Confesso que não resisti ao convite de uma amiga para ver Toy Story 3 pela segunda vez.
Só que, agora, no Imax. Para minha surpresa, a maior diferença entre as duas experiências não foi o tamanho da tela. Foi o áudio. Na primeira vez, havia assistido ao filme dublado. Já na sala do Bourbon Pompeia, era legendado. Nunca pensei que diria isso, mas… prefiro a versão em português. Quando vi o primeiro Toy Story no cinema, em 1995, tinha só 7 anos. E acabei registrando que a trupe de Woody tinha nosso idioma como língua materna. Até hoje lembro (e aposto que você também) dos ETs do Pizza Planet dizendo: “O gaaaa-aaarra”, expressão que se repete três vezes no filme atualmente em cartaz. Foi uma decepção ouvi-los dizer “the claw”, na voz original. E não acho que isso seja birra de criança – nenhum Tom Hanks vale mais que a minha infância. (Carol Pascoal)
Há mais J. K. Rowling do que Lewis Carroll na versão de Tim Burton de Alice no País das Maravilhas que estreia hoje (23). Há também mais J. K. Rowling do que Tim Burton no longa que Burton fez a partir dos livros de Carroll.
Ser fiel à história de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho não era mesmo uma preocupação do diretor. Para Burton, que não gosta da estrutura fragmentada dos livros, o importante era que o filme traduzisse o ‘espírito’ das obras. Assim, preferiu inventar uma nova história, que retém a premissa básica e certos personagens e episódios narrados pelo escritor inglês, mas segue por outros caminhos.
No filme, Alice (Mia Wasikowska) é uma garota de 19 anos (e não uma criança) que está sendo forçada a se casar com um rapaz que não lhe interessa. No momento em que ela deve dar a resposta ao seu pretendente, porém, um coelho com um relógio aparece. Ela decide segui-lo, cai no buraco de uma árvore e vai parar no ‘mundo subterrâneo’.
Como nos livros de Carroll, neste mundo é possível conversar com animais e crescer ou encolher comendo um doce. Mas, ao contrário do que acontece na literatura, tudo ali segue uma lógica muito clara. Há uma rainha má (Helena Bonham Carter), que detém o poder, e uma rainha boa (Anne Hathaway), que merece governar. E o papel de Alice é fazer justiça aos bons – o que exige vencer um combate contra um exército de inimigos e um monstro poderoso.
Apesar de os efeitos em 3D, em uma sala comum, pouco acrescentarem ao filme (é preciso ver o resultado na sala Imax), Burton criou um universo visual elaborado e interessante. Mas a fidelidade ao ‘espírito’ dos livros, em sua concepção, parece se resumir a isso. A essência mesmo das obras de Carroll (seus jogos de lógica e linguagem) ficou de fora.
O resultado é um filme que os fãs da série Harry Potter devem adorar e com o qual os fãs de Peixe Grande, A Noiva Cadáver e Edward Mãos de Tesoura podem simpatizar. Mas que dificilmente vai deixar satisfeito quem gosta muito dos livros de Carroll. (Rafael Barion)

(Este é o quarto e último post da série sobre os desafios do 3D para o mercado nacional. Veja os anteriores aqui.)
Os entraves de popularização do cinema 3D são semelhantes aos da digitalização das salas, processo que começou no Brasil em 2007 e ainda caminha vagarosamente. Mais de 20 mil cinemas no mundo trabalham com um sistema de redução de custos que ficou popular nos Estados Unidos, Europa e México. Mas que, na opinião de Luiz Gonzaga de Luca, autor do livro A Hora do Cinema Digital, não parece ter futuro no Brasil. “Aqui, os impostos são muito maiores do que lá fora, o que faz o preço dos equipamentos aumentar muito e, consequentemente, o tempo de financiamento do projetor completo passar de cinco para cerca de 12 anos”, explica.
O parcelamento a que ele se refere é um acordo que exibidores e distribuidores já firmaram em outros mercados para facilitar a compra de equipamentos digitais – e que também funciona para projetores 3D:
O fornecedor da tecnologia | instala o sistema na sala, providencia o sinal e cuida da manutenção.
O exibidor | é responsável por pagar pelo equipamento, financiado em até 5 anos.
O distribuidor | se compromete a ajudar o exibidor a quitar a conta. Essa participação é rara, mas tem uma explicação: com o sistema digital implantado, a empresa distribuidora passa a economizar o custo das películas. Elas são caras para copiar (cerca de US$ 1500), para distribuir (chegam a pesar 30kg) e para armazenar (pois exigem certos cuidados, como a climatização do ambiente).
Devido à impossibilidade de aderir a esse sistema e à fila que existe com a enorme demanda e pouca oferta de equipamento, o mercado brasileiro não espera um boom de salas 3D, mas um aumento gradual e seguro. Ainda que os ingressos para tridimentionais sejam cerca de 30% mais caros e a lotação das salas seja quase duas vezes maior, os gastos com compra e manutenção de equipamentos por aqui são ainda mais altos.

Por causa do pequeno número de salas, o público faz fila para comprar ingressos para os filmes. No Imax 3D do Shopping Bourbon (foto), em São Paulo, a espera para Avatar segue uma semana desde a estreia do filme em dezembro. Para se ter ideia, ao todo, 4.559.675 pessoas assistiram Avatar 2D até o fim de fevereiro nas 2.376 salas do país. Para as 101 salas 3D, o público foi apenas 15% menor: 3.915.858, segundo a Fox e o site do mercado cinematográfico Filme B.
A tecnologia veio para ficar e só tende a evoluir para aumentar, cada vez mais, a sensação de sentir-se dentro do filme. “Essa diferenciação pode chegar a associar, além da projeção 3D, cheiros, movimentos de poltronas e simulação de chuva e nuvens através da emissão de água e gases como já se vê na tecnologia Xpand”, afirma a teórica Alessandra Medeiro. Mas, no Brasil, a julgar pelo ritmo da implementação, ainda vamos levar um bom tempo para entrar nessa fase. (Renata Reps)

Depois de Laís Bodanzky, Carlos Reichenbach e Uli Burtin, a produtora Rita Buzzar é a convidada do Cinema para discutir a qualidade das salas de São Paulo. Ela sabe muito bem que cinema não pode se parecer com TV: já trabalhou em novelas, como Ana Raio e Zé Trovão (1990), e em filmes, como Olga (2004) e Budapeste (2009).
Qual cinema de SP fez a melhor projeção de um filme seu?
As melhores sessões do Budapeste que vi foram no Arteplex Frei Caneca, no Shopping Jardim Sul e no Reserva Cultural.
E qual deixou a desejar nesse item?
Faz tempo que não vou em um cinema ruim e, quando tive experiências desagradáveis, procurei não voltar. Evito até pensar neles.
Quais salas da cidade você costuma frequentar?
Vou ao Cinemark Iguatemi e ao Frei Caneca pela proximidade com a minha casa. Quando estou aborrecida, vou ao Bourbon Imax, assistir aos filmes 3D e esquecer da vida. E gosto do Reserva, que tem projeção de qualidade e programação diferenciada.
Que dicas você daria para o público avaliar a qualidade de projeção de um filme?
Acho importante checar, nos primeiros minutos, se a cópia não está riscada, se está tudo focado e se a projeção não é muito escura. E verificar o som: se tem chiados, se há áreas da plateia em que se ouve pior e se as vozes dos atores estão muito graves. Outra coisa que perturba é quando o sistema de isolamento sonoro não é bom e o áudio da sala ao lado invade. Um outro detalhe que me incomoda é quando o cinema acende as luzes logo depois que o filme termina. Acho meio estraga-prazer. O tempo dos créditos finais é bom para prestigiar o elenco e a equipe técnica, além de dar aquela primeira refletida sobre o filme. As sensações e emoções desses momentos são sempre importantes. (Renata Reps)
2011
2010