
Na primeira cena não há fogo – e nem um letreiro que anuncie o nome de Incêndios, este longa canadense indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Vê-se apenas uma paisagem, árida, que aos poucos se revela ser a vista da janela de um recinto onde as cabeças de vários garotos estão sendo raspadas. A câmera acompanha o desenho das nucas, rostos e calcanhares, ao som de You and Whose Army?, canção do Radiohead. Mas o que está acontecendo ali? Para entender, é preciso seguir a jornada de Os Gêmeos (esse, sim, o primeiro letreiro). Os jovens Jeanne e Simon vivem no Québec e acabam de perder a mãe, que deixou um testamento singular. As revelações do documento pedem uma viagem ao Oriente Médio, o lugar de origem dessa mulher que sempre foi misteriosa para eles. Vemos o deslocamento de Jeanne pelo passado da mãe (interpretada com pulso por Lubna Azabal): que segredos guardava a vida que deu origem à sua? A história, baseada em uma peça do escritor de origem libanesa Wajdi Mouawad, é surpreendentemente complexa e contada com delicadeza. E, assim como a canção do início, pode permanecer, por semanas, na lembrança do espectador.

Bruna Surfistinha fala de uma menina que saiu da casa dos pais, trabalhou muito, fez coisas que talvez preferisse não ter feito e amadureceu com essas experiências. Resumido assim, o filme de Marcus Baldini sobre a ex-garota de programa Rachel Pacheco soa como uma história quase universal. Não deixa de ser. Mas Bruna, em suas próprias palavras, “trabalha com sexo”. E este é um dos motivos por que a trajetória dela – e não a de outra garota – virou o filme que estreia hoje (25). Baseado no livro ‘O Doce Veneno do Escorpião’, em que Raquel relatou a sua experiência como garota de programa, o longa começa do momento em que a personagem decide sair da casa dos pais para viver em uma casa de prostituição de São Paulo. E a acompanha enquanto vai se tornando uma profissional bem-sucedida – e passa a descrever a sua rotina em um blog. Escalada para o papel pouco antes das filmagens, Deborah Secco não se mostra nunca aquém daquilo que o filme exige dela. E está acompanhada de um bom elenco de mulheres – como Drica Moraes e Fabiula Nascimento. Mas Baldini não fez um drama de questões profundas. Seu filme é pop – uma história quase universal com um pouco de sexo. Rafael Barion

Foi pelo rádio, em 1936, que Besouro Verde alcançou o sucesso nos EUA. Mas foi na televisão – 30 anos depois e com Bruce Lee entre os protagonistas – que o personagem tornou-se mundialmente conhecido. A série televisiva foi a referência do diretor Michel Gondry (Rebobine, Por Favor), que teve êxito em criar um bom filme de entretenimento, mas falhou ao deixar seu Besouro Verde, vivido por Seth Rogen, excessivamente bobo – algo que deve desagradar aos fãs da série. Mas a falha também deve ser colocada na conta do próprio Rogen, que assina, junto com Evan Goldberg, um roteiro com poucas piadas inspiradas e que abusa do humor estridente, lembrando as comédias de ação estreladas por Jackie Chan. A história é simples: Britt Reid, um playboy egocêntrico e patético, recebe o jornal ‘Sentinela Diária’ como herança. E acaba se aproximando do mordomo de seu pai, Kato, que possui uma impressionante habilidade para as artes marciais – e para construir parafernálias de combate, como carros inteligentes e armamentos. Os dois novos amigos, por diversão, se transformam em super-heróis. Emtempo: não gaste dinheiro com salas 3D. Orecurso foi subaproveitado e não faz falta alguma. Douglas Vieira

Tramas baseadas em elencos de praticamente um único ator são arriscadas. Robert Zemeckis fez um bom trabalho em Náufrago (2000), no qual o personagem de Tom Hanks fica sozinho em uma ilha. Agora, Danny Boyle (de Quem Quer Ser um Milionário?) assume o desafio em 127 Horas, que estreia hoje (18). Ofilme conta a história verídica de Aron Ralston, que, em 2003, ficou preso em um cânion do Colorado por mais de cinco dias. Enquanto explorava o lugar, uma rocha se desprendeu e caiu sobre o seu braço, pressionando-o contra a parede de uma passagem subterrânea e estreita. Olonga se baseia no livro em que Ralston descreve a experiência. Mas Boyle e sua equipe também tiveram a chance de ver o vídeo que ele gravou enquanto estava preso. A câmera teve um papel importante para que ele mantivesse a lucidez – assim como Wilson, a bola que fazia companhia a Hanks na ilha deserta. Oroteiro transmite com eficiência um sentimento claustrofobia, reforçado pela proximidade da câmera. Você pode sentir vontade de fechar os olhos no clímax da história (que não vamos contar aqui). Mas, se puder mantê-los abertos, melhor.Não vale a pena perder a atuação de James Franco. Luiza Wolf

O veterano Anthony Hopkins viveu um homem perturbado em O Silêncio dos Inocentes (1991) e precisou enfrentar um vampiro poderoso em Drácula de Bram Stoker (1992). Agora, luta contra 0 diabo como o padre Lucas de O Ritual, de Mikael Håfström. Além de lidar com forças demoníacas, o protagonista também precisa convencer o jovem aprendiz Michael (Colin O’Donoghue) e a jornalista Angeline (interpretada pela brasileira Alice Braga) de que a prática do exorcismo faz sentido. Baseado no livro de Matt Baglio (que relata fatos supostamente reais), o filme discute a crença na existência do demônio e na possibilidade expulsá-lo de corpos humanos. “Gosto do roteiro porque aborda um tema controverso e que as pessoas não costumam discutir”, disse Alice, em entrevista à TV Estadão. Luiza Wolf

Uma garota sonhadora decide buscar a fama no show business. Essa é a trama de muitos musicais – e Burlesque não é diferente. Ali (Christina Aguilera) vai para Los Angeles atrás do estrelato. Lá, trabalha no bar de Tess (Cher), ex-dançarina de cabaré. Apesar do roteiro pouco criativo, o filme levou o Globo de Ouro de canção e concorria a melhor filme (entre comédias e musicais). Mas está também indicado ao Framboesa de Ouro, na categoria pior atriz coadjuvante (para Cher). Luiza Wolf

Há algumas semanas, o Cinesesc presta uma homenagem ao diretor italiano Luchino Visconti. Depois dos filmes Belíssima e Morte em Veneza, o cinema exibe, a partir de hoje (11), Violência e Paixão (1974), em cópia restaurada e inédita. Na trama, a vida de um professor de Roma é infernizada por seus inquilinos. Luiza Wolf

Natalie Portman é esplêndida como Nina Sayers, a bailarina atormentada que protagoniza Cisne Negro. Dirigida por Darren Aronofsky (de Pi, Réquiem para um Sonho e O Lutador), Natalie enche de vida – e de pavor – o corpo magro da personagem, uma garota perfeccionista cujo sonho vemos se transformar em um transtorno.
Nina integra o balé de Nova York e sonha em obter o papel principal da próxima montagem: O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Mas a escolhida terá de viver, além do Cisne Branco, para o qual ela já é perfeita, o Cisne Negro que dá nome ao filme. Para tanto, não bastam a destreza nos passos e a formosura de quem vive em um quarto rosa, cercada de bichos de pelúcia, como ela. Será preciso prestar atenção aos túneis escuros e sujos do metrô por que passa todos os dias. E às provocações de seu coreógrafo (Vincent Cassel), à inveja das colegas, à loucura da veterana Beth Macintyre (Winona Ryder), à raiva que tem da mãe superprotetora (Barbara Hershey). São sentimentos contidos, que, quando vêm à tona, representam a pulsão de morte que domina o filme.
Este lado obscuro da frágil bailarina é também erótico, é claro. E aí mora a tão comentada cena de sexo entre Nina e Lily (Mila Kunis), a nova colega tatuada que a atrai e provoca. Mas o diretor, sabiamente, não pesa a mão aí – e nem nos avanços do coreógrafo sobre ela. Porque, apesar da câmera, que a filma sempre de perto, e dos muitos espelhos, com reflexos que por vezes a assustam, só quem pesa a mão sobre Nina Sayer é ela mesma. Que se arranha, descasca, puxa pedaços de pele do dedo sem conseguir estancar o sangue.
Pequenos e grandes machucados de uma atriz que, vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar, soube se dar ao filme e tirar dele uma luz: hoje está mais cheinha, grávida de Benjamin Millepied, o coreógrafo que a ensaiou para o papel (e que vive o bailarino David).
O longa também concorre a melhor filme, direção, montagem e fotografia. E brilha, com a sua escuridão, em todos esses aspectos.
2011
2010