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Cinema

04.fevereiro.2011 19:07:02

Quebrar o gesso

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Natalie Portman é esplêndida como Nina Sayers, a bailarina atormentada que protagoniza Cisne Negro. Dirigida por Darren Aronofsky (de Pi, Réquiem para um Sonho e O Lutador), Natalie enche de vida – e de pavor – o corpo magro da personagem, uma garota perfeccionista cujo sonho vemos se transformar em um transtorno.

Nina integra o balé de Nova York e sonha em obter o papel principal da próxima montagem: O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Mas a escolhida terá de viver, além do Cisne Branco, para o qual ela já é perfeita, o Cisne Negro que dá nome ao filme. Para tanto, não bastam a destreza nos passos e a formosura de quem vive em um quarto rosa, cercada de bichos de pelúcia, como ela. Será preciso prestar atenção aos túneis escuros e sujos do metrô por que passa todos os dias. E às provocações de seu coreógrafo (Vincent Cassel), à inveja das colegas, à loucura da veterana Beth Macintyre (Winona Ryder), à raiva que tem da mãe superprotetora (Barbara Hershey). São sentimentos contidos, que, quando vêm à tona, representam a pulsão de morte que domina o filme.

Este lado obscuro da frágil bailarina é também erótico, é claro. E aí mora a tão comentada cena de sexo entre Nina e Lily (Mila Kunis), a nova colega tatuada que a atrai e provoca. Mas o diretor, sabiamente, não pesa a mão aí – e nem nos avanços do coreógrafo sobre ela. Porque, apesar da câmera, que a filma sempre de perto, e dos muitos espelhos, com reflexos que por vezes a assustam, só quem pesa a mão sobre Nina Sayer é ela mesma. Que se arranha, descasca, puxa pedaços de pele do dedo sem conseguir estancar o sangue.

Pequenos e grandes machucados de uma atriz que, vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar, soube se dar ao filme e tirar dele uma luz: hoje está mais cheinha, grávida de Benjamin Millepied, o coreógrafo que a ensaiou para o papel (e que vive o bailarino David).

O longa também concorre a melhor filme, direção, montagem e fotografia. E brilha, com a sua escuridão, em todos esses aspectos.

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28.janeiro.2011 12:11:02

Sinais de origem

Dividimos as próximas duas páginas entre os quatro filmes norte-americanos que vão dividir a sua atenção nesta semana

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O tempo de Sofia | Sofia Coppola fez novamente o filme que ela sabe fazer. Um Lugar Qualquer, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, fala da relação de dois personagens isolados em um hotel, como Encontros e Desencontros. E tem um protagonista preso a um papel social do qual não consegue escapar, como Maria Antonieta. Neste caso, os personagens são um astro de Hollywood entediado (Stephen Dorff) e sua filha de 11 anos (Elle Fanning). Os dois passam um tempo juntos, se aproximam, se desentendem e vão se transformando. Coppola filma tudo em seu tempo característico – lento, em sintonia com o estado dos personagens. É sua melhor qualidade (mas, ao mesmo tempo, uma qualidade que já conhecíamos). Rafael Barion

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A força de Jennifer | Inverno da Alma é a produção independente indicada ao Oscar de melhor filme deste ano. A história se passa nas montanhas frias do Missouri, onde a jovem Ree precisa criar dois irmãos pequenos – já que a mãe enlouqueceu e o pai, um traficante, sumiu. Ao saber que ele ofereceu a casa como garantia de que compareceria ao seu julgamento, Ree sai à sua procura. Difícil decidir o que é mais interessante: a atuação da jovem Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar de atriz, ou a determinação de sua personagem. O filme também concorre nas categorias ator coadjuvante (John Hawkes) e roteiro adaptado. Luiza Pereira

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O sucesso da Suécia | Oskar e Eli se conhecem em 1982, na Suécia. Ele é um garoto introspectivo que sofre abusos dos ‘valentões’ da escola; e ela é uma vampira. Essa é a trama de Deixa Ela Entrar (2008), filme de Tomas Alfredson que fez sucesso pelo mundo. Agora, a história se repete – só que no Novo México, com o garoto Owen e
a vampira Abby. Deixe-me Entrar é a refilmagem americana do filme sueco. Dirigido e escrito por Matt Reeves (de Cloverfield – Monstro), o novo longa é fiel ao original: até mesmo alguns diálogos são iguais. Mas o roteiro que não deixa nada em aberto e os efeitos visuais mais presentes (e, algumas vezes, desnecessários) confirmam que o filme é mesmo norte-americano. LP

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O drama de Anne e Jake | Se você gostou de Amor Sem Escalas, no ano passado, vai adorar a primeira metade de Amor e Outras Drogas. O filme de Edward Zwick fala de um rapaz mulherengo (Jake Gyllenhaal) que arranja emprego como representante de vendas da Pfizer. E passa a se relacionar com uma garota cheia de energia sexual que tem mal de Parkinson (Anne Hathaway). Ambientado na época de lançamento do Viagra, o roteiro faz piadas com o universo da indústria farmacêutica – com um humor cínico e ragmático que lembra o de Jason Reitman em Amor Sem Escalas. Depois, muda: à medida que a relação do casal avança, vai virando um longa mais adequado a quem gosta de dramas românticos convencionais. RB

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21.janeiro.2011 20:08:39

Beleza sórdida

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Biutiful é o primeiro filme ‘solo’ do mexicano Alejandro Iñárritu após o fim da parceria com o roteirista Guillermo Arriaga, que resultou nos badalados Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. No novo trabalho, o diretor retoma o teor dramático dos filmes anteriores, mas, finalmente, abre mão da fragmentação narrativa e da pluralidade de núcleos. Centrado na figura de Uxbal (Javier Bardem, premiado em Cannes por sua atuação), o longa se passa numa Barcelona irreconhecível, de ruelas imundas e apartamentos mofados. É o universo dos imigrantes e do trabalho informal – eufemismo, neste caso, para a escravidão contemporânea.

Uxbal sobrevive como intermediador de trabalhadores chineses e senegaleses, seus patrões e a polícia corrupta. Quando se vê com câncer, tenta assegurar o futuro dos filhos, única dimensão imaculada de sua vida, e se redimir de seus crimes – dos quais, como uma espécie de herói trágico, é mais vítima. O filme concorreu ao Globo de Ouro e está entre os nove ‘pré-selecionados’ na categoria de melhor longa estrangeiro no Oscar. (Os indicados saem na 3ª.) Sua sordidez extremada, porém, pode assustar os jurados da Academia, que costumam preferir opções mais ‘digeríveis’. Carol Arantes

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21.janeiro.2011 19:57:12

Beleza misteriosa

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Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas venceu a Palma de Ouro no Festival Cannes de 2010 (e foi exibido aqui na 34ª Mostra de Cinema). O tailandês Apichatpong Weerasethakul, diretor do filme, também participou da Bienal de São Paulo, no ano passado, com o vídeo Fantasmas de Nabua. Seus trabalhos no cinema convidam, de fato, a uma disposição parecida com a que se tem diante de uma obra de arte.

Entender a história de Boonmee, um homem que sofre dos rins, mora em uma casa na mata e é visitado por espíritos, pode ser complexo. A jornada é contada de uma forma diferente dos padrões usuais do cinema. Mas talvez entender seja secundário – até porque, muito do que ele tem de melhor está em suas narrativas complementares, como o encontro entre uma princesa e um bagre.

Maravilhar-se com essas narrativas, porém, é fácil. As imagens, muitas delas filmadas nas chamadas ‘horas mágicas’ da fotografia (o amanhecer e o entardecer), ajudam. Há o verde claro e intenso das árvores, o lilás transparente de um véu em torno de uma cama. E os olhos vermelhos de um homem que se tornou um macaco. Deixe-se intrigar por este universo.

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07.janeiro.2011 20:13:18

Perguntas sobrenaturais

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Além da Vida (‘Hereafter’) é o título do novo longa de Clint Eastwood, formado por três eixos dramáticos reunidos sob o tema da sobrenaturalidade.

George (Matt Damon) é um americano que abandonou a profissão de vidente e trabalha como operário em São Francisco. Não considera a vidência um dom, mas uma maldição. Marie (Cécile de France) é a bem-sucedida apresentadora de um telejornal em Paris, de quem todos esperam ceticismo. De Londres, os gêmeos Marcus e Jason (Frankie e George McLaren), acostumados a encobrir a mãe junkie diante da visita de assistentes sociais, completam a tríade.

O vidente se vê tentado a reconciliar-se com seu dom. Marie passa a ter visões depois de sobreviver a um tsunami. E a família inglesa sofre uma perda que não pode aceitar.
O clima não é de entrega total, como acontece nos filmes espíritas feitos por aqui recentemente. Mas dá sequencia à faceta sentimental de Clint como diretor, imortalizado em seus papéis como ‘durão’. Há encontros feitos sob medida para comover. Além de passagens bem engraçadas com charlatães, que reforçam a crença do público em Matt e em tudo o que ele vê.

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07.janeiro.2011 18:15:59

Respostas da natureza

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A casa onde a personagem de Charlotte Gainsbourg mora, no filme A Árvore, foi construída ao lado de uma imensa e linda figueira, majestosa em relação à paisagem australiana do longa. Só que a árvore tem raízes grandes demais – o suficiente para representar, mais uma vez, as forças da natureza que ameaçam a personagem vivida pela atriz.

Quem assistiu às agruras de Charlotte na floresta de Anticristo (2009), de Lars von Trier, pode ficar aflito ao pensar em vê-la sofrer daquela forma outra vez. Mas a diretora francesa Julie Bertuccelli (de Desde que Otar Partiu) é mais piedosa do que o cineasta dinamarquês. Tem um olhar terno sobre Dawn, a protagonista, que não está ‘possuída’, apenas em luto. Estática diante da perda do marido e do dever de criar, sozinha, os quatro filhos. A pequena Simone (Morgana Davies) se apega à árvore por crer que nela repousa o espírito do pai – e esta relação acentuará o impasse da trama.

Baseada no livro Our Father Who Art in the Tree, da australiana Judy Pascoe, a narrativa tem clima de fábula. Uma história que não é brilhante, mas muito intimista, na qual a natureza representa ao mesmo tempo fúria e acalanto.

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17.dezembro.2010 08:00:11

Efeitos do tempo

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No filme original, personagens vestindo capacetes se digladiavam em cenários virtuais coloridos. O gaiato programador virtual/hacker Kevin Flynn (Jeff Bridges) adentrara nesse mundo para recuperar sua autoria de sistemas da empresa Encom. Tron – Uma Odisseia Eletrônica se tornou cult, porque suscitava questões originais sobre o tema. Não resta muito desse clima de descoberta em Tron – O Legado, continuação que estreia hoje, quase três décadas depois.

Flynn – vivido de novo por Jeff Bridges – conta ao filho pequeno sobre ‘A Grade’, um extraordinário mundo virtual. Mas logo desaparece. Adivinhe onde ele foi parar.

Aos 27 anos, Sam Flynn (Garrett Hedlund), o maior acionista da Encom, é estimulado a ir em busca do pai. Com ele, o espectador vai conhecer um mundo virtual em 3D, com cenários frios, pretos e elegantes, distantes da estética charmosamente tosca dos anos 80. Pelo menos, por ali, reina a trilha sonora do Daft Punk. E ainda há corridas de motocicletas e batalhas de discos em um estádio lotado, com um público (também virtual) que vai ao delírio.

Mas, nesta sequência, o foco mudou. No primeiro filme, a realidade virtual era uma novidade capaz de provocar discussões (nerds) profundas. Agora, a prioridade é uma relação sentimental entre pai e filho. Bridges continua ali e o colega Alan (Bruce Boxleitner, que vive Tron), também. Mas o roteirista e diretor do original, Steven Lisberger, assina só a produção do filme de Joseph Kosinski – e, claro, uma consultoria. Falta criatividade à sequência. Às vezes, parece só um videogame moderno. Que você nem está jogando.

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10.dezembro.2010 14:08:58

Fuga para a Argentina

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Tetro, de Francis Ford Coppola, é carregado de sustos e segredos. No começo, um garoto chega a Buenos Aires à noite, vestindo uniforme branco. Mas ele não é um marinheiro: Benjamin (Alden Ehrenreich) trabalha em um cruzeiro. E aproveitou a quebra do navio para ir à casa do irmão Angie – um escritor que partiu dos Estados Unidos prometendo buscá-lo. Quem o recebe amorosamente é Miranda (Maribel Verdú). Já o marido – uma figura ao mesmo tempo encantadora e assustadora vivida por Vincent Gallo (Brown Bunny) -, lhe diz: “Angie está morto. Meu nome é Tetro”. E não quer papo sobre o passado.

Mas as histórias dessa família de origem italiana vêm à tona – de forma atormentada (para os personagens e para os espectadores). É uma experiência de cinema forte, provocante, intensificada pela música do argentino Osvaldo Golijov. Por exemplo: quando se pensa estar assistindo a um filme em preto e branco (lindo), aparecem cenas em cores fantasiosas. E, quando se ri das situações burlescas protagonizadas pela crítica literária Alone (Carmen Maura), podem surgir revelações vitais à trama. Um raro e bem-vindo cruzamento de emoções.

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10.dezembro.2010 14:05:04

Vingança do México

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Alguns filmes já retrataram a imigração mexicana ilegal para os Estados Unidos. Mas é difícil lembrar de uma produção que trate dessa questão como fizeram os diretores Robert Rodriguez e Ethan Maniquis em Machete. Não é ofensa chamá-lo de um filme ‘trash’: mistura constante de humor e ação, esta história tem muito sangue, tiros e cabeças voando.

Robert De Niro interpreta um senador do Texas que detesta imigrantes mexicanos ilegais. Durante a campanha eleitoral, ele sofre uma tentativa de assassinato. Para a mídia, o culpado é Machete (Danny Trejo), um matador de aluguel – e mexicano. Mas a história é mais complexa: Machete foi contratado pela equipe do próprio senador e depois incriminado pelo governo americano. O mexicano precisa, então, provar que foi vítima de uma armadilha. Para isso, conta com a ajuda da agente de imigração Sartana (Jessica Alba).

Rodriguez repete a fórmula que tinha usado em Planeta Terror (2007): as cenas violentas são tão exageradas que acabam provocando risos. Se o humor negro não lhe agradar, divirta-se com as situações em que o diretor coloca seus atores (como Lindsay Lohan vestida de freira, por exemplo). (Luiza Pereira)

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Mark Zuckerberg usa moletom de capuz e chinelos aonde quer que vá em A Rede Social. Seja em seu quarto de estudante em Harvard, de onde criou o Facebook, ou no julgamento em que responde por roubo de propriedade intelectual. O figurino não indica só a idade deste que se tornou o mais jovem bilionário do mundo. É também uma questão de postura. Enquanto Eduardo (Andrew Garfield), o sócio brasileiro – que era seu único amigo, de fato -, veste terno e tenta patrocínios em Nova York, o gênio segue para a Califórnia a conselho de Sean Parker (Justin Timberlake), do Napster. Ele diz não querer dinheiro, mas que o site seja ‘bacana’ (‘cool’).

Dá gosto ver a atuação de Jesse Eisenberg: ele olha para a janela enquanto lhe fazem perguntas, soa indiferente. Mas logo devolve, impassível, as respostas mais engenhosas. É afiado, uma palavra que também descreve o longa de David Fincher (de Seven e Clube da Luta).

A sequência inicial, um diálogo perspicaz em que a namorada chama Zuckerberg de babaca (e estimula, com isso, a criação do site), dá o tom e o ritmo do filme. Ele parece passar em um segundo – um pouco como o tempo, quando se usa a rede.

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