Inflação como solução
12 de maio de 2012 | 16h30
Celso Ming
Cresce entre economistas influentes a ideia de que a saída da crise global exigirá boa dose de inflação. Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia em 2008, é desses que cobram mais ação do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) e do Banco Central Europeu – o que, na prática, significa aumentar emissões de moeda.
A proposta faz algum sentido, mas cria problemas. Mais emissões de moeda e, logo, inflação, traria a vantagem de diluir dívidas. Traria certo alívio tanto para países com altos rombos fiscais – sobretudo Estados Unidos e a maior parte do euro – como para famílias excessivamente endividadas.
Como os impostos são, na sua grande maioria, cobrados sobre preços, mais inflação (ou seja, preços mais altos) também elevaria a arrecadação. Assim, contribuiria para a melhora das finanças públicas, à medida que governos pagariam os mesmos salários para funcionários públicos, os mesmos benefícios para aposentados e os mesmos seguros-desemprego para a legião dos sem-trabalho.
E aí entramos em outra vantagem que seria assegurada pelo aumento da inflação. A alta de preços poderia executar a tarefa que o câmbio desvalorizado não é mais capaz de executar na zona do euro, onde não há moedas nacionais a desvalorizar. Trata-se de reduzir renda em termos reais para baixar os custos de produção.
Cabe aqui explicação. Quando os custos disparam e o setor produtivo perde competitividade, o sistema se ajusta pela queda de salários e pelo aumento do desemprego. O instrumento de política econômica mais adequado para isso não é o achatamento de salários e de preços; é a desvalorização cambial. Trata-se de subir em moeda local o preço da moeda estrangeira. Como isso só funciona em economias dotadas de moeda própria, o único modo de derrubar renda, salários e aposentadoria na área do euro é impor sacrifícios e colocar em marcha reformas dolorosas. Uma inflação mais alentada do que a atual, de 1% a 2% ao ano, também geraria efeito parecido, por achatar o poder de compra do consumidor.
Outro efeito pretendido: ao provocar juros negativos e reduzir o retorno das aplicações financeiras, a inflação também estimularia o consumo e, assim, a retomada da atividade produtiva.
Mas seria jogo de alto risco. Um processo inflacionário induzido por opção de política econômica poderia esvaziar a poupança privada, como ficou dito, e, posteriormente, prejudicar o investimento.
Os juros negativos também levariam à deterioração do patrimônio de fundos de pensão e das reservas técnicas das seguradoras. Depois, os fundos de pensão poderiam não ter condições técnicas de pagar as aposentadorias esperadas. E as seguradoras poderiam não cobrir eventuais sinistros garantidos nas apólices.
E, finalmente, um processo inflacionário é relativamente fácil de ser iniciado. Difícil é impedir que o ribeirão se torne um rio e que o rio vire mar de moeda. A história da economia está cheia de casos de hiperinflação, todos eles dolorosos e de sérios desdobramentos políticos.
CONFIRA
Sequestro na Petrobrás. Previamente anunciada a acionistas e analistas de todo o mundo, a Petrobrás adiou de sexta-feira para a próxima terça-feira a divulgação dos resultados do primeiro trimestre. A razão no show foi a incompatibilidade de agenda de um figurão de Brasília, membro do Conselho de Administração.
Efeito Galvêas. Esse episódio lembra outro. Em 1981, durante o governo Figueiredo, o então ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, exigiu que o boeing da Varig, proveniente de Nova York, fosse desviado para Brasília, para que pudesse desembarcar sem ter de fazer escala no Rio de Janeiro. Desta vez, alguém apenas sequestrou a data da reunião do Conselho de Administração da Petrobrás.
Preço alto. Nos dois últimos dias, as cotações das ações ordinárias da Petrobrás caíram 2,8%, e as preferenciais, 3,1%. Assim, a empresa perdeu R$ 8 bilhões em valor de mercado. Analistas entendem que esse tombo foi, em boa parte, efeito do mal-estar causado pelo adiamento da divulgação do balanço.
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