
Depois de Lixo Extraordinário, João Jardim dá adeus ao retrato edificante do homem para investigar sua miséria em Amor?, documentário que enfoca a violência doméstica por meio de relatos reais, de pessoas que tiveram sua identidade protegida pela dramatização.
Ainda que o recurso, e também a edição, lembrem bastante Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, em Amor?, Jardim alterna os depoimentos com cenas de grande carga poética, muitas delas envolvendo água. (Uma metáfora recorrente: o banho que leva embora os ferimentos, a vergonha, a culpa?)
Responsável pelo primeiro depoimento, Lilia Cabral, memorável, revela a complexidade e, aos poucos, a contradição dos argumentos desta primeira personagem que ‘precisou apanhar’ para se tornar ‘uma mulher de verdade’ – e cujo conflito físico, argumenta, foi ponto de partida para a salvação do casamento. Em comum, os relatos (encenados ainda por Julia Lemmertz, Ângelo Antônio, Du Moscovis e outros) trazem a incômoda sensação de que, não dificilmente, nos envolveríamos em situações semelhantes, todas elas incompatíveis com os reducionistas ou mesmo equivocados conceitos de ‘vítima’ e ‘algoz’. Carolina Arantes

Uma garota sonhadora decide buscar a fama no show business. Essa é a trama de muitos musicais – e Burlesque não é diferente. Ali (Christina Aguilera) vai para Los Angeles atrás do estrelato. Lá, trabalha no bar de Tess (Cher), ex-dançarina de cabaré. Apesar do roteiro pouco criativo, o filme levou o Globo de Ouro de canção e concorria a melhor filme (entre comédias e musicais). Mas está também indicado ao Framboesa de Ouro, na categoria pior atriz coadjuvante (para Cher). Luiza Wolf

Há algumas semanas, o Cinesesc presta uma homenagem ao diretor italiano Luchino Visconti. Depois dos filmes Belíssima e Morte em Veneza, o cinema exibe, a partir de hoje (11), Violência e Paixão (1974), em cópia restaurada e inédita. Na trama, a vida de um professor de Roma é infernizada por seus inquilinos. Luiza Wolf

Biutiful é o primeiro filme ‘solo’ do mexicano Alejandro Iñárritu após o fim da parceria com o roteirista Guillermo Arriaga, que resultou nos badalados Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. No novo trabalho, o diretor retoma o teor dramático dos filmes anteriores, mas, finalmente, abre mão da fragmentação narrativa e da pluralidade de núcleos. Centrado na figura de Uxbal (Javier Bardem, premiado em Cannes por sua atuação), o longa se passa numa Barcelona irreconhecível, de ruelas imundas e apartamentos mofados. É o universo dos imigrantes e do trabalho informal – eufemismo, neste caso, para a escravidão contemporânea.
Uxbal sobrevive como intermediador de trabalhadores chineses e senegaleses, seus patrões e a polícia corrupta. Quando se vê com câncer, tenta assegurar o futuro dos filhos, única dimensão imaculada de sua vida, e se redimir de seus crimes – dos quais, como uma espécie de herói trágico, é mais vítima. O filme concorreu ao Globo de Ouro e está entre os nove ‘pré-selecionados’ na categoria de melhor longa estrangeiro no Oscar. (Os indicados saem na 3ª.) Sua sordidez extremada, porém, pode assustar os jurados da Academia, que costumam preferir opções mais ‘digeríveis’. Carol Arantes

Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas venceu a Palma de Ouro no Festival Cannes de 2010 (e foi exibido aqui na 34ª Mostra de Cinema). O tailandês Apichatpong Weerasethakul, diretor do filme, também participou da Bienal de São Paulo, no ano passado, com o vídeo Fantasmas de Nabua. Seus trabalhos no cinema convidam, de fato, a uma disposição parecida com a que se tem diante de uma obra de arte.
Entender a história de Boonmee, um homem que sofre dos rins, mora em uma casa na mata e é visitado por espíritos, pode ser complexo. A jornada é contada de uma forma diferente dos padrões usuais do cinema. Mas talvez entender seja secundário – até porque, muito do que ele tem de melhor está em suas narrativas complementares, como o encontro entre uma princesa e um bagre.
Maravilhar-se com essas narrativas, porém, é fácil. As imagens, muitas delas filmadas nas chamadas ‘horas mágicas’ da fotografia (o amanhecer e o entardecer), ajudam. Há o verde claro e intenso das árvores, o lilás transparente de um véu em torno de uma cama. E os olhos vermelhos de um homem que se tornou um macaco. Deixe-se intrigar por este universo.

No filme original, personagens vestindo capacetes se digladiavam em cenários virtuais coloridos. O gaiato programador virtual/hacker Kevin Flynn (Jeff Bridges) adentrara nesse mundo para recuperar sua autoria de sistemas da empresa Encom. Tron – Uma Odisseia Eletrônica se tornou cult, porque suscitava questões originais sobre o tema. Não resta muito desse clima de descoberta em Tron – O Legado, continuação que estreia hoje, quase três décadas depois.
Flynn – vivido de novo por Jeff Bridges – conta ao filho pequeno sobre ‘A Grade’, um extraordinário mundo virtual. Mas logo desaparece. Adivinhe onde ele foi parar.
Aos 27 anos, Sam Flynn (Garrett Hedlund), o maior acionista da Encom, é estimulado a ir em busca do pai. Com ele, o espectador vai conhecer um mundo virtual em 3D, com cenários frios, pretos e elegantes, distantes da estética charmosamente tosca dos anos 80. Pelo menos, por ali, reina a trilha sonora do Daft Punk. E ainda há corridas de motocicletas e batalhas de discos em um estádio lotado, com um público (também virtual) que vai ao delírio.
Mas, nesta sequência, o foco mudou. No primeiro filme, a realidade virtual era uma novidade capaz de provocar discussões (nerds) profundas. Agora, a prioridade é uma relação sentimental entre pai e filho. Bridges continua ali e o colega Alan (Bruce Boxleitner, que vive Tron), também. Mas o roteirista e diretor do original, Steven Lisberger, assina só a produção do filme de Joseph Kosinski – e, claro, uma consultoria. Falta criatividade à sequência. Às vezes, parece só um videogame moderno. Que você nem está jogando.

Não sabemos ao certo se Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos, como afirma o título do novo filme de Woody Allen. Mas o narrador irônico desta comédia dramática – uma ciranda de flertes, ilusões e confusões entre casais de Londres – vai lhe apresentar algumas possibilidades.
Há, por exemplo, Antonio Banderas, no papel de Greg Clemente, um homem sedutor que é dono de uma galeria de arte. (Conhecê-lo não há de ser tão ruim assim.) Ou então Josh Brolin, de Onde os Fracos Não têm Vez, que interpreta Roy, um grande escritor de… um sucesso só. Se este lhe parecer um pouco decepcionante, outra opção é Anthony Hopkins, como Alfie Shepridge, um homem cheio de vigor (e Viagra).
Os três vivem, respectivamente, o patrão, o marido e o pai de Sally (Naomi Watts). Antes de pensar que ela pode ser a ‘mulher dos seus sonhos’, porém, é melhor ficar de sobreaviso: apesar de charmosa, a garota tende a um ataque de nervos no desenrolar da trama.
Ela tem suas razões. Não bastasse estar confusa, irritada com o marido e caindo de amores pelo chefe, Sally tem uma mãe (Helena, interpretada por Gemma Jones) que aparece a toda hora em casa sem bater. Abandonada pelo marido assim que ele resolveu ‘não envelhecer’, Helena está fascinada por uma vidente que lhe fala tudo o que ela quer escutar. “Cristal diz que…” é uma frase que você (e Sally, Roy, Alfie e quem mais aparecer na história) vai ouvir muito durante o filme.
Há ainda outras candidatas a ‘mulher ideal’ neste longa: a belíssima Dia (Freida Pinto, de Quem Quer Ser um Milionário?), que só veste vermelho e deixa Roy maluco ao tocar Bocherini na janela em frente; e Charmaine (Lucy Punch), uma ‘atriz’ – entre mil aspas – que entra na vida de Alfie para bagunçá-la.
Mesmo que você não se apaixone tão facilmente quanto eles se apaixonam, ao menos vai rir de todos. E incluir este filme, com prazer, na simpática lista dos ‘filmes não geniais de Woody Allen’ aos quais você já assistiu.

Tudo é ao mesmo tempo sutil e grave em Um Homem que Grita, belíssimo filme feito na República do Chade. Mahamat-Saleh Haroun, o diretor, encontrou um ritmo raro para contar o drama de Adam (Youssouf Djaoro), um homem que cuida da piscina de um hotel de luxo junto com o filho. O país vive uma guerra civil e ele, um ex-campeão de natação, se vê obrigado a decidir se vai mandar dinheiro ou o rapaz para o ‘esforço de guerra’. Dinheiro, ele não tem. E, se ficar, o filho pode tomar o seu emprego, já que o hotel está cortando gastos.
Aos poucos, vai se traçando um retrato não-ruidoso do conflito deste homem, perdido em seu país. O filme (vencedor do Prêmio do Juri em Cannes) dá tempo e silêncio suficientes para que você o acompanhe. E para que, conhecendo os olhos e a índole de Adam, se surpreenda com um roteiro que mais sugere do que aponta caminhos – e é tão encantador quanto a fotografia. Cenas amorosas e lentas se alternam ao caos do mundo. E, mais para o fim, a garota Djénéba Koné canta na língua africana (e não no francês do Chade) uma música que compôs. Siga a história até a última imagem: depois dela, um poema de Aimé Césaire esclarece o percurso recém-atravessado.

Duas mostras de cinema italiano exibem filmes contemporâneos e obras de Dino Risi (1916- 2008). A 6ª Semana Cinema Venezia, que começa 2ª (22), tem Perfume de Mulher na programação (foto). E a 6ª Semana Pirelli, a partir de hoje (19), no Belas Artes, inclui longas com o ator Ugo Tognazzi e Os Monstros, também de Risi.

Exagerado, ingênuo e frenético como toda adolescência, Scott Pilgrim Contra o Mundo é uma divertida e nostálgica celebração à cultura pop-geek da geração que cresceu jogando videogames 8 bits. Com humor afiado e repleto de interferências gráficas e transições criativas oriundas da linguagem dos mangás e games, dirige-se a um público bem específico. Mas, para estes, trata-se de uma apaixonada homenagem à época em que nossos hobbies moldavam nossa visão de mundo. (André Graciotti)
2011
2010