(Este é um dos posts da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz)
Guerra ao terror | The Hurt Locker, EUA, 2008
Indicações | Melhor Filme; Melhor Diretor, para Kathryn Bigelow; Melhor Ator, para Jeremy Renner; Melhor Montagem; Melhor Trilha Sonora; Melhor Fotografia; Melhor Mixagem de Som; Melhor Edição de Som; Melhor Roteiro Original; Venceu os prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção (sendo a primeira diretora mulher a ganhar o prêmio), Melhor Edição, Melhor Roteiro Original
Soldados bem humanos, num ponto bem preciso da Terra, conduzem a trama do filme que ameaça desbancar o multimilionário e interplanetário Avatar no próximo Oscar. A diretora, Kathryn Bigelow, é igualmente humana e sensível – muito mais, certamente, do que aqueles que deram o título brasileiro de Guerra ao Terror a The Hurt Locker, quando o lançaram primeiro em DVD. Não vale batizar esse belo filme, que mostra a ocupação no Iraque, com o exato argumento dado pelos americanos para sua presença no país. Porque, na tela, não há pretexto geopolítico que valha: “a guerra é uma droga”, avisa um letreiro do início, e o termo ‘droga’ toma rumos impensados – o vício pela adrenalina.
Começamos acompanhando o papo de alguns militares em campo de batalha. Parecem personagens típicos de Hollywood: há o negro espirituoso, o loirinho assustado, o novato metido a sabichão. A diferença é que eles formam um esquadrão responsável pelo desarmamento de bombas. E são eles que vemos, em geral com medo, cansados, contando os dias para o fim (ainda que o alistamento não fosse obrigatório).
Kathryn, experiente no gênero de ação, cria cenas estonteantes. Mas é nos pequenos intervalos entre a tensão que sua feminilidade se mostra – e justifica por que ela, que foi casada com o James Cameron de Avatar, merece ser a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção.
A câmera filma as ondas de calor, as casas e os olhares do Oriente Médio. Em uma cena das mais bonitas, os soldados simplesmente têm sede. O que torna impossível detestá-los. Talvez esse desconcerto seja seu trunfo: é um filme de ação, mas não há sentido em torcer para alguém. (Ilana Lichtenstein)
Este post faz parte da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz.
Avatar | Avatar, EUA, 2009
Indicações | Melhor Filme; Melhor Diretor, para James Cameron; Melhor Montagem; Melhores Efeitos Visuais; Melhor Trilha Sonora; Melhor Fotografia; Melhor Mixagem de Som; Melhor Edição de Som; Melhor Direção de Arte; A grande aposta para o Oscar levou apenas três estatuetas: Melhor Fotografia, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Direção de Arte
Você corre o risco de se apaixonar por androides em Avatar. Culpa de James Cameron, o diretor do romântico Titanic, ou de uma ilusão provocada por três dimensões? O orçamento estimado de 500 milhões de dólares – o maior da história – colabora para criar a fantasia, é claro. Com isso em mente (ou com a mente vazia), vá ao cinema iludir-se – de preferência em alguma sala que exiba o filme em 3D.
No mundo humano, Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-fuzileiro naval preso a uma cadeira de rodas. Enviado à base terrestre de Pandora, uma lua de montanhas flutuantes e seres chamados na’vis, ele não sabe muito bem o que se passa por ali: por ter o mesmo código genético, substitui seu irmão gêmeo, um cientista morto. Como no solo do lugar há um mineral valiosíssimo para a Terra, que está devastada, a base cria ‘avatares’ – seres que combinam DNA terráqueo e nativo – para explorar o planeta. Na pele do seu ‘avatar’, Jake delira desde as primeiras incursões: ali, tem um corpo forte, ágil (e azul) de 3,5m – igual ao dos outros habitantes. Entre eles, há,é claro, uma na’vi sábia e bonitona.
Espécie de Pocahontas contemporânea, Neytiri (Zoë Saldana) ensina ao herói que a natureza é sagrada e que tudo está conectado. Não se assuste Se o olhar doce e amarelo da ‘moça’ lhe encantar. Os movimentos dos olhos e as expressões faciais foram captadas por câmeras instaladas na cabeça da atriz e serviram de base para a animação. Talvez você não se surpreenda com o que os humanos desse futuro próximo são capazes de fazer com Pandora – em um momento, o capitão mau diz que é preciso “combater o terror com terror”. Mas certamente se espantará com o que os técnicos do universo do entretenimento são capazes de fazer hoje. Bem vindo aos anos 2010. (Ilana Lichtenstein)
Este post faz parte da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz.
Bastardos Inglórios | Inglorious Bastards, EUA/Alemanha, 2009
Indicações | Melhor Filme; Melhor Diretor, para Quentin Tarantino; Melhor Montagem; Melhor Fotografia; Melhor Mixagem de Som; Melhor Edição de Som; Melhor Roteiro Original; Melhor Ator Coadjuvante, para Christophe Waltz, que ganhou o prêmio.
Bastardos Inglórios fala de um grupo especial de soldados judeus que parte para a França, durante a 2ª Guerra, com o objetivo de escalpelar sem piedade o maior número possível de oficiais nazistas. Se isto o faz desconfiar de que se trata de um filme cruel, escandaloso e ofensivo, pode ter certeza: trata-se de um filme cruel, escandaloso e ofensivo. Mas trata-se também de um filme de Quentin Tarantino, o diretor de Kill Bill e Cães de Aluguel, para quem violência e diversão nunca andam separadas: escandalizar-se e divertir-se são, neste caso, dois momentos (inevitáveis) de um mesmo processo.
O diretor desenvolve a história em duas frentes. Há os carniceiros liderados pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt), que vão matando nazistas a pauladas, facadas e metralhadas, até que começam a armar um plano para acabar com a cúpula de Hitler de uma só vez. E há a jovem judia Shosanna (Mélanie Laurent), que teve a família assassinada, passou a administrar um cinema parisiense e também trama a sua vingança contra os alemães.
As duas histórias têm o mesmo vilão, o cultivadíssimo (e divertidíssimo) coronel Hans Landa – o ‘caçador de judeus’ que deu a Christoph Waltz o prêmio de ator no último Festival de Cannes. Ao contrário do que a escolha do tema indica, porém, Tarantino não está interessando em questões ideológicas – ou históricas. Espécie de Kill Bill feito com material inflamável, o filme é um exercício de (e sobre) cinema – onde, aliás, a história acaba. Como de costume, o que ele faz é usar (com sarcasmo) o que sabe do assunto para surpreendê-lo, irritá-lo, torturá-lo, manipulá-lo e, se você se submeter ao jogo, diverti-lo. Tudo o que se pode esperar de um grande sádico. (Rafael Barion)
Este post faz parte da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz.
Julie & Julia | Julie & Julia, EUA, 2009
Indicação | Melhor Atriz, para Meryl Streep
Julie & Julia conta duas histórias: a de Julia Child (Meryl Streep), autora do livro que apresentou a cozinha francesa à dona de casa americana dos anos 60, e uma outra, de uma garota que decide testar, 40 anos depois, as receitas descritas pela chef – e que você assiste enquanto espera para ver Julia (e Meryl) outra vez.
Figura determinada, Julia estudou na escola parisiense Le Cordon Bleu (onde os alunos avançados eram todos homens), trabalhou por oito anos em seu livro, Mastering the Art of French Cooking,e foi ensinar receitas na TV.
Era uma mulher grande (de 1,88 m), expansiva e com um jeito peculiar de falar. Nas mãos de uma atriz como Meryl e uma roteirista como Nora Ephron), virou um personagem magnético. Leve e divertido, o filme conta como ela e Julie Powell (Amy Adams), a blogueira que testou suas receitas, fizeram do prazer de comer uma motivação para a vida. Mas é nos argumentos de Julia que você prestará mais atenção. (Rafael Barion)
(Este é o 11º post da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz)
Sherlock Holmes | Sherlock Holmes, Reino Unido/Austrália/EUA, 2009
Indicações | Melhor Direção de Arte; Melhor Trilha Sonora
Não se engane com o cenário de Sherlock Holmes: o detetive e seu parceiro, John Watson, continuam a viver no século 19, mas viraram homens do século 21. Além de ter capacidades dedutivas e praticar boxe e esgrima, o herói de Arthur Conan Doyle agora domina lutas marciais – e gosta de usá-las. Já Watson ganhou trajes impecáveis e físico de herói de guerra. Viraram sujeitos fortes, inteligentes, descolados – o homem que Guy Ritchie (de RocknRolla) gosta de idealizar.
Eles estão às voltas com Lorde Blackwood, assassino em série que mata as vítimas em rituais. O criminoso é enforcado, mas volta para continuar seus planos. Tudo tem uma explicação lógica. Deduzi-la, porém, é tarefa de Holmes – e não sua. Nos bons filmes de detetive, o público é chamado a ir resolvendo o mistério com os protagonistas(nem que seja para ser passado para trás no fim). Ritchie capricha nas cenas de ação, mas resolve a trama com passes de mágica – resta a você apenas esperar pela solução. Procure se ater ao outro tema da história: a relação de Holmes com seu parceiro. Watson vai casar e o detetive não está gostando. Suas disputas irônicas são o melhor do filme. (Rafael Barion)
(Este é o décimo post da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz)
Nine | Nine, EUA, 2009
Indicações | Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte, Melhor Atriz Coadjuvante, para Penélope Cruz; Melhor Canção, com Take it All
Em 1963, Federico Fellini batizou de 8 1/2 seu filme autobiográfico – e metalinguístico – sobre um diretor que, como ele, não conseguia ter ideias para o seu novo trabalho. (Contando curtas e longas, ele seria o ‘oitavo filme e meio’ do italiano.)
Dezenove anos depois, a história virou um musical da Broadway, rebatizada de Nine – porque, segundo o compositor Maury Yeston, adicionar música ao longa valia por “meio número a mais”. Nine, o filme, é a versão para o cinema deste musical. Ou uma versão da obra de Fellini sem nada do que fazia dela um filme interessante.
A história continua a falar de um diretor em crise criativa (Daniel Day-Lewis) que tem de lidar com a presença (ou os fantasmas) das mulheres de sua vida – entre elas, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Marion Cotillard e Sophia Loren. O diretor Rob Marshall (de Chicago) preferiu, porém, ignorar os jogos metalinguísticos do original e – pior – manter os números musicais em um palco, como se fosse no teatro.
Podia funcionar na Broadway, mas perde o sentido em um filme sobre o universo de um diretor de cinema. O resultado é constrangedor para quem viu o original – ou banal (e um desperdício de bons atores), se você preferir fingir que 8 1/2 não existiu. (Rafael Barion)
(Este é o nono post da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz)
Invictus | Invictus, EUA, 2009
Indicações | Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante, para Morgan Freeman
Jogadores de rúgbi são incrivelmente robustos. Mas você deve sair do novo filme de Clint Eastwood feito manteiga derretida. Tudo em Invictus compactua para as lágrimas: Morgan Freeman na pele de um Nelson Mandela iluminado, a emoção das partidas esportivas e a história real, das mais comoventes,em que o filme se baseia.
Além da maestria para seduzir do diretor – que segue no caminho humanista que parecia ter chegado ao auge em Gran Torino. Depois de 27 anos preso pelo regime do apartheid, Mandela – que havia se tornado o primeiro presidente negro sul-africano – veste a camisa verde e dourada do Springbok, time que só tem um jogador negro e é um símbolo da segregação no país.
Mandela é doce, mas firme em seu propósito: impede que a equipe seja extinta na euforia do novo governo, aposta nela como campeã da Copa do Mundo de 1995 e convida François Peinaar, o capitão vivido por Matt Damon, para um chá da tarde. A ligação que se tece entre os dois e a vibração do país no desenrolar da história o farão sair do cinema achando que aquele se tornou o melhor dos mundos. Pena que as notícias dos jornais não mostrem o mesmo. (Ilana Lichtenstein)
(Este é o oitavo post da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz)
A Fita Branca | Das weisse Band, Alemanha/Áustria/França/Itália, 2009
Indicações | Melhor Filme Estrangeiro; Melhor Fotografia
A Fita Branca foi um dos filmes mais festejados do ano passado, é verdade. O novo longa de Michael Haneke (de Caché) se passa em um vilarejo alemão às vésperas da 1ª Guerra Mundial. Seus moradores vivem em torno da fazenda de um barão e seguem ao pé da letra os princípios do puritanismo protestante. Uma série de fatos violentos começa, porém, a chacoalhar seu modo de vida.
Não há explicações evidentes para os fatos, mas a chave para entendê-los são as crianças do vilarejo e a maneira como assimilam a educação rígida que recebem. Já foi muito dito que o diretor está falando do contexto que permitiu a ascensão do nazismo. Mas Haneke também quer demonstrar (didaticamente) em que condições podem surgir extremismos ideológicos de qualquer natureza. Preste atenção às belas imagens do fotógrafo Christian Berger, indicado ao Oscar. Seu sistema inovador de iluminação, com poucos refletores, permitiu ao diretor trabalhar mais livremente com os atores – e extrair das crianças performances fortes. (Rafael Barion)
(Este é o sétimo post da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz)
O Mensageiro | The Messenger, EUA, 2009
Indicações | Melhor Ator Coadjuvante, para Woody Harrelson; Melhor Roteiro Adaptado, para Alessandro Camon e Oren Moverman
Ferido em um combate no Iraque e atormentado pela experiência da guerra, o sargento Will Montgomery (Ben Foster) volta aos EUA e ganha, de seus superiores, o ‘privilégio’ de poder comunicar aos parentes dos soldados mortos que seus filhos não vão voltar para casa. O Mensageiro, trabalho de estreia de Oren Moverman, é um filme que fala de um aspecto da guerra, mas é também uma história sobre três personagens moldados por perdas e ausências: Will, que nunca se sentiu filho de seus pais, seu chefe imediato Tony (Woody Harrelson), um militar solitário, e Olivia (Samantha Morton), que perdeu o marido – e de quem o sargento começa a se aproximar. Enquanto Will e Tony cumprem a sua tarefa de entrar em contato com as famílias dos soldados e vão se deparando com reações diversas – narradas em belas cenas -, começam também a enfrentar seus próprios fantasmas. Harrelson está indicado ao Oscar, mas são Foster e Samantha que mais mereciam estar concorrendo. (Rafael Barion)
*Publicado no Guia de 19/2/2010
(Este é o sexto post da série de resenhas publicadas no Guia do Estadão sobre filmes que concorreram ao Oscar e estão em cartaz)
Um Homem Sério | A Serious Man, EUA, 2009
Indicações | Melhor Filme; Melhor Roteiro Original, para Joel e Ethan Coen
Larry Gopnik (Michael Stulhbarg) é um típico judeu americano de classe média. Leva, portanto, uma vida difícil. Ele vive nos 60, o que piora um pouco as coisas. Mas o pior é ser protagonista de Um Homem Sério, dos irmãos Joel e Ethan Cohen (de Onde os Fracos Não Têm Vez), conhecidos por seu humor mórbido. Gopnik que o diga. O irmão vive às suas custas, a mulher decide deixá-lo, o filho vem causando problemas na escola, a filha junta dinheiro (roubado) para fazer uma plástica e ele ainda corre o risco de ser demitido.
O protagonista parece viver em uma passagem bíblica, daquelas em que um sujeito é submetido a uma série de provações para afirmar sua fé. Aflito, Gopnik procura significado para suas desventuras na religião. Os três rabinos que consulta se contradizem, mesmo sem respostas. Mas proporcionam, ao espectador, perguntas interessantes. Tente apenas não se desgastar tanto com o martírio do protagonista. Ele sofre sem saber o que Deus espera dele. E é provável que você também não entenda o que os diretores esperam de você. (Leandro Quintanilha)
2011
2010