
Elias sofre bullying no colégio e Christian acaba de chegar à cidade após perder a mãe, vítima de câncer. Centrado na amizade entre os dois garotos, estreia hoje Em Um Mundo Melhor, vencedor do Oscar e do Globo de Ouro na categoria de melhor filme em língua estrangeira.
A narrativa alterna esses momentos, na Dinamarca, e outros num vilarejo na África, onde um médico, pai de Elias, cuida de mulheres violentadas pelo chefe de uma gangue local. A violência, e, mais especificamente, a legitimidade do revide, é o que parece discutir a diretora Susanne Bier, de Brothers (2004) e Depois do Casamento (2006).
O caráter sociológico do tema traz riscos. Muita vezes, para comprovar a ‘tese’, o diretor, ou roteirista, constrói personagens simplificados, de complexidade reduzida. São tipos ideais, afinal, e não seres reais. É o mesmo desafio que encaram, bem ou mal, Todd Solondz, de Felicidade, e o também dinamarquês Lars Von Trier, colega de Susanne no Dogma 95, movimento que prega o realismo cinematográfico.
Mas Susanne não desliza nesse ponto. Seus personagens têm doses mais ou menos equivalentes de compaixão, mesquinhez, bom-mocismo e maldade. São contraditórios. Fiel a seu juramento, o médico não nega tratamento ao líder da gangue, que lhe é trazido com uma infecção letal. Mas é conivente com um dos atos mais violentos da trama ao encarar o fato de que nada pode transformar a essência daquele homem.
O desfecho do filme, no entanto, pacifica, com o perdão do termo, a discussão. Os garotos têm sua ‘lição de vida’. Compreendem ‘as consequências de seus atos’. Afinal, são muito amados pelos pais, em suas elegantes casas à beira do lago. Só um arremate como esse pode explicar, de alguma forma, o porquê de um filme originalmente intitulado ‘Vingança’ ganhar por aqui a esperançosa alcunha de Em Um Mundo Melhor. Apesar do desfecho, Susanne Bier não nos oferece sábias conclusões. E não indica o caminho para esse mundo melhor. Carolina Arantes

Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas venceu a Palma de Ouro no Festival Cannes de 2010 (e foi exibido aqui na 34ª Mostra de Cinema). O tailandês Apichatpong Weerasethakul, diretor do filme, também participou da Bienal de São Paulo, no ano passado, com o vídeo Fantasmas de Nabua. Seus trabalhos no cinema convidam, de fato, a uma disposição parecida com a que se tem diante de uma obra de arte.
Entender a história de Boonmee, um homem que sofre dos rins, mora em uma casa na mata e é visitado por espíritos, pode ser complexo. A jornada é contada de uma forma diferente dos padrões usuais do cinema. Mas talvez entender seja secundário – até porque, muito do que ele tem de melhor está em suas narrativas complementares, como o encontro entre uma princesa e um bagre.
Maravilhar-se com essas narrativas, porém, é fácil. As imagens, muitas delas filmadas nas chamadas ‘horas mágicas’ da fotografia (o amanhecer e o entardecer), ajudam. Há o verde claro e intenso das árvores, o lilás transparente de um véu em torno de uma cama. E os olhos vermelhos de um homem que se tornou um macaco. Deixe-se intrigar por este universo.

Não sabemos ao certo se Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos, como afirma o título do novo filme de Woody Allen. Mas o narrador irônico desta comédia dramática – uma ciranda de flertes, ilusões e confusões entre casais de Londres – vai lhe apresentar algumas possibilidades.
Há, por exemplo, Antonio Banderas, no papel de Greg Clemente, um homem sedutor que é dono de uma galeria de arte. (Conhecê-lo não há de ser tão ruim assim.) Ou então Josh Brolin, de Onde os Fracos Não têm Vez, que interpreta Roy, um grande escritor de… um sucesso só. Se este lhe parecer um pouco decepcionante, outra opção é Anthony Hopkins, como Alfie Shepridge, um homem cheio de vigor (e Viagra).
Os três vivem, respectivamente, o patrão, o marido e o pai de Sally (Naomi Watts). Antes de pensar que ela pode ser a ‘mulher dos seus sonhos’, porém, é melhor ficar de sobreaviso: apesar de charmosa, a garota tende a um ataque de nervos no desenrolar da trama.
Ela tem suas razões. Não bastasse estar confusa, irritada com o marido e caindo de amores pelo chefe, Sally tem uma mãe (Helena, interpretada por Gemma Jones) que aparece a toda hora em casa sem bater. Abandonada pelo marido assim que ele resolveu ‘não envelhecer’, Helena está fascinada por uma vidente que lhe fala tudo o que ela quer escutar. “Cristal diz que…” é uma frase que você (e Sally, Roy, Alfie e quem mais aparecer na história) vai ouvir muito durante o filme.
Há ainda outras candidatas a ‘mulher ideal’ neste longa: a belíssima Dia (Freida Pinto, de Quem Quer Ser um Milionário?), que só veste vermelho e deixa Roy maluco ao tocar Bocherini na janela em frente; e Charmaine (Lucy Punch), uma ‘atriz’ – entre mil aspas – que entra na vida de Alfie para bagunçá-la.
Mesmo que você não se apaixone tão facilmente quanto eles se apaixonam, ao menos vai rir de todos. E incluir este filme, com prazer, na simpática lista dos ‘filmes não geniais de Woody Allen’ aos quais você já assistiu.

Tudo é ao mesmo tempo sutil e grave em Um Homem que Grita, belíssimo filme feito na República do Chade. Mahamat-Saleh Haroun, o diretor, encontrou um ritmo raro para contar o drama de Adam (Youssouf Djaoro), um homem que cuida da piscina de um hotel de luxo junto com o filho. O país vive uma guerra civil e ele, um ex-campeão de natação, se vê obrigado a decidir se vai mandar dinheiro ou o rapaz para o ‘esforço de guerra’. Dinheiro, ele não tem. E, se ficar, o filho pode tomar o seu emprego, já que o hotel está cortando gastos.
Aos poucos, vai se traçando um retrato não-ruidoso do conflito deste homem, perdido em seu país. O filme (vencedor do Prêmio do Juri em Cannes) dá tempo e silêncio suficientes para que você o acompanhe. E para que, conhecendo os olhos e a índole de Adam, se surpreenda com um roteiro que mais sugere do que aponta caminhos – e é tão encantador quanto a fotografia. Cenas amorosas e lentas se alternam ao caos do mundo. E, mais para o fim, a garota Djénéba Koné canta na língua africana (e não no francês do Chade) uma música que compôs. Siga a história até a última imagem: depois dela, um poema de Aimé Césaire esclarece o percurso recém-atravessado.

Exagerado, ingênuo e frenético como toda adolescência, Scott Pilgrim Contra o Mundo é uma divertida e nostálgica celebração à cultura pop-geek da geração que cresceu jogando videogames 8 bits. Com humor afiado e repleto de interferências gráficas e transições criativas oriundas da linguagem dos mangás e games, dirige-se a um público bem específico. Mas, para estes, trata-se de uma apaixonada homenagem à época em que nossos hobbies moldavam nossa visão de mundo. (André Graciotti)

Sejam filmes de terror existencialistas (Trouble Every Day), narrativas intimistas (35 Doses de Rum) ou experimentações ambiciosas (O Intruso), os trabalhos da francesa Claire Denis sempre promovem ao espectador experiências sensoriais cheias de mistério. Minha Terra, África fala de uma fazendeira europeia que luta para manter sua plantação de café, enquanto o país africano (e fictício) onde vive vai sendo dominado por rebeldes violentos.
Maria já não tem funcionários, apoio do ex-marido – que quer vender as terras – ou proteção das autoridades do país. E corre sério risco de vida. Mas não vê sentido em deixar o lugar onde construiu a vida trabalhando. O filme toca em temas como política, violência, desigualdade social. E, ainda assim, tudo é sensual e misterioso. Tem a ver com o jeito de Claire contar a história. Sem se preocupar em ser didática, ela parece observar seus personagens com o olhar desinformado dos espectadores – o que nos obriga a ir juntado peças para entender o que se passa. Seu ponto de identificação são os sentimentos de Maria, que Isabelle Huppert vive sem maquiagem – mas também cheia de sensualidade e mistério.

Saramago termina um romance – mas vive por inteiro o amor pela jornalista espanhola Pilar del Rio – nos três anos em que Miguel Gonçalves Mendes documentou José e Pilar. A ela, o escritor dedica seus livros.
E, com ela, espera por muitos aviões, comparece a eventos intermináveis e até se casa de novo. Sozinho, escala uma montanha, joga paciência e, claro, escreve.

A Suprema Felicidade é o primeiro longa de Arnaldo Jabor desde Eu Sei que Vou te Amar, de 1984. Sua inspiração vem, porém, de antes disso: o diretor recriou lembranças da infância e da família para falar das dores de Pedrinho, um garoto que cresce no Rio nas décadas de 40 e 50. Mas são de Marco Nanini, o avô do garoto, os melhores momentos deste filme nostálgico. (Luiza Pereira)

Os títulos de filmes traduzidos para o português podem surpreender. Disengagement (em português, ‘Desimpedimento’), por exemplo, virou Aproximação. Já The Switch (‘A Troca’) foi transformado em Coincidências do Amor. Nesta semana, mais um exemplo de tradução criativa: estreia hoje (22) Homens em Fúria – originalmente Stone, que pode ser traduzido como ‘rocha’.
Mas, no filme, a palavra é também o apelido de um prisioneiro (Edward Norton) condenado pelo assassinato dos próprios avós. Sua única chance de conseguir a liberdade condicional é provar ao oficial Jack Mabry (Robert De Niro) que está apto a viver em sociedade. Para isso, Stone conta com a ajuda – e com a capacidade de sedução – da mulher (Milla Jovovich). Cabe a ela persuadir o policial a soltar seu marido. Norton e De Niro impressionam pelas boas atuações, sob direção de John Curran. Mas os ótimos atores não são suficientes para sustentar a trama fraca, que pode decepcionar grande parte dos espectadores. E até, quem sabe, deixá-los em fúria. (Luiza Pereira)

Com o passar dos anos, Ben Kalmen (Michael Douglas) não avançou na carreira. Na verdade, apenas acumulou dívidas. Mas, se ele não tem boas experiências nos negócios, certamente as teve na vida amorosa – e decide transmiti-las aos mais jovens. Apesar da proposta curiosa, nem o roteiro nem os personagens de O Solteirão são realmente sedutores. (Luiza Pereira)
2011
2010