
Na porção argeliana da cordilheira do Atlas, no norte da África, uma rarefeita paisagem abriga o mosteiro onde oito religiosos franceses assistem uma comunidade carente, fornecendo de apoio médico a sapatos e conselhos amorosos. O retrato do dia a dia idílico dá início a Homens e Deuses, de Xavier Beauvois.
Ainda que se admire a harmonia entre os monges cristãos e o vilarejo muçulmano, o que os une são valores universais – caridade, tolerância. O que faz deste um filme não sobre religião, mas sobre fé.
Ataques em locais próximos ameaçam o vilarejo. As autoridades intervêm – preferem que os monges voltem para a França antes que virem moeda de troca nas mãos dos fundamentalistas islâmicos – e, é claro, a tragédia seja computada na conta dos governantes.
Fiéis ao propósito a que dedicam suas vidas, os monges decidem ficar, a despeito do destino que se apresenta. Tanto quanto respeitam Deus, celebram o homem. E esta concepção humanista fundamenta uma das poderosas cenas finais, em que os monges, em sua possível última ceia, jantam ao som de Tchaikovsky, e ao sabor de um bom vinho. Uma homenagem, afinal, a dois grandes feitos da humanidade. Carolina Arantes

Depois de Lixo Extraordinário, João Jardim dá adeus ao retrato edificante do homem para investigar sua miséria em Amor?, documentário que enfoca a violência doméstica por meio de relatos reais, de pessoas que tiveram sua identidade protegida pela dramatização.
Ainda que o recurso, e também a edição, lembrem bastante Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, em Amor?, Jardim alterna os depoimentos com cenas de grande carga poética, muitas delas envolvendo água. (Uma metáfora recorrente: o banho que leva embora os ferimentos, a vergonha, a culpa?)
Responsável pelo primeiro depoimento, Lilia Cabral, memorável, revela a complexidade e, aos poucos, a contradição dos argumentos desta primeira personagem que ‘precisou apanhar’ para se tornar ‘uma mulher de verdade’ – e cujo conflito físico, argumenta, foi ponto de partida para a salvação do casamento. Em comum, os relatos (encenados ainda por Julia Lemmertz, Ângelo Antônio, Du Moscovis e outros) trazem a incômoda sensação de que, não dificilmente, nos envolveríamos em situações semelhantes, todas elas incompatíveis com os reducionistas ou mesmo equivocados conceitos de ‘vítima’ e ‘algoz’. Carolina Arantes
2011
2010