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Chris Mello

Há muito, muito tempo, bacana era ser nobre; começava pela rainha, depois vinham as duquesas, condessas, marquesas etc. O tempo passou, cabeças foram cortadas, e os novos ricos foram os herdeiros, digamos assim, do que era a elite da época.
O tempo continuou passando; vieram os grandes industriais, os empresários, os donos de supermercado, os bicheiros, os marqueteiros, a indústria da moda, até mesmo os políticos, houve os yuppies e surgiu uma curiosa casta nova: a das celebridades. Desse grupo fazem parte atores de televisão, personagens da vida artística, jogadores de futebol, pagodeiros, sertanejos etc., e começaram a pipocar dezenas de revistas cujo objetivo é mostrar a intimidade dessas celebridades, contando os detalhes da vida (ou morte) de princesa Diana, Madonna ou Michael Jackson.
Quanto mais íntimos e escabrosos, melhor. Nesse admirável mundo novo, a moda tem uma enorme importância, e nesse quesito o que conta -mais que a elegância e o bom gosto- é saber de que grife é cada peça que está sendo usada; quanto custou cada uma todos sabem, já que são tão cultos. Um pequeno detalhe: quando duas celebridades se encontram, mesmo que nunca tenham se visto, se cumprimentam efusivamente.
Antes, muito antes, era diferente: um nobre, mesmo pobre, era respeitado por suas origens, pelo que teria sido feito por algum de seus antepassados. Mais tarde, os homens de negócios eram admirados por sua inteligência, sua capacidade em construir alguma coisa importante na vida. Agora as pessoas são definidas por símbolos, a saber: onde moram, a marca do sapato, da saia, da jaqueta, da bolsa, do relógio, do carro, se têm ou não Blackberry, para onde costumam viajar, em que hotéis se hospedam, a marca de suas malas, que restaurantes frequentam, aqui e quando viajam. Ninguém tem coragem de arriscar férias em um lugar novo, um restaurante que não é famoso, usar uma bolsa sem uma grife facilmente identificável.
Mas quem responder de maneira certa às tais indagações poderá, talvez, ser aceito na turma das celebridades. Acordei hoje falando muito do passado; acontece, vou continuar. Houve um tempo em que mulheres do maior bom gosto apareciam com uma bonita saia e uma amiga dizia “que linda, onde você comprou?”.
Hoje, isso não existe mais, porque as pessoas -aquelas- não usarão jamais uma única peça de roupa que não seja grifada. Outro dia fui a um jantar em que havia umas 40 pessoas, sendo 20 mulheres. Dessas 20, dez usavam sapatos Louboutin, aquele que tem a sola vermelha. Preço do par, em São Paulo: R$ 10 mil. Estavam todas iguais, claro, mas o pior é ser avaliada e aceita pela cor da sola do sapato; demais, para minha cabeça.
O prazer -e o chique, a prova da capacidade de improvisar- era botar uma roupa bonita comprada em um mercado qualquer de Belém, Marrakech ou Istambul, e ser diferente. Hoje é preciso mostrar que folheou a revista que tem a informação do que está na moda e que tem dinheiro para comprar. E os jogadores de futebol e os pagodeiros, que não aprenderam o que é bonito na infância, porque eram pobres, nem na vida adulta, porque não deu tempo, olham as revistas, entram no Armani e fazem a festa, já que são também celebridades.
Não há mais lugar para a imaginação, a criatividade, para uma sacada de última hora, que faz com que uma determinada mulher seja a mais especial da noite. Eu não frequento este mundo, mas de vez em quando esbarro nele sem querer, e é difícil.
Um mundo de clichês; mas como tudo passa, estou esperando a hora de acordar e pensar que essa época não passou de um pesadelo”.

comentários (6) | comente

04.junho.2010 15:10:07

Oto rocks

Transparência tirânica é tendência, não é mesmo? hoje estou treinando edição de videos p deixar esse blog mais vivo. Esse é meu bebezuco, o Otinho…

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02.junho.2010 14:47:12

Chanel & Stravinksy

Coco Chanel era loucamente apaixonada por Boy Capel em 1913 – época em que Igor Stravinski estreou no Théâtre des Champs-Elysées A Sagração da Primavera, que foi considerada moderna demais, radical demais, foi vaiada e causa de um motim em Paris. Stravinski ficou péssimo, voltou para a Rússia. Sete anos depois – Boy já morto – Chanel reencontra Stravinski, exilado em Paris, sem um centavo. Oferece que viva em sua vila em Arches para que trabalhe. Ele vai com família e tudo, e tem um affair com Mademoiselle. Esse período da vida dos dois ícones foi filmado pelo diretor Jan Kounen com Anna Mouglalis, musa de Lagerfeld, como Chanel.

O filme está na programação do Festival Varilux de Cinema Francês

No Brasil para o Festival Varilux de Cinema Francês, Anna Mouglalis, atriz francesa que interpreta Chanel, falou com exclusividade ao Estado:

Sabe-se pouco sobre este período. O filme não é 100% realidade…
Chanel e Stravinski se conheceram de fato. E, graças a ela, A Sagração da Primavera foi remontada. A primeira vez em que foi apresentada, a música provocou um grande escândalo. Chanel e Stravinski eram como punks. Mulheres nos anos 1920 não viviam como Chanel, que fez perfumes, roupas e fez dela a mulher que queria ser. E Stravinski fazia naquele tempo músicas como são feitas hoje as de filmes. Sim. Objetivamente, sabemos que eles estiveram juntos, mas não quanto. Sabemos que foi uma relação intensa, pois o ícone (imagem religiosa ortodoxa) de ouro que Stravinksi deu a ela ficou em sua cabeceira até a morte. A única prova concreta dessa relação, porém, é um telegrama de Diaghilev aconselhando Chanel a não encontrá-los numa viagem porque Stravinski queria matá-la. Ela já estava com o duque Dmitri, e imaginamos que esse tipo de reação com tanto ódio só poderia vir de uma pessoa apaixonada.

De que maneira pesquisou para compor sua Chanel?
Tenho uma longa história com Chanel. Há oito anos, Karl Lagerfeld me chamou para representar o espírito Chanel e desde então pesquisei, sem saber que um dia a faria no cinema. Dormi muitas vezes no sofá do quarto de Chanel. E ela é como um personagem de ficção. A maioria que conviveu com ela, escreveu livros. E todas as histórias são diferentes.

Leu Chanel m’a Dit, de Lilou Marquand?
Sim, Lilou trabalhava com Chanel. A questão é que todos livros escritos sobre Chanel são mais sobre o escritor do que sobre ela. Chanel meio que inventava sua vida para que fosse uma história…

Ou inventava para parecer maravilhosa?
Ela não revelava que vinha de um background pobre.
Era misteriosa…
Ela mostrava bastante o que sentia, mas não em palavras. A partir da morte de Boy Capel, Chanel começou a usar preto. E ela não deveria usar preto porque não era a mulher dele. Mas fez um vestidinho preto e, de repente, todo mundo vestia
preto como se estivesse de luto. Depois da morte dele, Chanel se fechou, pois foi uma terrível perda. E aparentemente ela se salvou graças à arte. O marido de Missia Sert, sua melhor amiga, a tirou de casa e a apresentava a todos das artes, boêmios. Chanel começou a entender que arte seria uma janela para outro mundo. E que ela poderia sentir-se muito mal no dia a dia, mas viver bem em meio à arte. Ela acabou virando mecenas, sem nunca confundir-se como artista. Era sempre convidada por Diaghilev, que a apresentou a Stravinski. Ela o levou para viver em sua casa de campo, com a família, para que pudesse criar. Ficaram juntos, mas foi uma paixão que não funcionaria e não tinha futuro. Era uma relação estranha. Ele não era fascinado pelo trabalho dela e, sim, pela mulher que foi. E ela não se interessava pelo homem, mas pelo artista. Ela se apaixonou pela arte dele e o ajudou por mais dez anos. Mas ajudou também a Jean Cocteau e outros.


Por que acha que Karl Lagerfeld representa contemporaneamente tão bem o estilo de Chanel?
Talento é talento. Ele é tão imaginativo e sabe tanto, mas tanto, sobre todos os anos da moda, e é interessado em arte, em arquitetura, e é tão aberto para o mundo que acaba não tendo nada a provar, então traduz o trabalho de Chanel muito bem. Acho também que Karl Lagerfeld é um punk.

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