12:18


15 de Abril de 2010

 

Patrocinado por




Celso Ming
Filtro
Tamanho de texto: A A A A

Celso Ming

BUSCA NO BLOG >>

Inflação como solução

12 de maio de 2012 | 16h30

Celso Ming

Cresce entre economistas influentes a ideia de que a saída da crise global exigirá boa dose de inflação. Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia em 2008, é desses que cobram mais ação do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) e do Banco Central Europeu – o que, na prática, significa aumentar emissões de moeda.

A proposta faz algum sentido, mas cria problemas. Mais emissões de moeda e, logo, inflação, traria a vantagem de diluir dívidas. Traria certo alívio tanto para países com altos rombos fiscais – sobretudo Estados Unidos e a maior parte do euro – como para famílias excessivamente endividadas.

TAB_INFLA____ES.JPG

Como os impostos são, na sua grande maioria, cobrados sobre preços, mais inflação (ou seja, preços mais altos) também elevaria a arrecadação. Assim, contribuiria para a melhora das finanças públicas, à medida que governos pagariam os mesmos salários para funcionários públicos, os mesmos benefícios para aposentados e os mesmos seguros-desemprego para a legião dos sem-trabalho.

E aí entramos em outra vantagem que seria assegurada pelo aumento da inflação. A alta de preços poderia executar a tarefa que o câmbio desvalorizado não é mais capaz de executar na zona do euro, onde não há moedas nacionais a desvalorizar. Trata-se de reduzir renda em termos reais para baixar os custos de produção.

Cabe aqui explicação. Quando os custos disparam e o setor produtivo perde competitividade, o sistema se ajusta pela queda de salários e pelo aumento do desemprego. O instrumento de política econômica mais adequado para isso não é o achatamento de salários e de preços; é a desvalorização cambial. Trata-se de subir em moeda local o preço da moeda estrangeira. Como isso só funciona em economias dotadas de moeda própria, o único modo de derrubar renda, salários e aposentadoria na área do euro é impor sacrifícios e colocar em marcha reformas dolorosas. Uma inflação mais alentada do que a atual, de 1% a 2% ao ano, também geraria efeito parecido, por achatar o poder de compra do consumidor.

Outro efeito pretendido: ao provocar juros negativos e reduzir o retorno das aplicações financeiras, a inflação também estimularia o consumo e, assim, a retomada da atividade produtiva.

Mas seria jogo de alto risco. Um processo inflacionário induzido por opção de política econômica poderia esvaziar a poupança privada, como ficou dito, e, posteriormente, prejudicar o investimento.

Os juros negativos também levariam à deterioração do patrimônio de fundos de pensão e das reservas técnicas das seguradoras. Depois, os fundos de pensão poderiam não ter condições técnicas de pagar as aposentadorias esperadas. E as seguradoras poderiam não cobrir eventuais sinistros garantidos nas apólices.

E, finalmente, um processo inflacionário é relativamente fácil de ser iniciado. Difícil é impedir que o ribeirão se torne um rio e que o rio vire mar de moeda. A história da economia está cheia de casos de hiperinflação, todos eles dolorosos e de sérios desdobramentos políticos.

CONFIRA

Sequestro na Petrobrás. Previamente anunciada a acionistas e analistas de todo o mundo, a Petrobrás adiou de sexta-feira para a próxima terça-feira a divulgação dos resultados do primeiro trimestre. A razão no show foi a incompatibilidade de agenda de um figurão de Brasília, membro do Conselho de Administração.

Efeito Galvêas. Esse episódio lembra outro. Em 1981, durante o governo Figueiredo, o então ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, exigiu que o boeing da Varig, proveniente de Nova York, fosse desviado para Brasília, para que pudesse desembarcar sem ter de fazer escala no Rio de Janeiro. Desta vez, alguém apenas sequestrou a data da reunião do Conselho de Administração da Petrobrás.

Preço alto. Nos dois últimos dias, as cotações das ações ordinárias da Petrobrás caíram 2,8%, e as preferenciais, 3,1%. Assim, a empresa perdeu R$ 8 bilhões em valor de mercado. Analistas entendem que esse tombo foi, em boa parte, efeito do mal-estar causado pelo adiamento da divulgação do balanço.

Comentários desativados

Tópicos relacionados

Austeridade e crescimento

11 de maio de 2012 | 20h10

Celso Ming

Depois de muitas semanas de indignação contra políticas de austeridade na Europa e de reivindicação de políticas robustas de crescimento econômico, analistas de várias tendências começam, afinal, a se perguntar de onde seriam tirados os recursos necessários para financiar a retomada da atividade econômica e do emprego.

Ou seja, já há certo contraponto à maré anterior, de forte rejeição às políticas de austeridade. Mas a maior parcela dos críticos continua a argumentar que não tem cabimento impor enormes sacrifícios à população para resolver um problema que, na origem, não é de gastança pública, mas, sim, de estouro de bolhas imobiliárias ou, mesmo, de perda de competitividade da indústria.

TAB_2005_2008.JPG

Excetuados os casos da Grécia e de Portugal, onde houve inegável disparada de despesas públicas logo após a emissão do euro, os demais países atolados na crise – especialmente Irlanda, Espanha, Itália e França – não podem ser acusados de ser excessivamente gastadores. Dois anos antes do estouro da crise nos Estados Unidos, essas economias apresentavam razoável equilíbrio fiscal. Apenas a Itália estava mais afundada em dívidas, mas seus números vinham melhorando ano a ano (veja a tabela).

A crise europeia aconteceu, em grande parte, em consequência da forte redução do custo do dinheiro e da disparada do crédito que, por sua vez, provocaram impressionante boom imobiliário e alta nos salários dos países da periferia da zona do euro.

Essa redução do custo dos financiamentos proveio do lançamento do euro, em 1999. O mercado se comportou como se os títulos de todos os países do bloco tivessem a mesma qualidade dos títulos da Alemanha. Até 2007, os juros pagos pelos ativos da maioria dos países europeus eram apenas ligeiramente mais elevados que os da Alemanha. Hoje estão de 3 a 4 pontos porcentuais mais altos.

O estouro da bolha nos Estados Unidos, em 2007, e a quebra do Lehman Brothers, em 2008, provocaram a rejeição dos títulos de dívida imobiliária, porque os preços dos imóveis desabou para uma fração do valor das hipotecas. Essa situação levou ao estancamento do crédito, à ameaça de quebra em cadeia dos bancos, à recessão e ao alto nível de desocupação.

Foi então que os Tesouros nacionais foram chamados a socorrer as instituições financeiras locais e a aumentar os gastos com seguro-desemprego. Assim, as despesas públicas saltaram e a arrecadação encolheu, como desdobramento da recessão e da quebra da atividade econômica. Aí sim, uma crise essencialmente privada se transformou em deterioração das finanças públicas. Os credores perceberam que havia crescido o risco de calote e deixaram de tratar os títulos da área do euro como se fossem todos de alta qualidade. E os juros cada vez mais altos provocaram a perda da qualidade dos títulos soberanos (emitidos por Tesouros nacionais).

Dessa maneira, vemos que, na base do problema na Europa, não existe desarranjo significativo das finanças públicas (problema fiscal). Esse quadro se configurou depois. Pode-se afirmar também que uma das importantes fragilidades expostas por esta crise é a baixa competitividade da maior parte dos membros do euro, porque a alta dos salários havia aumentado substancialmente os custos de produção e de distribuição. Agora a pergunta: isso quer dizer que exista saída que dispense rígida disciplina fiscal? Provavelmente não.

O que pode e deve ser discutido é a maior utilização dos mecanismos monetários destinados a ajudar a empurrar a atividade econômica e a geração de emprego. Em outras palavras, a hora é de examinar se vale ou não a pena levar os grandes bancos centrais a emitir mais moeda para gerar mais mercado para os títulos públicos e baixar os juros extorsivos hoje prevalecentes, desde que não percam o controle da inflação.

Dada a enorme insuficiência de recursos e a impossibilidade de desvalorizar moedas nacionais para baixar rendas, salários e aposentadorias, será difícil encontrar saída para o atoleiro em que se encontra a área do euro sem a imposição de grandes sacrifícios e a adoção de políticas de austeridade.

 

Comentários desativados

Tópicos relacionados

Sinais de desarrumação

10 de maio de 2012 | 20h00

Celso Ming

Há algumas semanas a economia brasileira vem passando certos sinais de desarrumação.

Não dá mais, por exemplo, para continuar afirmando que a inflação não é problema. O avanço do IPCA de abril, de nada menos que 0,64% (foi de 0,21% em março), e, mais do que isso, o nível de difusão dessa alta (63%) mostram que ela não pode ser atribuída apenas à estocada dos preços dos cigarros – como sugeriu nesta quinta-feira o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

MANTEGA_BETO_BARATA_AE.jpg
Mantega. Desmentidos (FOTO: BETO BARATA/AE)

A primeira prévia do IGP-M de maio também apontou uma guinada forte dos preços no atacado (de 1,15%). E, como o atacado de hoje tende a ser o varejo de amanhã, em consequência desse fator alguma inflação adicional está encomendada.

A força das remarcações no atacado, por sua vez, reflete em alguma medida a escalada das cotações do dólar no câmbio interno, de 6,5% nas últimas cinco semanas, induzidas por ação do Banco Central.

A ânsia por puxar pela desvalorização do real parece ter impedido o governo Dilma de entender que, nos dois últimos anos, a indústria ficou muito mais dependente das importações. Para enfrentar custos crescentes dos fatores de produção, sobretudo da mão de obra, o setor industrial recorreu mais pesadamente às importações de matérias-primas, insumos, peças e conjuntos. A alta do dólar no câmbio interno criou um custo adicional de produção que está sendo repassado quase automaticamente para os preços finais.

Essa nova alta de preços vai sendo desenhada num ambiente em que o consumo cresce entre 5% e 6% ao ano sem contrapartida da atividade econômica, que vai ficando para trás.

Por falar nisso, a presidente Dilma enfrenta agora a perspectiva de não poder entregar, pelo segundo ano consecutivo, o crescimento econômico anual prometido, desta vez entre 4,0% e 4,5%. O discurso oficial ainda conta com essas projeções. Mas o mercado, consultado semanalmente pelo Banco Central por meio de sua Pesquisa Focus (que atinge cerca de 100 instituições), já trabalha com crescimento do PIB para 2012 de só 3,2%. Mas um punhado de analistas passou a projetar números inferiores a 3,0%. O mau desempenho da indústria, reafirmado por um punhado de estatísticas de origens diversas, parece confirmar essa percepção.

Em outras palavras, o comportamento insatisfatório do setor produtivo vai mostrando os limites da atual política econômica voluntarista da presidente Dilma, construída com sucessão de puxadinhos e expedientes improvisados. Parece mais difícil agora esticar a alta do dólar e derrubar os juros para elevar a competitividade da indústria.

Essa desarrumação foi enfaticamente desmentida pelo ministro Guido Mantega nesta quinta. Mas está cada vez mais difícil confiar nas declarações dele, ultimamente contrariadas pelos fatos. O último objeto dos reiterados desmentidos do ministro foram as mudanças nas cadernetas. Mantega argumentava que não havia o que alterar nas regras das cadernetas, porque não detectara migração significativa de aplicações dos fundos de renda fixa para elas. Agora, insiste em que a alta do dólar no câmbio interno não provoca inflação relevante. Tomara que o ministro esteja certo e que, no final deste ano, possa comemorar um crescimento do PIB de ao menos 4,5%.

CONFIRA

GraosSafra2012maio.jpg

Aí vai a mais recente projeção das safras agrícolas deste ano.

A saída é emitir moeda. O banco central da Holanda divulgou nesta quinta-feira uma análise sombria da economia europeia. Embora seja uma das instituições mais ortodoxas do Continente, sugeriu que o Banco Central Europeu “atue agressivamente para impedir eventual deflação”. É um outro jeito de pedir emissões de moeda para salvar Estados endividados. O risco, diz o relatório, é o de a Europa mergulhar numa estagnação de longo prazo, parecida com a enfrentada pelo Japão.

Comentários desativados

Tópicos relacionados

Sair ou não sair do euro

9 de maio de 2012 | 20h50

Celso Ming

Nesta quarta-feira, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, se encarregou de passar o recado para a Grécia.

Disse ele que, se os gregos quiserem sair do euro, não haverá quem irá impedi-los. Disse ainda que, caso queiram permanecer no bloco, a melhor maneira para isso será observar o que foi definido nos contratos.

sch__uble_REUTERS_THOMAS_PETER.JPG
Schaüble. Recado para a Grécia (FOTO: THOMAS PETER/REUTERS)

Dia após dia, vai sendo mostrado que os países centrais da área do euro têm se conformado com ter de enfrentar as consequências de eventual saída da Grécia. A situação é parecida com a existente às vésperas da quebra do Lehman Brothers, em 2008. Deixar quebrar seria uma calamidade; mas, se não deixar, como sabê-lo? Ou seja, com a possível saída da Grécia e com tudo o que viria junto ficaria mais fácil convencer os demais a não tratar com leviandade essa hipótese.

Nada menos que 77% dos gregos querem permanecer na zona do euro – apontam as pesquisas. Mas desejam do jeito deles, com sombra e água fresca proporcionadas pela vizinhança.

A saída da Grécia do bloco do euro seria um desastre, embora localizado. Além disso, a simples adoção de nova dracma, fortemente desvalorizada em relação ao euro, mais o calote geral inevitável não resolveriam problemas de fundo. O rombo orçamentário, de 7% do PIB em 2011, ficaria alguma coisa menor, porque o calote diminuiria certas despesas financeiras. No entanto, não seria o suficiente para que a Grécia pudesse dispensar os financiamentos, que ficariam inviáveis em decorrência do calote. O novo banco central da Grécia seria chamado a emitir moeda para pagar contas internas e a inflação iria para onde tivesse de ir. Mas seria incapaz de fornecer moeda forte para pagar importações.

A reinstituição da moeda nacional provocaria perdas inexoráveis de patrimônio da população. Aplicações financeiras nos bancos não poderiam mais ser recuperadas em euros; teriam de ser convertidas em dracmas. Assim como dívidas e compromissos internos, hoje em euros. Nessa paisagem, ficaria difícil evitar a recessão e a perda de salários em proporções até maiores do que as atuais, que o povo grego se recusa a suportar.

Comparações com a Argentina, que saiu do sistema de conversibilidade com o dólar (currency board) em 2002, valem pouco. A Argentina é um país com enorme capacidade de gerar receitas em moeda forte, graças a seu importante setor exportador.

É claro, o risco de contágio para o resto do bloco aumentaria exponencialmente com eventual quebra da Grécia. Mas, realisticamente falando, mesmo saindo caro, seria mais barato blindar o resto da economia europeia mais os bancos europeus do impacto provocado pela quebra da Grécia (2,2% do PIB do euro) do que se a economia em questão fosse a Espanha ou a Itália.

Por isso mesmo, um desastre que se restringisse à Grécia poderia cumprir a função de mostrar aos eurocéticos e a tantos que vêm apostando contra o euro a tragédia que seria para o país que decidisse desistir do bloco.

Por falta de opção, a saída da Grécia da zona do euro parece ter ficado inevitável. O ministro Schäuble pode estar apenas tentando preparar os espíritos.

CONFIRA

IPCAAbril2012.jpg

O gráfico mostra a evolução do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses, a inflação que define a política de juros.

Serviços ainda caros. A inflação no mês de abril, de 0,64%, veio no teto das expectativas. Foi bem mais alta do que a de março (0,21%). É cedo para concluir que a alta do dólar está puxando os preços. Se, de um lado, os importados estão mais caros, de outro, a cotação das commodities está em relativa queda. Continua preocupante a alta dos serviços, que foi de 0,76% em abril, acumula 3,71% no primeiro quadrimestre do ano e atingiu 9,10% em 12 meses.

 

Comentários desativados

Tópicos relacionados

Mais um pibinho?

8 de maio de 2012 | 20h00

Celso Ming

O crescimento dos estoques de veículos, para os níveis mais altos em três anos e meio, e a derrubada das vendas em abril, de 14,2% sobre as de março, indicam que algo não se comporta como pretende o governo Dilma – que planeja avanço do PIB superior a 4,5% neste ano.

Há mais indicações de mudanças importantes nesse mercado. O volume de financiamentos novos de veículos tende a cair e o nível da inadimplência está aumentando.

CreditoMar12.jpg

Em parte, esse fraco desempenho é consequência de situação artificial anterior. Entre janeiro de 2009 e março de 2010 o governo incentivou as compras com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Esse fator antecipou compras pelo consumidor. E o mercado financeiro contribuiu com a saturação do segmento, quando disputou o consumidor com financiamentos para compra de automóveis de até 90 meses sem entrada.

A queda dos preços dos carros usados vem sendo forte. Em dois anos, o veículo perde mais de um terço do seu valor de mercado – como mostrou matéria de Cleyde Silva, no Estado de 12 de fevereiro. Nessas condições, a garantia dada ao banco por ocasião do financiamento perde qualidade. Embora a reserva de domínio continue sendo considerada um dos melhores fatores de segurança para a instituição financeira e principal razão da prática de juros mais baixos no crédito, a forte queda dos preços dos carros usados tirou sua importância. Neste prazo (dois anos), o saldo da dívida contraída no financiamento se mantém mais alto do que o valor da garantia, que é o preço do automóvel no mercado. Nem o proprietário obtém bom preço para dar de entrada num veículo novo, nem o banco consegue recuperar com a revenda do veículo o saldo do financiamento. São razões fortes demais que atuam para desacelerar o crédito.

As exportações também não ajudam. Caíram 4,9% sobre igual período do ano passado. A crise global vem contendo as encomendas. Além disso, o made in Brazil padece da doença crônica já conhecida, que o impede de acessar os mercados: é caro demais, porque enfrenta o insuportável custo Brasil, que trava o resto da indústria.

Esse quadro indica que, mesmo avançando mais rapidamente do que o PIB; e mesmo se baseando na expansão do emprego e da renda; o crescimento acelerado do consumo total no País (e não só o de carros) começa a esbarrar em limitações naturais. A rápida elevação do endividamento familiar é uma delas. Diante do aumento da inadimplência, a falta de apetite dos bancos pela expansão dos financiamentos é outra. Não haverá o que os force a perder dinheiro.

Como já enunciado, esse é um quadro geral que torna mais difícil o cumprimento do projeto do governo de obter, neste ano, crescimento do PIB entre 4,0% e 4,5%. Provavelmente nem as projeções mais conservadoras do Banco Central (crescimento do PIB de 3,5%) terão condições de acontecer.

A mera redução dos juros, destinada a estimular ainda mais a economia brasileira, não parece suficiente para evitar mais um pibinho.

CONFIRA

VeiculosInadimMar.jpg

O gráfico mostra como vem aumentando a inadimplência no segmento do financiamento de veículos.

Função dos juros. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não esconde que a estratégia do governo é a derrubada dos juros e, com base na redução dos custos do financiamento, provocar a expansão do crédito. Mas não é o que está ocorrendo. Os bancos se recusam a expandir o crédito num quadro de expansão da inadimplência. Nesta terça-feira, provocada pela imprensa, a presidente Dilma preferiu não comentar a nova atitude dos bancos.

Comentários desativados

Tópicos relacionados

O fator Hollande

7 de maio de 2012 | 20h00

Celso Ming

É natural que os mercados não tenham se exasperado nesta segunda-feira com a vitória do socialista François Hollande nas eleições presidenciais da França.

O último que assumiu a presidência da França com discurso de esquerda foi François Mitterrand, em 1981. Levou um ano e meio para abandonar seus discursos e adotar reconhecidamente uma política econômica ortodoxa. Teve todo esse prazo porque, à época, a França não era tão desesperadamente dependente (e refém) dos bancos no financiamento do seu déficit público.

HOLLANDE_GONZALO_FUENTES_REUTERS.JPG
Hollande. Chegou a hora de agir (FOTO: GONZALO FUENTES/REUTERS)

Hollande não terá tanto tempo assim. Já nas primeiras semanas de exercício do seu cargo, terá de explicar aos mercados com quantos paus se fará a canoa do crescimento econômico defendido em seus discursos.

Há somente uma semana, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, parecia reconhecer que a recuperação da área do euro não poderia se fiar apenas na austeridade – como saíra no pacto fiscal de final de janeiro. Tinha de ser apoiada também numa forte agenda de crescimento – conforme defendia Hollande. Mas nesta segunda veio o recado de Berlim: “O pacto fiscal é inegociável”.

O problema é que as concepções de crescimento econômico de Merkel e Hollande não são exatamente as mesmas. Merkel defende a austeridade das contas públicas como precondição do crescimento sustentável. Hollande parece privilegiar o avanço das despesas públicas, financiadas com o despejo de títulos públicos cujo principal comprador seria o Banco Central Europeu.

Mas a questão central não é fiscal. Ou seja, não é o desequilíbrio das contas públicas, mas a baixa competitividade da França e de quase todo o bloco do euro – como advertem, nisso com razão, os economistas Paul Krugman e Joseph Stiglitz. Isso posto, ganhos de competitividade terão de ser recuperados por meio de ajustes de renda (salários e aposentadorias), processo no qual a Alemanha está bem mais avançada.

Mais do que o saneamento das contas públicas, o processo de crescimento econômico e de ganhos de escala (aumento da produtividade) terá de acontecer com reformas mais profundas – que, por vezes, são mencionadas por eufemismos como flexibilização das leis trabalhistas e novas condições previdenciárias.

O principal fator por trás da perda de competitividade e do avanço do desemprego nos países avançados e, especialmente, na Europa é o enorme processo mundial de redistribuição do trabalho, que vem incorporando entre 40 milhões e 50 milhões de asiáticos por ano ao mercado de trabalho (e de consumo). É a incorporação de mão de obra barata e o crescente emprego de Tecnologia de Informação que produz o impressionante barateamento dos produtos industriais, que vão alijando do mercado global os sistemas produtivos incapazes de se atualizar.

É daí que vem a enorme transferência da indústria e do setor produtivo para a Ásia e para um punhado de países ainda em desenvolvimento. A crise financeira somente escancarou as fragilidades antes latentes dos países avançados. O principal concorrente da França e da periferia da Europa não é a Alemanha, mas a China – verdade para a qual o consumidor europeu mal-acostumado com as benesses do Estado de bem-estar social se recusa a abrir os olhos.

CONFIRA

Bolsas7maio.jpg

A primeira reação dos mercados financeiros à eleição do socialista François Hollande à presidência da França foi de certa rejeição. Depois, veio a tranquilidade. Essa sensação parece ter tomado corpo após as declarações do governo da Alemanha: “O pacto fiscal é inegociável”. Acima, o comportamento de sete bolsas de valores nesta segunda-feira.

Não foi De Gaulle. Não é de Charles de Gaulle a frase “gosto tanto da Alemanha, que prefiro duas” – como saiu na última Coluna. É do escritor François Mauriac, um dos biógrafos de De Gaulle. (Agradecimentos ao jornalista Lourenço Dantas Motta pela oportuna correção.)

Comentários desativados

Tópicos relacionados

A França decide

5 de maio de 2012 | 16h30

Celso Ming

Se as urnas confirmarem o que já vêm apontando as pesquisas de intenção de voto, a França terá outra vez um governo de esquerda, liderado pelo socialista François Hollande.

Será excelente oportunidade para conhecer essa tão pretendida agenda de crescimento numa sociedade superendividada, prostrada pelo desemprego e despreparada para enfrentar a conta de uma crise.

A geração europeia do pós-guerra não contava – e ainda não conta – com a imposição de tantos e inesperados sacrifícios. Entendia que o Estado paternalista se encarregaria de prover o bem-estar, a educação e confortável aposentadoria a toda a população. Mais do que isso, para a atual geração o lançamento do euro por si só garantiria futuro de paz, financiamento farto e barato do consumo. A súbita quebra dessa expectativa levou a população a exigir o escracho de culpados e soluções imediatas – pouco importando a qualidade delas.

HOLLANDE_SARKOZY_PHILIPPE_WOJAZER_REUTERS.JPG
Hollande e Sarkozy. Hora da escolha (FOTO: PHILIPPE WOJAZER/REUTERS)

Não há na Europa líderes que empolguem massas e se mostrem capazes de liderar seu povo em direção a uma saída. Na França, nem o obstinado François Hollande nem o mercurial Nicolas Sarkozy conseguem ser mais do que burocratas da administração pública. Falta-lhes a estatura dos estadistas que a França já teve, como Charles de Gaulle e François Mitterrand. Por mais que se queiram acentuar diferenças e a necessidade de mudanças, a França parece ter de se conformar com a mesmice dos últimos 17 anos.

Nesta hora de crise, a moeda única dificulta a busca de uma saída. A dívida insuportável e o rombo orçamentário são manifestações de questão mais profunda: a perda crescente de competitividade do seu setor produtivo. A solução técnica não escapa da redução dos salários, das aposentadorias e de demais rendas. Nos velhos tempos, esse ajuste poderia ser obtido com a simples desvalorização do franco francês, fator que reduziria o poder aquisitivo da população e se encarregaria de baixar a dívida pública com alguma dose de inflação. Mas a França, no entanto, não detém o controle das impressoras do euro.

Nesta administração, quando dois franceses ocupavam os postos-chave do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), Sarkozy bem que tentou tirar proveito dessa proeminência. Mas não conseguiu. Nem o BCE se dispôs (a não ser parcimoniosamente) a emitir moeda para financiar os Estados (especialmente o francês) nem o FMI concordou em mudar suas regras rígidas para distribuir suas linhas de financiamento. Um dos principais motivos pelos quais Sarkozy pode perder a oportunidade de se reeleger é seu excessivo engajamento com as posições da chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Não é à toa que a dupla passou a ser chamada Merkozy.

TAB_FICHA_FRAN__A.JPG

Hollande promete batalhar para transformar o BCE numa instituição que garanta financiamentos de última instância aos Tesouros soberanos do bloco do euro – e não somente aos bancos. Nessas condições, quer emplacar uma desvalorização controlada do euro que faça o serviço mais difícil. Alguns observadores entendem que a crise se agravará a tal ponto que será inevitável esse passo radical. Mas, para isso, terá de superar o veto alemão. Se conseguir, ainda haverá o risco de que a eventual desvalorização do euro seja neutralizada por processos de desvalorização equivalentes das outras moedas fortes – como nos últimos dois anos. E também o de que a inflação escape do controle.

Por falar em Alemanha, a atual supremacia na área do euro não se deve apenas à robustez invejável da economia alemã. É o resultado, também, da reunificação que mudou a relação de poder dentro da Europa. De Gaulle já temia isso. Foi ele quem disse: “Gosto tanto da Alemanha que prefiro duas”. Sarkozy está pagando o preço da nova densidade estratégica alemã. Se ganhar, Hollande não escapará dela. É esperar para ver.

Comentários desativados

Tópicos relacionados

Adeus, simplicidade

4 de maio de 2012 | 20h00

Celso Ming

Acabou a simplicidade das cadernetas de poupança. As que forem abertas a partir de agora terão rendimento de 70% da Selic.

– Selic? O que é essa Selic? – pergunta dona Maria.

– Ora, Selic é o Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, que fica lá no Banco Central. É o esquema que controla a emissão, o resgate, o pagamento dos juros e a guarda dos títulos do Tesouro… Passou a ser também o valor dos juros que o Banco Central paga às instituições financeiras nas suas transações diárias de liquidez… E, enfim, Selic é também o tamanho dos juros básicos obtidos pela calibragem do volume de dinheiro na economia, determinada pelo Banco Central…

DILMA_UESLEI_MARCELINO_REUTERS.JPG
Dilma. Caminho aberto (FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS)

Vai ser complicado para dona Maria fazer os cálculos com 70% da Selic. Precisa saber em quanto está a Selic e, ainda, como fazer essa conta.

Uma comparação ajuda a entender a complexidade. O consumidor sabe que o poder energético do álcool é de só 70% do da gasolina. Portanto, sempre que o preço do álcool superar os 70% da gasolina, é melhor encher o tanque do carro flex com gasolina, não com álcool. Mesmo assim, no posto de gasolina ninguém consegue calcular de cabeça. Pois 70% da Selic é o que a caderneta vai pagar.

A complexidade não termina aí. O mercado terá agora três cálculos diferentes para determinar o rendimento da caderneta. Como nada muda para as cadernetas antigas, elas continuarão pagando 0,5% ao mês (ou 6,17% ao ano) de juros mais a Taxa Referencial de Juros (TR) – que quase não conta, de tão pequena que é. Com isso, a caderneta antiga segue remunerando por ano algo em torno dos 6,5%. E até aí as coisas ainda ficam relativamente simples para o povão.

O rendimento da nova caderneta, no entanto, terá dois cálculos. O primeiro deles será aplicado se os juros básicos (a tal Selic) ficarem acima de 8,5% ao ano. Nesse caso, prevalecerá o esquema antigo. E outra conta será feita se a Selic baixar a 8,5% ou menos, que é quando se aplicarão os 70% da Selic.

A simplicidade é uma qualidade inestimável que precisou ser sacrificada agora para permitir a derrubada dos juros para níveis internacionais.

Mas, se é assim, talvez fosse melhor, como na Europa e nos países avançados, deixar que os bancos definissem livremente a remuneração da caderneta, em vez de complicar tudo com fórmulas diferentes. Não é o que já acontece quando o investidor quer aplicar seus recursos em Certificados de Depósito Bancário (CDBs)?

Em todo o caso, a opção está feita. O caminho para a derrubada dos juros está aberto, sem risco de forte migração de aplicações em renda fixa para cadernetas. O único obstáculo para a queda dos juros seguirá sendo eventual cavalgada da inflação que, no momento, não dá sinais disso.

Nisso, a presidente Dilma teve mais coragem do que o presidente Lula, que evitou mexer na caderneta por medo de ser equiparado ao ex-presidente Collor, notabilizado pelos estragos a que submeteu a poupança popular.

Os tão temidos problemas políticos em decorrência do que foi feito parecem afastados. A própria presidente Dilma julgou necessário preparar o golpe. Primeiro, passou para a opinião pública a imagem de que está peitando os bancos. Depois, quando ganhou auras de dama de ferro com os cartolas do dinheiro, fez o que tinha de fazer com as cadernetas. As reações políticas são tímidas ou inexistentes.

CONFIRA

EUADesempregoabril2012.jpg

O gráfico mostra como evoluiu o índice de desemprego nos Estados Unidos desde 2009.

Decepcionou. As estatísticas do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos divulgadas nesta sexta-feira foram decepcionantes. Acusaram em abril um aumento de apenas 117 mil vagas de trabalho. Eram esperadas pelo menos 168 mil. Embora o índice de desemprego tenha caído de 8,2% (em março) para 8,1% (em abril), esse fraco desempenho contribuiu para uma nova onda de pessimismo sobre a recuperação da economia mundial.

Comentários desativados

Tópicos relacionados

Mudou

3 de maio de 2012 | 19h47

Celso Ming

Depois de alguma hesitação, o governo Dilma decidiu antecipar a mudança de regras da caderneta. Entendeu que não poderia correr o risco de se expor aos ataques da oposição como confiscador da poupança do povão às vésperas das eleições. (O País continua traumatizado com o bloqueio da poupança do Plano Collor em 1990 e, ainda que sejam situações diferentes, as comparações são quase inevitáveis.)

Desde logo, confirmam-se duas suposições – ou quase suspeitas, digamos assim. A primeira delas é a de que o Banco Central deixou de administrar a política monetária como pede o regime de metas de inflação. Passou a operar com meta de juros. Os juros têm de cair porque assim o determinou o governo Dilma. Depois se vai ver o que fazer com eventuais efeitos colaterais.

DILMA_BETO_BARATA_AE.JPG
Dilma. Tudo para derrubar os juros (FOTO: BETO BARATA/AE)

Em princípio, nada de errado na troca de metas. O problema está em que o Banco Central não a admite. Toda sua comunicação e, principalmente, os textos oficiais mantêm o teatro de que continua a observar estritamente os critérios do sistema de metas.

A segunda quase suspeita é a de que vem aí um corte mais alentado dos juros básicos. A proposta inicial era apenas atingir um dígito (juros abaixo de 10,0% ao ano). Mas, de lá para cá, a atividade econômica baqueou, conforme ficou confirmado nesta quinta-feira com baixo desempenho da indústria. Como não se viram ainda sinais de nova safra de inflação, a decisão foi derrubar ainda mais os juros. E aí passou a ser necessária a alteração das regras das cadernetas. Elas pagam rendimento anual entre 6,5% e 7,5% – juros anuais de 6,17% mais a Taxa Referencial de Juros (TR) – e não estão sujeitas nem ao Imposto de Renda nem a taxas de administração. Isso significa que, a partir de juros básicos (Selic) de 8,5% ao ano (hoje estão em 9,0%), as cadernetas começarão a tirar fatia de mercado dos títulos do Tesouro e dos fundos de renda fixa.

A nova remuneração da caderneta corresponderá a 70% da Selic mais a TR quando os juros básicos ao ano estiverem em 8,5% ou abaixo disso. Isso quer dizer que juros a 8,5% ao ano estarão pagando algo em torno dos 6,0%. Como ficou definido que os juros cairão, logo chegará o dia em que a nova caderneta pagará remuneração bem mais inferior a que começa a valer a partir desta sexta-feira.

Muitas são as questões que terão de ser avaliadas nas próximas semanas a respeito das novas regras. Uma delas é o nível de risco que deverão trazer para o Sistema de Poupança e Empréstimo. Fácil entender por quê. Os depósitos em poupança são usados pelos bancos para financiar a compra de casa própria a juros proporcionais aos pagos ao aplicador na caderneta. Se a Selic tiver de voltar a subir – como já teve tantas vezes no passado –, a remuneração da caderneta também terá e, com ela, os juros cobrados do mutuário do sistema. Se os juros na ponta do tomador do financiamento habitacional forem fixos, haverá o risco de ficarem descasados com a remuneração paga na nova caderneta – embora o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desconsidere essa possibilidade. E, se forem flutuantes, para que acompanhem a remuneração da caderneta, o risco será o descasamento entre o valor da prestação (mais os juros nela embutidos) e a renda familiar do mutuário.

Até agora, o governo apenas revelou preocupação com o impacto político da mudança. Vai ser preciso saber como vai equacionar essas variáveis técnicas.

CONFIRA

Poupanca2012.jpg

Acima, ano a ano, o saldo em caderneta de poupança desde 2006.

Fraqueza. A atividade industrial no mês de março foi mais fraca do que se previa. Os números do IBGE mostram queda de 0,5% em relação a fevereiro; de 2,1%, ante março de 2011; e baixa de 1,1% no período de 12 meses. As estatísticas de abril não deverão apontar melhora significativa, como mostram o modesto crescimento do consumo industrial de energia elétrica e a redução de 6,6% das importações de matérias-primas e bens intermediários da indústria.

Comentários desativados

Tópicos relacionados

Som de guizos

2 de maio de 2012 | 20h00

Celso Ming

Em meio a uma economia global prostrada pela recessão e pelo desemprego, a retórica da ênfase ao crescimento econômico ganha corpo – e cada vez mais apelo político. Bem mais complicado é definir o que fazer para transformar palavras, apostas e voluntarismo em resultado.

Quem quer substituir as dolorosas políticas de saneamento e austeridade pelos programas de crescimento econômico, especialmente na Europa, vem apresentando algumas propostas nessa direção.

tab_euro.JPG

A primeira é trocar o corte das despesas públicas e dos salários por investimento. De onde tirar os recursos para isso é que são elas. Na Europa, há o sempre mencionado Banco Europeu de Investimento, que conta com 200 bilhões de euros em recursos, ninharia para o tamanho da empreitada. Apenas uma empresa brasileira, a Petrobrás, tem investimentos programados quase nas mesmas proporções (172 bilhões de euros) até 2015.

Outra fonte são os financiamentos bancários. Mas é cada vez menor o interesse das instituições financeiras em despejar dinheiro em economias superendividadas, mais e mais sujeitas a calotes soberanos. Afora isso, grande número de bancos na Europa sofre de grandes desarranjos financeiros. Precisam urgentemente de reforço de capital. Por isso, já não conseguem aumentar suas operações de crédito.

Há, também, a sugestão recorrente da elevação de impostos, sobretudo sobre os ricos e sobre os bancos. O candidato socialista à presidência da França, François Hollande, por exemplo, avisou que vai puxar para 75% a alíquota do Imposto de Renda a ser cobrada dos que ganham mais de 1 milhão de euros por ano. Mas reconhece que vai atingir apenas 3 mil pessoas, se antes disso esses não tiverem transferido seu patrimônio para o exterior. A criação do Imposto sobre Transações Financeiras, uma espécie de IOF que atingiria determinadas operações bancárias, parece impraticável. Seria necessário que toda a Europa adotasse a novidade. E os principais centros financeiros não querem perder mercado para Nova York, Hong Kong ou, até mesmo, para Londres. Ademais, aumento de impostos numa economia em recessão parece contrassenso.

Diante das dificuldades ou impossibilidades anteriores, aumenta o clamor de que o Banco Central Europeu (BCE) feche os olhos para meia dúzia de cláusulas contratuais e se ponha a emitir moeda que se destine à compra de títulos públicos e, nessas condições, financie o crescimento com mais inflação. Essa é uma possibilidade reiteradamente negada, mas não inteiramente descartada – principalmente se a iminência de uma catástrofe não deixar outra opção. Mas, como diz o Salmo 41/42, “todo abismo chama outro abismo”. E o abismo das emissões de moeda é particularmente perigoso – e não apenas porque os alemães têm ojeriza de inflação. Se for para cobrir rombos fiscais, para quanto o BCE terá de expandir seu balanço para além dos 3 trilhões de euros que já estão lá nos seus ativos?

Mas não bastaria resolver a questão dos recursos que financiassem a retomada. Mesmo se os políticos conseguissem montar essa equação, seria preciso resolver dois outros problemas.

Um deles é o pânico, fator que acentuaria o tamanho da encrenca. E, outra vez, a ideia é arrancar do BCE o compromisso de despejar recursos ilimitados sempre que um Estado soberano da área do euro apresentasse sinais de suspensão iminente de pagamentos.

Outro ponto é o desequilíbrio. De um lado, estão um ou dois países superavitários (que faturam mais do que gastam com os demais) e, de outro, os deficitários. Na prática, seria preciso arrancar da Alemanha, de economia altamente superavitária, políticas que reduzissem suas exportações e elevassem suas importações. Em outras palavras, seria preciso que a Alemanha se conformasse em perder a competitividade obtida com grande sacrifício de sua gente.

Suponhamos que, afinal, a Alemanha aceitasse deixar de ser formiga, se transformasse em cigarra e passasse a importar compulsivamente. Nesse caso, seria preciso evitar outro risco: o de que essa política beneficiasse não seus parceiros de bloco, mas a China…

Enfim, crescer para sair da crise com base no aumento do consumo é um lindo som de guizos. Seria bom que fosse mais do que isso.

Comentários desativados

Tópicos relacionados

Blogs do Estadão