Há mais J. K. Rowling do que Lewis Carroll na versão de Tim Burton de Alice no País das Maravilhas que estreia hoje (23). Há também mais J. K. Rowling do que Tim Burton no longa que Burton fez a partir dos livros de Carroll.
Ser fiel à história de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho não era mesmo uma preocupação do diretor. Para Burton, que não gosta da estrutura fragmentada dos livros, o importante era que o filme traduzisse o ‘espírito’ das obras. Assim, preferiu inventar uma nova história, que retém a premissa básica e certos personagens e episódios narrados pelo escritor inglês, mas segue por outros caminhos.
No filme, Alice (Mia Wasikowska) é uma garota de 19 anos (e não uma criança) que está sendo forçada a se casar com um rapaz que não lhe interessa. No momento em que ela deve dar a resposta ao seu pretendente, porém, um coelho com um relógio aparece. Ela decide segui-lo, cai no buraco de uma árvore e vai parar no ‘mundo subterrâneo’.
Como nos livros de Carroll, neste mundo é possível conversar com animais e crescer ou encolher comendo um doce. Mas, ao contrário do que acontece na literatura, tudo ali segue uma lógica muito clara. Há uma rainha má (Helena Bonham Carter), que detém o poder, e uma rainha boa (Anne Hathaway), que merece governar. E o papel de Alice é fazer justiça aos bons – o que exige vencer um combate contra um exército de inimigos e um monstro poderoso.
Apesar de os efeitos em 3D, em uma sala comum, pouco acrescentarem ao filme (é preciso ver o resultado na sala Imax), Burton criou um universo visual elaborado e interessante. Mas a fidelidade ao ‘espírito’ dos livros, em sua concepção, parece se resumir a isso. A essência mesmo das obras de Carroll (seus jogos de lógica e linguagem) ficou de fora.
O resultado é um filme que os fãs da série Harry Potter devem adorar e com o qual os fãs de Peixe Grande, A Noiva Cadáver e Edward Mãos de Tesoura podem simpatizar. Mas que dificilmente vai deixar satisfeito quem gosta muito dos livros de Carroll. (Rafael Barion)

(Este é o quarto e último post da série sobre os desafios do 3D para o mercado nacional. Veja os anteriores aqui.)
Os entraves de popularização do cinema 3D são semelhantes aos da digitalização das salas, processo que começou no Brasil em 2007 e ainda caminha vagarosamente. Mais de 20 mil cinemas no mundo trabalham com um sistema de redução de custos que ficou popular nos Estados Unidos, Europa e México. Mas que, na opinião de Luiz Gonzaga de Luca, autor do livro A Hora do Cinema Digital, não parece ter futuro no Brasil. “Aqui, os impostos são muito maiores do que lá fora, o que faz o preço dos equipamentos aumentar muito e, consequentemente, o tempo de financiamento do projetor completo passar de cinco para cerca de 12 anos”, explica.
O parcelamento a que ele se refere é um acordo que exibidores e distribuidores já firmaram em outros mercados para facilitar a compra de equipamentos digitais – e que também funciona para projetores 3D:
O fornecedor da tecnologia | instala o sistema na sala, providencia o sinal e cuida da manutenção.
O exibidor | é responsável por pagar pelo equipamento, financiado em até 5 anos.
O distribuidor | se compromete a ajudar o exibidor a quitar a conta. Essa participação é rara, mas tem uma explicação: com o sistema digital implantado, a empresa distribuidora passa a economizar o custo das películas. Elas são caras para copiar (cerca de US$ 1500), para distribuir (chegam a pesar 30kg) e para armazenar (pois exigem certos cuidados, como a climatização do ambiente).
Devido à impossibilidade de aderir a esse sistema e à fila que existe com a enorme demanda e pouca oferta de equipamento, o mercado brasileiro não espera um boom de salas 3D, mas um aumento gradual e seguro. Ainda que os ingressos para tridimentionais sejam cerca de 30% mais caros e a lotação das salas seja quase duas vezes maior, os gastos com compra e manutenção de equipamentos por aqui são ainda mais altos.

Por causa do pequeno número de salas, o público faz fila para comprar ingressos para os filmes. No Imax 3D do Shopping Bourbon (foto), em São Paulo, a espera para Avatar segue uma semana desde a estreia do filme em dezembro. Para se ter ideia, ao todo, 4.559.675 pessoas assistiram Avatar 2D até o fim de fevereiro nas 2.376 salas do país. Para as 101 salas 3D, o público foi apenas 15% menor: 3.915.858, segundo a Fox e o site do mercado cinematográfico Filme B.
A tecnologia veio para ficar e só tende a evoluir para aumentar, cada vez mais, a sensação de sentir-se dentro do filme. “Essa diferenciação pode chegar a associar, além da projeção 3D, cheiros, movimentos de poltronas e simulação de chuva e nuvens através da emissão de água e gases como já se vê na tecnologia Xpand”, afirma a teórica Alessandra Medeiro. Mas, no Brasil, a julgar pelo ritmo da implementação, ainda vamos levar um bom tempo para entrar nessa fase. (Renata Reps)

(Este é o terceiro post da série sobre o mercado e os desafios do 3D. Veja os anteriores.)
Existe um problema financeiro na ampliação do cinema tridimensional em vários países do mundo, inclusive o Brasil. Para montar uma sala desse tipo, três equipamentos de alta complexidade são necessários:
Um projetor especial | com softwares específico (Real D, Dolby 3D ou X Band, a depender da escolha da cadeia exibidora) e também um servidor que armazena as imagens.
Um painel | colocado na frente do projetor, constituído por 2 milhões de espelhos móveis e uma lâmpada xenon de 7.500 watz – que produz um calor ao qual o chip do projetor tem de ser suficientemente resistente. Esse painel polariza as imagens que vão para o olho esquerdo e direito e, sucessivamente, dão a impressão tridimensional.
Óculos especiais | sejam eles descartáveis ou reutilizáveis como os distribuídos pelo Cinemark.
Cada equipamento completo custa em torno de US$ 120 mil. Somado a isso, há o preço da manutenção, que também é extremamente cara.
Há mais de 20 mil cinemas digitais pelo mundo, sendo cerca de 2.500 em 3D. Destes, 1.800 ficam nos EUA, que detém o monopólio da produção da tecnologia pela empresa Texas Instruments.
Ninguém, no entanto, previu o sucesso imediato do 3D. Alguns exibidores brasileiros que pensaram na instalação dessas salas depois de setembro de 2009 não conseguiram acompanhar o lançamento de Avatar, devido à enorme demanda e pouquíssima oferta. “Se a frequência de lançamentos se mantiver no mesmo ritmo, haverá a necessidade de cerca de dez mil telas 3D até 2013”, explica Alessandra Medeiro, pós-doutora em Film Studies pela Universidade de Londres. Será que é possível?
Amanhã (6), no quarto post da série, as medidas do mercado para popularizar a novidade. (Renata Reps)
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O medo de que uma tecnologia desapareça quando surge outra mais avançada sempre foi recorrente. Assim aconteceu com o rádio, quando apareceu a TV; ou com o telégrafo, quando veio o telefone. A História, porém, prova: as mídias não acabam, mas se transformam, adaptando-se às mudanças. Se você tem, portanto, pesadelos só de pensar que, no futuro, a dor de cabeça pós-sessão 3D será inescapável, pode ficar sossegado. O temor não tem fundamento.
O consenso, até agora, é de que o tridimensional se adapta a filmes de aventura e fantasia, mas não faz sentido em películas com temáticas mais adultas, enquadramentos clássicos ou mudanças de planos em que a noção de profundidade faça diferença. O próprio circuito, que tanto alardeia a nova técnica, reconhece as limitações. O 3D não atende a todos os públicos. Basicamente, quem gosta é a audiência infantojuvenil. A maioria dos adultos só vai por curiosidade”, acredita Luiz Gonzaga Assis, diretor-superintendente do Grupo Severiano Ribeiro, que tem cinemas como o Kinoplex Itaim, em São Paulo.
Alguns diretores, porém, já deixaram implícitos que, para eles, o 2D é coisa do passado. Robert Zemeckis, autor de clássicos como a trilogia De Volta Para o Futuro, já aderiu à novidade há anos, desde O Expresso Polar. O mais novo a ‘jurar fidelidade à causa’ é Peter Jackson, diretor da saga O Senhor dos Anéis.

Por incrível que pareça, um dos que tentam frear tanto entusiasmo é James Cameron, diretor de Avatar. É verdade que ele também pretende trabalhar exclusivamente nesse formato, de agora em diante. Mas tem reservas quanto à conversão de certas histórias à novidade. “É típico de Hollywood fazer as coisas erradas. Eles pensam: já que Avatar fez sucesso, vamos transformar filmes 2D em tridimensionais em oito semanas e está tudo bem”, disse em entrevista à MTV americana. Foi uma alfinetada a estúdios como a Warner Bros, que adiou a estreia de Fúria de Titãs (foto) para poder condicionar o filme, todo captado em 2D, ao formato tridimensional.
Aliás, Fúria de Titãs estreará no Brasil em 21 de maio – mesma data em que outro filme 3D, Batalha por T.E.R.A., deve entrar em cartaz. A maioria dos complexos tem apenas uma sala com esse estilo de projeção. E agora? Quem vai ceder espaço? Descubra no próximo post como os exibidores estão correndo para dar conta dessa demanda. (Renata Reps)
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