Era uma vez um repórter aéreo na noite do réveillon.
Vou contar uma história que só quem mora ou já morou em São Paulo é capaz de entender em seu sentido mais amplo.
Foi há onze anos, em 31 de dezembro de 1998, e aconteceu comigo a bordo do helicóptero, sobrevoando as estradas e com o Caio Camargo no estúdio da Eldorado ancorando a programação.
Era ele quem conversava com os ouvintes que ligavam sem parar em um plantão de final de ano.
Dez horas da manhã e o Sistema Anchieta - Imigrantes estava congestionado entre São Paulo e o litoral, com o trânsito aumentando cada vez mais.

(Sérgio Castro/AE)
Em 1998, a pista para a descida da serra da Rodovia dos Imigrantes ainda não estava pronta e isto obrigava a empresa gestora a implantar um esquema chamado Operação Descida que consistia na inversão da mão de direção da pista de subida para o sentido baixada santista.
A frota de veículos no Estado, naquele ano, já superava a casa dos quatro milhões e os engarrafamentos eram constantes em todos os lugares.
Por volta do meio dia já estava tudo parado para quem viajava de carro, fosse na Anchieta ou na Imigrantes que é onde eu concentrava meu sobrevoo.
Da mesma forma como acontece em toda véspera de ano novo, São Paulo estava, de certo modo, tranqüila. A exceção era a Avenida Paulista e o Centro, interditados por causa da festa oficial de réveillon e da corrida de São Silvestre.
Telefones celulares existiam em grande número no final de1998 e a participação dos ouvintes repórteres na Eldorado já era bem grande.
Eles ligavam para dividir notícias do trânsito com os demais ouvintes e aproveitavam para reclamar do tráfego ruim na Imigrantes e de motoristas que se utilizavam do acostamento para trafegar.
Do helicóptero informando, eu recomendava aos "espertinhos" para que não cortassem caminho porque mais à frente encontrariam tudo parado do mesmo jeito, mas compre sempre havia de fato os desobedientes.
Os telefonemas continuaram na parte da tarde com a maioria reclamando mais ou menos as mesmas coisas até como forma de desabafo.
Eu continuava no helicóptero pensando na situação daquelas pessoas que, depois de todo sufoco que é o Natal, com tantas compras e correrias, nada melhor que um banho de mar para espairecer, mas o que se tinha era uma rodovia abarrotada de carros.

(Tiago Queiroz/AE)
Tudo aquilo era muito estressante, eu havia começado meu trabalho às sete da manhã e o sobrevoo a partir das oito. Entre uma pausa e outra para reabastecimento, eu me alimentava, mas continuava acompanhando tudo o que a rádio transmitia.
As pessoas começavam a relatar que tinham ficado 4 horas e meia na estrada para um trajeto em torno de 80 quilômetros entre São Paulo e o Guarujá, por exemplo.

(Ernesto Rodrigues/AE)
Alguns ouvintes passaram a cobrar mais policiamento nas rodovias e pedir mais investimentos na construção de novas estradas.
Fiquei imaginando não só uma nova pista para a Imigrantes, mas também uma Rodovia dos Tamoios duplicada entre São José dos Campos e Caraguá, além de uma Mogi – Bertioga bem melhor que a da época.
O interessante é que estamos em 2009 e essas duas estradas continuam péssimas, fazendo com que, ainda hoje, a demanda de tráfego no Sistema Anchieta – Imigrantes seja maior que o esperado e as lentidões continaum.
Nosso voo prosseguia e quando já estava escurecendo, pedi para o piloto fazer uma rasante na fila da praça de pedágio da Imigrantes.

(Ernesto Rodrigues/AE)
Eu queria que as pessoas vissem que elas não estavam sozinhas no tráfego lento e que havia alguém preocupado com elas, um repórter aéreo.
Para minha felicidade, consegui alguns acenos e até piscadas de farol dos carros parados.
Em seguida, um senhor telefona à Eldorado e conta que está com a esposa e dois filhos pequenos, explicando que gastou duas horas para trafegar apenas dez quilômetros, o trânsito piorava e outro ouvinte exclama: "Eu já não agüento mais"!
Caio Camargo do estúdio avisa que a previsão é de que o trânsito continuará ruim ainda por várias horas e alerta para possibilidade daquelas pessoas passarem a virada do ano na estrada.
Nosso âncora informava para os ouvintes que estivessem pensando em retornar sem concluir o trajeto às praias, que no dia seguinte haveria melhores condições para uma viagem tranquila.
Ninguém, entretanto, ligou para dizer que arredaria pé retornando a São Paulo, todos diziam que preferiam continuar para ver o que aconteceria.
Teimosia, masoquismo, burrice? Como explicar aquele comportamento?
A situação começava a ficar dramática, para nós de uma emissora de rádio que também tínhamos nossos eventos de réveillon ao lado dos familiares.
Nesse caso o que fazer?
Não houve consultas porque a decisão foi unânime. Continuaríamos trabalhando para informar eventuais novidades, mas era noite réveillon e a virada estava próxima.
Fogos alusivos ao ano novo que eu via do em cada canto do céu.

(Reprodução/AP)
Quando sobrevoamos a Imigrantes em tempo claro, dá para ver as torres de TV da Avenida Paulista que naquela noite irradiavam ainda mais cores e luzes.
As horas iam passando e o voo continuava. Por volta das dez da noite, o piloto recebe o aviso que o Campo de Marte iria encerrar suas operações, o combustível também rareava, precisávamos voltar. Deixei a estrada.

(Tiago Queiroz/AE)
Retornando à base, sobrevoei São Paulo novamente e percebi que o tráfego seguia em um ritmo frenético. Ninguém queria chegar atrasado à sua festa ou encontro.
Lembrei de novo das pessoas presas no trânsito e ansiosas em chegar. Eu, de minha parte, quase morto de cansaço e faminto nem pensava mais em festa.
Fiz questão porém de dizer aos ouvintes na minha última entrada de 1998, que desejava a todos um Feliz Ano Novo, até para compensar aquele martírio que tinha sido ficar parado naquele calor infernal, sem poder sair do carro em uma data tão significativa.
1999 começou de fato com muita gente tendo que se cumprimentar na estrada, porque o congestionamento naquele dia 1º. de janeiro só foi diminuir depois das duas e meia da madrugada.
Ao mesmo tempo aquele ano anunciava o limiar de um novo milênio e a esperança, como agora, sempre renovada para que os próximos doze meses sejam mais promissores.
O tempo passa e certos objetos que eram usuais e modernos, em 1999, hoje estão ultrapassados como os disquetes de computadores e os aparelhos de CD Player para automóveis.
outras coisas permanecem como a fissura do povo por automóveis, o trânsito em consequência sempre parado e este repórter aéreo buscando algum jeito de melhorar a situação para os quem ouvem a Rede Eldorado.
Quero assim, como naquele réveillon longínquo de 1999, desejar do fundo do peito, um Feliz 2010 quem sabe, com mais rotas alternativas repletas de amor pelo caminho.
(GN/Cmte.Belon)
Próspero Ano Novo porque agora tenho um blog para publicar também muitas fotos aéreas em 2010.





Comentário by Eduardo Britto
Precisa ter uma queda pelo masoquismo, para pegar uma Anchieta á 21 do dia 31… enfim, tem gente que não pensa… ou que tem aquela queda… enfim, o que interessa aqui é desejar a todos um 2010 cheio de $aúde! Valeu!!
Comentário by Almiza Okura.
Geraldo,
bom ano novo para você.
Um abraço de sua ouvinte.
Comentário by Anônimo
Oi, Geraldo: retribuo sua visita no blog e constato, à imagem e semelhança da música, que ainda somos os mesmos e vivemos como se fosse 1998. Nesse ano, pudemos ver, de longe, que uma viagem ao Guarujá levou dez horas. Até quando?
Feliz 2010.
Caio Camargo
Comentário by Edu
Bom ano a todos e parabéns pelo belo trabalho
abraços do ouvinte
Comentário by Ana Paula Lima
Apesar de já ter passado o fim de ano há algum tempo, gostaria de fazer um comentário sobre a matéria acima (do trânsito em 1999). As pessoas ficam reféns em seus carros, porque não há outra opção de ida ao litoral em São Paulo a não ser carros e estradas. Primeiro: a doentia paixão dos brasileiras pelo carro e a falta de planejamento público levam que as “pobres pessoas” fiquem horas no trânsito. É urgente uma alternativa como a ferrovia, ligando São Paulo a vários pontos do litoral. Ainda tenho a audácia de perguntar: e mesmo que houvesse o tal transporte, até que ponto o paulistano dispensaria seu carro para fazer uma viagem de trem com a família? Quando todas as pessoas querem fazer a mesma coisa ao mesmo tempo e do mesmo modo é difícil que dê certo: o trânsito caótico em certos períodos só vem a reafirmar essa ideia. Como vivemos em uma grande região metropolitana, deveríamos perguntar se e do que abriríamos mão para o melhor funcionamento da cidade e qual o investimento deve ser feito (rodovias, ferrovias , nenhum ou os dois). Faço essa pergunta para todas as pessoas que moram na região metropolitana de São Paulo e para os políticos desse estado (inclusive e muito mais). Obrigada pelo espaço para esse debate e por essa bela rádio. Boa noite. Ana Paula Lima
Comentário by Ana Paula Lima
Apesar de já ter passado o fim de ano há algum tempo, gostaria de fazer um comentário sobre a matéria acima (do trânsito em 1999). As pessoas ficam reféns em seus carros, porque não há outra opção de ida ao litoral em São Paulo a não ser carros e estradas. Primeiro: a doentia paixão dos brasileiras pelo carro e a falta de planejamento público levam que as “pobres pessoas” fiquem horas no trânsito. É urgente uma alternativa como a ferrovia, ligando São Paulo a vários pontos do litoral. Ainda tenho a audácia de perguntar: e mesmo que houvesse o tal transporte, até que ponto o paulistano dispensaria seu carro para fazer uma viagem de trem com a família? Quando todas as pessoas querem fazer a mesma coisa ao mesmo tempo e do mesmo modo é difícil que dê certo: o trânsito caótico em certos períodos só vem a reafirmar essa ideia. Como vivemos em uma grande região metropolitana, deveríamos perguntar se e do que abriríamos mão para o melhor funcionamento da cidade e qual o investimento deve ser feito (rodovias, ferrovias , nenhum ou os dois). Faço essa pergunta para todas as pessoas que moram na região metropolitana de São Paulo e para os políticos desse estado (inclusive e muito mais). Obrigada pelo espaço para esse debate e por essa bela rádio. Boa noite. Ana Paula Lima