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Cinema

17.junho.2010 21:19:23

Começar de novo

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Cartas para Julieta parece, à primeira vista, mais um daqueles romances clichês do cinema. Em parte, ele realmente é. Mas o filme, dirigido por Gary Winick (de ‘Noivas em Guerra’), traz uma mensagem boa e reconfortante. Além disso, o drama do romance é neutralizado pelas risadas que Gael Garcia Bernal provoca, em uma atuação inspirada.

O romance clichê da personagem Sophie (interpretada por Amanda Seyfried, a Sophie de ‘Mamma Mia!’, olhe só) fica em segundo plano para dar espaço à vida amorosa de Claire (Vanessa Redgrave), uma senhora que precisa reencontrar seu grande amor - com cinquenta anos de atraso. Através da história de Claire, o filme mostra ao espectador que não é preciso ser jovem para começar uma nova vida.

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E Vanessa Redgrave sabe muito bem disso. A história da personagem Claire assemelha-se à sua. Vanessa foi casada com o diretor Tony Richardson, com quem teve duas filhas. Em 1967, porém, ela conheceu o ator italiano Franco Nero. Eles se apaixonaram e se casaram. Nero também participa de ‘Cartas para Julieta’ e interpreta Lorenzo, o antigo e verdadeiro amor de Claire.

Mas, infelizmente, Vanessa Redgrave não teve apenas felicidades após seu segundo casamento. ‘Cartas para Julieta’ é o primeiro trabalho da atriz, após a morte de sua filha, Natasha Richardson. Ela faleceu em março de 2009, quando se envolveu em um acidente de esqui, em Quebec, Canadá. Natasha acompanhava seu marido, o ator Liam Neeson, nas gravações de ‘O Preço da Traição’.

Talvez seja por isso que ‘Cartas para Julieta’ é capaz de emocionar os espectadores: Vanessa Redgrave sabe que nunca é tarde para recomeçar. (Luiza Pereira)

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Sabe aquela história do cara que saiu para fumar e nunca mais voltou? Pois é. Com o cineasta franco-polonês Roman Polanski foi mais ou menos isso. Exceto pelo fato de que ele saiu de sua casa em Paris para receber um prêmio no Festival de Cinema de Zurique, na Suíça, em setembro de 2009, e, desde então, não voltou à terra natal. O motivo? O cumprimento de um mandado de prisão que completava 31 anos – Polanski é acusado do estuprar uma garota americana de 13 anos, crime que chegou a assumir em 1977 quando se refugiou na Europa.

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Pierce Brosnan e Ewan McGregor em cena de O Escritor Fantasma

As polêmicas não deixam de acompanhar a vida do diretor de O Escritor Fantasma, thriller que chega às salas do Brasil no próximo dia 28. No dia 14 de maio, a atriz Charlotte Lewis convocou a imprensa de Los Angeles para acusar Polanski de ter abusado sexualmente dela em 1982, quando tinha apenas 16 anos, dessa vez em Paris. Lewis fez uma ponta no filme Os Piratas, dirigido por ele em 1986. Seu advogado na França, George Kejman, ameaçou processar a atriz por calúnia caso ela formalize a acusação.

Enquanto isso, Polanski aguarda a decisão judicial sobre seu futuro – se volta para a França, se é extraditado para os Estados Unidos, se fica para sempre na Suíça – trancafiado em seu chalé. A revista Screen, do Festival de Cannes, publicou uma matéria na última quarta-feira (12) dizendo que a cineasta Marina Zenovich pretende fazer uma continuação do polêmico documentário Roman Polanski: Wanted and desired, lançado em 2008. O filme seria um curta, mas devido à história que parece não ter fim, a expectativa é que vire outro longa. A realizadora aguarda um desfecho para começar a narrar o caso do ponto em que parou.

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O Escritor Fantasma recebeu o Urso de Prata de melhor direção durante o Festival de Berlim, em fevereiro deste ano. O filme, baseado no best-seller The Ghost, de Robert Harris, conta a história de um escritor (Ewan McGregor) que acaba aceitando o encargo de escrever as memórias políticas de um ex-primeiro ministro britânico, Adam Lang (Pierce Brosnan), muito a contragosto. Durante o processo de entrevistas para elaboração da autobiografia, Lang é acusado de favorecer práticas terroristas por um tribunal internacional.

A mulher do senador (Olivia Williams) o aconselha a voltar para a Inglaterra e buscar abrigo, mas seu advogado desaprova a sugestão, dizendo-lhe que ele deve ter cuidado para não ir a qualquer país que tenha tratado de extradição. Vale lembrar que as filmagens do filme terminaram em maio de 2009, e o diretor só foi preso em setembro em uma visita à Suíça. É no mínimo estranho que ele possa prever algo assim. Será que incluiu a piada macabra depois de estar confinado? Não se sabe. Mas é coincidência demais.

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Foto do casamento de Sharon Tate e Roman Polanski em 1968

Não foi, no entanto, algo inédito nos idos dos sincronismos sinistros da vida de Polanski. Em 1969, um ano depois de lançar o histórico O Bebê de Rosemary, sua mulher, Sharon Tate, foi assassinada brutalmente na própria casa, em Los Angeles, por quatro jovens – a Família Manson. Sharon estava grávida de oito meses do primeiro filho do casal. No dia seguinte ao crime, o mesmo grupo mataria o casal de empresários Leno e Rosemary LaBianca. Infelicidades, sem dúvida. Mas, no caso de Polanski, é muito difícil não acreditar que sua vida tem o bizarro hábito de acompanhar a sua arte.

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Sherlock Holmes, famoso personagem do escritor Arthur Conan Doyle, marcou presença no cinema diversas vezes (o ator Basil Rathbone já interpretou o detetive em catorze filmes). Hercule Poirot e Miss Marple, ambos criados por Agatha Christie, também apareceram na telona. E, mais recentemente, os romances policiais O Código Da Vinci e Anjos e Demônios, de Dan Brown, ganharam versões cinematográficas. Agora é a vez do escritor sueco Stieg Larsson: na última sexta-feira (14) estreou nos cinemas Os Homens que Não Amavam as Mulheres ­- a obra original é o primeiro livro da trilogia Millenium, que já vendeu 28 milhões de cópias pelo mundo. O filme fala do jornalista Mikael Blomkvist e da investigadora particular Lisbeth Salander, unidos por um crime cometido há quase 40 anos e nunca solucionado: o desaparecimento de Harriet Vanger, a sobrinha de um rico empresário.

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O longa-metragem produzido na Suécia, sob a direção de Niels Arden Oplev, é muito fiel ao livro. É claro que o roteiro de cinema teve que ser mais sucinto (e, mesmo assim, o filme tem duas horas e meia de duração), mas as cenas e os diálogos essenciais estão todos ali. Assim como os personagens, que carregam as mesmas características que Larsson lhes designou no livro. O protagonista Mikael Blomkvist continua sendo um jornalista investigativo que foi contratado para solucionar um crime. E, assim como na obra literária, nos transmite a ideia de que acabou envolvido no desparecimento de Harriet quase por acaso: ele simplesmente não tem as habilidades necessárias para lutar contra um vilão e nem mesmo para dirigir um carro.

A fidelidade aos personagens que vemos em O Homem que Não Amavam as Mulheres não se repete na maioria das adaptações de romances policiais.

Robert Downey Jr. interpretou recentemente um Sherlock Holmes muito peculiar, no filme dirigido por Guy Richie. Os fãs de Conan Doyle repararam que algumas características de Holmes foram conservadas: o seu faro infalível por pistas e seu raciocínio rápido. Mas o detetive aprendeu a lutar durante o processo de adaptação do roteiro. Disse adeus ao chapéu e ao sobretudo e ficou mais desleixado e engraçado.

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O protagonista de O Código Da Vinci, Robert Langdon, também ganhou algumas características heroicas. Interpretado por Tom Hanks no cinema, o personagem deixou de ser um professor de Harvard para ser “um professor de Harvard que sabe usar um revólver”. E não foi só o protagonista que virou herói – em Anjos e Demônios, o personagem de Ewan McGregor é galã e até seu nome foi modificado: os fãs do livro o conheciam por Carmelengo Carlo Ventresca. Devem ter estranhado ao ver um certo Carmelengo Patrick McKenna assumir o personagem.

Mikael Blomkvist permanece fiel ao seu livro de origem. Pelo menos por enquanto. É que a Sony Pictures já comprou os direitos autorais de Os Homens que Não Amavam as Mulheres e lançará a versão americana do filme. A estreia é prevista para 2012. Precisamos, portanto, esperar dois ou três anos para saber se Mikael Blomkvist ainda será Mikael Bomkvist (ou, até mesmo, se ainda terá este nome). (Luiza Pereira)

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16.abril.2010 08:00:55

Um olhar feminino

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O que um cineasta pode fazer para diferenciar o seu filme de outro com a mesma temática? De uns anos para cá, a  tendência das produções nacionais é falar sobre o universo dos mais desfavorecidos nas grandes metrópoles. Como eles vivem? Que dramas enfrentam diariamente? Fala-se dos perrengues, da violência, do abuso de autoridade e do abandono às crianças. Bem, esse não deixa de ser um grande tema. Mas como fazer para um novo filme sobre isso não dar ao espectador a sensação de “mais do mesmo”?

A pergunta é um desafio que a diretora Sandra Werneck buscou superar em seu novo longa, Sonhos Roubados. O filme conta a história fictícia de três personagens, mulheres adolescentes que vivem em uma favela do Rio de Janeiro. Jéssica (Nanda Costa), Sabrina (Amanda Diniz) e Daiane (Kika Farias) foram encontradas no livro que serve de base para o roteiro, As Meninas da Esquina, de Eliana Trindade. Elas se prostituem seja para comer, alimentar a filha, dar remédio para o avô ou simplesmente conseguir pintar o cabelo no salão de beleza.

Assista ao trailer do filme

O longa foi filmado em plano-sequência – uma técnica que não utiliza cortes para emendar as cenas, mas registra cada ação por inteiro. Isso torna a obra mais contemplativa, já que o personagem é quem leva a câmera a se movimentar, o que desfavorece a existência de cenas muito duras ou abruptas. São recursos, como explica a diretora. “É um filme que traz uma mensagem de esperança, que coloca a mulher como protagonista da história. E isso é fato: você vê, nas comunidades, que a maioria dos lares é completamente matriarcal.”

Em 2005, Sandra já tinha feito o documentário Meninas, sobre o dia a dia de garotas grávidas em uma comunidade carente carioca. Esta produção a sensibilizou e mudaria para sempre sua forma de enxergar os laços familiares. “Filho é uma coisa importante, não é para brincar, e eu queria passar a mensagem que eu aprendi com essas meninas a todo mundo que for me assistir”, disse.

Formação do elenco | Para construir esse cenário com naturalidade, a produção realizou mais de cem testes de elenco. As escolhidas para os três papéis centrais passaram por um intenso processo de imersão nas comunidades para entender um pouco mais sobre a vida das garotas que iriam representar. Uma delas, a jovem Amanda Diniz, de 15 anos – que vive uma menina que sofre abuso sexual do tio (Daniel Dantas) e é negligenciada pelo pai (Ângelo Antônio) – chegou a  morar na casa da tia, no Morro do Vidigal, durante todo o período de filmagem. “Eu moro em um bairro que fica na periferia (Santa Cruz da Serra, no Rio), então, para mim, a realidade dessas garotas não era tão distante”, contou, na segunda-feira (12), durante série de entrevistas para divulgação de Sonhos Roubados.

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A protagonista Nanda Costa, 23 anos, que também integra o elenco da novela Viver a Vida no papel de Soraia, disse que nunca se apresentou como atriz às moradoras das favelas que visitou. “Eu dizia meu nome, Fernanda. Queria contar essa história com a maior verdade possível, já que há parte de mim nela – minha mãe também teve filho na adolescência”, disse. Nanda tem trejeitos de artista, mesmo. Para explicar a dificuldade de uma das cenas (o primeiro programa que Jéssica faz no filme, negociado durante um jogo de sinuca) ela se movimentou por toda a sala, recriou olhares e refez a trajetória do momento gravado pelas câmeras. “Precisamos escolher muito bem nossos projetos. Um filme fica para sempre”, refletiu.

Basicamente, o que se conta durante os 85 minutos de exibição é a vida de três meninas que se encontraram no meio do caos e permanecem unidas até o fim. As cenas de sexo e de violência são conduzidas com cuidado suficiente para que não sejam mais chocantes do que a simples ideia desse tipo de situação. Um livro de mulher, filmado e protagonizado por mulheres, mas que serve a todos os gêneros. Sim, é parecido com tudo, não dá para negar. Mas tem esse detalhe, que vale a experiência. Nos cinemas a partir do próximo dia 23.

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22.março.2010 13:59:29

The book is on…

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Comparar o nome original de filmes estrangeiros com as brilhantes (not!) adaptações feitas para o português pode ser um pouco frustante. Só para citar alguns recentes: A Single Man virou O Direito de Amar. The Hurt Locker ganhou ares de propaganda política como Guerra ao Terror. Para completar a célebre lista, estreia na próxima sexta (26) o novo longa escrito e dirigido por Guillermo Arriaga: The Burning Plain. No Brasil: Vidas que se Cruzam.

O motivo de tanto cruzamento é uma explosão em um trailer no meio do nada, à beira de uma estradinha que liga duas cidades americanas, próximas da fronteira com o México. O incidente coloca duas famílias em confronto e os desdobramentos levarão anos e anos.

Ok, o título até vai fazer sentido. Mas o espectador mais atendo há de lembrar de algumas referências de filmes escritos por Arriaga, nos quais este nome genérico também se aplicaria, como o acidente de carro que muda o curso dos personagens de Amores Brutos, ou o tiro mal disparado (mas muito bem apontado) em Babel. Mas o que me deixou encucado mesmo foi o seguinte: por acaso existe algum filme em que não haja… ‘vidas que se cruzam’?

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