O melhor de O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus foi consequência de uma fatalidade. Talvez você conheça a história: as filmagens ainda não tinham acabado quando Heath Ledger, o protagonista, morreu. Sem muitas alternativas, o diretor Terry Gilliam (de O Pescador de Ilusões e Os 12 Macacos) decidiu que, em certas cenas, seu personagem seria vivido por outros atores – e contratou Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. Virou uma solução genial.
O filme fala de uma trupe de teatro que circula por Londres, liderada por Dr. Parnassus (Christopher Plummer). Ele tem uma rixa histórica com o diabo (Tom Waits) e precisa conquistar cinco almas antes dele, se não quiser perder a sua filha. As disputas acontecem em um mundo imaginário, acessado por um espelho falso no palco de Parnassus.
É nesse espaço – reflexo da imaginação de quem passa pelo espelho – que o personagem de Heath, um rapaz que se junta a Parnassus, assume novas formas. O filme é o que parece: uma loucura que não chega muito a lugar nenhum (nem se equipara com os melhores trabalhos de Gilliam). Mas a dança de atores é divertida – e enriqueceu, de alguma maneira, o universo do longa. (Rafael Barion)
Garotos que nunca tinham atuado antes têm sido os melhores atores dos filmes brasileiros recentes. É o caso de Francisco Miguez e Gabriela Rocha, de As Melhores Coisas do Mundo, e também de Henrique Larré e Samuel Reginatto (foto), de Os Famosos e os Duendes da Morte, que se manteve em cartaz por mais esta semana.
O filme de Esmir Filho deve muito a Paranoid Park, de Gus van Sant. E quem está atento às novidades do cinema mundial pode sentir ares do tailandês Apichatpong Weerasethakul e do português Miguel Gomes aqui e ali.
Mas Esmir usa essas referências para contar uma história que você nunca viu no cinema – como ser jovem do interior (do sul) do país. As duas coisas (as referências e o tema) o tornam bastante único. Veja depois de As Melhores Coisas do Mundo e você vai experimentar duas formas de fazer cinema – e de ser adolescente. (Rafael Barion)
Há cenas em Tudo Pode Dar Certo que podem fazê-lo se lembrar de algum trabalho de Woody Allen dos anos 70. Não quer dizer que ele tenha voltado a fazer filmes como Manhattan ou Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. É só um indício de que o roteiro foi, de fato, escrito naquela época.
Allen esperava uma brecha na agenda do ator Zero Mostel para filmá-lo. Mas ele morreu antes, em 1977, e o projeto parou. Quando teve de fazer um filme às pressas, porém, o diretor recorreu à história. ‘Qualquer coisa que funcione’, o nome original (Whatever Works), não é um título adequado só por isso. A frase resume a forma como Allen sempre levou sua vida e carreira – e é a alma do filme.
Larry David (produtor das séries Seinfeld e Curb Your Enthusiasm) empresta sua persona mal-humorada a Boris, um físico pedante que acha que a vida não tem mais graça. Mas são as convicções de uma garota caipira (Evan Rachel Wood) e sua família religiosa que passam a fazê-lo rever suas posições. O diretor não filmou nada de forma genial (tudo é básico, sem firulas), mas o que ele diz é cheio de vigor – e boas piadas. Não, Allen não acha que tudo possa dar certo. Mas conseguiu fazer um filme funcionar outra vez. (Rafael Barion)
Mais arrogante, debochado e exibicionista. É assim que encontramos Tony Stark (Robert Downey Jr.) no começo de Homem de Ferro 2. Depois de admitir que é o super-herói e conseguir “privatizar a paz mundial”, o ego de Stark explodiu. Enquanto se mostra (e dá vexames) em público, ele tem, porém, ao menos três grandes problemas a resolver.
O surgimento do herói criou uma corrida mundial para tentar copiar a sua armadura – e o governo americano, apoiado pelo fabricante de armas Justin Hammer (Sam Rockwell), quer que ele a entregue ao exército. Além disso, a placa alojada em seu peito está debilitando a sua saúde. E há um russo (vivido por Mickey Rourke) que também sabe construir armas poderosas – e quer destruí-lo.
Você já deve imaginar que tudo isso vem acompanhado de boas sequencias de ação – a primeira, durante um GP em Mônaco, é impressionante. O que torna o filme de Jon Favreau divertido, porém, são os diálogos criados pelo roteirista Justin Theroux, que parece ter escrito as falas de Stark, Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e da espiã Viúva Negra (Scarlett Johansson) como quem escreve uma comédia de relacionamentos. (Rafael Barion)
Zona Verde não é a quarta aventura do agente Jason Bourne, mas faz sentido se você confundir: o filme tem o mesmo ator (Matt Damon), o mesmo diretor (Paul Greengrass) e as mesmas câmeras irrequietas e cortes alucinados de A Identidade Bourne e A Supremacia Bourne. Desta vez, porém, se a ficção de Greengrass parece realidade, não é só por causa do seu modo polêmico de encenar – é também porque ela tenta reconstruir uma situação (algo) real.
O filme se passa semanas após a invasão americana no Iraque, em 2003. Roy Miller, o personagem de Damon, é um subtenente do exército dos EUA que está encarregado de procurar as armas de destruição em massa de Saddam Hussein que justificaram a ação militar. Mas toda informação que ele recebe do serviço de inteligência aponta para locais onde não há armamento nenhum.
Em pouco tempo, Miller se dá conta de que sua missão é, de fato, fingir que está buscando armas – e passa a investigar, por conta própria, por que ninguém parece se importar com isso.
Para escrever sua história, Greengrass e o roteirista Brian Helgeland partiram do livro que Rajiv Chandrasekaran, ex-chefe da sucursal do Washington Post em Bagdá, escreveu sobre a ‘zona verde’ – a área fortificada da cidade que passou a servir de base às forças estrangeiras. ‘A Vida Imperial na Cidade Esmeralda’ conta como esta região se tornou uma espécie de ‘bolha’ alheia aos problemas reais do resto do país.
O diretor reconstruiu este universo, mas fez, a partir dele, uma ficção. Como em ‘Domingo Sangrento’ e ‘Voo United 93’, Greengrass se apropriou de um fato real para usá-lo como material para um thriller. No filme sobre o avião sequestrado em 11/9, havia algo de imoral em transformar um drama real e recente em entretenimento. ‘Zona Verde’ pode ser diferente, mas a verdade, novamente, não é a questão. O que o personagem de Damon descobre pode não estar longe dos fatos, mas o longa não faz política – faz você pular (de excitação ou de irritação) na cadeira do cinema. Como os filmes de Bourne. (Rafael Barion)
2011
2010