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Cinema

11.março.2011 06:00:23

Mundo melhor?

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Elias sofre bullying no colégio e Christian acaba de chegar à cidade após perder a mãe, vítima de câncer. Centrado na amizade entre os dois garotos, estreia hoje Em Um Mundo Melhor, vencedor do Oscar e do Globo de Ouro na categoria de melhor filme em língua estrangeira.

A narrativa alterna esses momentos, na Dinamarca, e outros num vilarejo na África, onde um médico, pai de Elias, cuida de mulheres violentadas pelo chefe de uma gangue local. A violência, e, mais especificamente, a legitimidade do revide, é o que parece discutir a diretora Susanne Bier, de Brothers (2004) e Depois do Casamento (2006).

O caráter sociológico do tema traz riscos. Muita vezes, para comprovar a ‘tese’, o diretor, ou roteirista, constrói personagens simplificados, de complexidade reduzida. São tipos ideais, afinal, e não seres reais. É o mesmo desafio que encaram, bem ou mal, Todd Solondz, de Felicidade, e o também dinamarquês Lars Von Trier, colega de Susanne no Dogma 95, movimento que prega o realismo cinematográfico.

Mas Susanne não desliza nesse ponto. Seus personagens têm doses mais ou menos equivalentes de compaixão, mesquinhez, bom-mocismo e maldade. São contraditórios. Fiel a seu juramento, o médico não nega tratamento ao líder da gangue, que lhe é trazido com uma infecção letal. Mas é conivente com um dos atos mais violentos da trama ao encarar o fato de que nada pode transformar a essência daquele homem.

O desfecho do filme, no entanto, pacifica, com o perdão do termo, a discussão. Os garotos têm sua ‘lição de vida’. Compreendem ‘as consequências de seus atos’. Afinal, são muito amados pelos pais, em suas elegantes casas à beira do lago. Só um arremate como esse pode explicar, de alguma forma, o porquê de um filme originalmente intitulado ‘Vingança’ ganhar por aqui a esperançosa alcunha de Em Um Mundo Melhor. Apesar do desfecho, Susanne Bier não nos oferece sábias conclusões. E não indica o caminho para esse mundo melhor. Carolina Arantes

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21.janeiro.2011 19:57:12

Beleza misteriosa

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Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas venceu a Palma de Ouro no Festival Cannes de 2010 (e foi exibido aqui na 34ª Mostra de Cinema). O tailandês Apichatpong Weerasethakul, diretor do filme, também participou da Bienal de São Paulo, no ano passado, com o vídeo Fantasmas de Nabua. Seus trabalhos no cinema convidam, de fato, a uma disposição parecida com a que se tem diante de uma obra de arte.

Entender a história de Boonmee, um homem que sofre dos rins, mora em uma casa na mata e é visitado por espíritos, pode ser complexo. A jornada é contada de uma forma diferente dos padrões usuais do cinema. Mas talvez entender seja secundário – até porque, muito do que ele tem de melhor está em suas narrativas complementares, como o encontro entre uma princesa e um bagre.

Maravilhar-se com essas narrativas, porém, é fácil. As imagens, muitas delas filmadas nas chamadas ‘horas mágicas’ da fotografia (o amanhecer e o entardecer), ajudam. Há o verde claro e intenso das árvores, o lilás transparente de um véu em torno de uma cama. E os olhos vermelhos de um homem que se tornou um macaco. Deixe-se intrigar por este universo.

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09.julho.2010 12:00:27

Sessão nostalgia

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A crise da meia idade não poupa ninguém – nem mesmo ogros. Depois de três filmes, nos quais gradativamente trocou sua liberdade por mulher, filhos e responsabilidades, Shrek chega a Shrek para Sempre com dificuldades para reconhecer a si mesmo no espelho. Para sorte do monstro (e de seus roteiristas preguiçosos), Frank Capra inventou a solução para esse tipo de problema mais de 60 anos atrás, com A Felicidade Não se Compra (1946). Graças a um acordo com o duende Rumpelstiltskin, o protagonista ganha 24 horas para reviver seus tempos de solteirão – e também para descobrir que o reino de Tão Tão Distante seria muito pior se ele jamais tivesse existido. Neste lastimável mundo novo, o Gato de Botas se tornou gordo e mimado; o Burro nunca se apaixonou pela dragoa; e Fiona, solitária, lidera um bando de ogros rebeldes.

Na versão legendada, o vilão Rumpelstiltskin não é dublado por uma ator famoso, e sim por um dos chefes de animação do estúdio DreamWorks, Walt Dohrn.

É adequado. Seu contrato mágico não tenta ‘libertar’ apenas Shrek, o personagem. Nestes nove anos desde o primeiro filme, a própria franquia também foi domesticada. Surgida como uma paródia às fábulas da Disney, há tempos ela perdeu essa função contestatória. Em parte, porque todas as animações que vieram depois de Shrek absorveram um pouco de sua ironia pop. E, em parte, porque a Pixar, concorrente da DreamWorks, estabeleceu um outro modelo de longa-metragem animado – sem se importar em seguir (ou parodiar) a desgastada fórmula da Disney.

E é um modelo difícil de se copiar. Assim como Toy Story 3, este também é o último filme de uma cinessérie querida. Shrek ganhou uma despedida certamente mais adulta, mas também melancólica, com poucos bons momentos. Na tela e fora dela, o ogro verde não amadureceu direito.

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O melhor de O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus foi consequência de uma fatalidade. Talvez você conheça a história: as filmagens ainda não tinham acabado quando Heath Ledger, o protagonista, morreu. Sem muitas alternativas, o diretor Terry Gilliam (de O Pescador de Ilusões e Os 12 Macacos) decidiu que, em certas cenas, seu personagem seria vivido por outros atores – e contratou Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. Virou uma solução genial.

O filme fala de uma trupe de teatro que circula por Londres, liderada por Dr. Parnassus (Christopher Plummer). Ele tem uma rixa histórica com o diabo (Tom Waits) e precisa conquistar cinco almas antes dele, se não quiser perder a sua filha. As disputas acontecem em um mundo imaginário, acessado por um espelho falso no palco de Parnassus.

É nesse espaço – reflexo da imaginação de quem passa pelo espelho – que o personagem de Heath, um rapaz que se junta a Parnassus, assume novas formas. O filme é o que parece: uma loucura que não chega muito a lugar nenhum (nem se equipara com os melhores trabalhos de Gilliam). Mas a dança de atores é divertida – e enriqueceu, de alguma maneira, o universo do longa. (Rafael Barion)

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16.abril.2010 13:17:28

Mentiras sinceras

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Zona Verde não é a quarta aventura do agente Jason Bourne, mas faz sentido se você confundir: o filme tem o mesmo ator (Matt Damon), o mesmo diretor (Paul Greengrass) e as mesmas câmeras irrequietas e cortes alucinados de A Identidade Bourne e A Supremacia Bourne. Desta vez, porém, se a ficção de Greengrass parece realidade, não é só por causa do seu modo polêmico de encenar – é também porque ela tenta reconstruir uma situação (algo) real.

O filme se passa semanas após a invasão americana no Iraque, em 2003. Roy Miller, o personagem de Damon, é um subtenente do exército dos EUA que está encarregado de procurar as armas de destruição em massa de Saddam Hussein que justificaram a ação militar. Mas toda informação que ele recebe do serviço de inteligência aponta para locais onde não há armamento nenhum.

Em pouco tempo, Miller se dá conta de que sua missão é, de fato, fingir que está buscando armas – e passa a investigar, por conta própria, por que ninguém parece se importar com isso.

Para escrever sua história, Greengrass e o roteirista Brian Helgeland partiram do livro que Rajiv Chandrasekaran, ex-chefe da sucursal do Washington Post em Bagdá, escreveu sobre a ‘zona verde’ – a área fortificada da cidade que passou a servir de base às forças estrangeiras. ‘A Vida Imperial na Cidade Esmeralda’ conta como esta região se tornou uma espécie de ‘bolha’ alheia aos problemas reais do resto do país.

O diretor reconstruiu este universo, mas fez, a partir dele, uma ficção. Como em ‘Domingo Sangrento’ e ‘Voo United 93’, Greengrass se apropriou de um fato real para usá-lo como material para um thriller. No filme sobre o avião sequestrado em 11/9, havia algo de imoral em transformar um drama real e recente em entretenimento. ‘Zona Verde’ pode ser diferente, mas a verdade, novamente, não é a questão. O que o personagem de Damon descobre pode não estar longe dos fatos, mas o longa não faz política – faz você pular (de excitação ou de irritação) na cadeira do cinema. Como os filmes de Bourne. (Rafael Barion)

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