Abre nesta sexta-feira, na Oca — no parque o Ibirapuera, em São Paulo — a exposição Água na Oca. Minha colega Karina Ninni, do caderno Planeta, já fez uma bela reportagem sobre o evento, então aqui eu vou basicamente oferecer uma espécie de “tour guiado” pessoal e impressionista, já que na terça-feira visitei a mostra, a convite dos organizadores.
Não estava tudo pronto ainda, mas deu para ver que o projeto é ambicioso, oferecendo desde interpretações artísticas — incluindo cinco obras de William Pye, o escultor que trabalha “moldando água” — a experiências assustadoras, como o simulador de um barraco em meio a uma enchente, com direito a goteiras no teto, vendaval e som de trovões.
A imagem acima mostra um trecho de uma das obras da seção artística da mostra. De autoria de Gisela Motta e Leandro Lima, Zero Hidrográfico usa lâmpadas azuis e braços mecânicos para recriar a ondulação da superfície do oceano e lembrar que o nível do mar — o ponto zero das escalas de altitude usadas para medir montanhas, planaltos (São Paulo está 760 metros acima do mar), etc. — é, de fato, algo muito dinâmico.
Além das obras de arte — algumas interativas — a mostra tem ainda uma interessantíssima seção informativa, que por si só vale algumas horas de visita.
Além de uma impressionante tela com imagens em movimento de seres abissais (animais que vivem a grandes profundezas), de aquários e de um terrário virtual que exemplifica a relação entre os seres vivos da terra e da água, há uma série de brinquedos interativos.
Aí em cima você vê a tela de uma balança que mostra, em termos comparativos, quanto de água, em peso, há em diferentes seres vivos. Movendo as mãos sobre a balança, é possível mudar o conteúdo de qualquer um dos “pratos” virtuais.
Outra comparação que pode ser feita é a que aparece abaixo, mostrando quanto de água é consumido na produção de diferentes alimentos:
E que nos leva a um outro enfoque da mostra, o educativo. Nessa parte da exibição aprende-se que ao consumir um copo de 200 ml de água o morador de uma casa ou apartamento na verdade está gastando cerca de seis litros (a água bebida, mais a água da descarga da posterior ida ao banheiro) e que lavar um carro pode consumir 14 litros — com esponja e balde — ou 250 litros — no lava-rápido. Parte desse material vem do Movimento Cyan.
Também há um espaço para a World Community Grid, onde é possível cadastrar computadores pessoais e doar tempo de máquina ocioso para projetos de interesse científico e social – incluindo alguns envolvendo água, como o que trata do planejamento de políticas de recursos hídricos.
A mostra conta ainda com uma bancada onde estudantes de escolas que agendarem visita poderão realizar experimentos envolvendo água — da observação de micro-organismos em microscópio à eletrólise da água em oxigênio e hidrogênio, e o uso desses gases como fonte de energia.
O Instituto Sangari, organizador da Água na Oca, espera receber de 100.000 a 120.000 crianças e jovens nesse laboratório, ao longo dos cinco meses e meio de duração da mostra. Sete mil alunos já estão inscritos até o fim de 2010.
O lado de fora da Oca foi decorado para a exposição. Quem se aproxima do prédio vê, primeiro, as janelas opacas:
Mais de perto, nota-se que as aberturas foram convertidas em “escotilhas”, como as de submarinos, com bolhas de ar subindo pela “água”:
A Água na Oca é uma adaptação — e ampliação — da exposição Water: H2O = Life, apresentada em Nova York em 2007. Ela vai de 26 de novembro a 8 de maio de 2011. Funciona às terças, quartas e sextas das 9h às 18h; às quintas, das 9h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 20h. Não abre às segundas e nem nos dias 24, 25, 31 de dezembro, e nem em 1º de janeiro de 2011.
O ingresso custa R$ 20 para o público em geral e R$ 10 para estudantes e professores. No último domingo de cada mês, a entrada é gratuita para todos. Escolas particulares que queiram agendar visitas guiadas e atividades no laboratório pagam R$ 15 por aluno.
Mais de 50% de minha massa corporal é água, sendo que 24 litros estão dentro das células e 5,5 litros são de sangue. Estou 11 quilos acima do peso. No entanto, se morasse nos Estados Unidos, seria mais magro do que mais de 60% da população. Em compensação, seria mais baixo que quase 70%.
Essa verdadeira enchente biométrica é cortesia do Wolfram Alpha.
Que, por sua vez, é um serviço online de busca de “conhecimento computável” — por exemplo, a entrada “(number of stars in the universe)/(number of people who ever lived)” produz o resultado “700 bilhões per capita”. Há cerca de uma semana, o sistema incorporou uma série de equações sobre saúde e medicina.
Com todas as ressalvas necessárias — entre as principais, o fato óbvio de que uma consulta ao sistema do Wolfram Alpha certamente não substitui uma visita ao médico, e que os padrões usados nas equações médicas são os médios da população americana, que podem ou não ser válidos para indivíduos específicos, nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo — não deixa de ser curioso preencher a caixinha de busca com peso, idade e sexo e ver o que aparece.
(Aliás, a sintaxe para usar o Wolfram Alpha é meio na base de tentativa e erro. Para conseguir os dados biométricos básicos, preencha o espaço de busca com sexo, idade, peso e altura em inglês, em qualquer ordem – por exemplo: “female, 53 kg, 39 years, 163 centimeters“. Depois, dá para brincar jogando os números resultantes em outras buscas. Por exemplo, pedir “43 L in pints“, diz quantos copos grandes de cerveja seria possível encher com o conteúdo de água de meu corpo: 90,88)
A comparação entre os órgãos do corpo é especialmente interessante.
Já que vai contra a impressão geral — com o perdão da metáfora capenga — de que, no mais das vezes, o coração tem mais peso que o cérebro (o Wolfram Alpha indica que o peso médio de um coração humano adulto é 300 gramas).
Mas o mais interessante é o dado de área corpórea: sou informado de que a superfície de meu corpo é de 1,96 m2. Pele suficiente, ainda de acordo com o serviço, para revestir 11 bolas de basquete.
Com todo mundo (compreensivelmente) falando sobre o show de Paul McCartney em São Paulo, fico quase acanhado em dizer que o único efeito que a apresentação do ex-Beatle teve sobre a minha noite de domingo foi me fazer esperar quase meia-hora para conseguir um táxi do lado de fora da Sala São Paulo, onde eu havia assistido a um concerto de violino e piano estrelado por Itzhak Perlman.
Perlman é um dos maiores violinistas do século passado; segue sendo um dos maiores deste. Sem entrar em discussões estéreis sobre o erudito e o popular (como já dizia o Eclesiastes, há um tempo para tudo — incluindo violino e guitarra ), não consigo resistir a uma comparação, não entre as músicas, mas entre os eventos.
A presença de Paul McCartney simplesmente dominou São Paulo. Na banca de camisetas da feira de domingo de um shopping da Avenida Paulista, as pilhas eram P, M, G e Beatles. Perlman, que eu saiba, deu uma entrevista ao Estado de sábado, e só.
E a escala dos espetáculos: a Sala São Paulo não é, obviamente, o Morumbi. O que tem a vantagem de filas muito menores, mas não só. Com todo o público sentado a poucas fileiras de onde Perlman apresentava seu virtuosismo, não era difícil ter uma consciência muito direta, uma experiência palpável, da presença de um gênio entre nós.
No caso de McCartney, essa presença passa por uma série de mediações — amplificadores, telão — que tanto diluem quanto reforçam a experiência.
Mas talvez a maior diferença esteja na divisão muito clara, no caso do concerto, entre os papéis do artista e do público na construção do espetáculo.
Desfrutar de uma sonata de Beethoven para violino e piano é algo que se faz imóvel, sentado, talvez até de olhos fechados — uma experiência radicalmente individual. Se não houvesse mais ninguém na sala, praticamente não faria diferença.
Confesso que as longas sessões de aplauso quase chegaram a me irritar: não porque Perlman não merecesse cada bater de palmas, mas porque eu estava ali para ouvi-lo tocar, e cada minuto de aplauso era um minuto a menos de música!
No show de McCartney o público é, obviamente, parte do espetáculo. Está contabilizado no design do evento. Espera-se que as pessoas aplaudam e cantem junto.
De novo, nenhum juízo de valor aqui: há a hora de ouvir em silêncio reverente, e há a hora de cantar até perder a voz.
Você talvez se pergunte o que esta crônica mal ajambrada está fazendo num blog sobre ciência. Confesso que o objetivo original era escrever algo sobre os efeitos da música no cérebro, mas desisti (por enquanto — devo voltar ao tema um dia). Fica apenas o registro de que, na noite de Paul McCartney, Itzhak Perlman também esteve aqui — e se apresenta ainda nesta segunda e terça.
Amanhã, voltamos à programação normal.
Morreu, no fim de outubro, o fotógrafo britânico Geoffrey Crawley, de 83 anos. Numa série de dez artigos publicada na revista British Journal of Photography, entre 1982 e 1983, ele ofereceu a mais completa explicação — e desmitificação — das famosas fotografias das “Fadas de Cottingley”.
Você talvez já tenha encontrado a história por aí: em 1917, duas meninas, as primas Frances Griffith e Elsie Wrigh, pegaram emprestada a câmera fotográfica do pai de Elsie e produziram as primeiras de uma sequência de fotos que mostram “fadas” e “gnomos” brincando no jardim.
Em 1920, as fotos chegaram ao conhecimento de Sir Arthur Conan Doyle — que décadas antes tornara-se famoso como o criador de Sherlock Holmes e que, após a I Guerra Mundial, passara a ser um ardente defensor do sobrenatural.
Sir Arthur escreveu um artigo e um livro a respeito, atestando a autenticidade das imagens, criando uma polêmica que duraria décadas.
Agora, simples bom-senso sugere que as fadas acima não passam de recortes de cartolina pendurados nos arbustos, certo? E é exatamente o que são. Na década de 70, o escritor britânico Fred Gettings reconheceu as imagens como cópias das ilustrações de um livro infantil publicado em 1915, Princess Mary’s Gift Book.
Nos anos 80, as primas, já senhoras idosas (Elsie faleceu em 1988; Frances, em 1986), confessaram: Elsie havia copiado as ilustrações do livro em cartolina. Os bonecos recortados foram fixados no cenário por meio de alfinetes.
Sir Arthur, no entanto, não só havia aceitado as imagens como verdadeiras, como ainda passara a fazer deduções a respeito: como na primeira foto uma das fadas aparece tocando flauta, o escritor pondera: “Isso não sugere toda uma gama completa de instrumentos e utensílios?” E também: “Essas pessoas [as fadas] estão destinadas a se tornar tão sólidas e reais quanto os esquimós”.
Crowley, em sua investigação, obteve as câmeras originais usadas pelas meninas, testou-as e tornou-se amigo de Elsie, que confirmou a fraude. Os testes realizados por ele mostraram que a versão das imagens que ficara famosa era formada por cópias manipuladas em laboratório para ganhar mais nitidez.
Crowley sempre manteve uma relação de respeito com as primas. Escrevendo sobre Elsie em 2000, ele disse que “ela nos deu um mito que nunca machucou ninguém”. Não sei se concordo: a reputação de Conan Doyle, por exemplo, não saiu exatamente ilesa.
A questão de por que o escritor abraçou com tamanho fervor a autenticidade das fotos é especialmente intrigante.
James Randi, em sua análise do caso, atribui a credulidade de Sir Arthur a uma mistura de preconceito e ingenuidade: o famoso autor teria uma visão de mundo na qual era mais plausível fadas existirem e posarem para fotos do que duas crianças bem educadas, de classe alta — e ainda por cima do sexo feminino! — mentirem descaradamente.
O biógrafo Andrew Lycett oferece uma interpretação alternativa: Charles Altamont Doyle, pai do escritor, era um ilustrador, e também um alcoólatra, que passou boa parte da vida internado em asilos para lunáticos. Em seus delírios, ele via criaturas fantásticas, que desenhava.
“Se pudesse provar a verdade [das fadas], ele avançaria muito na reabilitação da memória do pai e mostraria que, longe de ser um louco, Charles Doyle tinha evoluído uma sensibilidade para se comunicar com seres espirituais elevados”, escreve Lycett.
Cientistas do Cern anunciaram ontem a criação — e contenção — de 38 átomos de antimatéria, formados por um antipróton no núcleo com um pósitron ao seu redor. Trata-se de uma versão em negativo do átomo mais simples existente na natureza, o de hidrogênio, formado por um próton e um elétron.
Suponho que a maioria das pessoas encontrou a palavra “antimatéria” pela primeira vez em algum produto de cultura pop, seja um filme, uma história em quadrinhos ou um seriado de TV.
Antimatéria é o que move a nave estelar Enterprise (os cristais de dilítio estão lá apenas para “regular a reação”); uma onda de antimatéria quase destruiu o universo de super-heróis da DC Comics durante a Crise nas Infinitas Terras; e uma bomba de antimatéria é o “mcguffin” — o prêmio/ameaça que mantém heróis e vilões correndo de um lado para o outro — do livro Anjos e Demônios, de Dan Brown.
Mas, afinal, de que se trata?
A existência da antimatéria — partículas idênticas às da matéria comum, mas de carga elétrica invertida — foi prevista por Paul Dirac no início do século passado.
(Adendo corretivo: o físico @Dbohr me lembra de que partículas eletricamente neutras também têm contrapartes de antimatéria, como os neutrinos, que contam com os antineutrinos)
Na verdade, não exatamente “prevista”. A antimatéria inicialmente surgiu como uma espécie de efeito colateral de uma equação criada por Dirac para adaptar as descobertas da mecânica quântica à Teoria da Relatividade Restrita, que postula que o tempo e o espaço são relativos e a velocidade da luz no vácuo é a maior velocidade possível no Universo.
O próprio Dirac demorou um pouco pra entender que o fato de a equação também produzir resultados meio malucos — que podiam ser interpretados como elétrons com carga elétrica invertida — não era um apenas uma espécie de bug no sistema, mas a previsão teórica de uma entidade física que até então jamais havia sido observada. O pósitron, ou elétron positivo, acabou sendo descoberto experimentalmente em 1932. Dirac recebeu o Nobel de Física em 1933.
Mas o que torna antimatéria interessante para o roteirista de quadrinhos, o escritor de ficção científica e os produtores de filmes-catástrofe em geral é o fato de que quando uma partícula e uma antipartícula se encontram, ambas são destruídas, produzindo energia. Muita energia.
Em 1950, o cientista alemão Eugen Sänger propôs a criação de um foguete de antimatéria, onde elétrons e pósitrons seriam aniquilados. A energia da aniquilação produziria raios gama, que seriam expelidos num jato, gerando o impulso da nave.
Esse foguete seria perfeito, exceto por uma dificuldade: as partículas dos raios gama estariam se movendo em direções aleatórias, e para um foguete funcionar é preciso que o jato seja apontado na direção oposta à que se deseja seguir.
Na década de 80, Robert L. Forward propôs um design diferente, baseado na aniquilação de prótons e antiprótons. Isso produziria partículas dotadas de carga elétrica, que poderiam ser guiadas por campos magnéticos.
O problema disso tudo é que a energia necessária para produzir e controlar a antimatéria, nessas escalas, é proibitiva. Como diz o site do Cern, “primeiro precisamos fazer cada antipartícula individual, e temos de investir (muito) mais energia do que tiramos durante a aniquilação”.
Minha primeira reação à notícia de que astrônomos acreditavam ter encontrado um buraco negro de 30 anos foi pensar: “Caraca, um fenômeno astrofísico que é mais novo do que eu”.
Está certo que já me acostumei a ter colegas de trabalho que eram recém-nascidos quando eu estava entrando na faculdade — gente que me olha com um misto de espanto e comiseração quando faço reminiscências de uma infância sem computadores ou videogames, movida a gibis da Ebal e vivida durante o governo Geisel. No entanto, a ideia de que um fenômeno astrofísico pode ser mais novo que eu abriu toda uma nova dimensão de sentimentos jurássicos.
Mas aí me bateu o paradoxo da coisa: como assim, 30 anos? A que distância esse cara fica?
Mergulhando no website do Telescópio de Raios X Chandra, descobri que o tal buraco negro está (ou parece estar; os sinais de sua presença comportam explicações alternativas) na galáxia M100, a 50 milhões de anos-luz. O que quer dizer que a luz e a radiação que avisaram os astrônomos de que ele existe passou 50 milhões de anos a caminho a Terra. E, portanto, ele não tem 30 anos, e sim 50 milhões e 30!
O que, confesso, trouxe um certo alívio.
Os cientistas, no entanto, estão certos ao afirmar que o que observam é um fenômeno de 30 anos. A luz que partiu de lá, da galáxia M100, há 50 milhões de anos, registra as características de um evento cósmico com três décadas de existência. É como receber uma foto do seu bisavô, ainda bebê, pelo correio: a imagem pode ter anos e anos, mas retrata uma criança.
É o mesmo efeito que permite que o Hubble faça imagens das primeiras galáxias surgidas após o Big Bang. A luz emitida por elas passou 13 bilhões de anos em trânsito até chegar aqui.
O fato de a velocidade da luz no vácuo ser um limite absoluto para a transferência de informação no Universo — salvo buracos de minhoca, atalhos pelo hiperespaço ou outras ocorrências altamente hipotéticas — faz com que o tempo seja relativo. Diferentes observadores, movendo-se a diferentes velocidades, vão discordar quanto ao horário exato de um determinado fenômeno.
Mas esse mesmo limite para a velocidade da luz que relativiza o tempo faz com que o passado se torne algo muito concreto: qualquer evento que venhamos a conhecer tem de ter acontecido há algum tempo, que é o tempo necessário para que sua luz chegue até nós.
O fato de a luz ser tão rápida torna essa distinção irrelevante na escala do dia-a-dia, mas não deixa de ser um experimento filosófico interessante tentar encarar as coisas assim por algum tempo: tudo o que você acha que está acontecendo agora — o passarinho que passa voando pela janela, a criança brincando no chão, você lendo este blog — na verdade já aconteceu algumas frações de segundo atrás.
Tudo o que você está vendo não está mais lá.
O título desta postagem é uma tradução do de um artigo recente do neurologista americano Steven Novella, da Universidade Yale, que mantém o blog NeuroLogica e é um dos editores do blog Science-Based Medicine. Infelizmente, o artigo a que me refiro ainda não está online, tendo sido publicado na edição mais recente da revista em papel Skeptical Inquirer.
Por uma curiosa coincidência, cheguei ao texto de Novella na revista mais ou menos ao mesmo tempo em que a discussão na postagem anterior, sobre as tais pulserinhas do equilíbrio, entrava — talvez inevitavelmente, dado o tema — na questão do “efeito placebo”.
Novella apresenta uma definição operacional de efeito placebo. Definições operacionais estão na ciência pelo menos desde que Albert Einstein definiu tempo como “aquilo que medimos com um relógio” e espaço como “aquilo que medimos com uma régua”. É uma forma de esvaziar um conceito de suas pretensões, digamos, metafísicas, reduzindo-o a uma medida quantitativa que pode ser comparada objetivamente a outras.
Definido operacionalmente, o “efeito placebo” é “o efeito de tratamento medido no ramo placebo de um teste clínico, que inclui os sujeitos que receberam tratamento falso ou inerte”. Num estudo bem planejado, deve se encaixar nessa categoria “tudo que não for uma reação fisiológica ao tratamento biologicamente ativo”.
Definido dessa forma, então, “efeito placebo” não é o poder da sugestão, do pensamento positivo, etc., mas a soma de todos os efeitos não causados pelo tratamento em si. Novella faz questão de destacar que muitos desses efeitos não são nada mais que ilusões ou erros.
Entre as causas de uma ilusão de melhora está a chamada regressão para a média: “Para qualquer sintoma variável, períodos de tempo em que os sintomas estão muito ruins provavelmente, por puro acaso, serão seguidos por um retorno a sintomas médios”, escreve ele.
Entre as causas de erro estão as expectativas tanto do paciente quanto do responsável pelo teste — ambos têm um forte investimento emocional na crença de que há valor no tratamento sendo testado, e podem, inconscientemente, acabar dando uma forcinha espúria aos fatos, enviesando seus relatos.
Novella menciona ainda o “efeito observador” — o simples fato de uma pessoa saber que sua saúde está sendo monitorada por médicos e cientistas tende a fazê-la ser mais cuidadosa e a tomar decisões mais saudáveis de estilo de vida — e o “efeito torcida”: as pessoas tendem a se esforçar mais e a ser mais otimistas quando recebem encorajamento.
E por fim vem o que se chama, em linguagem coloquial, de “efeito placebo”: o efeito fisiológico do ritual do tratamento, que é causado pelo apoio emocional e pelo relaxamento do paciente que acredita que está sendo tratado.
Novella, no entanto, afirma que essa fração do resultado é muito pequena. “O efeito placebo pode consistir, em sua maior parte ou inteiramente, de ilusões e erros”, escreve.
Ele cita uma revisão de “efeitos placebo” constatados em vários testes clínicos feita por dois pesquisadores da Dinamarca, chamada Placebo interventions for all clinical conditions, e que diz, em sua conclusão:
“Não descobrimos que intervenções de placebo tenham efeitos clínios importantes em geral. No entanto, em certas condições intervenções com placebo podem influenciar os resultados informados pelos pacientes, especialmente em dor e náusea, embora seja difícil distinguir os efeitos do placebo informados pelo paciente de relatos enviesados.”
Recebi uma sugestão de escrever algo a respeito das pulseiras Power Balance, que vêm com um holograma e que teriam algumas propriedades “quânticas” ou “energéticas” que ajudariam o corpo do usuário a desenvolver mais resistência e equilíbrio.
O assunto, no entanto, já foi muito bem tratado pelo Ceticismo Aberto, pela Vejinha e até pelo Fantástico, entre outros.
Resumindo: não há nenhuma base para as alegações de que a pulseira ajuda a manter o equilíbrio ou aumenta a resistência física (até a Anvisa andou reclamando da propaganda do produto). O holograma que aparece na pulseira é do mesmo tipo que existe nos cartões de crédito. Testes científicos cuidadosos, como um realizado na Espanha, mostram que não há efeito algum sobre o equilíbrio.
Toda a argumentação científica, no entanto, talvez não seja suficiente para convencer algumas pessoas, diante do grande número de testemunhos favoráveis dados por atletas e celebridades a respeito dos efeitos maravilhosos da pulseira, e dos vários vídeos de testes em que uma pessoa, com os braços esticados, é facilmente desequilibrada quando está sem o adereço, e se mantém firme como uma rocha quando o utiliza.
O teste me lembrou um truque descrito no livro Secrets of the Amazing Kreskin, escrito por George Joseph Kresge, que teve o nome mudado legalmente para The Amazing (“O Espantoso”) Kreskin. Ele é um mágico mentalista — isto é, especializado em truques que simulam feitos como telepatia, clarividência, hipnose, como na série de TV The Mentalist.
Em seu livro, escrito num tom de autoajuda, Kreskin descreve algumas técnicas que usa para preparar seus truques e, mais especificamente, como é importante sugestionar corretamente os voluntários que sobem ao palco para contracenar com ele. Resistência física e equilíbrio, escreve o mágico, são especialmente suscetíveis à sugestão.
Mas eu estava falando de um truque específico, muito parecido com os testes da pulseira.
Nele, Kreskin estica um braço para o lado, e pede a um voluntário que tente movê-lo como se fosse uma alavanca, para cima e para baixo. O braço se move facilmente. Ele então anuncia que vai usar seus poderes para congelar o braço no lugar, e pede ao voluntário que tente outra vez. Não importa o quanto o participante se esforce, o braço se mantém rígido e em posição.
Parte do truque depende da mecânica exata da forma como o braço é manipulado pelo voluntário, mas o mais importante, segundo Kreskin, é a criação “da imagem de que o braço está pregado no lugar”. “Visualize uma viga de aço contínua, sólida, inflexível, curvada em ângulo reto para dar forma ao braço estendido, ombro e lateral do corpo”, escreve o mágico. “Ela é tão incapaz de ceder quanto um bloco de granito”.
Claro, o efeito não pode ser mantido indefinidamente, mas dura o bastante para impressionar a plateia.
Dando um exemplo um pouco mais científico do poder da sugestão: em 2003, um estudo realizado na Nova Zelândia deu a cada um dos membros de um grupo de pessoas um copo de água tônica — mas metade dos participantes acreditava que havia vodca misturada ao refrigerante. Depois, todos assistiram a um filme. Os que pensavam que haviam bebido vodca tinham uma lembrança mais distorcida do filme do que os que pensavam que só haviam tomado tônica. E não só mais distorcida, como também se sentiam muito mais confiantes de que suas lembranças erradas estavam certas — típicos bêbados chatos.
Como escreve o psicólogo americano Benjamin Radford, “não se trata de controle da mente sobre a realidade, mas de controle da mente sobre a percepção”.
A notícia quase me fez cair da cadeira quando li: o governo britânico torrou mais de 2 milhões de libras (algo na vizinhança de R$ 6 milhões) para testar uma tecnologia de detecção de mentiras que seria aplicada num esforço de evitar fraudes previdenciárias.
A ideia era analisar a voz das pessoas ligando para pedir benefícios e determinar, pelo estresse encontrado na fala, se a reivindicação era legítima ou não.
Segundo o neurologista e psiquiatra americano Terence Hines, que escreveu um longo capítulo sobre detectores de mentira em seu livro de 2003 Pseudoscience and the Paranormal, essa técnica, chamada análise de estresse vocal, está intimamente ligada ao polígrafo, que é o detector que aparece nos filmes policiais americanos.
A ligação é fácil de perceber: enquanto o polígrafo faz medidas de estresse fisiológico, analisando pressão sanguínea, ritmo cardíaco e a condutividade elétrica da pele (um indicador de transpiração), a análise de estresse vocal tenta medir… o estresse vocal.
A premissa subjacente, enfim, é a mesma: mentir é mais estressante que dizer a verdade; logo, detectar estresse equivale a detectar mentira. É uma bela premissa.
O único problema é que é estupendamente falsa. Um mentiroso contumaz pode mentir e se manter relaxado, e uma pessoa inocente pode ficar nervosa ao se ver alvo de suspeita e ficar estressadíssima, mesmo enquanto conta a verdade.
Como Hines cita em seu livro, dois agentes americanos — um da CIA, Aldrich Ames, e outro do FBI, Robert Hanssen — que durante anos venderam segredos para a Rússia passaram facilmente por testes de polígrafo em suas carreiras. Ames teria sido orientado pela KGB a “apenas relaxar” durante o exame.
Em 1986, a rede de TV americana CBS ligou para várias empresas que realizavam testes de polígrafo para pedir ajuda na investigação de um roubo de equipamento.
Funcionários “suspeitos” foram indicados pela chefia e, sem dúvida, os testes de polígrafo revelaram que eram eles os culpados. Mas não havia ocorrido roubo algum: tudo tinha sido uma armação do programa jornalístico 60 Minutes, que produzia um especial sobre detectores de mentira.
Em 2003, a Academia Nacional de Ciências dos EUA publicou um relatório de mais de 400 páginas, The Polygraph and Lie Detection, cuja conclusão afirma que “as respostas fisiológicas medidas pelo polígrafo não são exclusivas da mentira”; “a base teórica do polígrafo é muito fraca”; “as estimativas de precisão do polígrafo superestimam essa precisão na prática”.
O relatório concede que, em algumas situações específicas, o polígrafo parece capaz de separar verdade da mentira em níveis acima dos esperados por puro acaso, “mas muito abaixo da perfeição”.
O psicólogo David Likken, falecido em 2006, já havia escrito uma crítica demolidora do polígrafo em 1981.
Mas Likken sugeriu um uso alternativo para o sistema, o Teste de Consciência Culpada, no qual o suspeito, ligado ao detector, recebe uma série de questões, uma das quais contém informação que apenas o culpado poderia saber — digamos, a posição exata do corpo da vítima.
A ideia é a de que uma pessoa inocente que se sentisse estressada durante o teste ficaria uniformemente nervosa ao longo do interrogatório, enquanto que o culpado ficaria mais nervoso ao reconhecer um dado concreto do crime. Esse teste é considerado um pouco melhor que os outros usos do polígrafo, mas ainda assim está longe de ser perfeito.
E o sistema avaliado pelos britânicos? Foi abandonado após os testes terem sido feitos e os 2 milhões de libras, gastos.
Ninguém menos que o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, fez uma figuração durante a a apresentação das primeiras imagens enviadas à Terra pela mais recente sonda lunar chinesa, a Chang’e 2.
E, como anunciado no lançamento, feito no início de outubro, as imagens são de Sinus Iridium (“Bacia do Arco-Íris”), local de pouso previsto para o primeiro robô lunar chinês, Chang’e 3.
Infelizmente não sei traduzir as legendas em chinês, mas o site da agência oficial de notícias da China, a Xinhua, traz uma galeria de imagens feitas pela sonda, com legendas em inglês. Essa galeria pode ser acessada aqui.
Desde 2003, quando se tornou o terceiro país a desenvolver a tecnologia necessária para enviar um ser humano à órbita terrestre (depois de Rússia e EUA) o programa espacial chinês vem avançando a passos largos.
A China pretende ter uma estação espacial própria dentro de dez anos — o primeiro módulo vai ao espaço no ano que vem — e talvez envie astronautas à Lua na década de 2020.
Dos chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) o Brasil é, de fato, o único a não ter um programa espacial de fôlego.
A Índia, recentemente citada como candidata a uma vaga permanente no Conselho de segurança da ONU, também tem um programa de exploração lunar bem-sucedido, o Chandrayaan. E a Rússia é, claro, além de herdeira dos sucessos da União Soviética, o principal esteio da Estação Espacial Internacional, que depende dos cargueiros russos Progress e das cápsulas tripuladas Soyuz para se manter.
2010
2009