
No filme original, personagens vestindo capacetes se digladiavam em cenários virtuais coloridos. O gaiato programador virtual/hacker Kevin Flynn (Jeff Bridges) adentrara nesse mundo para recuperar sua autoria de sistemas da empresa Encom. Tron – Uma Odisseia Eletrônica se tornou cult, porque suscitava questões originais sobre o tema. Não resta muito desse clima de descoberta em Tron – O Legado, continuação que estreia hoje, quase três décadas depois.
Flynn – vivido de novo por Jeff Bridges – conta ao filho pequeno sobre ‘A Grade’, um extraordinário mundo virtual. Mas logo desaparece. Adivinhe onde ele foi parar.
Aos 27 anos, Sam Flynn (Garrett Hedlund), o maior acionista da Encom, é estimulado a ir em busca do pai. Com ele, o espectador vai conhecer um mundo virtual em 3D, com cenários frios, pretos e elegantes, distantes da estética charmosamente tosca dos anos 80. Pelo menos, por ali, reina a trilha sonora do Daft Punk. E ainda há corridas de motocicletas e batalhas de discos em um estádio lotado, com um público (também virtual) que vai ao delírio.
Mas, nesta sequência, o foco mudou. No primeiro filme, a realidade virtual era uma novidade capaz de provocar discussões (nerds) profundas. Agora, a prioridade é uma relação sentimental entre pai e filho. Bridges continua ali e o colega Alan (Bruce Boxleitner, que vive Tron), também. Mas o roteirista e diretor do original, Steven Lisberger, assina só a produção do filme de Joseph Kosinski – e, claro, uma consultoria. Falta criatividade à sequência. Às vezes, parece só um videogame moderno. Que você nem está jogando.

Tetro, de Francis Ford Coppola, é carregado de sustos e segredos. No começo, um garoto chega a Buenos Aires à noite, vestindo uniforme branco. Mas ele não é um marinheiro: Benjamin (Alden Ehrenreich) trabalha em um cruzeiro. E aproveitou a quebra do navio para ir à casa do irmão Angie – um escritor que partiu dos Estados Unidos prometendo buscá-lo. Quem o recebe amorosamente é Miranda (Maribel Verdú). Já o marido – uma figura ao mesmo tempo encantadora e assustadora vivida por Vincent Gallo (Brown Bunny) -, lhe diz: “Angie está morto. Meu nome é Tetro”. E não quer papo sobre o passado.
Mas as histórias dessa família de origem italiana vêm à tona – de forma atormentada (para os personagens e para os espectadores). É uma experiência de cinema forte, provocante, intensificada pela música do argentino Osvaldo Golijov. Por exemplo: quando se pensa estar assistindo a um filme em preto e branco (lindo), aparecem cenas em cores fantasiosas. E, quando se ri das situações burlescas protagonizadas pela crítica literária Alone (Carmen Maura), podem surgir revelações vitais à trama. Um raro e bem-vindo cruzamento de emoções.

Alguns filmes já retrataram a imigração mexicana ilegal para os Estados Unidos. Mas é difícil lembrar de uma produção que trate dessa questão como fizeram os diretores Robert Rodriguez e Ethan Maniquis em Machete. Não é ofensa chamá-lo de um filme ‘trash’: mistura constante de humor e ação, esta história tem muito sangue, tiros e cabeças voando.
Robert De Niro interpreta um senador do Texas que detesta imigrantes mexicanos ilegais. Durante a campanha eleitoral, ele sofre uma tentativa de assassinato. Para a mídia, o culpado é Machete (Danny Trejo), um matador de aluguel – e mexicano. Mas a história é mais complexa: Machete foi contratado pela equipe do próprio senador e depois incriminado pelo governo americano. O mexicano precisa, então, provar que foi vítima de uma armadilha. Para isso, conta com a ajuda da agente de imigração Sartana (Jessica Alba).
Rodriguez repete a fórmula que tinha usado em Planeta Terror (2007): as cenas violentas são tão exageradas que acabam provocando risos. Se o humor negro não lhe agradar, divirta-se com as situações em que o diretor coloca seus atores (como Lindsay Lohan vestida de freira, por exemplo). (Luiza Pereira)

Mark Zuckerberg usa moletom de capuz e chinelos aonde quer que vá em A Rede Social. Seja em seu quarto de estudante em Harvard, de onde criou o Facebook, ou no julgamento em que responde por roubo de propriedade intelectual. O figurino não indica só a idade deste que se tornou o mais jovem bilionário do mundo. É também uma questão de postura. Enquanto Eduardo (Andrew Garfield), o sócio brasileiro – que era seu único amigo, de fato -, veste terno e tenta patrocínios em Nova York, o gênio segue para a Califórnia a conselho de Sean Parker (Justin Timberlake), do Napster. Ele diz não querer dinheiro, mas que o site seja ‘bacana’ (‘cool’).
Dá gosto ver a atuação de Jesse Eisenberg: ele olha para a janela enquanto lhe fazem perguntas, soa indiferente. Mas logo devolve, impassível, as respostas mais engenhosas. É afiado, uma palavra que também descreve o longa de David Fincher (de Seven e Clube da Luta).
A sequência inicial, um diálogo perspicaz em que a namorada chama Zuckerberg de babaca (e estimula, com isso, a criação do site), dá o tom e o ritmo do filme. Ele parece passar em um segundo – um pouco como o tempo, quando se usa a rede.

Lançado em 2005, pelo jornalista Bob Spitz, The Beatles – A Biografia é considerado um dos livros mais confiáveis sobre a história da banda. Mas não foi ele que serviu de base para O Garoto de Liverpool, o filme de Sam Taylor-Wood sobre John Lennon que estreia hoje (3). Sua fonte é Imagine – Crescendo com meu Irmão John Lennon, publicado por Julia Baird alguns meses após o lançamento da obra de Spitz – e considerado oportunista por muita gente.
Diferentemente do livro, o filme aborda apenas a adolescência de Lennon (Aaron Johnson). Quando tinha cinco anos, ele passa a morar com a tia Mimi (vivida por Kristin Scott Thomas), que julga que a irmã não tem responsabilidade suficiente para educar uma criança. Anos depois, porém, mãe e filho se reencontram. E se apaixonam um pelo outro – e também pelo rock.
O filme deve agradar a quem não é ‘beatlemaníaco’, pois é uma história bem-contada. Mas quem se apegar à veracidade da trama pode se incomodar: alguns fatos não são narrados da forma como relatou Spitz (a suposta relação difícil entre Lennon e a tia, por exemplo, parece ter sido suavizada). Escolha acreditar nele ou em Julia. (Luiza Pereira)
2011
2010