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Celso Ming

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O Real forte

8 de setembro de 2010 | 19h21

Celso Ming

A queda das cotações do dólar no câmbio interno (valorização do real) voltou a ser foco de críticas à maneira como o governo vem conduzindo a política cambial.

Às vezes, atacam até mesmo o sistema de livre flutuação, como parece ter sido o centro das acusações feitas pelo candidato do PSDB à Presidência, José Serra: “O câmbio no Brasil é flutuante só para baixo”, disse ele durante a sabatina promovida pelo Estado, na última segunda-feira.

O conjunto de críticas de várias procedências não chega a ser coerente. Os mesmos que avisam que o câmbio baixo provoca desindustrialização, também fustigam a forte disparada das importações, como se isso não provocasse o efeito por eles pretendido, que é o aumento da procura de moeda estrangeira. Outras vezes, entendem que a compra de dólares pelo Banco Central, que já acumula reservas de US$ 262 bilhões, é insatisfatória diante das necessidades de criação de demanda para o dólar. Não lhes ocorre que o cacife em reservas é, por si só, fator de atração de dólares, uma vez que blinda a economia contra crises.

Desde dezembro de 2008, o real valorizou-se 35% diante do dólar. Não há apenas uma única explicação para isso. Em boa parte, foi o dólar que se enfraqueceu em relação às demais moedas, em consequência da deterioração das finanças públicas nos Estados Unidos. Em parte, deveu-se à manutenção de nível elevado dos juros, que atrai capitais para ganhar com a diferença do custo de dinheiro. E também é reflexo do fortalecimento da economia brasileira numa paisagem de crise internacional. Na semana passada, o Bank for International Settlements (BIS) publicou relatório que indicou o real como nova atração do mercado financeiro.

Outros críticos apontam como decisiva a existência de doença holandesa, ou seja, a crescente receita com exportação de commodities. Mas este não é fator relevante para entender a valorização do real, porque as importações avançam quase duas vezes mais do que as exportações.

O novo surto de valorização das últimas seis semanas tem a ver com a perspectiva de forte entrada de moeda estrangeira para a subscrição de capital da Petrobrás e não com a arbitragem com juros.

A proposta de volta ao câmbio fixo não faz sentido. Além de desarrumar a economia, exigiria enorme arsenal em reais que permitisse compras de moeda estrangeira pelo Banco Central, ou até mesmo pelo Tesouro, sem provocar inflação.

Mas há, sim, o que fazer dentro do atual regime de câmbio flutuante e sistema de metas de inflação para corrigir a excessiva valorização do real. Os juros precisam cair mais, não para estancar o afluxo de moeda estrangeira, e sim para ajustar o valor do real em relação a ele mesmo. Mas para que os juros caiam sem provocar inflação, será preciso conter o consumo interno causado pela disparada das despesas públicas. A queda do dólar também tem a ver com o desarranjo fiscal do País.

Em situação de normalidade não dá para esperar demais por uma virada na tendência do câmbio. Este é um país cuja dívida externa tem grau de investimento e os capitais estão agora prontos para aportar por aqui. Afora isso, é enorme a necessidade de recursos para infraestrutura, o pré-sal e a capitalização das empresas brasileiras. E isso puxa o real para cima.

12 Comentários Comente também
  1. Enviado por: Roberto Campos

    É isso. Taí um quadro bastante compreensivo da conjuntura. Perfeito.

  2. Enviado por: Jr.

    Parabéns pelo diagnóstico e pelo entendimento que um dos principais responsáveis pelo problema cambial são os juros altos. Se o Banco Central tivesse jogado os juros lá para baixo (em torno de 7,5 % logo depois da crise de 2008, quando isso era absolutamente factível) e ficado com eles nesse patamar até hoje, provavelmente esse problema cambial não estaria ocorrendo hoje.

    Como foi dito, a alternativa que se tem hoje para corrigir a distorção cambial é a redução da taxa de juros, de forma vigorosa e rápida. Isto ajudará a levar o real de volta aos seus níveis economicamente corretos. Evidentemente que isso pode provocar alguma inflação devido à desvalorização da moeda, mas é um preço que o Banco Central vai ter que pagar e arriscar, para corrigir seus erros cometidos no passado.

    Há outros mecanismos de controle da inflação (por exemplo, via tarifas de importação) que podem ser utilizados para minimizar um eventual repique inflacionário localizado. Mas, para isso, o time econômico (Banco Central e Fazenda) tem que atuar afinado e não como hoje atua, onde aparentemente cada um cuida apenas da sua área, sem objetivos comuns.

    Outra observação: é bom ter um bom colchão de reservas em dólar para evitar ataques especulativos. Todavia, há que se questionar o tamanho desejável dessas reservas e quanto custa mantê-las. Atualmente, o custo de manutenção dessas reservas é muito alto, pois a maior parte delas é remunerada pelos juros dos títulos norte-americanos (próximo de 0 %), enquanto o Tesouro nacional toma emprestado no mercado pagando próximo da SELIC ( 11,75 %). Ou seja, a manutenção dessas reservas está custando mais de 11 % ao ano para os cofres públicos (aproximadamente 29 bilhões de dólares ao ano). Então, ter reservas, na conjuntura de taxa SELIC alta, também não tem só vantagens; tem um alto custo também.

  3. Enviado por: Romanelli

    ..acho que há muita convergência ..afinal, todos podem diferir UM POUCO da doença, mas já há um progresso, a constatação da febre e o reconhecimento de que o paciente corre risco de vida..

    concordo quando vc diz:

    -que as reservas não são desprezíveis
    -que o juros pesam, e MUITO
    -que a “segurança” proporcionada retroalimenta mais entrada
    -que o reconhecimento do REAL e a fraqueza do dólar colaboram contra

    ..agora, penso que faltou..

    -faltou dizer que o capital especulativo recebe tratamento VIP (na tributação, carência, frente a remuneração e risco internacional atual por ex.)

    ..só aqui, com a contenção deste FLUXO que distorce tudo, quem sabe vc poderia ter explorado melhor os efeitos “contrários” que um excesso de importação, remessas e turismo externo poderiam causar e NÃO causam ..ajudam-nos a detectar ainda mais que a flutuação esta travada, emperrada, mal lubrificada..

    -faltou também falar do DAQUI A POUCO (que pesa no capital de Lp), do daqui quando corremos sim o risco de pegar a doença Holandesa ..do daqui a pouco com a pré-sal (afinal, sumiu o peso da conta petróleo dos anos 80,90 e 00 por exemplo) .. e com o aumento no preço das commodities (hoje reprimidos) que, inclusive, camufla a força e peso destes na nossa balança (pq hoje estão “baratos”)

    ..e quanto a falar só do consumo pelo lado do Estado, isso, prum país que ficou 30 anos sem investir, e que só agora, duns 4-5 anos pra cá, vem conseguindo anti-ciclicamente tirar o atraso E NÂO FALAR praticamente nada de alguns consumos pontuais desenfreados (construção civil e carros por exemplo, dilatação do prazo dos créditos e juros de agiotas pro consumidor) ..isso eu já acho que é obsessão, síndrome de avestruz, ideologia, um descontrole ou um TOC da sua parte

  4. Enviado por: Romanelli

    JR diz:

    “..há outros mecanismos de que tem outras formas de controle da inflação..”

    Jr, sabe quando o MING (que tem nome de chinês, parece chinês, mas NÃO é chinês) vai admitir essa heresia pra corrente liberal privativista financista – vulgo “mamam quietos”, sabe ? ..NUNCA !!!!

  5. Enviado por: Roberto Campos

    Ming,

    Você teve a sua popularidade aumentada! (mesmo antes da participação televisiva…)

    Esconder a realidade dos fatos parece uma sina para algumas penas alugadas por assessorias de imprensa com fundos estatais. E o estelionato eleiçoeiro se completa com o uso intensivo dos sofismas manipuladores. Com uma mistura distorcida de conceitos na qual não se distingue o que é causa ou o que é efeito.

    De repente, você tem uma vastidão de pautas . . .

  6. Enviado por: Jr.

    Parece que é ponto pacífico que estamos numa “encruzilhada cambial”.

    É certo que a entrada de dólares para a capitalização da Petrobrás (além de Vale, Telemar, etc.) está contribuindo para pressionar o dólar no curto prazo. Mas, a tendência é que continuem entrando divisas no País, pois há interesse em investir no Brasil. Assim, O governo vai precisar tomar medidas para corrigir a anomalia da taxa cambial.

    Sugiro as seguintes medidas:

    1) Retorno da taxa de juros aos níveis de abril deste ano (8,75 %) até Dezembro (redução de 1 % em cada uma das reuniões restantes do COPOM). Não há pressão inflacionária no horizonte. A previsão de crescimento para o terceiro e quarto semestres é de apenas 0,7% , o que dá um crescimento anualizado próximo a 3 % ao ano, bem abaixo famoso crescimento potencial do PIB (4,5 a 5 % ao ano).

    2) O Conselho Monetário Nacional deve aumentar o núcleo da meta de inflação para 5,5 % para o próximo ano. Um aumento de 1 por cento no núcleo na meta terá algum custo, mas não é tão alto assim. Em compensação, trará os seguintes grandes benefícios:
    - permitir a redução adicional dos juros para patamares próximos a 7 % ao ano, ao longo do próximo ano,
    - permitir um crescimento do PIB maior no próximo ano (com mais geração de empregos)
    - permitir uma maior arrecadação de tributos no próximo ano em consequência do crescimento do PIB, o que melhorará o lado fiscal
    - permitir mais enxugamento nas contas do governo decorrente da redução de despesas com pagamento de juros, e, principalmente:
    - permtir que escapemos da armadilha cambial de uma forma gradual, à medida que os juros forem baixando mais.
    - evidentemente, se houver espaço para um esforço fiscal adicional para reduzir as despesas do governo no próximo ano, isto ajudará no controle da inflação.

    3) Com a adoção dessas duas medidas (redução da taxa de juros e o aumento do núcleo da meta de inflação em 1 % para o ano que vem), o câmbio vai naturalmente encontrar o seu novo ponto de equilíbrio, sem maiores rupturas e máxi-desvalorização instantâneas.

    4) Eventuais aumentos localizados de índices de preço aqui e ali poderão ser combatidos também com a redução temporárias de alíquotas de importação para setores específicos (as alíquotas voltarão novamente a patamares adequados assim que os preços dos produtos se estabilizarem).

    5) Evidentemente que a adoção de quaisquer medidas para reverter a anormalidade do quadro cambial atual necessita de suporte político. Mas alguma coisa precisa ser feita. A continuar do jeito que está, daqui a alguns anos muitos empregos terão migrado para a China e muitas indústrias estarão em sérias dificuldades.

  7. Enviado por: dinossauro

    “Mas para que os juros caiam sem provocar inflação, será preciso conter o consumo interno causado pela disparada das despesas públicas”.

    ENTÃO TÁ! VENDA DE IMOVEIS E CARROS EXPLODIU POR CAUDA DOS GASTOS PUBLICOS….

    1) OS JUROS NÃO CAEM, POIS ELES A QUASE 15 ANOS ESTÃO ENTRE OS 5 MAIS ALTOS DO MUNDO SEJA REAIS OU NOMINAIS;

    2) A SITUAÇÃO FISCAL NÃO ESTÁ RUÍM COMPARADO COM A MÉDIA DE PAÍSES. A “EXPLOSÃO DE GASTOS” OCORRRIDA NO PÓS CRISE NÃO FOI NADA PERTO DO OCORRIDO EM OUTROS PAÍSES.

    3)O QUE CRESCEU NOS PASSADO RECENTE FOI fbkf E CONSUMO PRIVADO( PROVOCADO PELO AUMENTO DO CRÉDITO E DA RENDA).

    oS GASTOS DO GOVERNO PODEM TER CONTRIBUÍDO , MAS ESTÃO LONGE DE SER A CAUSA PRINCIPAL

  8. Enviado por: Ismar Dias Ferreira

    Grande parte dos economistas, empresários, políticos e acadêmicos ainda insiste em tratar a questão do câmbio no Brasil como um problema conjuntural, o que é um equívoco. A atual valorização do real frente ao dólar e outras moedas resulta de uma nova realidade estrutural, ainda em fase de consolidação, que tende a tornar essa valorização ainda mais forte nos próximos anos. Por isso, exige resposta também estrutural. Exige um salto de produtividade por parte do parque produtivo nacional, que permita um reequlíbrio da competitividade de nossos produtos frente aos de nossos parceiros comerciais. Assim, medidas como baixa da taxa de juros, tributação da entrada de recursos estrangeiros, quarentena/pedágio sobre os investimentos especulativos, bem como o aumento sem limites das reservas cambiais do País, tudo isso poderá até surtir algum efeito de curtísssimo prazo, mas são medidas insustentáveis no médio e longo prazo e certamente não resolverão o problema. A (única) saída me parece óbvia, embora não tão fácil de implementar, que é atacar com firmeza e com sentido de urgência a questão do Custo Brasil, com investimentos maciços em infraestrutura, logísitca, educação e tecnologia por um lado e, por outro, com a revisão URGENTE dos nossos modelos/arcabouços tributário, trabalhista e previdenciário. Se isto não for atacado com prioridade máxima e com bastante foco, tudo o mais não passará de ações paliativas, no estilo “enxugar gelo”. Mas isso, certamente, é TAREFA PARA O PRÓXIMO GOVERNO, pois que o atual bem pouco avançou nessa agenda!

  9. Enviado por: Riccardo(California,USA)

    Celso,

    Concordo em tudo que escreveu,porem gostaria de acrescentar uma outra razao que nao mencionou.

    O mundo hoje esta dando um pessimo retorno nos investimentos renda fixa ou bolsa tanto faz,entao investidores procurando melhores retornos estao botando dinheiro no Brasil nos juros principalmente, mais tambem em outros investimentos. E isto na verdade criou uma bolha no Real,que vai explodir quando as outras economias mundiais sairem do buraco.

    abs

  10. Enviado por: valter rodrigues vidal

    Esse artigo do Ming chega a ser engraçado senão fosse tragico, é um crime o que esta acontecendo com o cambio no brasil, mas cada um ganha o seu no mercado financeiro(inclusive comentaristas economicos) e la nave se va, sentido ao precipicio.

  11. Enviado por: João jorge lenh

    O fato é que crédito e taxa de juros tem uma unica funcão que se chama poupanca,sem ela nào há crescimento sustentavel.

  12. Enviado por: celso

    Porque não perguntam aos chineses como eles conseguem crescer a 10 anos mais de 10%a.a.Juros baixos. Manter sua moeda com paridade ao dolar e possuir reservas gigantescas, exportando tudo o que tem??? Creio que seus economistas não sabem que isto cria muitos problemas.

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