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Casa

13.maio.2012 01:00:51

Concreto armado

Croqui do primeiro imóvel projetado pelo italiano Piero Lissoni para o Brasil

 

Marcelo Lima – O Estado de S.Paulo

Com 30 anos de atuação, poucos arquitetos italianos alcançaram tamanha reputação internacional quanto o milanês Piero Lissoni. Da construção de edifícios, passando pelo desenho de interiores, produtos e mesmo design gráfico, praticamente nenhum setor do projeto fica alheio a sua intervenção e criatividade. Singular a seu trabalho, a manutenção de uma linguagem estética fundamentada no rigor conceitual, na limpeza do desenho e na clareza de formas.

Depois de um Salão do Móvel de Milão dos mais agitados – onde ele apresentou, entre outros, o projeto da primeira mesa extensível da Kartell – Lissoni desembarcou no Brasil repleto de planos. Na agenda, conferências em universidades de São Paulo e Rio, além do lançamento de seu primeiro edifício no País: uma residência de 800 m² na Quinta da Baroneza, condomínio residencial de luxo no interior de São Paulo. Entre um compromisso e outro ele concedeu esta entrevista ao Casa.

Em seus projetos, o senhor parece se encarregar pessoalmente de todas as etapas da obra: da construção à escolha dos móveis. Acredita que, em um mundo tão especializado quanto o nosso, essa seja ainda a opção mais acertada?

Faço dessa a questão central de meu trabalho. Acredito nessa vocação global e humanista do arquiteto. Uma obra de arquitetura nunca será completa se não levar em conta seu entorno. Nem se não levar em conta o estilo de quem vai habitar seus espaços e como ele se relaciona, por exemplo, com seus móveis.

Como o senhor viu a última edição do Salão do Móvel de Milão, em relação aos produtos apresentados e às perspectivas do setor?

Compartilho com muitos uma sensação dúbia: de um lado, assisto, com satisfação, à afirmação de uma elite de profissionais que produzem móveis de altíssima qualidade, mas, que são, em geral, inacessíveis para grande parte dos consumidores. De outro, constato a insistência em uma produção descompromissada, que parece desconhecer os mínimos limites, inclusive os mais básicos, como a ética e a responsabilidade social.

O senhor acaba de lançar a primeira mesa de plástico extensível da Kartell, projeto que consumiu dois anos de trabalho. Gostaria de saber um pouco mais sobre ele.

É um antigo desejo do proprietário da marca, Claudio Luti. Tudo se resolveu quando passei a trabalhar com os engenheiros da empresa, não no desenho da mesa, mas de seus microcomponentes. Só a partir daí a ideia se viabilizou: uma mesa extremamente fina e delicada, com mecanismos de encaixe que parecem ser inexistentes.

Como será o projeto de arquitetura que o senhor está desenvolvendo para a Quinta da Baroneza?

Estou bastante entusiasmado. Sempre quis construir no Brasil, sendo sincero, mais até do que atuar como designer. Me agrada o clima, a cultura, a arquitetura daqui. No caso, será uma residência unifamiliar construída em um terreno em desnível, de 2 mil m², voltado para um bosque. A construção não pretende se impor ao ambiente, mas ser parte dele. Para seus moradores, será um tipo de observatório permanente. Pretendo, no limite do possível, eliminar as paredes externas por meio de películas de vidro, oferecendo a eles, plena visualização da paisagem.

 

 

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13.maio.2012 01:00:35

Unidos por um fio

Os bancos Ninho, do Studio Besau Marguerre, são feitos de fios de lã embebidos em fibra de vidro

 

 

Marcelo Lima – O Estado de S.Paulo

Nascida em Seul, Soojin Kang formou-se em Design de Moda pela Central Saint Martins College of Art and Design, em Londres, em 2006. Posteriormente, em seu curso de mestrado, desenvolveu tese baseada em pesquisas ligada à manipulação de tecidos. Seus trabalhos mais recentes, por exemplo, procuram acrescentar à tecelagem elementos normalmente alheios a seu universo. Caso de cadeiras e bancos.

“Nunca vi com bons olhos a ideia do descartável. Para mim, enquanto designer, não faz sentido conclamar os consumidores a comprar mais do que precisam. Ou a simplesmente jogar fora o que possuem, sem valorizar seus objetos. Contra essa anomalia, procuro lutar com todas as minhas linhas e agulhas”, comentou a designer sul-coreana durante a abertura da mostra The Threads that Bind us (os fios que nos unem), um dos sucessos da Semana de Design de Milão, em abril.

Incorporando uma cadeira ao tramado de lã de um tapete, ou criando um assento com pedaços do móvel combinados ao material, Soojin se propõe a definir uma nova estética. Pronta a ultrapassar as fronteiras entre arte e design. Ou, ainda, capaz de questionar a própria natureza dos produtos têxteis (presumivelmente flexíveis) e das peças de mobiliário (ao que se espera, rígidos).

Um dos destaques da mostra, com a curadoria dos italianos Barbara Brondi e Raino Marco, a obra da designer sul-coreana vem se integrar a toda uma série de trabalhos originais, nos quais o material “tecido” se reveste de interpretações significativas, tendo como ponto de partida fios flexíveis e de natureza não extensível. Submetidos a operações como bordado, costura e tecelagem, sempre de forma singular e inovadora.

“Acho que o apelo da exposição vem do fato de lançar um novo olhar sobre um ofício considerado antiquado e banal”, afirmou Brondi. “Existe também o impacto conceitual e a estranheza de se deparar com objetos híbridos, como a cadeira Concrete, de Florian Schmid”, arriscou a curadora, citando como exemplo um móvel produzido em um tecido aparentemente macio e quente, mas que, por intervenção do designer, se funde ao concreto, por natureza frio e estável.

Um projeto que joga por terra a crença de que uma superfície de pano não é suficientemente resistente para se sentar. “Uma vez impregnado com cimento e unido por fios, o tecido pode ser modelado e demora apenas 24 horas para endurecer. Como vantagens adicionais, o móvel resultante pode ser usado tanto em interiores quanto exteriores e ainda é à prova de fogo”, pontuou.

A dupla baseada em Hamburgo Marcel Besau e Eva Marguerre tem também no desenvolvimento de novos produtos têxteis a partir de processos não convencionais seu principal foco de interesse. Caso de Ninho, banco exposto em Milão, que propõe um uso inovador para fios convencionais. Com edição limitada a 100 unidades, são móveis que transmitem a sensação de ser estruturados por fios de lã – e de fato o são. Só que embebidos em fibra de vidro transparente, o que lhes confere uma resistência inesperada.

Mas, para além de todas as inovações produtivas apresentadas pela mostra, para o chinês Kwangho Lee, autor das poltronas Obsession – em que tiras de couro aparecem trançadas a cordas de náilon –, foram fatores de ordem emocional que mais pesaram na decisão de se embrenhar por entre fios e tramas na produção de móveis. Todos eles cosidos à mão, em um processo que pode durar semanas.

“Meu avô foi sempre minha principal motivação. Ele fazia as ferramentas que utilizava em casa e na fazenda e, depois que ele faleceu, eu percebi quão valioso era o fazer as coisas à mão. As obras artesanais podem trazer significado para as coisas mais comuns, o que raramente acontece com o produto industrial”, afirmou Lee.

 

 

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    Ana Paula Garrido, Marcelo Lima e Marina Pauliquevis

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