
É engraçado notar como o 3D tem sido tratado como uma revolução. De fato é. Mas ele também reitera, quase ciclicamente, outros avanços técnicos do cinema. Por exemplo: assim como tem gente classificando ‘Avatar’ mais como um ‘passeio de parque de diversões’ do que como um grande filme, na década de 30 havia cineastas que consideravam o advento da película colorida uma espécie de ‘desmoralização da arte’.
Toda grande novidade tem esse período de ajuste, essa curva de aprendizado. O setor artístico ainda pode se dar ao luxo de gastar alguns instantes questionando como (e se deve) aplicar o 3D. Mas o mercado não. Todos os dados indicam que o público aceitou de vez a nova técnica – e está ávido por mais. Em 2009, apenas 97 das 2.376 salas do Brasil tinham esse tipo de projeção. Ainda assim, elas foram responsáveis por atrair 7,2 milhões de espectadores, ou cerca de 6,5% do público total do ano, segundo dados do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Município do Rio de Janeiro.
Em 2010, os prognósticos são ainda mais favoráveis. Estamos em março e já chegamos a 101 salas 3D. Várias outras serão inauguradas neste semestre. A quantidade de filmes no formato também será maior – há pelos menos 15 títulos já agendados. Mas a tal curva de aprendizado ainda está só no começo. Como tanto longa-metragem caberá em um circuito tão pequeno? Quanto custa implementar uma sala assim? Essas e outras perguntas serão respondidas nesta série de posts.
No próximo post: o que vai acontecer com o 2D? (Renata Reps)

(Este é o quarto post na série que explica o sistema de distribuição de filmes no Brasil. Confira o primeiro, o segundo e o terceiro).
Onde você entra no processo de distibuição? Bem antes do que imagina. Seu mero interesse por um filme, antes mesmo da estreia, é o principal fator para “inflacionar” seu preço na hora da distribuidora vendê-lo ao exibidor. Blockbusters custam caro. Já filmes não tão ‘quentes’ podem ser vendidos por um preço mais em conta - alguns, até em pacotes na linha “pague 2, leve 3″. Depois que o filme entra em cartaz, a inescapável lei da oferta-e-procura segue firme. Se a frequência do público cai, o exibidor substitui a película por outra, mais recente ou com maior apelo.
Mas prever esse interesse, claro, não é uma ciência exata. Basta passar no HSBC Belas Artes, em São Paulo, para ter um exemplo evidente: um filme pequeno, francês, está em cartaz desde julho de 2008 2007! O drama Medos Privados em Lugares Públicos (foto) é um desses fenômenos que desafiam explicação.
Na verdade, até há uma justificativa, mesmo que parcial. Ele está ’morando’ no Belas Artes há tanto tempo porque a ‘dona’ do cinema é também a distribuidora do filme, a Pandora. (Essa duplicidade de cargos, aliás, é proibida por lei nos EUA). O diretor-geral da Pandora, André Sturm, porém, garante que ele ainda dá lucro - a audiência realmente se apaixonou pela película. “Na última terça-feira de Carnaval, numa sessão às 14h, foram 58 pessoas”, comemora. ”O filme virou uma febre, todo mundo assiste e fala para os amigos, e assim ele permanece dando público.”
No post de segunda-feira (1/3), saiba por que existe tanta tradução de títulos ruins no Brasil – e por que tanto filme parece melhor no trailer do que realmente é. (Renata Reps)

(Este é o terceiro post da reportagem sobre como funciona o sistema de distribuição de filmes no Brasil. Confira o primeiro e o segundo).
Basta entrar na fila de alguma bilheteria para ouvir reclamações de que o preço do ingresso é muito alto. Mas você sabe para onde vai o suado dinheiro do seu salário?
O produtor tem interesse que seu longa-metragem seja distribuído pela empresa que oferecer maior prestígio. Mas a má notícia é que ele fica com a menor parte dos rendimentos. O exibidor fica com 45% a 50% da renda de bilheteria, salvo impostos. “Mas é ele também quem tem os maiores gastos com trâmites operacionais do filme, salas, equipamentos e pessoal”, afirma a coordenadora do Centro de Análise do Cinema e do Audiovisual, Alessandra Meleiro.
A melhor chance de margem de lucro fica mesmo com a distribuidora, que pode negociar para comprar os filmes ao menor preço possível e, no fim do processo, recebe de 20% a 25% da arrecadação da bilheteria. Cabe ao exibidor pagar pelas cópias em película do filme, que chegam a custar até US$ 1500. Seu principal gasto é a realização das cópias em película dos filmes que chegam a custar até US$ 1500 cada. Há também investimento na publicidade e na organização de exibições para a impressa, pré-estreias, photocalls, etc.

E quanto ao período que o filme permanece em cartaz? Cada distribuidora negocia com o exibidor da forma que mais lhe convém. Para títulos importantes, como Homem de Ferro 2 (no alto) ou Robin Hood (acima), geralmente são definidos lançamentos nacionais, que atingem 90% dos cinema do país – algo em torno de 750. Às vezes, o contrato estabelece um período mínimo para que o longa fique em exibição. A maioria, no entanto, segue a regra de que ele precisa alcançar uma renda média durante a semana para continuar no circuito. Se, durante o fim de semana, a película faz 60% dessa média, a resposta é positiva. A decisão de tirar ou não o filme da grade acontece nas segundas ou terças-feiras, para dar tempo de escolher seu ‘substituto’ na sexta seguinte.
Há, porém, exceções à regra. No post de segunda-feira (1/3), conheça o bizarro caso do filme que está há dois anos em cartaz em São Paulo. (Renata Reps)

Alguma vez você já se perguntou por que determinado filme não chegou ao cinema que fica perto da sua casa? Ou quando é que a cidade da sua mãe, no interior do Estado, vai enfim exibir aquele longa que fez sucesso na capital faz algum tempo? Já se irritou com legendas erradas ou títulos que não têm nada a ver com o original? Foi assistir a um filme só porque achou o trailer sensacional?
Senhoras e senhores, eis a participação especial das distribuidoras. São elas as responsáveis por todo o processo que vai desde o momento em que o filme fica pronto até sua chegada aos aparelhos de DVD e BluRay – passando pela programação das salas de cinema, é claro. Pouca gente sabe como esse mundo funciona e quais fatores influenciam as decisões dessas empresas. Aqui, em posts diários, você vai conhecer um pouco mais sobre o mercado que organiza os bastidores das telonas.
Amanhã (sáb., 27), você vai conhecer os principais envolvidos nesse setor e também os dois eventos anuais que estabelecem o calendário de estreias que irá funcionar ao longo do ano. No domingo (28), descubra quem fica com a maior parte da grana que você deixa na bilheteria: o distribuidor, o exibidor ou o produtor do filme? E vem muito mais por aí. Aguarde! (Renata Reps)
2011
2010