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Carlos Orsi

Vendo o grande número de astros do pop-rock que vieram/estão vindo/virão se apresentar no Brasil, e acompanhando — basicamente, via Twitter — a intensa vibração das pessoas que parecem felicíssimas em se desfazer de centenas de reais pelo privilégio de ficar algumas horas em pé (debaixo e sol forte ou talvez na chuva) numa fila para depois passar algumas horas em pé (talvez na chuva) vendo alguém tocar alguma coisa ao longe, eu me lembro de um pequeno paradoxo que encontrei, se não me engano, no livro The Armchair Economist, de Steven Landsburg: por que os shows de rock não custam muito mais caro?

Sei que a maioria dos fãs de música provavelmente já considera os ingressos para esses espetáculos caros demais, mas vamos pensar em termos da boa e velha lei da oferta e da procura: quando o número de pessoas interessada em um produto supera o número de unidades do  produto à venda, o preço sobe. Isso funciona para roupas, sacas de café, ações na bolsa. É por isso que há cambistas nos estádios de futebol.

No caso dos shows de grandes astros do rock: eles sempre lotam. As pessoas disputam os ingressos a tapa. Gente que chega à bilheteria depois que a última entrada é vendida chora mais que vestibulando que perde o fechamento dos portões.

Obviamente, os promotores desses espetáculos poderiam estar cobrando muito mais, e ainda assim garantir lotação completa. Eles certamente sabem disso. Mas não cobram. Por quê?

A explicação proposta por Landsburg é de que o, digamos, “complexo musical-industrial” se abstém de tirar tudo o que pode do público no preço do ingresso porque precisa deixar algum dinheiro para as pessoas gastarem em outros produtos relacionados ao ídolo — álbuns, camisetas, bonecos, DVDs, etc, etc.

É uma possibilidade, e seria curioso ver o que aconteceu com os preços dos shows nos últimos anos, depois que a onda dos downloads de música se espalhou. Como há menos gente pagando por música, é de se supor que tenham subido os ingressos, numa tentativa de assimilar a receita perdida com a velha venda de CDs.

Mas será que foi mesmo o que aconteceu? Esta é provavelmente uma questão para o colega Edmundo Leite responder!

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01.dezembro.2010 08:21:48

A verdadeira lua negra

A foto acima, feita pela sonda europeia Mars Express, mostra Fobos (“Medo”, em grego), uma das duas luas de Marte, com a superfície do planeta ao fundo. A outra lua é Deimos (“Terror”).

O fato de a lua aparecer como uma mancha negra de encontro ao planeta não é um acidente óptico:  Fobos é — algo que combina bem com seu nome — a lua mais escura do Sistema Solar.

Uma teoria sobre sua origem propõe que  ela seja, na verdade, um asteroide capturado pela gravidade marciana. Um fato confirmado é que Fobos está caindo, e deve colidir com Marte daqui a 50 milhões de anos.

A Rússia está capitaneando uma missão para recolher amostras da superfície de Fobos, que deveria ter partido em 2009 mas foi adiada e que deve ser lançada em novembro do ano que vem.

A sonda russa levará, de carona, a primeira sonda marciana da China, além do experimento “Life”, da organização Planetary Society, que estudará como seres vivos da Terra se viram no espaço durante uma viagem a Marte. A cápsula Life transportará amostras de bactérias e até da planta Arabidopsis thaliana, um clássico organismo-modelo.

Fobos também é lar de uma enorme cratera, Stickney, batizada em homenagem à matemática, ativista política e abolicionista americana Angeline Stickney Hall, mulher do descobridor de Fobos, Asaph Hall. Medindo 9 km de diâmetro, a cratera ocupa uma boa proporção da superfície da lua, que tem 22 km de diâmetro ao todo.

A foto abaixo é um close-up de Stickney, feito pela sonda americana MRO:

A “cratera dentro da cratera” chama-se Limtoc, nome de um personagem das Viagens de Gulliver. Nesse livro de Jonathan Swift, publicado em 1726, os astrônomos da ilha Laputa dizem ter descoberto duas luas em Marte. Fobos e Deimos foram realmente descobertas na década de 1870 por Asaph Hall.

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Você já deve ter visto (ou mesmo feito) isso: dada uma questão que admite apenas duas respostas possíveis — “menino ou menina?”, “ela me ama?” e “devo sair do emprego?” são fórmulas clássicas –, pega-se um pequeno objeto pesado (pode ser um anel, um chumbinho de pesca, uma pedra) amarrado à ponta de um fio, barbante ou corrente. Segura-se o tal barbante, etc., de forma que o objeto fique suspenso, seu peso mantendo o fio esticado. E espera-se.

Depois de algum tempo — geralmente não muito — o objeto vai começar a se mover. Ele pode oscilar para frente e para trás ou para a direita e para a esquerda, ou ainda girar, no sentido horário ou anti-horário. Antes de começar o exercício, você deve ter adotado uma convenção para distinguir os sinais: por exemplo, “frente-atrás” é “sim”, “esquerda-direita” é “não”, ou vice-versa.

O que está acontecendo? O objeto parece se mover por conta própria! Seria magnetismo animal, ondas gravitacionais, transmissão de fluidos etéreos, a detecção de táquions trazendo informação do futuro? Uma pista sobre a verdadeira fonte do movimento pode ser obtida com um experimento simples: feche os olhos, respire fundo e relaxe. Isso. Relaxe. Agora, abra os olhos (se você estava de olhos fechados, não há como ter lido esta instrução, claro. Ela está aqui apenas para efeito retórico).

O movimento parou.

O “pêndulo explorador” é um exemplo do chamado efeito ideomotor, uma reação involuntária e inconsciente dos músculos em resposta aos pensamentos da pessoa. Muita gente acha essa definição estranha — como uma reação aos pensamentos pode ser inconsciente? — mas se você se lembrar de como sua expressão facial costuma trair suas emoções, a coisa se torna autoevidente. E, afinal, para corar ou chorar de forma consciente e voluntária, geralmente é preciso ser um ator.

O fenômeno também é um exemplo de como uma questão pode continuar a ser tratada como algo místico e misterioso quase dois séculos depois de o caso ter sido satisfatoriamente encerrado pela ciência — ou, como não basta um fato sólido para matar mil superstições vaporosas. Senão, vejamos.

A expressão “efeito ideomotor” foi usada  para descrever esse tipo de ocorrência,  pela primeira vez, na década de 1850. E mais de vinte anos antes, o aparente poder oracular dos pêndulos já havia sido analisado, por meio de experimentos detalhados, pelo químico francês Michel Eugène Chevreuil, que descreveu suas conclusões numa carta a Ampère — o mesmo sujeito que iria dar nome à unidade de corrente elétrica — de 1833.

Na época de Chevreuil, a ideia era de que o pêndulo reagia de modo diferente a diferentes substâncias, movendo-se de uma forma sobre ouro e de outra sobre mercúrio, por exemplo.

O químico primeiro testou  se um obstáculo entre o pêndulo e a substância a ser detectada faria o oráculo parar. E —  mirabili dictu! — foi o que aconteceu. Em seguida, no entanto, Chevreuil sofisticou o procedimento, vendando os olhos e fazendo com que o obstáculo fosse colocado ou removido sem tomar conhecimento do que ocorria.

Resultado: o pêndulo reagia ao que o cientista acreditava que estava acontecendo, e não aos fatos reais. Escreveu Chevreuil, em 1833:

“Esta é a interpretação que dou a estes fenômenos: quando segurei o pêndulo em minha mão, um movimento muscular de meu braço, embora imperceptível para mim, moveu o pêndulo (…) uma vez que as oscilações começaram, elas logo foram aumentadas pela influência exercida pela visão (…) Esse movimento muscular, mesmo ampliado dessa forma, é fraco o bastante para parar, não direi pelo comando da vontade, mas apenas pelo pensamento de ver se isso ou aquilo vai detê-lo.”

Experimentos realizados de lá para cá também demonstraram que o efeito ideomotor está por trás de outros “fenômenos misteriosos”, como o uso de forquilhas e varas para encontrar água ou a famigerada “brincadeira do copo” que tanto assusta as crianças (ou assustava, no meu tempo).

Ah, sim: se você entrou nesta postagem procurando o conto de Edgar Allan Poe, ele pode ser encontrado aqui, em inglês.

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Morreu, no fim de outubro, o fotógrafo britânico Geoffrey Crawley, de 83 anos. Numa série de dez artigos publicada na revista British Journal of Photography, entre 1982 e 1983, ele ofereceu a mais completa explicação — e desmitificação — das famosas fotografias das “Fadas de Cottingley”.

Você talvez já tenha encontrado a história por aí: em 1917, duas meninas, as primas Frances Griffith e Elsie Wrigh, pegaram emprestada a câmera fotográfica do pai de Elsie e produziram as primeiras de uma sequência de fotos que mostram “fadas” e “gnomos” brincando no jardim.

Em 1920, as fotos chegaram ao conhecimento de Sir Arthur Conan Doyle — que décadas antes tornara-se famoso como o criador de Sherlock Holmes e que, após a I Guerra Mundial, passara a ser um ardente defensor do sobrenatural.

Sir Arthur escreveu um artigo e um livro a respeito, atestando a autenticidade das imagens, criando uma polêmica que duraria décadas.

A primeira das fotos: Frances Griffith com suas amiguinhas, em 1917

Agora, simples bom-senso sugere que as fadas acima não passam de recortes de cartolina pendurados nos arbustos, certo? E é exatamente o que são.  Na década de 70, o escritor britânico Fred Gettings reconheceu as imagens como cópias das ilustrações de um livro infantil publicado em  1915, Princess Mary’s Gift Book.

Nos anos 80, as primas, já senhoras idosas (Elsie faleceu em 1988; Frances, em 1986), confessaram: Elsie havia copiado as ilustrações do livro em cartolina. Os bonecos recortados foram fixados no cenário por meio de alfinetes.

Sir Arthur, no entanto, não só havia aceitado as imagens como verdadeiras, como ainda passara a fazer deduções a respeito: como na primeira foto uma das fadas aparece tocando flauta, o escritor pondera: “Isso não sugere toda uma gama completa de instrumentos e utensílios?” E também: “Essas pessoas [as fadas] estão destinadas a se tornar tão sólidas e reais quanto os esquimós”.

Crowley, em sua investigação, obteve as câmeras originais usadas pelas meninas, testou-as e tornou-se amigo de Elsie, que confirmou a fraude. Os testes realizados por ele mostraram que a versão das imagens que ficara famosa era formada por cópias manipuladas em laboratório para ganhar mais nitidez.

Elsie e o gnomo, segunda foto feita pelas primas em 1917

Crowley sempre manteve uma relação de respeito com as primas. Escrevendo sobre Elsie em 2000, ele disse que “ela nos deu um mito que nunca machucou ninguém”. Não sei se concordo: a reputação de Conan Doyle, por exemplo, não saiu exatamente ilesa.

A questão de por que o escritor abraçou com tamanho fervor a autenticidade das fotos é especialmente intrigante.

James Randi, em sua análise do caso, atribui a credulidade de Sir Arthur a uma mistura de preconceito e ingenuidade: o famoso autor teria uma visão de mundo na qual era mais plausível fadas existirem e posarem para fotos do que duas crianças bem educadas, de classe alta — e ainda por cima do sexo feminino! — mentirem descaradamente.

O biógrafo Andrew Lycett oferece uma interpretação alternativa: Charles Altamont Doyle, pai do escritor, era um ilustrador, e também um alcoólatra, que passou boa parte da vida internado em asilos para lunáticos. Em seus delírios, ele  via criaturas fantásticas, que desenhava.

“Se pudesse provar a verdade [das fadas], ele avançaria muito na reabilitação da memória do pai e mostraria que, longe de ser um louco, Charles Doyle tinha evoluído uma sensibilidade para se comunicar com seres espirituais elevados”, escreve Lycett.

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Ninguém menos que o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, fez uma figuração durante a a apresentação das primeiras imagens enviadas à Terra pela mais recente sonda lunar chinesa, a Chang’e 2.

O premiê chines com um pôster da Lua

E, como anunciado no lançamento, feito no início de outubro, as imagens são de Sinus Iridium (“Bacia do Arco-Íris”), local de pouso previsto para o primeiro robô lunar chinês, Chang’e 3.

Detalhe de Sinus Iridium, em imagem enviada pela Chang'e 2

Infelizmente não sei traduzir as legendas em chinês, mas o site da agência oficial de notícias da China, a Xinhua, traz uma galeria de imagens feitas pela sonda, com legendas em inglês. Essa galeria pode ser acessada aqui.

Desde 2003, quando se tornou o terceiro país a desenvolver a tecnologia necessária para enviar um ser humano à órbita terrestre (depois de Rússia e EUA) o programa espacial chinês  vem avançando a passos largos.

A China pretende ter uma estação espacial própria dentro de dez anos — o primeiro módulo vai ao espaço no ano que vem — e talvez envie astronautas à Lua na década de 2020.

Dos chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) o Brasil é, de fato, o único a não ter um programa espacial de fôlego.

Projeção da cratera Coulomb, feita com imagens de sonda lunar indiana

A Índia, recentemente citada como candidata a uma vaga permanente no Conselho de segurança da ONU, também tem um programa de exploração lunar bem-sucedido, o Chandrayaan. E a Rússia é, claro, além de herdeira dos sucessos da União Soviética, o principal esteio da Estação Espacial Internacional, que depende dos cargueiros russos Progress e das cápsulas tripuladas Soyuz para se manter.

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Rastros de partículas obtidos após colisão entre íons de chumbo no LHC

A pasta de contas a pagar aqui na mesinha do computador de casa ainda não se desintegrou, o que me leva a crer que as colisões entre íons de chumbo, iniciadas no LHC no último domingo, na Suíça, não conseguiram dar cabo do planeta Terra.

O que, suponho, é uma boa notícia. A despeito da pasta cheia de contas. Digo, de certa forma. Acabar com tudo seria meio injusto com as baleias e os golfinhos.

O parágrafo acima é uma piada (caso alguém não tenha notado; a internet estimula uma curiosa surdez no senso de ironia de certas pessoas), mas até alguns anos atrás havia quem expressasse temores de que o Grande Colisor de Hádrons (e, antes dele, o acelerador RHIC, nos Estados Unidos) pudesse desencadear uma catástrofe de proporções cósmicas.

Algumas pessoas chegaram até mesmo a entrar na Justiça para tentar impedir ativação da máquina em Genebra, a despeito do amplo consenso da comunidade científica que não haveria perigo algum.

Os temores mais articulados eram de dois tipos: o da criação de buracos negros durante as colisões entre prótons (que já vêm acontecendo no LHC há um bom tempo, e ainda estamos aqui) e o da criação de “strangelets” estáveis nas colisões entre íons — que foi o que começou a rolar no fim de semana.

Buracos negros seriam uma má ideia porque poderiam, em teoria, engolir a Terra; “strangelets” são criaturas menos conhecidas — a Disney ainda não fez um filme chamado “O Strangelet” — e merecem uma apresentação.

Ao contrário do que talvez lhe tenham dito no ensino médio, prótons e nêutrons não são partículas fundamentais: são compostos de quarks, que se mantêm unidos entre si por meio de glúons. Existem seis tipos, ou “sabores”, de quarks.

Os que nos interessam são três: up, down e strange. Os sabores up e down são os do que você, eu e as minhas contas a pagar somos feitos. O strange já foi detectado em raios cósmicos e produzido em laboratório, mas é instável e se desintegra em nanossegundos, ou ainda menos.

Partículas mais complexas, contendo quarks strange (como prótons e nêutrons contêm os sabores up e down) também já foram produzidas, e também se desintegram muito depressa.

Algumas especulações teóricas propõem, no entanto, que podem existir configurações de quarks up, down e strange que sejam estáveis e tenham carga elétrica negativa. Esses “strangelets” atrairiam o núcleo dos átomos de matéria normal ao redor e começariam a engoli-los, numa reação em cadeia que transformaria toda a matéria da Terra numa forma exótica, incapaz de  suportar vida — ou, ao menos, a nossa forma de vida.

A revisão de segurança do LHC (que pode ser lida na íntegra aqui)  já havia concluído que não só a possibilidade de existência de strangelets perigosos — estáveis e de carga negativa — é muito, muito baixa, como também que a formação desse tipo de partícula no LHC  é virtualmente impossível.

Mesmo se a natureza permitir a existência de strangelets perigosos, as temperaturas do LHC inviabilizariam seu surgimento: seria como ver gelo se formando, por mero acaso, dentro de um forno de pizza aceso.

Meu cenário de fim do mundo favorito, no entanto, é o da bolha de vácuo: a ideia de que o LHC poderia criar um novo tipo de “espaço vazio” que seria mais estável que o “espaço vazio” ordinário do Universo. Esse vácuo super-estável começaria a se expandir, apagando o nosso Universo e pondo outro no lugar.

Se isso fosse possível nas energias que o LHC atinge, no entanto, raios  cósmicos já teriam desencadeado uma catásfrofe equivalente há tempos.

Aliás, não há nada que aconteça no LHC que já não tenha sido feito na natureza, nas colisões de partículas dos raios cósmicos com a superfície de luas, estrelas e planetas. E ainda não há strangelet ou bolha de vácuo que vá sumir com as contas a pagar.

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Dizem que a profissão mais antiga é a prostituição; talvez seja. Mas depois de ler o relato do satirista Luciano de Samósata — escrevendo por volta do ano 180 — sobre os feitos do milagreiro Alexandre, treinado na adolescência por um “curandeiro, do tipo que oferece magias, maravilhosos encantamentos e amuletos para casos amorosos, trazer sofrimento aos inimigos, descobrir tesouros enterrados e herdar propriedades”, vi-me diante de uma séria candidata à segunda posição: falso profeta.

O relato que Luciano faz das imposturas de Alexandre, que usava uma cobra amestrada e uma marionete para se fazer passar por um oráculo de Esculápio, o deus da medicina, é saboroso — ainda mais porque inclui as armadilhas criadas pelo satirista para flagrar respostas falsas do oráculo, e a descrição de como um homem que provou que Alexandre havia errado numa previsão quase foi linchado — e pode ser lido (em inglês) aqui.

(Curiosidade: os principais inimigos de Alexandre eram os “ateus, os epicuristas e os cristãos”).

É interessante como muitos dos truques usados pelo falso profeta para impressionar a população, incluindo capacidade de ler mensagens lacradas e a apresentação de profecias feitas após o fato como sendo anteriores ao evento “previsto”, ainda são usados (e funcionam) hoje em dia.

Atual, também, é o diagnóstico dado por Luciano: “A vida humana está à mercê de duas grandes tiranias, medo e esperança, e qualquer um que possa explorá-las ambas ficaria rico rapidamente”.

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Já que o assunto do fim de semana é o horror e o terror, o que poderia ser melhor que uma olhada nas teorias que regeram a medicina até poucos séculos atrás?

De Hipócrates (300 AEC) a Galeno (150 EC) e por todos os séculos posteriores em que as ideias desses dois sábios reinaram, o que se passava por ciência médica no ocidente começava e terminava nos quatro elementos — terra, fogo, ar e água — e em suas qualidades: a terra é fria e seca; o fogo é quente e seco; o ar é quente e úmido; e a água é fria e úmida.

O que diabos isso tem a ver com saúde humana? No século VI, Alexandre de Tralles decretava que o dever do médico era “esfriar o quente; secar o úmido; aquecer o frio; umedecer o seco”. Em outras palavras, restaurar, no paciente, o equilíbrio entre essas propriedades fundamentais, balanço cuja perda seria a causa da  doença.

Como isso era feito? Achava-se que o equilíbrio era ditado pelos temperamentos, que por sua vez eram controlados pelos humores. Dizer que fulano tem um “temperamento ruim” porque “vive de mau humor” hoje pode ser uma queixa fútil contra o chefe ranzinza, mas há mil anos era diagnóstico médico da maior gravidade.

Os humores eram fluidos que, acreditava-se, percorriam o corpo; sua abundância ou escassez determinava os temperamentos, e cabia ao médico pôr a casa em ordem.

O fluido, ou humor, quente e úmido é o sangue, e o temperamento dominado por ele é o sanguíneo, ou otimista e impetuoso; seu oposto é a bile negra, fria e seca, que produz o temperamento melancólico; a bile amarela é o humor quente e seco, e domina o temperamento colérico; a fleuma é fria e úmida e predomina no temperamento, você adivinhou, fleumático.

Além de corresponder aos quatro elementos clássicos, os humores ligavam-se às estações do ano (o verão, quente e seco, pertence à bile amarela e aos coléricos) e, por meio delas, à astrologia.

Era com base nessa intrincada rede de metáforas e superstições que se praticava a medicina. Um diagnóstico do século XVI, citado por Joseph Jastrow em seu monumental Error and Eccentricity in Human Belief, dizia: “Temperatura e condição muito úmidas e frias, o fluxo dos humores coincidindo com as conjunções e oposições da Lua”.  Sangrias eram realizadas para drenar excessos de calor e/ou umidade.

Claro, o processo tinha algum dinamismo e a medicina fazia avanços, ainda que terrivelmente lentos para os nossos tempos, que viram os antibióticos, a radioterapia, o remédio para pressão alta e o Viagra surgirem em menos de 100 anos.

No século XII, talvez como um efeito colateral das duas ou três primeiras Cruzadas, pó de múmia passou a ser um componente popular de medicamentos. Não só inúmeras múmias egípcias foram destruídas para alimentar essa farmacopeia, como corpos frescos também passaram a ser usados.

Uma receita do século XVII pede, como matéria-prima, o “cadáver (…) de um homem completo, não mutilado, limpo e sem nódoas da idade de 24 anos, que tenha sido enforcado ou quebrado na roda (…)”. “Quebrar na roda” era, claro, um método especialmente excruciante de morte sob tortura.

Quem quiser saber mais sobre múmias medicinais pode baixar a edição de Halloween da Annals of Improbable Research, que traz boas referências a respeito.

Ilustração mostra dentista em ação no século XIV

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18.outubro.2010 07:26:37

O poder do preconceito

Imagine que eu lhe apresente quatro cartas especiais, que tenham uma letra numa face e um número no lado oposto. Coloco as cartas na mesa, com as seguintes faces voltadas para cima:

A   D   4   7

Pergunta: qual a forma mais eficiente de determinar se a seguinte afirmação é verdadeira: “no verso de uma vogal sempre há um número par, e vice-versa“? (vice-versa acresentado após intervenção do Daniel Lima, nos comentários, e omitido após intervenção de Israfel…).

Não responda ainda! Antes, leia a historinha abaixo…

Em 1960, o psicólogo P.C. Wason fez o seguinte experimento com 29 voluntários: apresentou-lhes uma sequência de números — 2, 4, 6 — e pediu que tentassem descobrir qual a lei de formação por trás dela.

Como a amostragem era pequena demais, Wason ofereceu uma colher de chá: antes de anunciar qual a regra deduzida e descobrir se haviam acertado ou errado, os voluntários poderiam gerar uma sequência hipotética, baseada de alguma forma na ideia que tivessem tido, e os pesquisadores lhes diriam se ela se encaixava ou não na lei.

Uma vez de posse da resposta, os voluntários poderiam ajustar suas hipóteses de acordo.

O resultado foi interessante: a maioria dos voluntários gerou sequências corretas (como 102, 106, 110 ou 7, 8 ,9 ou 15, 17, 19) mas anunciou regras erradas – por exemplo, três números pares, três números sendo o do meio a média dos outros dois, três números com uma diferença de duas unidades entre eles. A lei verdadeira era muito mais simples — três números quaisquer, desde que em ordem crescente.

Wason atribuiu a dificuldade dos voluntários a um fenômeno psicológico que chamou de viés de confirmação: uma vez formulada a hipótese sobre qual deveria ser a regra, a tendência natural dos participantes era gerar exemplos que a confirmassem, e não buscar casos que pudessem desmenti-la.

O filósofo britânico Francis Bacon, um contemporâneo de Shakespeare, já conhecia — e deplorava — o efeito. Escreveu ele:

“O entendimento humano, tendo uma vez adotado uma opinião (…) mobiliza todas as outras coisas para apoiá-la e concordar com ela. E embora haja um número e peso maior de casos em apoio ao lado oposto, ainda assim esses são desprezados e negligenciados, ou postos de lado por alguma distinção.”

Voltando agora à pergunta das cartas: quais devem ser viradas para testar a afirmação de que vogais têm números pares no verso?

Se você nunca encontrou esse problema antes e for como a maioria das pessoas,  provavelmente respondeu A e 4.

E, de fato, é necessário virar essas cartas a carta A — se houver um número ímpar atrás dela, a tese estará desprovada.

O 4 não é necessário: nosso enunciado diz que é preciso haver um número par atrás de cada vogal, mas nada a respeito do que esperar atrás de um número par.

Mas é fato que, se houver um número par no verso de A e uma vogal atrás do 4, poderemos sentir mais confiança na afirmação original. No entanto, a despeito dessas duas aparentes confirmações, também será preciso virar a carta 7: se houver uma vogal em seu verso, a tese fica invalidada.

Ninguém é imune ao viés de confirmação, mas precaver-se contra  ele não é muito difícil — basta manter em mente que, ao testar uma ideia, buscar provas de que ela está errada pode ser ainda mais útil do que procurar sinais de que está certa.

Continuando com Bacon, que descreve o viés de confirmação como um “deleite das vaidades”:

“É o erro peculiar e perpétuo do intelecto humano excitar-se mais por afirmativas que por negativas; quando deveria propriamente manter uma disposição indiferente quanto a ambas. De fato, no estabelecimento de qualquer axioma verdadeiro, o exemplo negativo é o que mais deve se impor.”

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Num 12 de outubro 518 anos atrás, Cristóvão Colombo pôs os pés no Caribe, acreditando, a princípio, ter chegado ao sul da Ásia. Antes de se lançar nessa viagem de descoberta, ele teve de vencer vários obstáculos, entre eles a crença medieval de que a Terra era chata e de que sua viagem o levaria para além da borda do mundo… certo?

Errado. Embora seja difícil saber o que o homem comum, o camponês ou artesão da Europa ocidental do século XV achava da forma da Terra (se é que pensava alguma coisa a respeito), estudiosos e eruditos estavam convencidos, já há um bocado de tempo, de que nosso planeta é redondo.

Não só a medição da circunferência da Terra por Eratóstenes era conhecida, como os argumentos de Aristóteles — que, entre outras coisas, chamavam atenção para a sombra circular projetada pela Terra na Lua, durante eclipses lunares — eram aceitos e respeitados.

Costuma-se comentar muito também a respeito da oposição religiosa — especificamente, dos primeiros teólogos cristãos — à ideia de uma Terra redonda, mas o consenso atual é de que essa oposição parece ter sido muito limitada. Em seu colossal volume Uma História da Guerra entre Ciência e Teologia na Cristandade, Andrew White, escrevendo no final do século 19, menciona as ideias do monge egípcio Cosmas, para quem a Terra tinha a forma de um ” paralelogramo plano, cercado pelo oceano”.

No mais recente (de 1992) Céu e Terra na Idade Média, no entanto, o medievalista alemão Rudolf Simek diz que o trabalho de Cosmas era desconhecido no Ocidente no tempo de Colombo. Santo Agostinho, por sua vez, achava que as Escrituras proibiam a existência e seres humanos do outro lado do mundo, mas não descartava a hipótese de o mundo ter um outro lado.

A oposição a Colombo era de ordem mais prática que filosófica: as estimativas de distância entre a Península Ibérica e o Japão — ou a costa do continente asiático — indicavam que a viagem seria uma temeridade.

Colombo estava, de fato, trabalhando com números otimistas demais. Eratóstenes havia calculado a circunferência da Terra como sendo de 250.000 estádios (“estádio” é uma antiga medida de distância). Segundo a astrônoma Irene Fischer, o navegador usou uma conversão errada de estádio para milha, e acabou chegando a uma circunferência quase 30% menor que a real.

Não estivesse a América no meio do caminho, Colombo e seus companheiros de expedição provavelmente teriam morrido no mar.

Mapa-múndi estilo 'T-O' do século XII, com o Oriente para cima

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