações são provocadas por um sentimento de desespero e frustração em relação às políticas de Pequim para os tibetanos, que são agravadas pela extrema repressão imposta a Kirti. O monastério sediou fortes manifestações contra a China em 2008, logo depois de confrontos entre tibetanos e chineses han em Lhasa, capital do Tibete _os han são a etnia que representa 91,5% da população do país. No dia 16 de março daquele ano, 13 monges de Kirti foram mortos a tiros pelas forças de segurança chinesas. O primeiro monge a se imolar em 2011 foi Phuntsog, 21, que tirou sua vida no dia 16 de março, três anos depois dos protestos de 2008.
Os anos de crescimento chinês na casa dos 10% chegaram ao fim e o país entrará agora em uma fase de mais baixa expansão do PIB e taxas de inflação mais elevadas, na qual aumentarão os desafios para manter a economia nos trilhos, com problemas que vão do envelhecimento da população à necessidade de reformas sobre as quais não há consenso. Em linhas gerais, essa foi a conclusão de painel que reuniu analistas chineses e estrangeiros em Pequim na sexta-feira, durante conferência promovida pela revista britânica The Economist sobre as perspectivas para a China.
“Nós estamos no começo da transição do milagre econômico para um desenvolvimento normal”, afirmou Huang Yiping, economista-chefe para a Ásia do Barclays Capital, para quem o modelo baseado em alto nível de investimentos que prevaleceu nas últimas décadas não é mais sustentável. Patrick Chovanec, professor da Universidade de Tsinghua, também vê uma transformação “fundamental”, mas acredita que ela será mais turbulenta do que a prevista por Huang. “O inverno está chegando”, declarou o norte-americano, que não descarta a possibilidade de contração do PIB por curto período na próxima década, a exemplo do que ocorreu com o Japão nos anos de alta expansão da década de 60.
O crescimento vai desacelerar para o terreno de 7% a 8% na opinião de Arthur Kroeber, diretor da consultoria Dragonomics, que desenha um cenário pessimista para a próxima década em razão de mudanças na estrutura demográfica do país. “Um dos fatores que sustentaram o crescimento chinês foi o grande número de pessoas que trabalhavam em relação às que estavam aposentadas”, observou. Segundo ele, essa relação é de 5 para 1 atualmente. Em 20 anos, será de 2 para 1. “É uma enorme mudança demográfica que ocorrerá de maneira muito rápida.” A oferta de trabalhadores sofrerá um declínio severo, com redução em um terço do número de pessoas na idade de 15 a 24 anos, ressaltou.
Para manter o crescimento elevado, a China terá que fazer reformas que aumentem de maneira “dramática” a produtividade, mas Kroeber não vê sinais de que as autoridades de Pequim estejam dispostas a implementá-las. A perda do ímpeto reformista que marcou os últimos 30 anos do desenvolvimento chinês é um problema apontado com frequência por analistas céticos em relação ao futuro do país. Mesmo os otimistas ligados ao governo manifestam preocupação quando o assunto é o rumo que a China adotará no futuro. “Não há consenso sobre o tipo de economia de mercado moderna que nós aspiramos ser”, disse no mesmo debate Li Daokui, conselheiro do Comitê de Política Monetária do Banco do Povo da China e diretor do Centro para a China na Economia Mundial da Universidade Tsinghua.
O tema também foi discutido em painel sobre a transição de poder para a nova geração de líderes comunistas, prevista para o próximo ano. Jin Canrong, vice-reitor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade do Povo, observou que há intensa discussão sobre a necessidade de reformas, mas ausência de acordo sobre o caminho a seguir. “Há 30 anos, havia forte consenso no sentido de que deveríamos ir para o outro lado do rio, para a economia de mercado”, lembrou Jin, em referência à transformação iniciada por Deng Xiaoping no fim dos anos 70. “Sem consenso, não há como irmos em uma direção”, acrescentou o professor, para quem as diferentes facções do Partido Comunista acabarão chegando a uma forma de compromisso.
Entre as reformas econômicas, uma das mais mencionadas é a do setor financeiro, dominado por gigantescos bancos estatais que praticam juros artificialmente baixos ditados pelo governo e canalizam crédito para outras empresas estatais igualmente gigantescas. O setor é um dos principais componentes do que Hu Yiping, do Barclays, chamou de modelo de crescimento subsidiado, que prevaleceu nos últimos 30 anos e beneficiou investidores, produtores e exportadores, em detrimento das famílias e dos consumidores.
Para mudar o sistema financeiro, o governo chinês precisa liberalizar os juros, o que acabaria com o subsídio e permitiria que o capital fosse alocado de maneira mais eficiente. Na opinião de Hu Yiping, esse movimento já começou nas operações de crédito informais que ocorrem fora do sistema bancário, nas quais são cobradas taxas de mercado, e logo se espalhará para o restante do sistema. Mais cético, Chovanec acredita que a reforma não virá rapidamente em razão do volume ainda desconhecido de créditos irrecuperáveis que os bancos acumularam com a explosão de empréstimos fáceis dos últimos três anos. “Os bancos terão de se recuperar antes de haver uma liberalização.”
Desinflar a bolha do mercado imobiliário chinês está se mostrando mais desafiador do que parecia quando o governo decidiu apertar as medidas restritivas ao setor, há pouco mais de um ano. Milhares de pessoas que adquiriram imóveis nos últimos meses estão exigindo compensação de empreendedores que tentam se livrar de unidades encalhadas oferecendo descontos de até 25%.
Desde o dia 22 de outubro, ocorreram pelo menos cinco manifestações nas ruas de Xangai promovidas por compradores que viram o valor das residências que compraram pouco meses antes cair de maneira abrupta com as novas promoções. Em uma delas, cerca de 400 pessoas carregando faixas invadiram e danificaram um dos showrooms da China Overseas Holdings, que oferecia apartamentos por um quarto a menos do que eles haviam pago no ano passado.
O mercado imobiliário é uma opção de investimentos para muitos chineses, que perdem dinheiro se deixarem sua poupança no banco e não têm à disposição aplicações lucrativas e seguras. A taxa de juros sobre os depósitos é de 3,5% ao ano, insuficiente até para repor a inflação, que caiu para 5,5% no mês passado. Em queda desde o ano passado e com uma histórica volatilidade, o mercado acionário é visto com desconfiança por famílias chinesas. Nesse cenário, a compra de um imóvel era considerada uma opção segura e extremamente lucrativa de investimento, especialmente diante da expectativa de que os valores continuariam a subir de maneira indefinida.
A crescente especulação imobiliária levou os preços a patamares irreais, que transformaram o sonho da casa própria em algo inalcançável para grande parte da população. A persistente alta também envolveu o setor em uma bolha cada vez mais inflada, que o governo decidiu conter com medidas restritivas, entre as quais o aumento do valor que deve ser pago à vista na compra de uma residência. Mas a operação é extremamente delicada, já que o setor imobiliário responde por 25% do investimento do país e tem sido um dos mais potentes motores do crescimento chinês. Se a atividade de construção sofrer uma retração abrupta, isso terá consequências negativas sobre a expansão do PIB e aumentará o risco de um pouso forçado da segunda maior economia do mundo.
Para o Brasil, a performance do segmento é fundamental. A construção de residências absorve cerca de 20% da demanda de aço do país, que usa como matéria-prima o minério de ferro, principal item da pauta de exportação brasileira, cujo maior comprador é a China. No período de janeiro a setembro, o país asiático importou do Brasil US$ 14,48 bilhões em minério de ferro, quase metade dos embarques totais do produto, de US$ 30,68 bilhões, e 71,15% acima do que foi vendido nos primeiros nove meses de 2010.
“O problema de compradores insatisfeitos com os descontos nos imóveis é generalizado”, disse ao Estado Liu Weiwei, do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento E-house China, baseado em Xangai. “Com a redução nos preços, os compradores antigos perderam milhares de yuans e muitos se sentem enganados pelos empreendedores.”
No conjunto residencial Longhu Licheng, de Xangai, o preço do metro quadrado estava em 18.500 yuans (R$ 5.180) no começo de 2010, valor que caiu para 14.000 (R$ 3.920) atualmente. Quem comprou um apartamento de 100 metros quadrados naquela época viu o valor da propriedade diminuir 450 mil yuans (R$ 126 mil) em menos de dois anos. A queda de preços só começou em meados de 2011 e se acelerou nas últimas semanas, em razão das dificuldades financeiras enfrentadas por grande parte dos empreendedores imobiliários, sufocados pelas medidas de contenção de crédito adotadas pelo governo para conter a inflação e desinflar a bolha imobiliária.
Chen Shen, do instituto China Index Academy, disse que as vendas em outubro diminuíram 20% em média na China em relação ao mês anterior. Na semana passada, o volume de operações na cidade de Pequim registrou queda de 40% na comparação com a semana anterior. Em Xangai, a retração foi de 26%. No fim de outubro, o primeiro-ministro Wen Jiabao afirmou que o governo manteria as restrições ao setor: “Nosso objetivo é fazer com que os preços voltem a patamar razoáveis”.
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