Esqueci de contar: ao final da visita à pingüinera, o guia ofereceu aos participantes da excursão um brinde com mango sour, um drinque feito com suco de manga, limao e pisco. Chile e Peru discordam sobre qual país tem o melhor pisco ou o mais autêntico .
Chile e Peru também discordam quanto a quem faz melhor o drinque mais famoso misturado a partir desse destilado de uvas, o pisco sour, composto por suco de limão, açúcar dissolvido em água, bitters, clara do ovo e, óbvio, pisco.
Por que alguém estragaria o que parece ser praticamente uma caipirinha andina juntando clara de ovo é algo que me escapa, mas como nunca provei a bebida, não posso realmente dizer que a mistura resulte má. Como a estada na Antártida provavelmente representará um longo jejum alcoólico, talvez eu prove uma dose antes de partir…
Mas, voltando ao mango sour: a bebida é interessante, muito doce no começo e com a pegada do álcool ao final de cada gole. Pelo que deu para depreender da conversa entre o guia e o motorista, parece haver uma ampla variedade de “sours” no mundo do pisco, com várias receitas possíveis e imagináveis, cada uma resultando da mistura do destilado com o suco de uma fruta diferente, mais ou menos como o verdadeiro pomar de caipirinhas que surgiu no Brasil.
Dentro de menos de um mês, o Chile tem eleições para presidente e para o parlamento. Não vou nem fingir que entendo alguma coisa de política chilena, que para nós estrangeiros certamente ficou muito menos interessante (e, para os chilenos, provavelmente muito mais saudável) depois da morte do general Augusto Pinochet. Mas como o embarque no navio para a Antártida acontece só no domingo, estou pegando um pedaço da campanha em andamento.

Mas a tensão da disputa pelo poder não é a única que está no ar: com a conjugação do tempo muito frio e do ar seco produzido pela presença quase inescapável de aquecedores nos ambientes fechados, meu cabelo começou a crepitar quando tento penteá-lo com um pente de plástico. Os flocos brancos nas fotos abaixo não são caspas gigantes, mas pedaços do papel de carta do hotel que piquei para realizar uma experiência de eletricidade estática que você, só para variar, pode tentar em casa.

(Afinal, este blog trata de ciência, ora bolas. Para saber mais, busque “série triboelétrica” no Google.)

Pesquisando sobre Punta Arenas antes de viajar, fiquei sabendo que por aqui existiam “berçários” de pinguins, áreas onde esses pássaros se encontram para acasalar, pôr ovos e cuidar dos filhotes. E me vi pensando no que seria necessário para visitar um lugar desses: provavelmente, obter uma licença do equivalente chileno do Ibama, e depois pegar um bote e navegar até uma ilha qualquer no Estreito de Magalhães.
Que nada: agências de turismo fazem passeios guiados diários, com transporte incluído, por modicos 14.000 pesos chilenos (cerca de R$ 50). A viagem até a colônia de pinguins (ou Las Pingüineras, como preferem os nativos) é longa — são cerca de 60 km a partir do centro de Punta Arenas. A pingüinera em questão fica na baía enseada Otway, onde o Oceano Pacífico avança um bom pedaço América do Sul adentro (não que o continente seja especialmente espesso nesse ponto) e que se localiza, na verdade, na direção oposta ao Estreito de Magalhães.
A despeito disso, os pinguins que fazem seus ninhos lá são pinguins de Magalhães. A pingüinera é organizada como um parque, com restaurante e loja de lembrancinhas na entrada e uma enorme planície vazia ao redor, onde além de pinguins também vivem coelhos, falcões, emas e pelo menos um lhama, que vi quando já estava de saída.
A região da colônia de pinguins é atravessada por uma trilha de passarelas de madeira, da qual os visitantes não podem sair. Os pinguins circulam calmamente entre as passarelas e por baixo delas; não parecem se importar muito com o assédio humano.
Alguns ficam tão perto das áreas de acesso que dá para fotografá-los cara a cara (ou cara a bico).

A praia é totalmente isolada: há postos de observação montados à distância, mas o mar e a areia são exclusivos dos animais — além dos pinguins, outras aves marinhas, como gaivotas, aproveitam a paz que a ausência do homem traz.

O ninho de um pinguim de Magalhães é um buraco no chão. Assim como a classe média brasileira, cada casal de pinguins tem, em média, 1,8 filhote. A época de minha visita foi auspiciosa: é em novembro que os pingüins de Otway começam a cuidar das crias — segundo um folheto entregue aos visitantes, os ovos eclodem a partir de 15 de novembro.

Outras informações que constam do panfleto: esses pinguins vivem até 30 anos e sempre retornam ao local onde nasceram, mas apenas em casais, e apenas para se reproduzir. Nenhum pinguim solteiro desacompanhado volta a Otway. O tamanho estimado da colônia, na temporada 2006-2007, era de quase 11 mil animais.

O pinguim é uma espécie de ícone de Punta Arenas: não só é o tema favorito do artesanato para turistas produzido no local (existe até um gorro de lã com proteção para as orelhas que funciona como uma espécie de máscara de pinguim –comprei um para ver como ficava, mas a foto não vai aparecer neste blog), como o tabloide popular local chama-se El Pingüino!

Agora que descobri onde fica o acento circunflexo deste teclado, minha ortografia deve ficar um pouco menos exotica (estou, no geral, usando o trema no lugar do til e evitando ao maximo o acento agudo, por conta das pecularidades do teclado em español, que tem teclas para ¡, ¿ e ñ, por exemplo, mas que me da´um baile toda vez que tento escrever algo como “da’ “).
Mas, enfim: duas uma curiosidades do passeio por Punta Arenas — ou, ao menos, da parte da cidade onde da’ pra chegar a pe’, a partir do hotel). A primeira e’ que logo na esquina tem uma restaurante/lanchonete (para quem e’ de Sao Paulo, o esquema lembra um pouco o Ponto Chic) chamado “Carioca”, que serve um sanduiche do mesmo nome e que e’ igualzinho ao X-egg-bacon-salada das padarias brasileiras!

(Eles têm ainda um lanche americano, mas e´à base de frango, näo queijo e presunto…)
Tambem dei de cara com uma marca local de cerveja artesanal, a Austral. Todo mundo fala em vinho chileno, mas cerveja? Näo sou o Bob, mas a Austral Patagona, uma pale ale, me apreceu bem bebivel.
Conforme o veräo se aproxima, os dias no hemisferio respectivo väo ficando mais longos e as noites, mais curtas, por conta da posiçäo da Terra em sua orbita e da inclinaçäo do eixo do planeta (mais detalhes, e com ilustraçöes, podem ser encontrados, por exemplo, aqui). Perto dos polos, a situaçäo torna-se bem radical, como quem leu a HQ e/ou assistiu ao filme 30 Dias de Noite (ou, para quem prefere um cinema menos trash, Insônia, com Al Pacino), pode imaginar.
Mas saber e´uma coisa, vivenciar e´outra, claro. Ontem no jantar — depois das 20h, e com o ceu ainda claro — perguntei ao garçom, depois de alguns malabarismos com meu portunhol horrivel e com o ingles periclitante dele, a que horas escurecia na cidade e ele me disse, “umas dez e meia”. Hoje era seis horas da manhä e o Sol ja´entrava pela janela.
Agora há pouco entrei num site de astronomia e peguei os numeros oficiais: a alvorada em Punta Arenas e´às 5h30 da madrugada e o pôr-do-sol começa às 21h28, mas a claridade no ceu dura ate´as 22h13. Junte isso aos efeitos do jet-lag e você vai entender por que estou de pe´e blogando às 8h07 da manhä (hora local), cafe´da manhä ja´tomado e tudo, depois de ter ido dormir à meia-noite.
Enquanto näo faço meu tour de reconhecimento por Punta Arenas, aqui väo algumas fotos que fiz da janela do aviäo no caminho entre Guarulhos e Santiago (infelizmente, na segunda parte da jornada, de Santiago a Punta, sentei bem no meio da fileira, sem acesso direto à vista…)

Sanduiche de nuvens, logo apos a saida de Säo Paulo.

Ok, esta imagem esta´ aqui apenas por seu potencial “nerd”. Lembra-se do episodio de Alem da Imaginaçäo no qual o William Shatner via um monstro pousado na asa do aviäo? Näo sei se da pra ler nessa resoluçäo, mas a legenda na asa diz: “Do Not Walk Outside this Area”…

Montanhas, ja no Chile, perto de Santiago. Imagem esbranquiçada por conta das nuvens.

Chegando a Santiago, com os picos nevados dos Andes ao longe. Infelizmente, näo deu pra fazer mais fotos da neve no alto das montanhas. Mas, assim como a Antartida, as geleiras andinas tambem andam sofrendo com o aquecimento global (muito) mais a respeito disso nos proximos dias…
A cidade de Punta Arenas, no Chile, divide com Uchuaia, na Argentina, a honra de ser o posto da civilizaçäo (desculpem os acentos tortos, estou blogando de um teclado español) mais proximo da Antartida. Uchuaia fica mais ao sul ainda (Punta Arenas, 53 graus de latitude, Ushuaia, 54, a Antartida comeca, por convencao, nos 60), mas a cidade chilena tem mais cara de “cidade” — 117 mil habitantes, contra 58 mil da concorrente. E, o que mais importa, de Punta Arenas partira’ o navio da Marinha Brasileira que vai me levar à Antartida.
Chegar a Punta Arenas näo foi exatamente simples: de aviäo a partir de Guarulhos ate’ Santiago (3 horas e uns quebrados de voo), uma conexäo supercorrida na capital do Chile e depois mais cinco horas na classe economica para chegar aqui.
Amanhä, depois de fazer um reconhecimento da area, vou escrever mais sobre Punta Arenas — minha principal preocupaçäo no momento e’ almoçar (às 18h30, hora local, culpa da tal conexäo em Santiago). Alguem me disse que em Punta Arenas comem-se os melhores pratos de frutos do mar da America do Sul — vamos ver se e’ verdade!
A frase do título foi, talvez, a que mais ouvi — tanto de parentes quando de colegas de trabalho — desde que a notícia de que eu iria à Antártida começou a se espalhar. Minha mulher até elaborou um plano detalhado: “Podemos colocá-lo em cima da geladeira. Ou na banheira”.
Brincadeiras à parte, aproveitei as (várias) oportunidades que a solicitação abriu para explicar que o Protocolo de Madri, que define as medidas de proteção ambiental aplicáveis à Antártida, limita em muito o tipo de influência que se pode exercer sobre o meio ambiente de lá, e que extrair um pinguim de seu hábitat para decorar a geladeira (ou nadar na banheira) certamente estaria muito além desses limites.
Entre as orientações que a Marinha Brasileira passa aos visitantes que vão à Antártida estão “não coletar ovos, fósseis, líquens animais ou plantas”; e “todo o lixo deve retornar ao Brasil”.
“Então, leve biscoitos e doces para dar para eles” era outra recomendação comum. De novo, eu me via explicando que os pinguins têm uma dieta muito saudável, à base de frutos do mar, e que não seria correto apresentá-los às delícias da dieta humana, como o açúcar refinado e a gordura trans. Especificamente, o artigo III do protocolo proíbe mudanças ambientais que prejudiquem, entre outras coisas, “a capacidade de reprodução das espécies ou das populações de espécies animais e vegetais”. E pinguins diabéticos, obesos e hipertensos provavelmente teriam alguma dificuldade em garantir a continuidade da espécie.
2010
2009