O BCE injeta dinheiro
14 de janeiro de 2012 | 16h30
Celso Ming
O rebaixamento da qualidade da dÃvida da França e de mais oito paÃses da área do euro, ontem comentado nesta Coluna, eclipsou o sucesso que o Banco Central Europeu (BCE), conduzido desde novembro pelo italiano Mario Draghi, vinha tendo para virar o jogo, antes perdedor, do refinanciamento das dÃvidas soberanas na área do euro.
Há apenas algumas semanas, os juros prevalecentes nos leilões de tÃtulos de dÃvida vinham batendo recordes de alta. A Itália, por exemplo, teve de se conformar a ter de pagar mais de 7,00% ao ano. A Espanha chegou a se comprometer com juros quase nos mesmos nÃveis. E até mesmo a Alemanha, que em novembro passou pelo vexame de não conseguir comprador para seus tÃtulos, na semana passada não só encontrou o dobro de interessados por 9 bilhões de euros por tÃtulos de cinco anos, como também passou a pagar juros baixÃssimos de 0,90% ao ano ou mesmo negativos na oferta de tÃtulos por seis meses.

Draghi. Tenta virar o jogo (FOTO: DANIEL ROLAND/AFP)
O que estava mudando? Primeiramente, o BCE intensificou as recompras de tÃtulos da Itália e da Espanha, largados no mercado secundário. O principal efeito dessa atuação foi o aumento da procura por esses papéis e uma alta dos rendimentos (yields) pagos. A segunda operação consistiu em abrir, a partir do inÃcio de dezembro, crédito ilimitado aos bancos sob sua jurisdição. Com mais dinheiro barato (de 1% ao ano), os bancos se encorajaram a subscrever mais aplicações em tÃtulos soberanos – que vinham pagando até mais de 7,0% ao ano.
Dados divulgados nessa semana pelo BCE acusam aplicações de 213 bilhões de euros em dÃvidas de paÃses da área do euro desde maio de 2010. E quase meio trilhão de euros foi repassado aos bancos, perfazendo a injeção de mais de 700 bilhões de euros. É uma dinheirama que agora poderá ser reforçada para compensar os efeitos do rebaixamento das dÃvidas europeias pela Standard & Poor’s.
Essas operações contornaram a proibição expressa nos tratados de que o BCE financie diretamente os Tesouros dos paÃses do bloco. Como, no entanto, os principais credores dessas dÃvidas são os bancos, os eurodutos abertos garantiram nova e ilimitada fonte de refinanciamento dessas dÃvidas.
Uma das consequências desse novo jogo foi a forte desvalorização do euro em relação ao dólar. É um efeito não muito diferente do que o obtido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), com suas duas grandes operações denominadas afrouxamento monetário quantitativo, num total de US$ 900 bilhões. Essa desvalorização do euro foi um dos principais fatores que provocaram, também, a valorização do real no câmbio brasileiro, de 4,07% apenas neste inÃcio de janeiro.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ganhou notoriedade em 2011 por denunciar a guerra cambial deflagrada pela desvalorização do dólar. Agora tem razões para estender sua queixa para a ação do BCE. Se o fizer, Draghi poderia repetir a resposta dada por Ben Bernanke: os paÃses que se queixam de prejuÃzos provocados pela valorização de suas moedas, em consequência das operações de afrouxamento quantitativo, teriam mais a perder se o Fed nada fizesse para estancar a crise.
CONFIRA

O gráfico mostra a desvalorização do euro diante do dólar ao longo de 2011 (12,2% a partir de setembro) e nos primeiros dias de janeiro (2,2%).
E vem carga. O rebaixamento da dÃvida da França e outros oito paÃses do bloco monetário deverá acentuar esta tendência. Se a determinação do Banco Central Europeu (BCE) for elevar as recompras de tÃtulos dos paÃses e reforçar os empréstimos de liquidez para os bancos, a desvalorização do euro nas próximas semanas poderá ser ainda maior. Pode também tirar os dirigentes da letargia. A conferir.
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