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15 de Abril de 2010

 

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Parafusos espanados

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O rombo e o marisco

Celso Ming

O rombo e o marisco

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Pleno emprego e juros

26 de janeiro de 2012 | 19h45

Celso Ming

Nunca, como nesta quinta-feira, o Banco Central chegou tão perto de admitir que persegue uma meta de juros de um dígito (abaixo de 10% ao ano).

Também nunca até agora o Brasil apresentou um índice tão baixo de desemprego. E, no entanto, esse é um dos maiores obstáculos a ser enfrentado pelo Banco Central, dirigido pelo economista Alexandre Tombini, para alcançar uma meta sustentada de juros de apenas um dígito.

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Tombini. Selic de um dígito (FOTO: ANDRÉ DUSEK/AE)

Apesar dos desníveis regionais, o nível de desemprego de apenas 4,7% da força de trabalho indica situação de pleno emprego na economia, ainda que técnicos do governo federal se esforcem em escondê-la, com o objetivo aparente de viabilizar números ainda mais expressivos.

Toda política econômica em regimes democráticos persegue situação de pleno emprego – que é, ao mesmo tempo, garantia de paz social e de bom retorno eleitoral. Desse ponto de vista, nada melhor do que forte crescimento dos postos de trabalho. Mas isso também cobra seu preço.

Um mercado de trabalho aquecido como o de agora é fator que puxa para cima a renda das famílias. Conjugado com o aumento do crédito e do salário mínimo (que subiu 14,13% em janeiro), tende a impulsionar o consumo em níveis superiores à própria atividade produtiva. Pode-se dizer que favorece a expansão da chamada inflação de demanda (que se dá quando o consumo cresce mais do que a produção) sobretudo no segmento dos serviços (transportes, assistência técnica, academia, refeições fora de casa, etc.) que não podem ser supridos por importações.

Embora reconheça em parte essa pressão em direção contrária à desejada, proveniente do “vigor do mercado de trabalho”, a Ata do Copom divulgada nesta quinta aposta na ampla compensação desse efeito negativo pela atuação em sentido oposto de outros fatores: desinflação no mercado internacional; garantia de que haverá cumprimento da meta de superávit primário equivalente a 3,1% do PIB (que o Banco Central avalia em R$ 139,8 bilhões); desaceleração da atividade econômica; e, mais que tudo, a ocorrência de “mudanças estruturais significativas na economia brasileira”. Entre essas mudanças, o Banco Central cita conquistas que já têm algum tempo: “O cumprimento da meta de inflação pelo oitavo ano consecutivo, a estabilidade macroeconômica e avanços institucionais”.

Os pressupostos da inflação sob controle são os mesmos que foram fixados em agosto, quando começou a atual política de redução dos juros básicos (Selic). E, no entanto, algumas dessas condições esperadas não vêm se confirmando. Não houve a grande catástrofe na economia mundial, hipótese que parece afastada. E também não aconteceu a forte derrubada dos preços das commodities, principalmente do petróleo e dos alimentos.

Poucas vezes como agora o Banco Central pareceu tão determinado a derrubar juros, mesmo que a trajetória interna da inflação possa não ser a ideal.

Tornou-se relativamente fácil chegar aos juros de um dígito. Mais difícil será mantê-los aí. Ficou a impressão de que esta é agora questão de honra. Se um fator qualquer atrapalhar esse objetivo, o Banco Central perderá credibilidade.

CONFIRA

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Aí está a evolução do desemprego nos últimos 38 meses. Não há registro de nível de desocupação mais baixo no País.

‘Taxa neutra’. Uma velha discussão entre especialistas procura definir a chamada “taxa neutra de desemprego”. É o nível de desocupação abaixo do qual passa a haver pressão sobre a inflação. Até recentemente, esse patamar era considerado o desemprego de 7,0%. Se houve – também aí – as tais mudanças estruturais de que fala o Banco Central, os especialistas terão de encontrar outro número.

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O rombo e o marisco

25 de janeiro de 2012 | 19h40

Celso Ming

O resultado das contas do Brasil com o exterior (exceto fluxos de capital) é negativo desde 2008. Mais do que isso, esse déficit vem crescendo e tende a aumentar.

Por enquanto, a cobertura desse rombo é feita, com folga, por meio da entrada de capitais de longo prazo – como se presume serem os Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs). Como são capitais de boa qualidade, digamos assim, não sujeitos a retiradas súbitas, caso dos capitais especulativos, não há, até onde a vista alcança, nenhum perigo de hemorragia de moeda estrangeira, o que deixaria a economia a descoberto.

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Além disso, as reservas externas são de US$ 353 bilhões, altas suficiente de modo a desencorajar movimentos de fuga de capitais – risco que pode correr uma economia que gasta mais do que fatura com o resto do mundo.

Em princípio, um país em desenvolvimento como o Brasil tende a ter déficits em Conta Corrente – conjunto de transações com o exterior que englobam o fluxo de mercadorias (comércio), de serviços (transportes, turismo, seguros, juros, royalties, etc.) e de transferências de dinheiro entre parentes.

Déficits crônicos em Conta Corrente refletem, em princípio, consumo interno de bens e serviços além do conveniente. O governo Dilma não trabalha com a hipótese de que essa forte elevação do consumo prejudique o equilíbrio das contas externas, por estar mais interessado em impedir a valorização excessiva do real (alta do dólar) – fator que pode tirar competitividade do produto nacional. Mais despesas pagas ao fornecedor externo impulsionam a demanda de moeda estrangeira no câmbio interno e, pela lei da oferta e da procura, atuam contra a alta do real – consequentemente, a favor do pretendido.

Mas, a longo prazo, a perspectiva de ampliação do rombo nas Contas Correntes com o exterior não é a maior tensão que prevalece sobre as contas externas. Dentro de alguns anos, o País expandirá substancialmente receitas no exterior com exportações de matérias-primas (sobretudo minério de ferro e celulose); alimentos (soja, café, milho, açúcar e carnes); e petróleo. A médio prazo, a tendência à alta dessas commodities deverá multiplicar receitas em moeda estrangeira e reforçar a valorização do real.

O marisco, que ficará entre o rochedo e as ondas, será a indústria, com cada vez mais dificuldades para competir não só lá fora, mas também aqui dentro.

O problema de fundo não é, como tantos pensam ingenuamente, o câmbio adverso, que encarece o produto nacional e barateia o importado. É, sim, a falta de competitividade do setor produtivo brasileiro (não só o da indústria, como mostra o caso do etanol). E, por trás dessa baixa competitividade, está o alto custo Brasil: imposto demais; infraestrutura cara e ruim; juro escorchante; a quarta mais onerosa eletricidade do mundo; Justiça ineficiente; excesso de encargos sociais sobre a folha de pagamentos; burocracia; etc.

E, decididamente, o governo Dilma não está fazendo o suficiente para enfrentar essa enorme debilidade da indústria.

CONFIRA

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Esta foi a distribuição por segmento do IED em 2011.

De que valeram os testes? Entre razões do FMI para reforçar suas linhas de emergência com US$ 600 bilhões está “a necessidade de fortalecer bancos europeus contra riscos de default (calote)”. Ou seja, o Fundo concorre para desmoralizar testes de estresse de autoridades europeias.

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Bases para 2012

24 de janeiro de 2012 | 19h50

Celso Ming

Logo após a reunião ministerial da segunda-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou que o governo mantém a meta cheia do superávit primário, de 3,1% do PIB neste ano. É um bom ponto de partida para a arrumação da política econômica deste segundo ano de administração Dilma.

Primeiro, vamos repassar alguns conceitos. Superávit primário é a sobra de arrecadação destinada a abater um pedaço da dívida. É primário na medida em que seu cálculo não inclui despesas com juros que, em princípio, são depois incorporados ao principal.

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Dilma. Bom ponto de partida (FOTO: FERNANDO BEZERRA/EFE)

A meta é cheia no sentido de não serem usados alguns truques para reduzi-la – como em 2010, quando o governo Lula deixou de considerar como despesa certos investimentos públicos. Esses 3,1% do PIB sofrem certa variação em termos absolutos por se desconhecer o tamanho exato do PIB em 2012. Mas devem oscilar na casa dos R$ 120 bilhões (cerca de 12% da arrecadação federal).

A decisão de cumprir a meta indica que o governo não pretende soltar as rédeas da despesa pública – o que alguns analistas vinham considerando inevitável neste ano de eleições. A principal consequência é deixar o Banco Central com maior margem de manobra para conduzir sua política de juros. Uma política fiscal mais apertada implica menos expansão das despesas públicas, algo que tende a conter a expansão do consumo interno. Assim, uma inflação mais controlada ajuda o Banco Central a desapertar o volume de moeda na economia e a reduzir os juros.

A decisão de manter intocada a meta do superávit primário deve ter sido tomada dentro do pressuposto de que a economia global, embora ainda sob forte crise, não aprontará nenhuma catástrofe financeira tão séria como a de 2008, quando da quebra do banco Lehman Brothers. Esse fator, por sua vez, sugere que se possa contar com razoável avanço econômico interno. Mantega espera por salto no PIB na ordem de 4,0% a 4,5%. Já o Banco Central não é tão otimista: projeta 3,5%. Se for isso, ainda será mais alto do que o de 2011, provavelmente por volta dos 2,7%. Em todo o caso, os governos nem sempre cumprem o que anunciam. A conferir.

A maior conquista do pensamento econômico brasileiro nos últimos anos foi a aceitação do princípio de que a disciplina fiscal é condição para o bom desempenho político. Ou seja, sem um mínimo de responsabilidade fiscal, um dirigente perde seu chão. E quando o cidadão comum percebe desarrumação na casa, sente-se inseguro no manejo de suas próprias finanças e na capacidade de manter seu emprego.

Desajuste das contas públicas é o começo da perda de capacidade de governança. Esse está sendo o efeito mais perverso da política de endividamento excessivo do setor público na área do euro – conduta prevalecente nos últimos dez anos. Outra consequência desse descontrole é a perda de soberania dos Estados nacionais.

Há alguns anos, as chamadas esquerdas brasileiras entendiam que essa preocupação com o equilíbrio orçamentário não passava de ranhetice de ortodoxos e neoliberais. Oito anos de governo Lula mais um de gestão Dilma, ambos com recordes de aprovação popular, parecem ter consagrado nos segmentos mais nacionalistas o princípio de que a ordem das finanças públicas é condição necessária para uma administração bem-sucedida.

CONFIRA

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Você tem aí, ano a ano, a evolução da entrada do Investimento Estrangeiro Direto (IED). De 2005 até fim de 2011, cresceu nada menos que 269%.

Forte afluxo. No início de 2011, a expectativa era de que não passaria de US$ 55 bilhões. Entraram 17,5% a mais do que isso.

A atração dos serviços. A maior parte do IED, 46%, destinou-se ao setor de serviços (destaque para telecomunicações, comércio, energia, finanças, transporte e construção civil). Só 39% foram para a indústria e outros 15%, para o setor primário.

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Mudanças na Petrobrás

23 de janeiro de 2012 | 19h45

Celso Ming

A troca na direção da Petrobrás está sendo vendida ao distinto público como manobra do atual presidente, José Sérgio Gabrielli, de modo a melhor se posicionar para concorrer ao posto de governador do Estado da Bahia. Para isso, ele assumirá, avisam, importante secretaria do governo baiano, conduzido hoje por Jaques Wagner.

Se fosse para atender aos objetivos políticos de Gabrielli, seria uma substituição prematura e equivocada. As eleições dos governadores só acontecerão em outubro de 2014 e, se sua saída da Petrobrás fosse para cacifar essa candidatura, Gabrielli perderia notoriedade – o que é essencial para um futuro candidato a cargo de governador. Teria mais exposição pública enquanto presidente da Petrobrás do que à frente de qualquer secretaria do governo da Bahia.

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Maria das Graças. O dedo de Dilma (FOTO: WILTON JUNIOR/AE)

A substituição de Gabrielli pela atual diretora de Gás e Energia da Petrobrás, Maria das Graças Silva Foster, é decisão da presidente Dilma Rousseff. O que ainda não está claro é o plano inteiro do qual essa mudança faz parte.

Aparentemente, a presidente Dilma não está satisfeita nem com as escolhas da atual administração da Petrobrás nem com seus resultados. Em maio, seu governo rejeitara duas vezes o Plano de Negócios 2011-2015 da Petrobrás, alegadamente porque suas metas “não eram realistas”.

Os projetos de investimento da Petrobrás estão atrasados e são raros os cronogramas que vêm sendo cumpridos. Em parte, isso está acontecendo porque a empresa não consegue coordenar eficientemente sua cada vez maior rede de fornecedores, hoje defendidos pelas exigências de conteúdo local – cláusula que eleva custos e prejudica o andamento dos investimentos.

Está cada vez mais difícil separar o que é tarefa grande demais – até mesmo para uma empresa do tamanho da Petrobrás – e o que pura e simplesmente resulta da baixa eficiência de uma pesada administração estatal, loteada entre próceres da base política do governo Dilma.

As decisões do novo marco regulatório do petróleo exigem que a Petrobrás integre os consórcios de todas as novas licitações do pré-sal com participação mínima de 30% e que ela seja a empresa operadora em todas elas. Isso significa que todo o programa de licitações tem de esperar até que a Petrobrás esteja em condições de assumir novos contratos de exploração.

Além disso, desde a administração Lula, o governo federal tem exigido que a Petrobrás participe intensamente do setor de geração de energia elétrica; que lidere o segmento produtor de etanol; que execute políticas de boa vizinhança de alto custo com Bolívia, Argentina e Venezuela; e que concorra com seu caixa para a política anti-inflacionária interna, não importando o impacto de todo esse jogo no seu faturamento e na sua capacidade de investir. Enfim, é areia demais para o caminhãozinho da Petrobrás.

Mas não está claro o que a presidente Dilma Rousseff quer mudar em toda essa carga e que poderes terá a nova presidente da Petrobrás, Maria das Graças, para formatá-la a esses planos.

CONFIRA

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O índice CRB, um dos principais medidores de preços do segmento de commodities, não aponta mais para a baixa, como projetavam alguns técnicos do Ministério da Fazenda. Em janeiro (até esta segunda-feira) acumulou alta de 2,7%.

Rei morto, rainha posta. A Bolsa parece ter gostado da troca de Gabrielli por Maria das Graças à frente da Petrobrás. Nesta segunda, depois de um início de pregão vacilante e em baixa, as ações ordinárias da empresa se valorizaram 3,6% e as preferenciais, 3,8%. Falta saber qual é a aposta prevalecente do mercado.

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A tempestade pode não vir

21 de janeiro de 2012 | 16h30

Celso Ming

Apesar das projeções sombrias divulgadas na semana que passou pelo Banco Mundial (Bird) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), há um punhado de sinais que apontam para dias mais ensolarados no cenário da economia internacional.

O primeiro deles vem dos Estados Unidos e dá conta de notável recuperação do emprego. Em dezembro, por exemplo, os níveis de desocupação recuaram dos 9,2% a que chegaram, em julho, para 8,5%. As novas projeções sobre a atividade econômica também sugerem certa reação. Em vez da quase paradeira que foi o crescimento insatisfatório de 1,7% estimado para 2011 (os números definitivos ainda não estão disponíveis), as novas previsões são de que dá para esperar para 2012 uma expansão do PIB de pelo menos 2,5%.

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Draghi. Nova postura (FOTO: MARWAN NAAMANI/AFP)

Outro bom indício foi passado pelo Escritório Nacional de Estatística da China: salto de 9,2% na economia chinesa no ano passado, mais alto do que as apostas que vinham sendo feitas pela maioria dos observadores internacionais – de um avanço não superior a 8,6%. Além disso, foi confirmada uma inflação sob controle, de não mais do que 5,4%. Ficou nítido, então, que também em 2012 a China pode avançar mais do que os 8,0% hoje esperados.

Dos dirigentes da área do euro – epicentro dos maiores riscos de estagnação e de turbulência – ainda não foram obtidas decisões consistentes para a saída desta crise de dívidas e fortalecimento da moeda comum. No entanto, mudou a maneira como o Banco Central Europeu (BCE) – agora sob a direção do italiano Mario Draghi – passou a atacar os grandes focos de incêndio. Além de prosseguir com suas operações de recompra de títulos soberanos dos países mais vulneráveis do bloco monetário (especialmente da Itália e da Espanha) com o objetivo de criar mercado e derrubar juros (yields), o BCE abriu uma linha, em princípio, ilimitada de crédito de mais longo prazo (3 anos) com as instituições financeiras, a juros de apenas 1% ao ano. O primeiro megaleilão realizado em 21 de dezembro alcançou a magnitude de 489,2 bilhões de euros (US$ 630 bilhões). A segunda oferta está agendada para fevereiro.

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No conjunto, essas enormes operações de crédito produziram quatro efeitos de grande importância: (1) abriram canal indireto de refinanciamento das dívidas soberanas, na medida em que financiaram também o principal credor – os bancos; (2) obtiveram no mercado relevante redução dos juros cobrados no lançamento de novos títulos destinados tanto à rolagem de dívida velha como ao financiamento de novos déficits orçamentários; (3) afastaram as mais sérias ameaças de colapso geral do crédito; e (4) desarmaram as principais fontes de desconfiança e turbulência que pairavam sobre o mercado financeiro mundial.

Informações mais frescas mostram que o BCE elevou para perto de 2,7 trilhões de euros o total de ativos que, em meados de 2011, era de 1,9 trilhão de euros – como se pode ver no gráfico. Essa injeção de moeda emitida do nada começa a levantar duras críticas dos mais ortodoxos. No entanto, não há, no momento, nenhum vestígio preocupante de inflação.

As forças que apontavam para um panorama global de marasmo e depressão ainda não foram dispersadas. Mas, puxando essas novidades para o nosso chão, ficou claro que as cozinheiras do governo Dilma, que preparam a caldeirada de política econômica de 2012 (o tal do novo mix), já não podem partir do princípio de que há uma tempestade perfeita em formação no mercado internacional.

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Travas no Mercosul

20 de janeiro de 2012 | 19h45

Celso Ming

O governo da Argentina não mostra nenhum escrúpulo de atropelar sistematicamente tratados internacionais quando se trata de proteger sua balança comercial.

A partir de 1.º de fevereiro, passará a exigir pedido de licenças não automáticas de importação para todos os produtos, independentemente da procedência. Seus fiscais aduaneiros dirão o que pode ser importado e quanto. É um instrumento burocrático que leva tempo para ser examinado (oficialmente, no máximo 15 dias), com o qual se busca declaradamente emperrar o comércio.

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Pimentel. ‘Problema permanente’ (FOTO: ANDRÉ DUZEK/AE)

Essa exigência aprofunda o jogo protecionista que até agora se limitava a conter a entrada de produtos da linha branca (geladeiras, máquinas de lavar roupa, fogões, etc.), artigos têxteis, calçados, baterias e tratores.

O objetivo final do país é obter neste ano um superávit comercial superior a US$ 10 bilhões (o do ano passado foi de US$ 10,9 bilhões), conforme a Agência Estado apurou a partir de documento interno vazado para a imprensa.

Essa decisão tem a ver com as dificuldades que a Argentina enfrentando desde o calote de 2001 à sua dívida, agravadas no início deste ano com a perspectiva de quebra de pelo menos 23% na safra de milho e de outros 5% na de soja, por ação de uma séria estiagem. As receitas com o Imposto de Exportação (que agora devem reduzir-se) cobrem 20% da arrecadação. A ideia é cortar despesas com importação, de maneira a enfrentar a redução de caixa com que contava para cobrir o rombo externo.

Não dá para negar que o saldo do comércio bilateral é favorável ao Brasil e que isso tende a se ampliar (veja o gráfico). É o resultado da política econômica predadora colocada em prática pelas duas administrações Kirchner, que desestimula o investimento e o avanço tecnológico e, nessas condições, derruba a competitividade do produto industrial argentino.

De maneira informal, o governo brasileiro já passou o recado de que não gosta do jeito folgado e irresponsável com que o governo argentino lida com compromissos internacionais, sobretudo com os do Mercosul. O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, por exemplo, já declarou o que até agora nenhum ministro de Estado do Brasil ousou dizer em público: a Argentina se tornou “um problema permanente”.

O presidente da Associação Brasileira de Empresas de Comércio Exterior (Abece), Ivan Ramalho, enfrentou a catimba comercial da Argentina durante os 16 anos em que ocupou a Secretaria Executiva do Ministério do Desenvolvimento, 8 deles durante o período Fernando Henrique e a outra metade do tempo no período Lula. Para ele, se engolir mais esse sapo, o governo brasileiro estará contribuindo decisivamente para a escalada protecionista do governo argentino e para as distorções que virão em seguida.

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E Ramalho não esconde por qual setor o governo deve começar o revide. “A área comercial mais sensível para eles é o setor automotivo.” Ele sugere que, pelo menos por simetria, o Brasil também imponha à Argentina licenças prévias para importações de veículos.

Curiosamente, há alguns anos, o Brasil foi condenado em tribunal de arbitragem do Mercosul, convocado pela Argentina por também impor travas burocráticas em seu comércio bilateral.

Essas coisas não têm cabimento entre países-membros de uma área que se supõe estar em estágio mais avançado de integração (união aduaneira) e que, no entanto, não consegue ser nem zona de livre comércio, o que prevê livre circulação de mercadorias. Mostram que os tratados do Mercosul deixaram de ser apenas queijos esburacados. Estão cada vez mais desmoralizados.

Já não eram instrumentos de integração econômica e comercial. Agora correm o risco de deixar de ser também de integração política – condição que o Itamaraty ainda pretendia preservar.

 

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Pior sem elas

19 de janeiro de 2012 | 19h45

Celso Ming

Como esperado, a decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P), de rebaixar a qualidade de nove dívidas da área do euro, provocou uma catadupa de reações de repúdio – de governantes, especialistas, críticos e analistas de mercado.

Depois de ter emudecido durante dois dias, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, recobrou sua capacidade de falar e aproveitou para passar uma descompostura nos seus adversários do Partido Socialista, que viram na decisão da S&P uma condenação de sua política econômica: “Não é a S&P que determina a política econômica da França”, disse ele.

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Sarkozy. De quem é a política? (FOTO: REMY DE LA MAUVINIERE/REUTERS)

Alguns políticos da França e de Bruxelas a reprovaram por outras razões: Olli Renh, comissário de Assuntos Econômicos e Monetários da União Europeia, por exemplo, alertou que o veredicto da S&P “atende a interesses de certos círculos monetários e financeiros; e não aos da Europa”. Outros preferiram dizer que está mais do que na hora de serem criadas agências de classificação exclusivamente europeias, que não sejam influenciadas por interesses espúrios.

Essa reação é um tanto estranha porque, até agora, a S&P foi a única agência estrangeira que rebaixou as dívidas da França e da Áustria. Se quiserem ficar com avaliações de ratings que eventualmente sejam feitas com critérios diferentes, não têm necessidade de criar uma nova, nem que seja europeia.

Não dá para negar as lambanças que essas agências, grandes e pequenas, cometeram ao longo dos últimos seis anos. Estiveram excessivamente atreladas a interesses imediatos de grandes conglomerados financeiros e fizeram seu jogo. Por exemplo, carimbaram com o triplo A pacotes de ativos vendidos pelos bancos que, de uma semana para a outra, se revelaram lixo tóxico. Além disso, vivem relação comercial que, no mínimo, deve ser considerada promíscua, à medida que são pagas pelos diretamente interessados no conteúdo dos seus laudos.

No entanto, no episódio específico desse rebaixamento, não dá para falar que a S&P tenha inventado algo. As condições macroeconômicas desses países obviamente pioraram. Qualquer organismo internacional comprovaria isso com inúmeras e inexoráveis estatísticas.

Afora isso, mal ou bem, as agências de avaliação cumprem função que apenas organismos altamente especializados podem desempenhar: atestar a qualidade de compromisso assumido por um devedor. Pelos erros já cometidos e pelas suas omissões, certamente precisam ser mais bem reguladas – ou minimamente controladas. Mas também não foram elas que inventaram nem o endividamento excessivo nem o calote soberano.

Há, sim, o argumento de que o simples rebaixamento das dívidas ajuda a afundar uma economia que tenta se recuperar. Pode ser verdade. Mas quem mais contribuiu para afundar as economias da área do euro: as agências de classificação de risco, que, de um modo ou de outro, apontam o tamanho do câncer; ou os dirigentes políticos, que primeiramente afundaram seus países nas dívidas e, depois, em vez de buscarem uma solução duradoura, nada mais fizeram do que enrolar e ganhar tempo com sucessivas reuniões de cúpula?

Ruim com elas, pior sem elas.

CONFIRA

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Aí está a trajetória dos juros básicos (Selic) até a última quarta-feira, quando o Copom optou por cortá-los em mais meio ponto porcentual, para 10,5% ao ano.

Tempo de recomposição. O Banco Central tem até o início de abril para definir a condução da política monetária (de juros) no ano. O governo Dilma precisa recompor seu mix de política econômica para atender às metas de 2012. Dependerá disso o grau de austeridade fiscal a ser adotado (tamanho do superávit primário) – o que determinará o espaço que o Banco Central terá para reduzir os juros.

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É preparar-se para o pior

18 de janeiro de 2012 | 21h40

Celso Ming

O Banco Mundial, instituição gêmea do Fundo Monetário Internacional e presidida pelo economista Robert Zoellick, advertiu nesta quarta-feira que os governos devem estar preparados para enfrentar turbulências tão sérias quanto as que sacudiram a economia mundial depois da quebra do Lehman Brothers, em 2008. E, por isso, reviu para baixo as projeções de crescimento da economia mundial em 2012.

Para o Brasil, está projetando um avanço do PIB de 3,4% – mais próximo do apontado pelo Banco Central no último Relatório de Inflação (3,5%) do que da aposta do Ministério da Fazenda (entre 4,5% e 5,0%).

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Zoellick. Vem mais turbulência (FOTO: JIM YOUNG/REUTERS)

Aparentemente, o governo Dilma não está contando com esse novo derretimento da economia mundial. Independentemente disso, a força da economia para este ano e as opções de política econômica a se fazer ainda são temas de discussão em Brasília. O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa – que durante as férias (até esta quarta) do ministro Guido Mantega respondeu pela pasta –, deixou transparecer certa insatisfação com a baixa velocidade de crescimento do PIB do Brasil.

Há sinais de que, se dependesse somente dele, o governo federal deixaria de observar à risca o superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) de 3,1% do PIB (quase R$ 120 bilhões) para impulsionar os investimentos do setor público.

Caso isso acontecesse, a probabilidade de aceleração da inflação no segundo semestre deste ano ficaria bem mais alta – fato que obrigaria o Banco Central a apertar a política monetária, ou seja, a elevar os juros ou a reduzir seu corte. Assim, estaria prejudicado o cumprimento da outra meta do governo Dilma: derrubar os juros básicos (Selic) – agora nos 10,5% (veja no Confira) – para perto de 9,0% ao ano.

Para o Banco Mundial, uma expansão do PIB do Brasil, de 3,4% em 2012, estaria de bom tamanho, “tendo em vista seu atual potencial” – como está no documento divulgado nesta quarta-feira.

Até mesmo os iniciantes em Macroeconomia sabem que não é possível atender a todos os objetivos da atual política econômica do governo brasileiro: juros e inflação mais baixos, avanço do PIB de 5,0% e inflação sob controle – e na meta.

Em 2011, foi dada prioridade à redução dos juros. E, para isso, a política fiscal (obtenção do superávit primário de 3,1% do PIB) foi calibrada de forma que o Banco Central pudesse iniciar a derrubada dos juros a partir de agosto (então em 12,5% ao ano) e, desse modo, o crescimento econômico, de 7,5% em 2010, acabou sendo contido com as chamadas medidas prudenciais, para o nível dos 2,7% – número que ainda depende dos cálculos do IBGE.

O governo Dilma terá agora de definir o que pretende neste ano de eleições municipais. Se tudo caminhar na atual toada, o ritmo da atividade econômica será mesmo esse, de um salto do PIB pouco superior a 3,0%. Além disso, a inflação terminará ao redor dos 6,0% e os juros alguma coisa mais altos que 9,5% ao ano a partir do segundo semestre de 2012.

Mas haverá um problema novo se a crise do bloco do euro sair do controle e tomar a trajetória do aprofundamento da desconfiança, como está advertindo o Banco Mundial.

CONFIRA

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Sem surpresas. Como era esperado, o Banco Central baixou em mais meio ponto porcentual os juros básicos (Selic), agora nos 10,5% ao ano. O comunicado emitido logo após o término da reunião do Copom não trouxe novidades. É esperar agora pela ata que será divulgada na próxima quinta-feira. Acima, você tem a trajetória dos juros nos últimos 45 meses.

Sem ‘privataria’. O leilão de 406 quilômetros da BR 101 foi um sucesso. Falta agora os mesmos de sempre denunciarem mais uma “privataria” do governo Dilma.

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Efeito fio de cabelo

17 de janeiro de 2012 | 19h45

Celso Ming

O PIB da China subiu menos em 2011. Cresceu 9,2%, algo significativamente inferior ao obtido em 2010, quando avançou 10,4%. Mas o mercado financeiro global festejou, porque esperava um avanço mais lento nessa expansão, ao redor de 8,6% e, também, porque o governo da China deu mostras de que controla o processo.

Os fatores que levaram observadores a contar com crescimento mais baixo foram as importações de petróleo apenas 6% mais altas do que no ano anterior; um grande encalhe no setor de veículos; uma forte desaceleração do mercado imobiliário; e a redução de encomendas do exterior.

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As estatísticas econômicas divulgadas pelo governo da China não se notabilizam pela transparência. Em todo o caso, um impulso no PIB meio ponto porcentual acima do projetado tem de ser levado em conta.

A comemoração tem a ver, digamos, com o efeito fio de cabelo. Um milenar provérbio chinês diz o seguinte: “No início de uma trajetória, um erro da largura de um fio de cabelo pode provocar um desvio de mil quilômetros no ponto de chegada”.

Por isso, faz muita diferença um erro da largura de um fio de cabelo, tanto para mais como para menos, no tamanho do PIB da China (US$ 7 trilhões) – especialmente quando se leva em conta sua influência sobre um mundo em crise.

O consumo interno chinês está crescendo o dobro do que cresce o PIB. Elevou-se nada menos que 18,1%. Parte desse efeito aconteceu concentradamente em dezembro e pode ser atribuído a antecipação de compras provocada por anúncios de cortes de subsídios a vigorarem neste ano. De todo modo, o governo da China parece que vem conseguindo deslocar para o consumo interno o centro dinâmico do seu desenvolvimento econômico – até recentemente, excessivamente concentrado nas exportações.

Essa é uma manobra complicada porque implica redução da poupança interna, hoje de mais de 50% do PIB. Como a maior parte desse volume é produzida pelo setor público (governo e estatais), essa transferência exige aumento das despesas públicas e dos salários sem produção de inflação nem de bolhas financeiras – que reduziriam a renda do consumidor em termos reais ou poderiam desestabilizar a economia.

O Escritório Nacional de Estatísticas da China não mostrou os números do investimento. O que alguns analistas vêm afirmando é que o avanço desse índice em 2011 deve ter sido pelo menos 0,75 ponto porcentual mais baixo do que os 24,5% ocorridos em 2010, sobretudo pela desaceleração do mercado imobiliário, o mais sério candidato a bolha.

Do ponto de vista global, uma economia chinesa mais robusta do que o esperado e, em especial, de crescimento sustentável implica mais encomendas de petróleo, de matérias-primas e de alimentos do resto do mundo. Foi o que puxou os preços das commodities nesta terça-feira.

E é este efeito que beneficia o Brasil, hoje um grande produtor de matérias-primas e de alimentos – e futuro grande exportador de petróleo.

CONFIRA

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Muito além. Em apenas cinco anos (desde 2007), o PIB da China cresceu 63,0%. Nesse mesmo período, a economia dos países mais ricos que fazem parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) não cresceu, na média, mais do que 3,0%.

Velocidade da inclusão. Embora venha incorporando anualmente em torno de 30 milhões de habitantes ao mercado de trabalho (e também ao de consumo), a China ainda tem cerca de 400 milhões de cidadãos excluídos. Um crescimento mais baixo da economia chinesa implicará uma redução da velocidade da incorporação dessas pessoas.

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Desafio à Europa

16 de janeiro de 2012 | 19h45

Celso Ming

Não se pode nem superestimar nem subestimar o rebaixamento em massa promovido pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P).

Quem acompanhou o comportamento do mercado financeiro nesta segunda-feira pode ter ficado com a falsa impressão de que não houve nenhuma consequência importante. Na verdade, a turbulência dos mercados não se agravou porque, em parte, os cortes dos ratings haviam sido antecipados. E, também em parte, porque o Banco Central Europeu (BCE) voltou ao mercado e recomprou títulos públicos sujeitos a maior rejeição no momento, como os da França, da Itália e da Espanha.

Mas o impacto maior ainda está por vir. Pode ser um impulso mais forte em direção ao ajuste. Nesta segunda, os dirigentes da Alemanha, da Itália e da Espanha fizeram apelos seguidos por aprofundamento das medidas de contenção dos rombos orçamentários. Se vão conseguir avançar ou não são outros quinhentos – o que importa mesmo é que esse rebaixamento tende a funcionar como pressão.

No entanto, quem vê as justificativas dessa pressão feita pela S&P e a maneira como os dirigentes vêm fazendo uso dela em favor de suas políticas tem a sensação de que continua o diálogo de surdos.

Entre as principais razões pelas quais a S&P rebaixou a qualidade das dívidas de nada menos que nove países da área do euro está a falta de empenho de suas autoridades em resolver o problema. Ocorre que, para a S&P, a questão de fundo não é o superendividamento dos países do bloco, mas, sim, a enorme diferença de competitividade entre eles – o que gera brutais distorções nas contas correntes (fluxos de pagamentos).

Se há cada vez maior competitividade da Alemanha, da Holanda e dos países nórdicos ao mesmo tempo que diminui, também progressivamente, o poder de competição dos países do Sul (Itália, Espanha, França, Grécia e Portugal), então não basta somente o ajuste das contas públicas.

Alguns analistas entenderam o problema mais profundo, mas não chegam a apontar solução convincente. Limitam-se a pedir que a Alemanha eleve suas transferências de capital para a periferia do euro e, simultaneamente, aumente os salários e o consumo interno – para que seus custos de produção se equiparem aos das demais economias do euro.

Mas, na medida em que restringem o ajuste à Alemanha, se esquecem de que a principal insuficiência de competitividade do bloco monetário não é dos países mais fracos em relação à Alemanha. Toda a área do euro sofre de baixa competitividade diante do resto do mundo, sobretudo em relação aos emergentes da Ásia e aos Estados Unidos.

Isso significa que o ajuste tem de ser extensivo a todos os países-membros. Se tudo se limitasse ao rebaixamento de salários e impulso do consumo na Alemanha, a área do euro como um todo perderia competitividade.

Falta os dirigentes políticos da Europa compreenderem que estão diante do mesmo Desafio Americano (que inclui a China) que, nos anos 70, tirou o atraso da Europa ante a economia dos Estados Unidos.

CONFIRA

Dolar16jan.jpg

A baixa do dólar no câmbio interno (valorização do real) alcança 4,5% somente em janeiro (até esta segunda-feira).

‘Não foi nada’. A primeira reação do presidente da França, Nicolas Sarkozy, à perda do triplo A foi ficar de fora. Providenciou que seu ministro das Finanças, François Fillon, desse a cara para bater. Mas, nesta segunda, Sarkozy reapareceu: “Não mudou rigorosamente nada”, falou. Seu principal concorrente às eleições de abril, líder nas pesquisas, o socialista François Hollande, defendeu a ortodoxia: “Não foi a França que foi rebaixada”, disse. “Foi a política de Sarkozy.

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