12:18


15 de Abril de 2010

 

Patrocinado por




Muito chão lá fora

José Paulo Kupfer

Muito chão lá fora

Celso Ming
Filtro
Tamanho de texto: A A A A

Celso Ming

BUSCA NO BLOG >>

Relação incestuosa

19 de julho de 2010 | 19h02

Celso Ming

Em entrevista publicada no Estado desse domingo, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, brandiu um punhado de argumentos nem sempre sólidos para justificar nova e perigosa criação do governo Lula operada pelo banco, que é o funcionamento de um orçamento paralelo destinado a financiar projetos oficiais.

luciano_coutinho_marcos_de_paula_ae_17052010.JPG

COUTINHO - Falta explicação (Foto: Marcos de Paula / AE – 17/5/2010)

Conforme já denunciaram o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola e o ex-ministro do Desenvolvimento do governo Fernando Henrique Luiz Carlos Mendonça de Barros, a existência desse jogo traz de volta a chamada Conta Movimento, que existia até 1987 entre o Tesouro e o Banco do Brasil, cuja função era criar moeda e dar cobertura a projetos do governo. Foi um mecanismo que depois provocou inflação, crise e moratória da dívida soberana.

Desde 2009, o Tesouro repassou R$ 180 bilhões em títulos públicos para o BNDES, que, por sua vez, os transforma em dinheiro vivo no mercado e depois repassa para as empresas estatais ou para o setor privado, com o objetivo de financiar o investimento. Essa transferência implica a concessão de subsídios, na medida em que os juros pagos pelo tomador de empréstimo feito pelo banco não cobrem a remuneração paga pelos títulos do Tesouro.

Os dirigentes da instituição têm lançado mão de sofismas para justificar essa relação incestuosa com o Tesouro. Afirmam que não aumenta o endividamento líquido do setor público, na medida em que o crescimento do passivo (lançamento de novos títulos) corresponde ao crescimento de um ativo da mesma proporção (os empréstimos com garantia real às empresas).

O presidente do BNDES argumenta que essa é a forma mais adequada de viabilizar o investimento, que, logo em seguida, estará criando produção, empregos e arrecadação de impostos.

Mas, se é assim, se não há problema nenhum nesse casamento de valores e se o céu é o limite, por que em vez de emitir apenas R$ 180 bilhões já não se emite logo R$ 1,8 trilhão, desde que haja cuidado em manter um ativo de igual tamanho na outra ponta? Não seria essa a solução definitiva para a crônica falta de poupança e para a falta de investimentos no Brasil?

O governo Lula, secundado pelo professor Luciano Coutinho, está repetindo agora o que fizeram os governos militares. Eles sustentaram uma enorme carga de investimentos internos com aumento da dívida externa, que, coincidentemente, também tinha ativos equivalentes no outro prato da balança. Não obstante esses cuidados contábeis, deu no que deu…

Além dessas e outras justificativas baseadas nessa lógica, o presidente do BNDES afirmou em sua entrevista à repórter Raquel Landim que “tudo está sendo feito com total transparência”. Mas, em seguida, quando lhe foi cobrada a tal transparência para os custos a serem descarregados sobre o setor público, entra em contradição dizendo que “essa conta é imprecisa, porque é preciso projetar o custo de captação do Tesouro no longo prazo, a trajetória futura da Selic, da inflação, da TJLP, além do crescimento da economia”. Eis aí um dos principais problemas do atual BNDES: seu conceito de transparência é construído com um grande número de imprecisões e uma justificativa que nada mais é do que um jogo de palavras: “Estão fazendo tempestade sem substância.”

12 Comentários Comente também
  1. Enviado por: Roberto Campos

    Não li a entrevista feita pela Raquel Landim com o Luciano Coutinho. No entanto, com base nesse post, concluo que ele está advogando a causa do próprio emprego em todas as passagens em que “maltrata a verdade” tanto quanto foi torturado o próprio Jesus Cristo no calvário.

    Já vimos esse filme antes, eu, o Ming e uma boa parte da torcida do Corinthians, Palmeiras, São Paulo, . . .

    Começamos financiando a produção com juros subsidiados por causa do descontrole das despesas públicas, que causam a elevação da taxa básica dos juros da economia. Depois, o próprio subsídio é causa de descontrole das despesas camufladas em empréstimos lastreados em garantias reais. E esse subsídio se torna, ele próprio, causa da inflação de demanda que deveria combater com mais produção. . . Pronto! Está criado, assim, o falso “moto-contínuo econômico” de que sonhamos desde a crença na existência do paraíso. Também está ressuscitada a enganação da malsinada “Conta Movimento” que tanto sofrimento gerou pelas consequências funestas da inflação galopante.

    O Sr. Coutinho não tem o direito de sofismar a verdade dos fatos ao público que lhe paga o salário pelo simples motivo de que tem o domínio da ciência que estuda os fenômenos da economia. Não é um ignorante. É um manipulador dissimulado de trapaceiro.

    Ming, as pessoas mal intencionadas dessa administração estão tratando, com ingentes esforços, de destruir os fundamentos do Plano Real. Dilapidam a estabilidade monetária com a mesma facilidade com que mentem. A Lei de Responsabilidade Fiscal está sendo desmoralizada sub-repticiamente nesse caso. Quanto ao estrago que será causado pela Medida Provisória da Copa do Mundo de 2014, é descaradamente evidente. Lamentável em todos os casos. Ninguém, e os pobres muito menos, merece isso.

  2. Enviado por: Caio Silva

    Lamentável o que está ocorrendo, regurgitando velhas fórmulas empurrando o problema para quem vai ter que cobrar esta dívida algum dia (este governo como não vai precisar fazer isso está rindo a toa). Primeiro é mais do que evidente que os juros estão sendo subsidiados, o governo toma a 10, 11% da taxa selic e empresta a 5,5 e até 4,5% ou seja quem paga a diferença de 5 a 6% somos nós, os mesmos otários que de cartão de crédito tem que pagar 12% ao mês. Se ainda isso significasse que nós somos mais caloteiros e menos dignos de confiança que os tomadores de empréstimo do BNDES ainda vai! mais será que alguém de nós não desconfia que estes tomadores sequer irão pagar estes empréstimos, como já ocorreu em diversas vezes no passado e o governo bonzinho como sempre com estes pobres empresários não melhora ainda mais as condições de refinaciamento destas dívidas. Ou voces acham que subsidiar Belo Monte, só para citar este exemplo, é um investimento de retorno garantido? Pobres de todos nós que por falta de consideração a informação lúcida, lógica e coerente deste tipo de artigo estejamos caindo numa armadilha tão óbvia e estejamos empolgados com uma falsa política de desenvolvimento sem consistência.

  3. Enviado por: Marlon Fernandes

    Embora as palavras do Sr. Coutinho não demonstrem muito tato ou conhecimento técnico, quando você aumenta a dívida pública para gerar investimentos e não pagar despesas você tem uma condução muito mais eficiente da economia. Em períodos passados lançava-se dívida para pagar juros de dívidas anteriores, e a dívida sempre crescendo.

  4. Enviado por: JGould

    Típico representante da quermesse de campinas. Eu não sei o porquê de as vezes a bola ficar pingando para determinados jornalistas, e eles chutam pra fora do estádio. A principal pergunta que faltou a quermesseiro foi;
    Como foi a tomada de descisão na operação em que o BNDES iria injetar um total de R$ 450 milhões no capital do frigorífico Independência em novembro de 2008(quebrou em março!). Com esse capital, o banco ficou sócio do frigorífico, do qual 100% das ações pertenciam à família Russo. O banco subscreveu R$ 250 milhões de ações e em março faria outra operação de R$ 200 milhões, mas aí a empresa quebrou e entrou em recuperação judicial. Hoje, vários bancos estão na Justiça, inclusive o JP Morgan, para tomar os bens de acionistas. O que precisa ser explicado é como ele colocou tanto dinheiro num frigorífico às vésperas de quebrar?

    Acho que maioria dos jornalista sofrem de amnésia ou são ruins mesmo!

  5. Enviado por: Soulman

    Não há uma contradição ao afirmar que o Tesouro poderia emitir trilhões de reais, negociá-los no mercado e resolver a crônica falta de poupança e investimento? Se assim fosse possível, de onde o mercado obteria esses recursos ao adquirirem os títulos emitidos? Não seria o limite, a poupança interna (a parcela da renda, de pessoas, empresas ou instituições superavitárias, que não é gasta no período em que é recebida) essa barreira?

    Com relação ao repasse de R$ 180 bilhões, os oitenta foram leiloados pelo Tesouro e repassados em dinheiro ao BNDS que o colocou na conta do PSI/Finame. A Abimaq negociou com o banco a prorrogação do programa, que continua mas agora com juros de 5,5%. Não sei porque o presidente do banco desconversou, é só confirmar isso no site da associação! Quem quiser ler o texto do presidente da Abimaq, elogiando a iniciativa, segue o link:
    http://www.abimaq.org.br/presidente_show.asp?id=129&origem=p

    Os demais 100 bilhões em títulos foram colocados à disposição do banco e ainda não encontrei uma explicação se foram ou não negociados. Há uma diferença de repasse de títulos, colocados à disposição, como é feito ao BC, e repasse de recursos provenientes de títulos já leiloados, como o realizado no caso do PSI/Finame.

    Apesar de haver situações suspeitas como apontou o JGold acima, esse tipo de operação, com o passivo do banco sendo garantido pelos ativos das empresas, faz sentido. Concordo que o BNDES deveria expandir essa prática, mas acredito que o limite não esbarra somente na restrição de recursos internos. A política de endividamento e empréstimos selecionados, que é uma história que já vem desde outras épocas, na minha opinião, não se trata de característica de um ou outro governo mas do exercício de poderes políticos e oligárquico no Brasil.

  6. Enviado por: Soulman

    leia-se: trilhões de reais em títulos…

  7. Enviado por: José Silva Jardim dos Ursos

    A dívida bruta saltou de 1.133 BILHÕES em dezembro de 2002 para 2.310 BILHÕES de R$ em maio de 2010 ou seja, aumentou 1.177 BILHÕES de R$ o que corresponde a cerca de 90 ANOS DE BOLSA FAMÍLIA.

    A dívida ao invés de ser reduzida tem sido aumentada de forma vergonhosa privilegiando os ricos que recebem os juros mais altos do mundo e PARA OS POBRES SÃO DADOS OS RESTOS.

    A dívida do BNDES junto ao Tesouro já é superior a 210 bilhões de R$.

    E o BNDES continua a socorrer com bilhões de R$ empresas como a Sadia (aquisição pela Perdigão) e o Banco Votorantim (aquisição de quase 50% pelo Banco do Brasil) que chegaram a um estado pré-falimentar devido à especulação financeira.

  8. Enviado por: augusto

    O governo Lula com sua incompetencia, prepotencia, vontade pelo poder, e fama, acabará quebrando novamente o Pais

  9. Enviado por: marcos

    Muito bom, agora os sabios aí e mais os dois ex ministros que não fizeram nada que desse resultado durante suas gestões é só explicar quem vai financiar parte do crescimento, pq acho que em seus escritorios vs não conseguem ver o obvio, banco privado só financia de médias empresas acima o que eles revelam é pura manipulação de numeros.

  10. Enviado por: Paulo Pinto

    Prezado Sr. Ming,
    Creio q toda vez q se faz uma analise desse tipo e necessario olhar a saude da economia como um todo. Quais sao as vantagens e desvantagens em termos de desenvolvimento economico e social? O ponto nevralgico da questao e: Pq as grandes empresas privadas nao investem (arriscam!!)mais em projectos de infraestrutura e desenvolvimento tecnologico? Se elas nao investem, entao acho positivo q o governo procure alguma forma de estimular a economia e dar base a um crescimento auto-sustentavel a longo prazo.
    Para mim, teu argumento perde muita credibilidade qdo menciona os ex-membros do governo passado. Sera q o Sr. nao sabe q durante o governo de FHC a divida publica cresceu de 30% para 51% do PIB? Hoje esta ao redor de 42 %. Q a media de crescimento foi um pifio 2%? Hoje e de 6%. A taxa media de juros da Selic era 27%. Hoje e de 10%.
    Portanto, estes sao os fatos e dados q o Sr. nao meciona em tua analise.

  11. Enviado por: JB Costa

    Sr. Roberto Campos,
    Opinar com um porrete na mão dá nisso: argumentum ad hominem.
    Os recursos da CM era direcionados para financiar a produção agrícola. Ela alavancou a modernização da nossa produção primária e ,indiretamente, se hoje somos o maior produtor e exportador de alimentos, foi graça a esse dinheiro “maldito”.
    Também é “esquecido” que esse subsídio dado aos tomadores dos recursos do BNDES, além de suprir a carência de recursos privados, vai gerar empregos, e por consequência renda, aumentar o nível de competitividade da nossa indústria no comércio externo, e outras benefícios derivados.
    Vamos falar do “mal”, mas sem esquecer o “bem”, não é mesmo?

Blogs do Estadão