
Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda não são mais as garotinhas de 12 anos atrás, quando estreava nos Estados Unidos a série feminina de mais sucesso de todos os tempos. Na verdade, olhando bem, elas estão mais para peruas ricas do que as modernas e descoladas profissionais liberais da época do seriado. Desde a chegada do primeiro filme Sex and the City, em 2008, o caráter contestador da série, que colocava em pauta assuntos que geravam grande identificação com as fãs, ficou meio apagado. Em seu lugar, tomaram a cena figurinos extravagantes e o físico enxuto das personagens já quarentonas, de dar inveja a qualquer espectador mais sedentário segurando um saco de pipoca.
É claro que as reflexões ainda existem. Em Sex and the City 2, Carrie (Sarah Jessica Parker) vive seu segundo ano de casada e as coisas já estão tomando os rumos de um relacionamento tradicional: TV de plasma de presente de aniversário, delivery para jantar, dias inteiros esticados no sofá… até que chega o clímax: Mr. Big propõe que eles passem dois dias por semana separados para apimentar a relação. A workaholic Miranda (Cynthia Nixon), por sua vez, está sufocada com um novo chefe que não lhe dá o mínimo valor e decide largar o emprego para ter mais tempo para a família. Charlotte (Kristin Davis), que sempre achou que nasceu para ser mãe, chora sozinha na despensa da cozinha por não aguentar mais o dia a dia de dona de casa ao lado de duas crianças e uma babá gostosona. Em todo esse contexto, Samantha (Kim Cattrall) anuncia que as quatro amigas vão viajar à “nova Dubai dos Emirados Árabes”, Abu Dhabi. E é lá que grande parte das filmagens acontece.

O filme é feito para dois tipos de público: fãs incondicionais da série, que estão de luto desde o fim da sexta temporada em 22 de fevereiro de 2004 ou gente apaixonada por moda. Se você se enquadra em um dos dois grupos – ou em ambos, como eu – vai amar Sex and the City 2. Afinal de contas, onde mais você veria Sarah Jessica Parker descer do carro com uma sandália rosa de salto altíssimo, uma regata J’adore da Dior e uma saia longa lilás e bufante para fazer compras em um mercadinho de temperos à tarde?

O figurino de Patricia Field – veterana da época do seriado – chega a arrancar gargalhadas da plateia em vários momentos. A gente sabe que todo corte temporal de cena vai acabar com novos looks trabalhadíssimos e, em grande parte, com modelitos árabes. Não dá para deixar de pensar que ninguém se veste daquele jeito na vida real, mas o segredo é não se importar com isso e curtir cada detalhe dos looks, que eu considero inspiradores mesmo em sua extravagância. Quando Miranda resolve fazer uma surpresa para as quatro amigas e armar um passeio de camelos, pede para o mordomo comprar trajes adequados na Dior. Quando achamos que vêm calças jeans, tênis ou botas de montarias – mesmo que caras ou superestilizadas – elas aparecem com véus e vestidos de seda coloridos, calças leggings e sandalinhas de dedo. Completamente inadequadas e deslumbrantes.

Assistir ao filme é, então, passar duas horas muito agradáveis vendo gente bonita, roupas maravilhosas e cenários paradisíacos. Melhor ainda, então, se acompanhado de várias amigas igualmente interessadas pelas histórias de Carrie e suas centenas de pares de Manolos e Louboutins. Se for para viver a experiência completa, faça como eu. Saia do filme e almoce em um restaurante árabe – se possível, tomando uma tacinha de champanhe, por que não? E passeie pelo shopping ou rua chique de sua cidade, olhando atentamente as vitrines da Louis Vuitton, Dolce & Gabbana e Marc Jacobs. Você vai se sentir próxima das suas personagens favoritas como nunca esteve antes.
Sabe aquela história do cara que saiu para fumar e nunca mais voltou? Pois é. Com o cineasta franco-polonês Roman Polanski foi mais ou menos isso. Exceto pelo fato de que ele saiu de sua casa em Paris para receber um prêmio no Festival de Cinema de Zurique, na Suíça, em setembro de 2009, e, desde então, não voltou à terra natal. O motivo? O cumprimento de um mandado de prisão que completava 31 anos – Polanski é acusado do estuprar uma garota americana de 13 anos, crime que chegou a assumir em 1977 quando se refugiou na Europa.

Pierce Brosnan e Ewan McGregor em cena de O Escritor Fantasma
As polêmicas não deixam de acompanhar a vida do diretor de O Escritor Fantasma, thriller que chega às salas do Brasil no próximo dia 28. No dia 14 de maio, a atriz Charlotte Lewis convocou a imprensa de Los Angeles para acusar Polanski de ter abusado sexualmente dela em 1982, quando tinha apenas 16 anos, dessa vez em Paris. Lewis fez uma ponta no filme Os Piratas, dirigido por ele em 1986. Seu advogado na França, George Kejman, ameaçou processar a atriz por calúnia caso ela formalize a acusação.
Enquanto isso, Polanski aguarda a decisão judicial sobre seu futuro – se volta para a França, se é extraditado para os Estados Unidos, se fica para sempre na Suíça – trancafiado em seu chalé. A revista Screen, do Festival de Cannes, publicou uma matéria na última quarta-feira (12) dizendo que a cineasta Marina Zenovich pretende fazer uma continuação do polêmico documentário Roman Polanski: Wanted and desired, lançado em 2008. O filme seria um curta, mas devido à história que parece não ter fim, a expectativa é que vire outro longa. A realizadora aguarda um desfecho para começar a narrar o caso do ponto em que parou.

O Escritor Fantasma recebeu o Urso de Prata de melhor direção durante o Festival de Berlim, em fevereiro deste ano. O filme, baseado no best-seller The Ghost, de Robert Harris, conta a história de um escritor (Ewan McGregor) que acaba aceitando o encargo de escrever as memórias políticas de um ex-primeiro ministro britânico, Adam Lang (Pierce Brosnan), muito a contragosto. Durante o processo de entrevistas para elaboração da autobiografia, Lang é acusado de favorecer práticas terroristas por um tribunal internacional.
A mulher do senador (Olivia Williams) o aconselha a voltar para a Inglaterra e buscar abrigo, mas seu advogado desaprova a sugestão, dizendo-lhe que ele deve ter cuidado para não ir a qualquer país que tenha tratado de extradição. Vale lembrar que as filmagens do filme terminaram em maio de 2009, e o diretor só foi preso em setembro em uma visita à Suíça. É no mínimo estranho que ele possa prever algo assim. Será que incluiu a piada macabra depois de estar confinado? Não se sabe. Mas é coincidência demais.

Foto do casamento de Sharon Tate e Roman Polanski em 1968
Não foi, no entanto, algo inédito nos idos dos sincronismos sinistros da vida de Polanski. Em 1969, um ano depois de lançar o histórico O Bebê de Rosemary, sua mulher, Sharon Tate, foi assassinada brutalmente na própria casa, em Los Angeles, por quatro jovens – a Família Manson. Sharon estava grávida de oito meses do primeiro filho do casal. No dia seguinte ao crime, o mesmo grupo mataria o casal de empresários Leno e Rosemary LaBianca. Infelicidades, sem dúvida. Mas, no caso de Polanski, é muito difícil não acreditar que sua vida tem o bizarro hábito de acompanhar a sua arte.
Será que uma propaganda massiva em torno de um Blockbuster é item realmente indispensável para o filme fazer sucesso? A bilheteria de estreia de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, não mente: 875 mil pessoas estiveram presentes nas salas de todo o Brasil durante seu primeiro fim de semana. O público foi recorde das produções da Disney no País e 12% superior ao número anterior da distribuidora, guardado por Piratas no Caribe 3.
Mas nós do Cinema reparamos que muita gente tem saído da sessão decepcionada. Não podemos dissociar esse fato da reclamação geral que ouvíamos diariamente antes da obra estrear: ninguém aguentava mais maquiagem da Alice, roupa da Alice, colares da Alice, capas de chuva, bijuterias e acessórios, conjunto de porcelana da cena do chá… ufa! Tantas marcas buscaram se promover às custas da nova versão do livro de Lewis Carrol que ficou chato. Mas a que ponto essa superexposição atrapalha, de fato, a vida útil de um filme, tanto no quesito ‘bilheteria’ como ‘importância da obra para a história do cinema’?
O crítico e Doutor em Cinema pela Universidade Paris 3, Pedro Maciel Guimarães, acredita que a propaganda gerada pelo boca-a-boca só faz diferença para produções pequenas e não tem qualquer influência em bilheterias de grandes filmes. “Não acho que a decepção que o filme tem gerado se deve à sua espetacularização. Só que adaptar uma obra como essa, de que todo mundo tem referências inclusive imagéticas advindas de livros e filmes anteriores, sempre passa pelo risco de desapontar”, afirma.

Para ele, a melhor campanha pré-estreia de um filme foi feita em 1999 com o marketing viral de A Bruxa de Blair. Vale lembrar que, na época, um site informava aos curiosos que tudo o que eles veriam nas telonas havia realmente acontecido. Muita gente acreditou e foi conferir o filme instigada por esse aparente excesso de realidade. “Tim Burton acerta quando faz roteiros originais, como em Noiva Cadáver. Quando mexe em vespeiro, mesmo caso de A Fantástica Fábrica de Chocolate, acaba errando a mão”, diz Pedro.
No terceiro fim de semana em cartaz, Alice perdeu a liderança na bilheteria – mas não na arrecadação, devido ao preço maior dos ingressos nas salas 3D – para Homem de Ferro 2. A queda, provavelmente, não foi causada pela propaganda negativa de quem não gostou, já que a maioria das pessoas que não tem vasto conhecimento sobre diretor ou obra decide assistir pela comoção geral que existe com um grande lançamento. Essa estratégia é decorrente da campanha de divulgação – muito bem planejada pela distribuidora.

O extenso marketing, porém, serve para atrair o público e manter o filme em cartaz. Em muitos cinemas, Alice… está em mais de uma sala, principalmente com as opções em duas e três dimensões. Com mais salas exibindo o mesmo filme e menos alternativas, a maioria das pessoas busca o filme sem priorizá-lo, e isso garante que a obra permaneça em cartaz. A regra é quase matemática, mas funciona sempre. Então, a não ser que você esteja a fim de colaborar para fazer essa teoria cair por terra, vale apostar na mais nova viagem de Tim Burton. E participar do boca-a-boca, nem que seja para formar sua própria opinião e não se sentir mais por fora do assunto da vez.

O que um cineasta pode fazer para diferenciar o seu filme de outro com a mesma temática? De uns anos para cá, a tendência das produções nacionais é falar sobre o universo dos mais desfavorecidos nas grandes metrópoles. Como eles vivem? Que dramas enfrentam diariamente? Fala-se dos perrengues, da violência, do abuso de autoridade e do abandono às crianças. Bem, esse não deixa de ser um grande tema. Mas como fazer para um novo filme sobre isso não dar ao espectador a sensação de “mais do mesmo”?
A pergunta é um desafio que a diretora Sandra Werneck buscou superar em seu novo longa, Sonhos Roubados. O filme conta a história fictícia de três personagens, mulheres adolescentes que vivem em uma favela do Rio de Janeiro. Jéssica (Nanda Costa), Sabrina (Amanda Diniz) e Daiane (Kika Farias) foram encontradas no livro que serve de base para o roteiro, As Meninas da Esquina, de Eliana Trindade. Elas se prostituem seja para comer, alimentar a filha, dar remédio para o avô ou simplesmente conseguir pintar o cabelo no salão de beleza.
O longa foi filmado em plano-sequência – uma técnica que não utiliza cortes para emendar as cenas, mas registra cada ação por inteiro. Isso torna a obra mais contemplativa, já que o personagem é quem leva a câmera a se movimentar, o que desfavorece a existência de cenas muito duras ou abruptas. São recursos, como explica a diretora. “É um filme que traz uma mensagem de esperança, que coloca a mulher como protagonista da história. E isso é fato: você vê, nas comunidades, que a maioria dos lares é completamente matriarcal.”
Em 2005, Sandra já tinha feito o documentário Meninas, sobre o dia a dia de garotas grávidas em uma comunidade carente carioca. Esta produção a sensibilizou e mudaria para sempre sua forma de enxergar os laços familiares. “Filho é uma coisa importante, não é para brincar, e eu queria passar a mensagem que eu aprendi com essas meninas a todo mundo que for me assistir”, disse.
Formação do elenco | Para construir esse cenário com naturalidade, a produção realizou mais de cem testes de elenco. As escolhidas para os três papéis centrais passaram por um intenso processo de imersão nas comunidades para entender um pouco mais sobre a vida das garotas que iriam representar. Uma delas, a jovem Amanda Diniz, de 15 anos – que vive uma menina que sofre abuso sexual do tio (Daniel Dantas) e é negligenciada pelo pai (Ângelo Antônio) – chegou a morar na casa da tia, no Morro do Vidigal, durante todo o período de filmagem. “Eu moro em um bairro que fica na periferia (Santa Cruz da Serra, no Rio), então, para mim, a realidade dessas garotas não era tão distante”, contou, na segunda-feira (12), durante série de entrevistas para divulgação de Sonhos Roubados.

A protagonista Nanda Costa, 23 anos, que também integra o elenco da novela Viver a Vida no papel de Soraia, disse que nunca se apresentou como atriz às moradoras das favelas que visitou. “Eu dizia meu nome, Fernanda. Queria contar essa história com a maior verdade possível, já que há parte de mim nela – minha mãe também teve filho na adolescência”, disse. Nanda tem trejeitos de artista, mesmo. Para explicar a dificuldade de uma das cenas (o primeiro programa que Jéssica faz no filme, negociado durante um jogo de sinuca) ela se movimentou por toda a sala, recriou olhares e refez a trajetória do momento gravado pelas câmeras. “Precisamos escolher muito bem nossos projetos. Um filme fica para sempre”, refletiu.
Basicamente, o que se conta durante os 85 minutos de exibição é a vida de três meninas que se encontraram no meio do caos e permanecem unidas até o fim. As cenas de sexo e de violência são conduzidas com cuidado suficiente para que não sejam mais chocantes do que a simples ideia desse tipo de situação. Um livro de mulher, filmado e protagonizado por mulheres, mas que serve a todos os gêneros. Sim, é parecido com tudo, não dá para negar. Mas tem esse detalhe, que vale a experiência. Nos cinemas a partir do próximo dia 23.

Os documentários de Silvio Tendler, como Jango e Os Anos JK, estão entre os de maiores bilheterias do cinema brasileiro
“Este é, basicamente, um filme de montagem”, advertiu o diretor Silvio Tendler, pouco antes de começar a sessão de seu novo longa Utopia e Barbárie. O cineasta carioca passou os últimos 20 anos debruçado sobre as utopias geradas pelo Maio de 68 ao redor do mundo – e várias das barbáries que ocasionaram o “mês mais orgástico de todos os tempos”, além das que se antecederam a ele.
A primeira versão da obra tinha seis horas. Depois de muita edição, restou a metade. O momento mais sofrido para Tendler foi cortar a última hora que faltava para deixar o filme mais palatável aos espectadores. “Muita coisa ficou de fora, não pude dar a devida atenção aos movimentos culturais que se seguiram às efervecências daquele momento. Me detive na luta política”, explicou o diretor para uma plateia de estudantes universitários ontem (8). O público assistiu a seu filme em primeira mão.
A equipe de produção percorreu, ao todo, 15 países. A intenção era formar um cenário que fosse capaz de transmitir a quem assiste ao filme hoje tudo o que aquela época significou para seus protagonistas. Entre os entrevistados, há gente que participou de vários tipos de calamidades: sobreviventes da bomba de Hiroshima, vítimas de tortura em ditaduras fascistas, filhos de desaparecidos políticos, fotógrafos que trabalharam durante a guerra do Vietnã, além de artistas exilados.
Dilma Rousseff, Zé Celso Martinez Corrêa, Augusto Boal, Cacá Diegues, Franklin Martins e Carlos Chagas estão entre os revolucionários brasileiros a prestarem seus depoimentos a Tendler. Para costurar a história com visões culturalmente distintas, cineastas como o canadense Denys Arcand, o argentino Fernando Solanas, o palestino Mohamed Alatar e o italiano Gillo Pontecorvo também se sentaram diante das câmeras.

Silvio Tendler posa ao lado do estrategista do exército vietnamita, General Giap
“O Filme não tem fim. Quando eu achava que tinha terminado, aconteceu o atentado às Torres Gêmeas. Depois do turbilhão deste episódio, Obama é eleito o primeiro presidente negro da história dos EUA. Se eu fosse esperar o mundo se acalmar, nunca terminaria as filmagens”, explicou o diretor.
Em determinado momento, o espectador mais jovem pode ser atingido por uma sensação de vazio. A gente costuma ouvir de grandes ativistas de gerações passadas o quanto as pessoas da nossa idade (na faixa dos vinte e poucos anos – eu tenho 25) não têm grandes ideais que as movam para a luta contra uma grande causa. Mas as causas atuais são tantas que fica difícil uma comoção massiva em torno de uma delas – minha opinião.
A preservação ambiental, o direito à diversidade sexual, o aquecimento global, a dicotômica batalha contra o terrorismo, a insolúvel questão da paz no Oriente Médio… enfim, é tanta coisa que a gente pode se perder. Mas isso não é necessariamente negativo: “O sentido do meu filme é alertar para o que está acontecendo no mundo, para os sinais que já recebemos antes e continuamos a receber diariamente”, diz Tendler.
Tratam-se de recortes. Uma grande compilação de várias opiniões sobre fatos já amplamente discutidos – e que todo mundo estudou nos livros de História. O que pode ou não afetar quem se senta nas poltronas a partir do próximo dia 23 é o despertar à mobilização que o filme propõe. Alguém com um espírito mais inconformista pode sentir esse “chamado à aventura” – como já diria Joseph Campbell no livro A Jornada do Herói – enquanto uma pessoa mais cética pode sair da sala com a sensação de mais do mesmo. Mas vale a aposta. Afinal, reviver a História é sempre uma boa forma de torná-la mais próxima de nós. Ao menos, uma tentativa.
Assistir a O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella (O Filho da Noiva, 2001, e O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, 2000) é uma experiência perturbadora. A obra que ganhou o Oscar de Filme Extrangeiro deixa o estômago embrulhado, traz lágrimas aos olhos e faz refletir sobre o quanto vale a pena revisitar o passado. A aposta do personagem Benjamín Espósito (Ricardo Darín) pode resolver uma vida inteira, como também desestabilizar aquele que não está preparado para o que pode vir.

O filme fala de um ex-funcionário público aposentado que resolve escrever um livro sobre o caso criminal que mais marcou sua carreira de perito: o estupro e assassinato de uma moça por um amigo de infância dela. A interpretação comovente dos atores ajuda a traçar um cenário de ruptura brusca a partir desse acontecimento, de uma memória que nunca passou para este policial e se estende durante toda uma vida de situações mal-resolvidas. Até o fim, quando ele descobre o que de fato aconteceu e, assim, consegue solucionar os entraves de seu próprio caminho.
Ou seja: trata-se de uma história alheia a ele e que determina completamente a sua própria história. Dá aperto no peito ver o desenrolar da narrativa. O quanto uma pessoa pode ser sádica para confortar o seu próprio sofrimento. O significado relativo e particular da palavra justiça. O “verdadeiro amor”, aquele que o protagonista nunca tinha visto igual, mas que na verdade, ele tinha escondido de si mesmo. O vício disfarçado de paixão na bebida e no estádio de futebol.
Por tudo isso, antes de ir ao cinema para ver este imperdível romance policial, prepare-se para ter reveladas emoções muito íntimas. Isto não significa que você precisa se identificar de cara com os personagens para sentir a barriga queimar. De repente, você nem vai perceber mesmo onde está a identificação. Mas se de alguma forma ela aparecer, você vai viver um filme como há muito tempo não vivia. E chorar. E se emocionar. E sair da sala com o peso de participante, e não mero espectador, de uma história de verdade.
Já ouviu falar nessa categoria (do título)? Tim Burton, com certeza, é um de seus precursores. São filmes de atmosfera sombria, cenários soturnos e capazes de gerar grande tensão psicológica até mesmo em adultos – nas crianças, então, nem se fala. Desde O Estranho Mundo de Jack (1993), o primeiro longa de animação com roteiro do cineasta, até a chegada de Alice no País das Maravilhas, com pré-estreia no dia 21, Tim Burton atinge espectadores de uma maneira lúdica muito expressiva: um horror bonito, fofo e infantilizado.

Alice no País das Maravilhas
Alice é assim. Depois de assistir ao filme, a dúvida que fica é: trata-se de uma obra para crianças ou para adultos? Coraline e o Mundo Secreto (2009), de Neil Gaiman, desperta a mesma pergunta. A história da menina que entra por uma portinha e se depara com um mundo escuro, onde é sempre noite e todas as pessoas têm olhos de botões, deixa qualquer adulto (bem, nem todos) com calafrios. Vá por outro lado, fora das animações. Pense na cena no cavalo se afundando em areia movediça em A História Sem Fim (1984). Em uma rápida visita aos vídeos da cena no Youtube, você vai ver que não é o único que se debulha em lágrimas até hoje ao lembrar do terrível choro de Bastian ao perder seu melhor amigo. E olha que o filme é para crianças.
Quando um diretor faz terror infantil, gênero que agrada aos adultos, é comum ouvir as pessoas dizerem que “esse não é um filme infantil”. Grande parte dessas obras, porém, são baseadas em livros de fantasia direcionados especificamente para crianças – caso de todos os citados acima. O que preocupa é se a exposição a esse tipo de ansiedade pode gerar algum tipo de trauma à criança.

Coraline e o Mundo Secreto
“Sim, existe essa possibilidade. Se a criança não digere o estresse gerado por filmes agressivos, tristes ou assustadores, ela pode ter reações comportamentais a isso, como dormir mal, ter queda de rendimento escolar ou irritabilidade”, explica Denise Pará Diniz, psicóloga coordenadora do Centro de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp. O garoto pode até assistir ao filme sozinho ou com amigos, mas, depois, é importante que a família pergunte o que ele entendeu da trama e o que está sentindo. “A criança precisa perceber o que ali é parecido com o real e o que é uma simples fantasia. Permitir que ela expresse o que sente por conversas ou desenho é uma boa dica”, diz Denise.
É claro que esse tipo de filme não é exatamente desaconselhável aos pequenos – talvez as produtoras já teriam parado de investir neles e a Classificação Indicativa os boicotaria. O lado bom é que colocam em pauta assuntos que teriam uma abordagem direta mais difícil entre pais e filhos, como violência ou temas mais abstratos – representações reais e irreais deles mesmos e dos outros, por exemplo.
Por fim, gaste 5 minutos para assistir a este curta de animação da Pixar, Alma, criado pelo espanhol Rodrigo Blaas em 2009 e vencedor de vários prêmios internacionais. Ele usa o terror infantil para falar de um tema extremamente complexo: a autoimagem e autoidentificação da criança. Uma forma bastante enigmática de captar a concentração de qualquer pessoa, seja ela pequena ou grande.

O cinema é uma arte enrolada?
O processo de produção de um filme é muito demorado. Da procura do argumento ideal (que dará origem ao roteiro futuro) até a fase de pós-produção, existem muitas etapas a serem cumpridas. A principal diferença entre o pontapé inicial do trâmite no Brasil e nos Estados Unidos é que, por lá, na maior parte dos casos, são as produtoras que procuram um diretor interessado em assumir o projeto. Isso leva tempo, é claro. Mas, por aqui, a pior burocracia está na fase de arrecadar recursos para tocar a ideia que está na cabeça do diretor. Apoio e patrocínio de empresas públicas e privadas são a nossa principal fonte de dinheiro.
No entanto, em um mundo ideal onde a grana não seja um empecilho, um diretor deveria ser capaz de finalizar um filme em um período que varia entre dois e três anos. Para a fase inicial de elaboração de um roteiro adequado, leva-se em média um ano. Mas o cineasta Heitor Dhalia (À Deriva, 2009, e O Cheiro do Ralo, 2006) explica que o cinema é uma arte lenta, que precisa de uma conjunção de muitos fatores dando certo ao mesmo tempo para funcionar – e que, consequentemente, torna-se um verdadeiro milagre lançar filmes muito próximos um do outro, como faz Martin Scorsese, por exemplo (Ilha do Medo, em cartaz, Os Infiltrados, 2006, O Aviador, 2004, Gangues de Nova York, 2002, só para citar os principais últimos).
“Tudo que o diretor quer é filmar, mas os projetos têm dinâmicas próprias e não dependem só de sua vontade, muito pelo contrário. Elaborar um roteiro, captar imagens, fazer as fimagens, enfim, tudo demora muito”, afirma Dhalia. E conclui com uma frase que o amigo, ator e produtor Selton Mello costuma dizer o tempo todo: “O processo é lento, o barato é louco e o bagulho é sério.” Coisa de cineasta, mesmo.
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