
Os moradores nem se importaram em perder a área da varanda, neste apartamento que tem até quintal
Foto: Zeca Wittner
Ana Paula Garrido – O Estado de S.Paulo
Com uma área de 450 m², aberturas para espaços sociais e até um quintal, este apartamento térreo em Perdizes já tinha ares – ou ao menos potencial – de casa. Daí, como o casal de moradores buscava justamente esse clima, as designers de interiores da In House trataram de complementar o pedido com soluções pontuais. “Como o primeiro apartamento deles era muito sóbrio, sem estampas nem cor, agora eles queriam algo mais com cara de casa”, explica Karina Salgado, uma das sócias do escritório.
Na sala, o destaque é a parede de pedras (da Palimanan) imitando tijolinhos, pintadas de branco para contribuir com a claridade do ambiente, que foi ampliado com a retirada da porta entre a sala e a varanda. Como o apartamento fica no térreo, a varanda, voltada para a área social do condomínio, tem parapeito alto para garantir a privacidade dos moradores. Ali, o vão foi fechado com vidro, permitindo a entrada de luz natural. “Incorporamos a varanda à sala, já que o cliente tem uma área externa grande”, explicou Karina.
Na área íntima, o processo foi inverso: para aumentar a suíte do casal e criar closets separados, a designer de interiores invadiu parte da sala e transformou um dos quatro quartos em sala de TV. A área social ganhou um piso frio, de limestone, como queriam os moradores, por ser mais fácil de limpar. Um painel de madeira “abraça” o aparador na sala de jantar e detalhes do mesmo material aparecem da parede ao teto também em outros espaços, como o quarto das crianças e a suíte do casal.
Quintal bem aproveitado
Apesar de ampla, a área externa, que ocupa uma das laterais e o fundo do imóvel, precisou de boas soluções para ser mais bem aproveitada. A piscina, por exemplo, teve de ser erguida, porque a entregue pela construtora era muito pequena. “Como não conseguíamos aumentá-la por causa da estrutura da laje, a elevamos um pouco e criamos um deck em volta.”
Como o casal fazia questão de ter um jardim, até para reforçar o desejado aspecto de casa, o paisagista Marcelo Bellotto trouxe o verde com plantas em vasos e suportes verticais, feitos com tijolos. “Não havia espaço para colocar grama, então, nós e o paisagista decidimos criar jardins verticais”, disse a designer, que recomenda impermeabilizar a parede antes da instalação desse tipo de estrutura.

Atemporais por definição, vidros artesanais da marca italiana Venini fazem ponte entre passado e presente. Foto: DIVULGAÇÃO
Marcelo Lima – O Estado de S.Paulo
Em 1921, decidido a se aventurar na produção de vidros artesanais, o advogado milanês Paolo Venini – proveniente de uma família com larga tradição na área – se associa ao antiquário Giacomo Cappelin e, juntos, fundam a Venini. Desde o início, uma clara diretriz: conceber objetos contemporâneos, franqueando o acesso de designers, artistas e arquitetos às ancestrais técnicas de produção dos mestres vênetos. Uma fórmula que, já em 1932, se revelou um sucesso, aproximando a dupla de designers Tomaso Buzzi e Carlo Scarpa. E, pouco tempo depois, Gio Ponti e Fullvio Bianconi.
Após a morte de Paolo, em 1959, a Venini passa a ser controlada pelo arquiteto Ludovico Diaz de Santillana, que, seguindo os passos de seu fundador, incentiva a participação de personagens alheios ao universo do vidro no desenvolvimento de coleções. Uma tradição reconhecida por todos como um fator decisivo para o alto grau de originalidade do produtos, quando comparados aos demais vidros produzidos na região de Murano.
Adquirida em 1998 pela Royal Escandinávia – grupo sueco que detém marcas de peso, como Royal Copenhagen, Georg Jensen, Orrefors e Kosta Boda –, a Venini chega ao século 21 como a marca das realizações mais inovadoras em se tratando de vidro soprado artesanal. Da sua linha de produção participam sete mestres vidreiros e 90 funcionários, responsáveis pela operação de 15 fornos, 24 horas por dia, 11 meses ao ano. Além de 18 máquinas de moagem que processam anualmente 500 toneladas de sílica, dando origem a mais de 40 mil itens, entre luminárias, objetos decorativos, esculturas e sistemas de iluminação.
Singulares na forma e no conteúdo, cada produto Venini é resultado de procedimentos artesanais que conferem características exclusivas às peças. Bolhas, por exemplo, podem ser encontradas em praticamente todas elas, o que, por definição, não chega a ser considerada uma imperfeição. Ao contrário. No entender da empresa, servem para sublinhar que o objeto foi produzido de forma artesanal e, mesmo se assemelhando a outros, é único. Da mesma forma, cores, pesos e dimensões também podem variar, sendo tomados apenas como referência.
Apresentada sempre no mês de abril, durante a semana de design de Milão, cada nova coleção costuma reunir um time de estrelas aparentemente impossível de ver em qualquer outra companhia. “Amo o vidro por sua beleza e fragilidade. Ele simboliza a própria cultura ocidental e tudo isso é ainda mais intenso na Venini”, sintetiza o designer italiano Fabio Novembre, um dos eleitos que assinaram produtos para a empresa este ano. Criações que, salvo as edições limitadas, nunca saem de catálogo.
“Eu vi os mestres soprando as peças de vidro e pude compreender toda a complexidade do que acontece durante tão poucos segundos. Procurei me apropriar da grandeza daquele momento para produzir algo arcaico, como sugerem as pinturas de Morandi. Agradeço aos mestres da Venini por terem me feito entender o real sentido do termo atemporal”, afirma o holandês Matteo Thun, autor de Morandi, um dos mais comentados lançamentos deste ano: um conjunto de garrafas inspirado pelas pinturas do pintor, que surpreende por sua fidelidade formal e cromática aos modelos sugeridos pelos óleos do artista italiano.
“Vivemos hoje em mundo muito mais complicado, onde incoerência e contradição fazem parte do dia a dia. Me parece natural, portanto, que nossos objetos carreguem uma marca de falha e deformação. Talvez o ‘mal feito’ seja uma característica de nosso tempo e a deformação, um novo ideal de beleza”, afirma o designer e arquiteto Gaetano Pesce, ele próprio um antigo morador de Veneza, ao comentar suas recentes criações para a companhia: as máscaras Bauta e a série de vasos SVeronese, que resgatam dois arquétipos fundamentais à civilização veneta.
“A coleção retoma dois ícones do passado, outrora perfeitos, mas que, com o passar do tempo, aparecem distorcidos. Poderíamos dizer que é devido à sua idade, mas que simbolizam também a passagem da idade de ouro da república de Veneza”, comenta ele a respeito dos vasos SVeronese, que representam a força e posterior decadência dos comandantes locais, e a série de máscaras Bauta, que, segundo seu criador, não foram criadas para comemorar o carnaval. Mas para serem usadas pelos nobres que não queriam ser reconhecidos ao circularem por lugares pouco recomendados.
“Nas pinturas de Paolo Veronese, que me inspiraram nesta criação, os vasos são representados com linhas perfeitas. No meu caso, foram deformados pela passagem do tempo, dando origem a novas qualidades estéticas”, diz Pesce. “Essa coleção pretende ser portadora de uma mensagem: design contemporâneo é uma expressão do local onde é realizado. Uma maneira de falar de uma realidade. Não de belezas abstratas, celebrando o silêncio, mas de projetos que nos façam avançar. Como acontece, aliás, com os produtos Venini”, conclui.
2013
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