Será que uma propaganda massiva em torno de um Blockbuster é item realmente indispensável para o filme fazer sucesso? A bilheteria de estreia de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, não mente: 875 mil pessoas estiveram presentes nas salas de todo o Brasil durante seu primeiro fim de semana. O público foi recorde das produções da Disney no País e 12% superior ao número anterior da distribuidora, guardado por Piratas no Caribe 3.
Mas nós do Cinema reparamos que muita gente tem saído da sessão decepcionada. Não podemos dissociar esse fato da reclamação geral que ouvíamos diariamente antes da obra estrear: ninguém aguentava mais maquiagem da Alice, roupa da Alice, colares da Alice, capas de chuva, bijuterias e acessórios, conjunto de porcelana da cena do chá… ufa! Tantas marcas buscaram se promover às custas da nova versão do livro de Lewis Carrol que ficou chato. Mas a que ponto essa superexposição atrapalha, de fato, a vida útil de um filme, tanto no quesito ‘bilheteria’ como ‘importância da obra para a história do cinema’?
O crítico e Doutor em Cinema pela Universidade Paris 3, Pedro Maciel Guimarães, acredita que a propaganda gerada pelo boca-a-boca só faz diferença para produções pequenas e não tem qualquer influência em bilheterias de grandes filmes. “Não acho que a decepção que o filme tem gerado se deve à sua espetacularização. Só que adaptar uma obra como essa, de que todo mundo tem referências inclusive imagéticas advindas de livros e filmes anteriores, sempre passa pelo risco de desapontar”, afirma.

Para ele, a melhor campanha pré-estreia de um filme foi feita em 1999 com o marketing viral de A Bruxa de Blair. Vale lembrar que, na época, um site informava aos curiosos que tudo o que eles veriam nas telonas havia realmente acontecido. Muita gente acreditou e foi conferir o filme instigada por esse aparente excesso de realidade. “Tim Burton acerta quando faz roteiros originais, como em Noiva Cadáver. Quando mexe em vespeiro, mesmo caso de A Fantástica Fábrica de Chocolate, acaba errando a mão”, diz Pedro.
No terceiro fim de semana em cartaz, Alice perdeu a liderança na bilheteria – mas não na arrecadação, devido ao preço maior dos ingressos nas salas 3D – para Homem de Ferro 2. A queda, provavelmente, não foi causada pela propaganda negativa de quem não gostou, já que a maioria das pessoas que não tem vasto conhecimento sobre diretor ou obra decide assistir pela comoção geral que existe com um grande lançamento. Essa estratégia é decorrente da campanha de divulgação – muito bem planejada pela distribuidora.

O extenso marketing, porém, serve para atrair o público e manter o filme em cartaz. Em muitos cinemas, Alice… está em mais de uma sala, principalmente com as opções em duas e três dimensões. Com mais salas exibindo o mesmo filme e menos alternativas, a maioria das pessoas busca o filme sem priorizá-lo, e isso garante que a obra permaneça em cartaz. A regra é quase matemática, mas funciona sempre. Então, a não ser que você esteja a fim de colaborar para fazer essa teoria cair por terra, vale apostar na mais nova viagem de Tim Burton. E participar do boca-a-boca, nem que seja para formar sua própria opinião e não se sentir mais por fora do assunto da vez.
O Cinema conversou com alguns dos diretores que estão no festival Cinema de Bordas, que você viu neste post, e descobriu obras primas do cinema caseiro. Um dos diretores, o Felipe M. Guerra, até já apareceu no Fantástico, de tanto que seus filmes ficaram famosos. Outro diretor, Rodrigo Aragão, prepara efeitos especiais bastante realistas: já chegou a usar 700 litros de sangue artificial (leia-se: groselha, mel e corante alimentar) em uma produção, e fez algumas pessoas desmaiarem de pavor no teatro. Já o desafio de Igor Simões foi fazer a cidade de São Paulo se parecer com algo futurista. No ano de 2054, para ser mais exato. Em uma das cenas, tem até uma citação ao filme Stallone Cobra, com a antológica fala “Você é a doença. Eu sou a cura.” Confira um pouco do que você vai ver no festival (que começa hoje e termina domingo, 25).
Diretor | Felipe M. Guerra
Filme | Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na sexta-feira 13 do Verão Passado
O filme, lançado em 2001, é uma sátira aos filmes de terror do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, “especialmente às suas bobagens”, segundo o diretor Felipe M. Guerra. A ideia é parecida com a de Todo Mundo em Pânico, mas com humor ”menos chulo”. Todos os atores são seus amigos e – preste atenção no sotaque – moram no interior do Rio Grande do Sul.
Como todo filme de terror, há mortes bem sangrentas. “Nesse filme eu ainda não tinha descoberto um sangue ‘ideal’”, conta Guerra. “Então a cada morte, tem uma cor diferente. Usamos tudo que lembrasse sangue: suco de groselha, catchup, tinta pra carimbo vermelha”, enumera. A receita ficou ideal mais tarde, quando misturaram coca cola ao suco de groselha (o que, possivelmente, tomou boa parte do orçamento de R$ 250 da produção).
As vísceras de uma das vítimas são de verdade, mas não são de humanos. Foram obtidas de um amigo que faz salame (a cena aparece no trailer).
Apesar da diversão durante as filmagens, Guerra leva seus filmes a sério. “Não é muito avacalhado, a gente dá a maior atenção para roteiro, edição etc. e tal.” Mas, sim, ele sabe das limitações técnicas. “É um trash meio intencional. A gente tem consciência do que faz.”
Guerra é jornalista. Há outros filmes em seu currículo – todos “de borda” -, como a comédia romântica Canibais e Solidão e a sequência de Entrei em Pânico…: A Hora da Volta da Vingança dos Jogos Mortais de Halloween. Influências? Tarantino, oras.
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Diretor | Igor Simões
Filme | Cyberdoom
Foram gastos R$ 400 na produção, com equipamentos, gasolina e lanche (detalhe: para 15 pessoas. Em cinco meses de filmagem). Simões juntou os amigos da faculdade, bolaram um roteiro, mas não foi possível rodar o filme. “O roteiro ficou tão bom que se tornou inviável.” Após uma série de cortes, quem salvou o projeto foi um dos amigos, viciado em quadrinhos, que ‘trabalhou’ como continuísta. Os efeitos especiais foram feitos em Adobe Première.
“Primeiro motivador é o amor ao cinema”, diz Simões, que não tem pretensões comerciais. “A gente faz esse tipo de filme para a família, para os amigos.”
Cyberdoom é uma espécie de Mad Max ecológico. No ano de 2054, a cidade de São Paulo vive um grande problema de escassez de água e epidemias (que na verdade são criadas secretamente por indústrias farmacêuticas ligadas ao governo, a fim de venderem suas vacinas). Há influências de Stanley Kubrick, George Lucas e Matrix, além de toques de pornochanchada. “Por causa dos palavrões”.
A indumentária dos ciborgues é composta por óculos de sol, conduíte de instalações elétricas, roupas de motoqueiro e algumas outras sucatas. Um dos cenários (utilizado clandestinamente, já que ”é um filme cyberpunk, né”) é um trem da CPTM abandonado perto da estação Presidente Altino, em Osasco. Além da fala de Sylvester Stallone em Stallone Cobra, há outra referência a filmes do estilo Rambo: “Vermes como você eu como no café da manhã.”
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Diretor | Rodrigo Aragão
Filme | Chupa Cabra
É um curta-metragem de 17 minutos. Custou R$ 300. O diretor é fã de filmes de terror dos anos 80, como A Coisa, Um Lobisomem Americano em Londres, A Hora do Arrepio e outros com fantasias feitas de espuma. Ele queria fazer algo neste estilo, mas com a cara brasileira, contando lendas regionais. E lá estava o Chupa Cabra, presente nos noticiários no fim da década passada e até hoje no imaginário de pequenas cidades interioranas.
A fantasia de Chupa Cabra é feita de silicone. No filme, foram usados dez litros de sangue artificial – groselha, chocolate, mel e corante alimentar.
O que Aragão faz, segundo ele próprio, é “Terror de Perocão”, referindo-se a uma região capixaba de pescadores (Aragão é do Espírito Santo). Ele fazia efeitos especiais em peças de teatro – sim, com bastante sangue também. “Em dois meses, fizemos 19 pessoas da plateia desmaiar por causa da peça”, lembra, com certo orgulho. Para fazer os filmes, os amigos do teatro ajudam. “É tudo mambembe, em regime de mutirão”, conta.
O filme Chupa Cabra está virando longa-metragem. O orçamento previsto é de R$ 100 mil – obtidos através da iniciativa privada. O processo já não é mais tão mambembe. Mas o diretor garante: seu cinema ainda é de bordas.
Falta pouco mais de uma semaninha para o novo filme As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzsky, estrear nas salas de todo o Brasil. Agora, o Cinema apresenta um vídeo exclusivo, feito durante a gravação do longa, que mostra toda a animação do protagonista Francisco Miguez ao ver uma reportagem sobre o filme no Caderno 2 do Estadão. Afinal, foi a primeira vez que ele apareceu em um jornal!
No vídeo, também vibram juntos a diretora Laís Bodanzky, o produtor Caio Gullane e o ídolo teen Fiuk, que faz parte do elenco. Tudo isso para aumentar as expectativas para a estreia, na sexta-feira (16), do filme que vai mostrar uma fase de maturidade na carreira da diretora. E o clichê é verdadeiro: os cinéfilos de plantão não perdem por esperar.
Já ouviu falar nessa categoria (do título)? Tim Burton, com certeza, é um de seus precursores. São filmes de atmosfera sombria, cenários soturnos e capazes de gerar grande tensão psicológica até mesmo em adultos – nas crianças, então, nem se fala. Desde O Estranho Mundo de Jack (1993), o primeiro longa de animação com roteiro do cineasta, até a chegada de Alice no País das Maravilhas, com pré-estreia no dia 21, Tim Burton atinge espectadores de uma maneira lúdica muito expressiva: um horror bonito, fofo e infantilizado.

Alice no País das Maravilhas
Alice é assim. Depois de assistir ao filme, a dúvida que fica é: trata-se de uma obra para crianças ou para adultos? Coraline e o Mundo Secreto (2009), de Neil Gaiman, desperta a mesma pergunta. A história da menina que entra por uma portinha e se depara com um mundo escuro, onde é sempre noite e todas as pessoas têm olhos de botões, deixa qualquer adulto (bem, nem todos) com calafrios. Vá por outro lado, fora das animações. Pense na cena no cavalo se afundando em areia movediça em A História Sem Fim (1984). Em uma rápida visita aos vídeos da cena no Youtube, você vai ver que não é o único que se debulha em lágrimas até hoje ao lembrar do terrível choro de Bastian ao perder seu melhor amigo. E olha que o filme é para crianças.
Quando um diretor faz terror infantil, gênero que agrada aos adultos, é comum ouvir as pessoas dizerem que “esse não é um filme infantil”. Grande parte dessas obras, porém, são baseadas em livros de fantasia direcionados especificamente para crianças – caso de todos os citados acima. O que preocupa é se a exposição a esse tipo de ansiedade pode gerar algum tipo de trauma à criança.

Coraline e o Mundo Secreto
“Sim, existe essa possibilidade. Se a criança não digere o estresse gerado por filmes agressivos, tristes ou assustadores, ela pode ter reações comportamentais a isso, como dormir mal, ter queda de rendimento escolar ou irritabilidade”, explica Denise Pará Diniz, psicóloga coordenadora do Centro de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp. O garoto pode até assistir ao filme sozinho ou com amigos, mas, depois, é importante que a família pergunte o que ele entendeu da trama e o que está sentindo. “A criança precisa perceber o que ali é parecido com o real e o que é uma simples fantasia. Permitir que ela expresse o que sente por conversas ou desenho é uma boa dica”, diz Denise.
É claro que esse tipo de filme não é exatamente desaconselhável aos pequenos – talvez as produtoras já teriam parado de investir neles e a Classificação Indicativa os boicotaria. O lado bom é que colocam em pauta assuntos que teriam uma abordagem direta mais difícil entre pais e filhos, como violência ou temas mais abstratos – representações reais e irreais deles mesmos e dos outros, por exemplo.
Por fim, gaste 5 minutos para assistir a este curta de animação da Pixar, Alma, criado pelo espanhol Rodrigo Blaas em 2009 e vencedor de vários prêmios internacionais. Ele usa o terror infantil para falar de um tema extremamente complexo: a autoimagem e autoidentificação da criança. Uma forma bastante enigmática de captar a concentração de qualquer pessoa, seja ela pequena ou grande.

O cinema é uma arte enrolada?
O processo de produção de um filme é muito demorado. Da procura do argumento ideal (que dará origem ao roteiro futuro) até a fase de pós-produção, existem muitas etapas a serem cumpridas. A principal diferença entre o pontapé inicial do trâmite no Brasil e nos Estados Unidos é que, por lá, na maior parte dos casos, são as produtoras que procuram um diretor interessado em assumir o projeto. Isso leva tempo, é claro. Mas, por aqui, a pior burocracia está na fase de arrecadar recursos para tocar a ideia que está na cabeça do diretor. Apoio e patrocínio de empresas públicas e privadas são a nossa principal fonte de dinheiro.
No entanto, em um mundo ideal onde a grana não seja um empecilho, um diretor deveria ser capaz de finalizar um filme em um período que varia entre dois e três anos. Para a fase inicial de elaboração de um roteiro adequado, leva-se em média um ano. Mas o cineasta Heitor Dhalia (À Deriva, 2009, e O Cheiro do Ralo, 2006) explica que o cinema é uma arte lenta, que precisa de uma conjunção de muitos fatores dando certo ao mesmo tempo para funcionar – e que, consequentemente, torna-se um verdadeiro milagre lançar filmes muito próximos um do outro, como faz Martin Scorsese, por exemplo (Ilha do Medo, em cartaz, Os Infiltrados, 2006, O Aviador, 2004, Gangues de Nova York, 2002, só para citar os principais últimos).
“Tudo que o diretor quer é filmar, mas os projetos têm dinâmicas próprias e não dependem só de sua vontade, muito pelo contrário. Elaborar um roteiro, captar imagens, fazer as fimagens, enfim, tudo demora muito”, afirma Dhalia. E conclui com uma frase que o amigo, ator e produtor Selton Mello costuma dizer o tempo todo: “O processo é lento, o barato é louco e o bagulho é sério.” Coisa de cineasta, mesmo.
O que leva um diretor a ficar tanto tempo por conta de um único filme? Tem gente que acha que a produção deve ser mais rápida e que o papel desses profissionais é lançar um grande número de obras de boa qualidade sim, mas no menor intervalo de tempo possível. Alguns têm outra opinião: há quem considere que, às vezes, dez anos são necessários para elaborar um roteiro sensacional, com filmagem espetacular e pós-produção que beire o perfeito – como é o caso de James Cameron, em Avatar, que levou anos criando o alfabeto Na’vi e a cultura do planeta Pandora, além de ter de esperar uma década para que a tecnologia 3D alcançasse seus planos megalomaíacos para o ano de 1994.

David Fincher vai filmar a história do jogador de xadrez Bobby Fisher
David Fincher, diretor de Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995), Clube da Luta (1999) e O Curioso Caso de Benjamin Button (2008) bem que poderia ser um pouco mais veloz entre uma produção e outra. Ele fez filmes menores entre esses grandes sucessos, mas, para as obras primas, ele demora muito tempo. Longe da Paramount, distribuidora dos seus dois últimos filmes, ele anunciou ontem que vai dirigir um novo longa feito pela Columbia Pictures. Pawn Sacrifice vai contar a história do legendário jogador de xadrez Bobby Fisher, que venceu os primeiros campeonatos aos 13 anos, participou de um mundial aos 22 e quebrou com a hegemonia russa no esporte, tornando-se um grande herói americano.
A pergunta é: de quanto tempo um filme de sucesso precisa para ficar impecável? Desde o lançamento de O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (2003), os fãs aguardam ansiosamente a chegada de O Hobbit, que é na verdade o primeiro dos livros de J. R. R. Tolkien. Peter Jackson, no entanto, teve vários entraves legais e, até hoje, as filmagens ainda não começaram – ele previu um mínimo de 14 meses para que elas sejam concluídas. O que pode ser feito para acelerar esse processo e não comprometer a qualidade dos filmes? Dê a sua opinião e aguarde os próximos posts.

Viggo Mortensen será Freud no longa The Talking Cure
Quem assistiu a Bastardos Inglórios com certeza vibrou ao ver Christoph Waltz abocanhar o Oscar de ator coadjuvante pela performance como o caçador de judeus Hans Landa. Era de se esperar, no entanto, que Waltz fosse buscar novos desafios mais adiante, interpretando personagens inéditos e diferentes do último que criou, como todo bom ator costuma fazer. Ele poderia até ir na contrapartida da linha inspirada pelo Holocausto e viver um dos mais famosos judeus de todos os tempos, Sigmund Freud. Era uma ideia interessante.
A proposta veio - e foi feita pelo mesmo diretor de A Mosca (1986) e Crash (1996), David Cronenberg, o ‘Barão do Sangue’. Todos esperavam que os olhos de Waltz fossem brilhar ao ler o roteiro de The Talking Cure (ainda sem tradução), a adaptação ao cinema de uma peça criada por Christopher Hampton que trata de conflitos entre o pai da psicanálise e seu discípulo, Carl Jung. Mas não. O vencedor do Oscar preferiu outro projeto. Qual? Outro psicopata. Ele viverá August no filme Water for Elephants (também sem tradução), baseado no livro homônimo de Sara Gruen e dirigido por Francis Lawrence.
Não que se trate de uma escolha errada. O papel foi cobiçado até mesmo pelo seletivo Sean Penn e o elenco do filme já conta com astros hollywoodianos como Robert Pattinson e Reese Witherspoon. Com estreia prevista para 2011, o início das filmagens já será no dia 17 de maio e há grandes espectativas para a produção. É que o público – e a crítica – esperavam ver o ator se aventurar por linhas diferentes (e correr o risco de ser estereotipado como um intérprete de sádicos parece iminente).
Ah, sim. Quem fica como protagonista de The Talking Cure é Viggo Mortensen, da trilogia O Senhor dos Anéis e do longa Senhores do Crime (2007), último filme de Cronenberg. Boa sorte aos dois. (Efe)

(Clique aqui para conferir os posts anteriores desta série, que explica em detalhes o processo de distribuição dos filmes no Brasil.)
Filme é como gente, bicho ou planta: ele também tem um ciclo de vida. Nasce nos cinemas; cresce e vai para a locadora; amadurece e chega aos canais por assinatura; e depois morre na TV aberta. Tudo isso costuma levar cerca de dois anos.
A mais rentável dessas fases é a ‘adolescência’. O mercado de home video, que abrange a venda e locação de DVDs e BluRay, pode representar até 50% da arrecadação de um título, segundo um relatório da Marché du Film – World Film Market Trends.
Mas esta galinha dos ovos de ouro em sendo depenada pela pirataria. Nos EUA, a arrecadação com a venda de DVDs caiu de US$ 24 bilhões em 2006, para US$ 22 bilhões em 2008. Embora ainda não seja forte o suficiente, o BluRay tem tentado compensar esses números. O setor de home video diminuiu em 9% nos últimos quatro anos. Mas teria diminuído 11% se não fosse esse novo formato mais sofisticado de reprodução doméstica.
No Brasil, outro problema é o acesso da classe C (agora com renda maior) à TV por assinatura. Comprar um pacote de canais de longas-metragens pode sair mais barato do que ir algumas vezes ao cinema – que chega a custar até R$ 50 para um casal. É caro? Há controvérsias. “Um parâmetro de comparação de preços que sempre funcionou foi a entrada no estádio de futebol. Para assistir a um jogo na arquibancada, a pessoa pode desembolsar até R$ 40. O máximo que ela vai pagar por uma sala 3D de última geração é R$ 25”, comenta Paulo Sérgio, cineasta e diretor do portal Filme B.
Mas comparar cinema e futebol, em pleno ano de Copa, pode não ser uma boa estratégia. (Renata Reps e Marcel Nadale)

(Para ler os posts anteriores desta série, que explica em detalhes o processo de distribuição dos filmes, clique aqui.)
Se você quiser transformar a vida de um atendente de videolocadora em um inferno, diga a ele que está procurando um filme, mas não se lembra de qual. Só sabe que talvez ele tenha as palavras ‘jogo’, ‘paixão’, ‘intriga’ ou ‘da pesada’ no título. O coitado vai achar uma lista imensa no sistema…
Não tem jeito: as distribuidoras alteram os títulos originais sem hesitar. Em parte, para se adequar ao público brasileiro. Por aqui, não funcionam títulos com o nome do personagem, por exemplo. (Forrest Gump, uma das raras exceções, ganhou o subtítulo O Contador de Histórias). E títulos muito complexos ou metafóricos, que exigem preciosos segundos de interpretação, também são dispensados, em troca de expressões um pouco mais vagas, mas que não afugentem ninguém. E dá-lhe um “Fulano do barulho” ou “Não-sei-o-quê quase perfeito”.
Mas não se engane, tudo isso acontece com a aprovação da produtora original, dona dos direitos da película. Só que, quanto mais forte é a marca, mais difícil é mudar o nome: Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Batman e A Saga Crepúsculo, com suas traduções literais, estão aí para provar isso.
Outro elemento que pode confundir os fãs são os trailers. “Eles têm uma função de venda clara e um objetivo que não precisa nem ser dito: esconder os defeitos do filme, para evitar ao máximo a rejeição do público, e apresentar suas virtudes”, define o cineasta Paulo Sérgio (diretor do portal Filme B, que se ocupa do mercado cinematográfico).
Anos e anos de pesquisa de marketing ajudaram a refiná-los de tal maneira que hoje todos parecem um clichê. Por exemplo: o público (no Brasil e nos EUA) costuma ser reticente com filmes de época. Logo, a narração evita determinar o período da trama, apelando para chavões vagos como: “Numa época… em que o amor era proibido… e a tirania estava no poder…”. Pelo mesmo motivo, o trailer costuma acabar com as surpresas do filme: seu poder de convencimento é maior se ele já incluir as melhores piadas da comédia ou os melhores sustos de um suspense. (É o caso do comercial de Entre Irmãos, acima, que conta praticamente o filme todo em 2 minutos e meio).
Desta vez, porém, a distribuidora não tem culpa de nada. Ela apenas recebe os trailers já prontos, direto do produtor da película. Cabe a ela apenas fazer legendas – escolher entre as cores branca e amarela para ver qual cai melhor na tela – e produzir os cartazes.
Amanhã, no último post da série, o Cinema fala do estágio final da distribuição: o mercado de DVDs e BluRay. (Renata Reps e Marcel Nadale)

(Este é o quarto post na série que explica o sistema de distribuição de filmes no Brasil. Confira o primeiro, o segundo e o terceiro).
Onde você entra no processo de distibuição? Bem antes do que imagina. Seu mero interesse por um filme, antes mesmo da estreia, é o principal fator para “inflacionar” seu preço na hora da distribuidora vendê-lo ao exibidor. Blockbusters custam caro. Já filmes não tão ‘quentes’ podem ser vendidos por um preço mais em conta - alguns, até em pacotes na linha “pague 2, leve 3″. Depois que o filme entra em cartaz, a inescapável lei da oferta-e-procura segue firme. Se a frequência do público cai, o exibidor substitui a película por outra, mais recente ou com maior apelo.
Mas prever esse interesse, claro, não é uma ciência exata. Basta passar no HSBC Belas Artes, em São Paulo, para ter um exemplo evidente: um filme pequeno, francês, está em cartaz desde julho de 2008 2007! O drama Medos Privados em Lugares Públicos (foto) é um desses fenômenos que desafiam explicação.
Na verdade, até há uma justificativa, mesmo que parcial. Ele está ’morando’ no Belas Artes há tanto tempo porque a ‘dona’ do cinema é também a distribuidora do filme, a Pandora. (Essa duplicidade de cargos, aliás, é proibida por lei nos EUA). O diretor-geral da Pandora, André Sturm, porém, garante que ele ainda dá lucro - a audiência realmente se apaixonou pela película. “Na última terça-feira de Carnaval, numa sessão às 14h, foram 58 pessoas”, comemora. ”O filme virou uma febre, todo mundo assiste e fala para os amigos, e assim ele permanece dando público.”
No post de segunda-feira (1/3), saiba por que existe tanta tradução de títulos ruins no Brasil – e por que tanto filme parece melhor no trailer do que realmente é. (Renata Reps)
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