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Carlos Orsi

Vendo o grande número de astros do pop-rock que vieram/estão vindo/virão se apresentar no Brasil, e acompanhando — basicamente, via Twitter — a intensa vibração das pessoas que parecem felicíssimas em se desfazer de centenas de reais pelo privilégio de ficar algumas horas em pé (debaixo e sol forte ou talvez na chuva) numa fila para depois passar algumas horas em pé (talvez na chuva) vendo alguém tocar alguma coisa ao longe, eu me lembro de um pequeno paradoxo que encontrei, se não me engano, no livro The Armchair Economist, de Steven Landsburg: por que os shows de rock não custam muito mais caro?

Sei que a maioria dos fãs de música provavelmente já considera os ingressos para esses espetáculos caros demais, mas vamos pensar em termos da boa e velha lei da oferta e da procura: quando o número de pessoas interessada em um produto supera o número de unidades do  produto à venda, o preço sobe. Isso funciona para roupas, sacas de café, ações na bolsa. É por isso que há cambistas nos estádios de futebol.

No caso dos shows de grandes astros do rock: eles sempre lotam. As pessoas disputam os ingressos a tapa. Gente que chega à bilheteria depois que a última entrada é vendida chora mais que vestibulando que perde o fechamento dos portões.

Obviamente, os promotores desses espetáculos poderiam estar cobrando muito mais, e ainda assim garantir lotação completa. Eles certamente sabem disso. Mas não cobram. Por quê?

A explicação proposta por Landsburg é de que o, digamos, “complexo musical-industrial” se abstém de tirar tudo o que pode do público no preço do ingresso porque precisa deixar algum dinheiro para as pessoas gastarem em outros produtos relacionados ao ídolo — álbuns, camisetas, bonecos, DVDs, etc, etc.

É uma possibilidade, e seria curioso ver o que aconteceu com os preços dos shows nos últimos anos, depois que a onda dos downloads de música se espalhou. Como há menos gente pagando por música, é de se supor que tenham subido os ingressos, numa tentativa de assimilar a receita perdida com a velha venda de CDs.

Mas será que foi mesmo o que aconteceu? Esta é provavelmente uma questão para o colega Edmundo Leite responder!

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No romance Drácula, de Bram Stoker, a personagem Lucy Westerna se vê cortejada por três pretendentes: Arthur Holmwood, Quincy P. Morris e John Seward.

Ela faz algum drama sobre como é difícil decidir entre eles, mas levando-se em conta que Holmwood é um herdeiro milionário, Morris um caubói do Texas e Seward, um psiquiatra que mora num hospício cheio de maníacos violentos, a escolha final não é nada surpreendente: a senhorita Westenra fica com o mais rico.

Depois o vampiro chega e complica um pouco as coisas, mas isso não vem ao caso. O fato é que nem todas as damas que se veem disputadas por mais de um cavalheiro têm diante de si uma situação tão clara quanto a de Lucy. E é improvável que, mesmo com os recentes dados do Censo — segundo os quais há 3,9 milhões de mulheres a mais que homens no Brasil — esse tipo de situação venha a sumir.

Soluções românticas para o problema abundam nas revistas femininas. Aqui vou sugerir uma saída matemática.

Suponha que a dama em questão tenha dez pretendentes, sendo que nenhum deles apresente uma clara vantagem (seja o único herdeiro de um rico lorde inglês) ou desvantagem (more num manicômio judiciário ao lado da cripta do vampiro) em relação aos demais. Como proceder?

Se ela aceitar  o primeiro que formalizar a proposta, sua chance de estar optando pelo melhor de todos será 1/10, ou 10%; se esperar para ficar com o último, novamente sua chance de acabar ao lado do melhor do lote será 10%.

Mas deve existir um momento, ao longo da fila de propostas, onde a probabilidade de acertar dizendo “sim” supere a de acertar esperando mais um pouco. É como se a chance de pegar o melhor candidato fosse descrita por uma curva que começa em 10%, sobe até uma zona máxima desconhecida e depois volta a cair a 10%.

A melhor estratégia parece ser, então, descartar um certo número s de pretendentes, até que a probabilidade de acertar cresça o bastante, e então pegar o primeiro que seja melhor do que todos os que vieram antes.

A determinação do ponto s é importante. Se s for muito pequeno, a escolha será feita num momento em que a chance de o melhor pretendente ainda estar mais para o fim da fila é alta; se for muito grande, haverá um risco considerável de o melhor já ter ficado para trás.

Felizmente, existe uma fórmula matemática pronta para determinar o melhor ponto s, para qualquer número n de pretendentes. Infelizmente, ela é um pouco complicada demais para que eu apresente a dedução aqui.

O resultado geral, no entanto, é o seguinte: deixe passar os primeiros 37% e escolha o melhor que surgir em seguida. No caso com dez candidatos, descarte os quatro iniciais e pegue o primeiro que seja melhor que qualquer membro do quarteto original.

Para quem estiver curioso em saber de onde raios vêm esses 37%: 0,37 é um valor aproximado para 1/e, onde e simboliza a entidade conhecida como constante de Napier, número de Euler ou base dos logaritmos naturais.

Trata-se de um número irracional e transcedental, cuja expansão decimal começa com 2,7182818284590452353602874713526624977572470936999595749669… e assim por diante. É um dos números mais importantes do Universo, ao lado de π, i, 0 e 1 (que se relacionam entre si por meio de uma fórmula fantástica, aliás).

E por que e é importante? Existem algumas dúzias de livros que exploram a questão, mas um dos motivos é que se trata de uma constante que costuma aparecer quando cientistas ou engenheiros tentam equacionar processos onde um dado recurso é consumido de forma proporcional à sua quantidade inicial.

Naves espaciais funcionam assim: quanto mais combustível o foguete carrega, mais combustível ela precisa queimar — para deslocar o peso do combustível. É por isso que os foguetes largam os estágios gastos para trás.

Como se fossem, digamos, pretendentes descartados.

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Com o anúncio de que o maior mamífero terrestre da pré-história foi o Indricotherium, de 17 toneladas e 5,5 metros, o primata King Kong (Megaprimatus kong), cuja altura varia de um mínimo de 6 a um máximo de 18 metros — dependendo do filme e da cena — e cujo peso estimaremos abaixo, mantém a coroa de  maior mamífero de terra firme de todos os tempos.

(Existe o pequeno detalhe de que Kong é uma criatura ficcional, criada por Merrian C. Cooper para o filme de 1933, mas nunca deixo esse tipo de minúcia me incomodar às sextas-feiras).

O tamanho dos animais reais e ficcionais é tema de um ensaio clássico do biólogo JBS Haldane, que qualquer pessoa que se interesse por ciência em geral — e por um bom texto sobre ciência, em particular —  deveria conhecer de cor. Ele aparece em inúmeras antologias, a mais recente provavelmente sendo The Oxford Book of Modern Science Writing, e pode ser lido aqui.

O primeiro ponto que Haldane apresenta no ensaio é o de que, quando se multiplicam os medidas lineares de um ser vivo — com 6 metros de altura, Kong é três vezes maior que um gorila ordinário — as áreas de seu corpo são multiplicadas pelo mesmo fator ao quadrado (no caso de Kong, por nove), e os  volumes, pelo fator ao cubo (27, no rei-primata da Ilha da Caveira).

Isso tudo pode parecer muito acadêmico até que nos damos conta de que a massa — e por tabela, o peso — do bicho varia junto com o volume (já que a densidade dos materiais de que o corpo é feito se mantém constante), e que a capacidade  do animal de suportar o próprio peso segue a área da seção transversal de ossos e músculos.

Resumindo: Kong é 27 vezes mais pesado  que um gorila africano comum, mas apenas nove vezes mais forte. Um gorila africano macho pesa, em média, 200 kg. Então, Kong pesa assustadoras 5,4 toneladas, com uma estrutura óssea e muscular que estaria confortável deslocando, no máximo, 1,8 tonelada.

Há ainda a questão da temperatura: o corpo gera calor de forma proporcional ao volume, mas só consegue dissipá-lo de modo proporcional à área.

No clima úmido-tropical da Ilha da Caveira, isso deveria bastar para deixar Kong prostrado. Nesse aspecto, ao menos — abstraindo, claro, a presença de Fay Wray/Jessica Lange/Naomi Watts–  Nova York deve ter lhe parecido muito mais agradável.

Enfim, o corpo do Megaprimatus kong deve se submeter a pressões enormes apenas para caminhar; talvez respirar já seja até um pouco demais. Não admira que ele grite o tempo todo e, no geral, demonstre tanto mau humor. Também não surpreende que a espécie tenha sido extinta.

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Você já deve ter visto (ou mesmo feito) isso: dada uma questão que admite apenas duas respostas possíveis — “menino ou menina?”, “ela me ama?” e “devo sair do emprego?” são fórmulas clássicas –, pega-se um pequeno objeto pesado (pode ser um anel, um chumbinho de pesca, uma pedra) amarrado à ponta de um fio, barbante ou corrente. Segura-se o tal barbante, etc., de forma que o objeto fique suspenso, seu peso mantendo o fio esticado. E espera-se.

Depois de algum tempo — geralmente não muito — o objeto vai começar a se mover. Ele pode oscilar para frente e para trás ou para a direita e para a esquerda, ou ainda girar, no sentido horário ou anti-horário. Antes de começar o exercício, você deve ter adotado uma convenção para distinguir os sinais: por exemplo, “frente-atrás” é “sim”, “esquerda-direita” é “não”, ou vice-versa.

O que está acontecendo? O objeto parece se mover por conta própria! Seria magnetismo animal, ondas gravitacionais, transmissão de fluidos etéreos, a detecção de táquions trazendo informação do futuro? Uma pista sobre a verdadeira fonte do movimento pode ser obtida com um experimento simples: feche os olhos, respire fundo e relaxe. Isso. Relaxe. Agora, abra os olhos (se você estava de olhos fechados, não há como ter lido esta instrução, claro. Ela está aqui apenas para efeito retórico).

O movimento parou.

O “pêndulo explorador” é um exemplo do chamado efeito ideomotor, uma reação involuntária e inconsciente dos músculos em resposta aos pensamentos da pessoa. Muita gente acha essa definição estranha — como uma reação aos pensamentos pode ser inconsciente? — mas se você se lembrar de como sua expressão facial costuma trair suas emoções, a coisa se torna autoevidente. E, afinal, para corar ou chorar de forma consciente e voluntária, geralmente é preciso ser um ator.

O fenômeno também é um exemplo de como uma questão pode continuar a ser tratada como algo místico e misterioso quase dois séculos depois de o caso ter sido satisfatoriamente encerrado pela ciência — ou, como não basta um fato sólido para matar mil superstições vaporosas. Senão, vejamos.

A expressão “efeito ideomotor” foi usada  para descrever esse tipo de ocorrência,  pela primeira vez, na década de 1850. E mais de vinte anos antes, o aparente poder oracular dos pêndulos já havia sido analisado, por meio de experimentos detalhados, pelo químico francês Michel Eugène Chevreuil, que descreveu suas conclusões numa carta a Ampère — o mesmo sujeito que iria dar nome à unidade de corrente elétrica — de 1833.

Na época de Chevreuil, a ideia era de que o pêndulo reagia de modo diferente a diferentes substâncias, movendo-se de uma forma sobre ouro e de outra sobre mercúrio, por exemplo.

O químico primeiro testou  se um obstáculo entre o pêndulo e a substância a ser detectada faria o oráculo parar. E —  mirabili dictu! — foi o que aconteceu. Em seguida, no entanto, Chevreuil sofisticou o procedimento, vendando os olhos e fazendo com que o obstáculo fosse colocado ou removido sem tomar conhecimento do que ocorria.

Resultado: o pêndulo reagia ao que o cientista acreditava que estava acontecendo, e não aos fatos reais. Escreveu Chevreuil, em 1833:

“Esta é a interpretação que dou a estes fenômenos: quando segurei o pêndulo em minha mão, um movimento muscular de meu braço, embora imperceptível para mim, moveu o pêndulo (…) uma vez que as oscilações começaram, elas logo foram aumentadas pela influência exercida pela visão (…) Esse movimento muscular, mesmo ampliado dessa forma, é fraco o bastante para parar, não direi pelo comando da vontade, mas apenas pelo pensamento de ver se isso ou aquilo vai detê-lo.”

Experimentos realizados de lá para cá também demonstraram que o efeito ideomotor está por trás de outros “fenômenos misteriosos”, como o uso de forquilhas e varas para encontrar água ou a famigerada “brincadeira do copo” que tanto assusta as crianças (ou assustava, no meu tempo).

Ah, sim: se você entrou nesta postagem procurando o conto de Edgar Allan Poe, ele pode ser encontrado aqui, em inglês.

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22.novembro.2010 13:02:38

Perlman e McCartney

Com todo mundo (compreensivelmente) falando sobre o show de Paul McCartney em São Paulo, fico quase acanhado em dizer que  o único efeito que a apresentação do ex-Beatle teve sobre a minha noite de domingo foi me fazer esperar quase meia-hora para conseguir um táxi do lado de fora da Sala São Paulo, onde eu havia assistido a um concerto de violino e piano estrelado por Itzhak Perlman.

Perlman é um dos maiores violinistas do século passado; segue sendo um dos maiores deste. Sem entrar em discussões estéreis sobre o erudito e o popular (como já dizia o Eclesiastes, há um tempo para tudo — incluindo violino e guitarra ), não consigo resistir a uma comparação, não entre as músicas, mas entre os eventos.

A presença de Paul McCartney simplesmente dominou São Paulo. Na banca de camisetas da feira de domingo de um shopping da Avenida Paulista, as pilhas eram P, M, G e Beatles.  Perlman, que eu saiba, deu uma entrevista ao Estado de sábado, e só.

E a escala dos espetáculos: a Sala São Paulo não é, obviamente, o Morumbi. O que tem a vantagem de filas muito menores, mas não só. Com todo o público sentado a poucas fileiras de onde Perlman apresentava seu virtuosismo, não era difícil ter uma consciência muito direta, uma experiência palpável, da presença de um gênio entre nós.

No caso de McCartney, essa presença passa por uma série de mediações — amplificadores, telão — que tanto diluem quanto  reforçam a experiência.

Mas talvez a maior diferença esteja na divisão muito clara, no caso do concerto, entre os papéis do artista e do público na construção do espetáculo.

Perlman, durante copncerto na Casa Branca

Desfrutar de uma sonata de Beethoven para violino e piano é algo que se faz imóvel, sentado, talvez até de olhos fechados — uma experiência radicalmente individual. Se não houvesse mais ninguém na sala, praticamente não faria diferença.

Confesso que as longas sessões de aplauso quase chegaram a me irritar: não porque Perlman não merecesse cada bater de palmas, mas porque eu estava ali para ouvi-lo tocar, e cada minuto de aplauso era um minuto a menos de música!

No show de McCartney o público é, obviamente, parte do espetáculo. Está contabilizado no design do evento. Espera-se que as pessoas aplaudam e cantem junto.

De novo, nenhum juízo de valor aqui: há a hora de ouvir em silêncio reverente, e há a hora de cantar até perder a voz.

Você talvez se pergunte o que esta crônica mal ajambrada está fazendo num blog sobre ciência. Confesso que o objetivo original era escrever algo sobre os efeitos da música no cérebro, mas desisti (por enquanto — devo voltar ao tema um dia). Fica apenas o registro de que, na noite de Paul McCartney, Itzhak Perlman também esteve aqui — e se apresenta ainda nesta segunda e terça.

Amanhã, voltamos à programação normal.

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Minha primeira reação à notícia de que astrônomos acreditavam ter encontrado um buraco negro de 30 anos foi pensar: “Caraca, um fenômeno astrofísico que é mais novo do que eu”.

Está certo que  já me acostumei a ter colegas de trabalho que eram recém-nascidos quando eu estava entrando na faculdade — gente que me olha com um misto de espanto e comiseração quando faço reminiscências de uma infância sem computadores ou videogames, movida a gibis da Ebal e vivida durante o governo Geisel. No entanto, a ideia de que um fenômeno astrofísico pode ser mais novo que eu abriu toda uma nova dimensão de sentimentos jurássicos.

Mas aí me bateu o paradoxo da coisa: como assim, 30 anos? A que distância esse cara fica?

Galáxia M100, que abriga o novo buraco negro

Mergulhando no website do Telescópio de Raios X Chandra,  descobri que o tal buraco negro está (ou parece estar; os sinais de sua presença comportam explicações alternativas) na galáxia M100, a 50 milhões de anos-luz. O que quer dizer que a luz e a radiação que avisaram os astrônomos de que ele existe passou 50 milhões de anos a caminho a Terra. E, portanto, ele não tem 30 anos, e sim 50 milhões e 30!

O que, confesso, trouxe um certo alívio.

Os cientistas, no entanto, estão certos ao afirmar que o que observam é um fenômeno de 30 anos. A luz que partiu de lá, da galáxia M100, há 50 milhões de anos, registra as características de um evento cósmico com três décadas de existência. É como receber uma foto do seu bisavô, ainda bebê, pelo correio: a imagem pode ter anos e anos, mas retrata uma criança.

É o mesmo efeito que permite que o Hubble faça imagens das primeiras galáxias surgidas após o Big Bang. A luz emitida por elas passou 13 bilhões de anos em trânsito até chegar aqui.

O fato de a velocidade da luz no vácuo ser um limite absoluto para a transferência de  informação no Universo — salvo buracos de minhoca, atalhos pelo hiperespaço ou outras ocorrências altamente hipotéticas — faz com que o tempo seja relativo. Diferentes observadores, movendo-se a diferentes velocidades, vão discordar quanto ao horário exato de um determinado fenômeno.

Mas esse mesmo limite para a velocidade da luz que relativiza o tempo faz com que o passado se torne algo muito concreto: qualquer evento que venhamos a conhecer tem de ter acontecido há algum tempo, que é o tempo necessário para que sua luz chegue até nós.

O fato de a luz ser tão rápida torna essa distinção irrelevante na escala do dia-a-dia, mas não deixa de ser um experimento filosófico interessante tentar encarar as coisas assim por algum tempo: tudo o que você acha que está acontecendo agora — o passarinho que passa voando pela janela, a criança brincando no chão, você lendo este blog — na verdade já aconteceu algumas frações de segundo atrás.

Tudo o que você está vendo não está mais lá.

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O título desta postagem é uma tradução do de um artigo recente do neurologista americano Steven Novella, da Universidade Yale, que mantém o blog NeuroLogica e é um dos editores do blog Science-Based Medicine. Infelizmente, o artigo a que me refiro ainda não está online, tendo sido publicado na edição mais recente da revista em papel Skeptical Inquirer.

Por uma  curiosa coincidência, cheguei ao texto de Novella na revista mais ou menos ao mesmo tempo em que a discussão na postagem anterior, sobre as tais pulserinhas do equilíbrio, entrava — talvez inevitavelmente, dado o tema — na questão do “efeito placebo”.

Novella apresenta uma definição operacional de efeito placebo. Definições operacionais estão na ciência pelo menos desde que Albert Einstein definiu tempo como “aquilo que medimos com um relógio” e espaço como “aquilo que medimos com uma régua”. É uma forma de esvaziar um conceito de suas pretensões, digamos, metafísicas, reduzindo-o a uma medida quantitativa que pode ser comparada objetivamente a outras.

Definido operacionalmente, o “efeito placebo” é “o efeito de tratamento medido no ramo placebo de um teste clínico, que inclui os sujeitos que receberam tratamento falso ou inerte”. Num estudo bem planejado, deve se encaixar nessa categoria “tudo que não for uma reação fisiológica ao tratamento biologicamente ativo”.

Definido dessa forma, então, “efeito placebo” não é o poder da sugestão, do pensamento positivo, etc., mas a soma de todos os efeitos não causados pelo tratamento em si. Novella faz questão de destacar que muitos desses efeitos não são nada mais que ilusões ou erros.

Entre as causas de uma ilusão de melhora está a chamada regressão para a média: “Para qualquer sintoma variável, períodos de tempo em que os sintomas estão muito ruins provavelmente, por puro acaso, serão seguidos por um retorno a sintomas médios”, escreve ele.

Entre as causas de erro estão as expectativas tanto do paciente quanto do responsável pelo teste — ambos têm um forte investimento emocional na crença de que há valor no tratamento sendo testado, e podem, inconscientemente, acabar dando uma forcinha espúria aos fatos, enviesando seus relatos.

Novella menciona ainda o “efeito observador” — o simples fato de uma pessoa saber que sua saúde está sendo monitorada por médicos e cientistas tende a fazê-la ser mais cuidadosa e a tomar decisões mais saudáveis de estilo de vida — e o “efeito torcida”: as pessoas tendem a se esforçar mais e a ser mais otimistas quando recebem encorajamento.

E por fim vem o que se chama, em linguagem coloquial, de “efeito placebo”: o efeito fisiológico do ritual do tratamento, que é causado pelo apoio emocional e pelo relaxamento do paciente que acredita que está sendo tratado.

Novella, no entanto, afirma que essa fração do resultado é muito pequena. “O efeito placebo pode consistir, em sua maior parte ou inteiramente, de ilusões e erros”, escreve.

Ele cita uma revisão de “efeitos placebo” constatados em vários testes clínicos feita por dois pesquisadores da Dinamarca, chamada Placebo interventions for all clinical conditions, e que diz, em sua conclusão:

“Não descobrimos que intervenções de placebo tenham efeitos clínios importantes em geral. No entanto, em certas condições intervenções com placebo podem influenciar os resultados informados pelos pacientes, especialmente em dor e náusea, embora seja difícil distinguir os efeitos do placebo informados pelo paciente de relatos enviesados.”

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Recebi uma sugestão de escrever algo a respeito das pulseiras Power Balance, que vêm com um holograma e que teriam algumas propriedades “quânticas” ou “energéticas” que ajudariam o corpo do usuário a desenvolver mais resistência e equilíbrio.

O assunto, no entanto, já foi muito bem tratado pelo Ceticismo Aberto, pela Vejinha e até pelo Fantástico, entre outros.

Resumindo: não há nenhuma base para as alegações de que a pulseira ajuda a manter o equilíbrio ou aumenta a resistência física (até a Anvisa andou reclamando da propaganda do produto). O holograma que aparece na pulseira é do mesmo tipo que existe nos cartões de crédito. Testes científicos cuidadosos, como um realizado na Espanha, mostram que não há efeito algum sobre o equilíbrio.

Toda a argumentação científica, no entanto, talvez não seja suficiente para convencer algumas pessoas, diante do grande número de testemunhos favoráveis dados por atletas e celebridades a respeito dos efeitos maravilhosos da pulseira, e dos vários vídeos de testes em que uma pessoa, com os braços esticados, é facilmente desequilibrada quando está sem o adereço, e se mantém firme como uma rocha quando o utiliza.

O teste me lembrou um truque descrito no livro Secrets of the Amazing Kreskin, escrito por George Joseph Kresge, que teve o nome mudado legalmente para The Amazing (“O Espantoso”) Kreskin. Ele é um mágico mentalista — isto é, especializado em truques que simulam feitos como telepatia, clarividência, hipnose, como na série de TV The Mentalist.

Kreskin, em uma antiga foto publicitária

Em seu livro, escrito num tom de autoajuda, Kreskin descreve algumas técnicas que usa para preparar seus truques e, mais especificamente, como é importante sugestionar corretamente os voluntários que sobem ao palco para contracenar com ele. Resistência física e equilíbrio, escreve o mágico, são especialmente suscetíveis à sugestão.

Mas eu estava falando de um truque específico, muito parecido com os testes da pulseira.

Nele, Kreskin estica um braço para o lado, e pede  a um voluntário que tente movê-lo como se fosse uma alavanca, para cima e para baixo. O braço se move facilmente. Ele então anuncia que vai usar seus poderes para congelar o braço no lugar, e pede ao voluntário que tente outra vez. Não importa o quanto o participante se esforce, o braço se mantém rígido e em posição.

Parte do truque depende da mecânica exata da forma como o braço é manipulado pelo voluntário, mas o mais importante, segundo Kreskin, é a criação “da imagem de que o braço está pregado no lugar”. “Visualize uma viga de aço contínua, sólida, inflexível, curvada em ângulo reto para dar forma ao braço estendido, ombro e lateral do corpo”, escreve o mágico. “Ela é tão incapaz de ceder quanto um bloco de granito”.

Claro, o efeito não pode ser mantido indefinidamente, mas dura o bastante para impressionar a plateia.

Dando um exemplo um pouco mais científico do poder da sugestão: em 2003, um estudo realizado na Nova Zelândia deu a cada um dos membros de um grupo de pessoas um copo de água tônica — mas metade dos participantes acreditava que havia vodca misturada ao refrigerante. Depois, todos assistiram a um filme. Os que pensavam que haviam bebido vodca tinham uma lembrança mais distorcida do filme do que os que pensavam que só haviam tomado tônica. E não só mais distorcida, como também se sentiam muito mais confiantes de que suas lembranças erradas estavam certas — típicos bêbados chatos.

Como escreve o psicólogo americano Benjamin Radford, “não se trata de controle da mente sobre a realidade, mas de controle da mente sobre a percepção”.

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Seus genes têm algo a dizer sobre suas preferências políticas? Uma série de estudos realizada ao longo dos últimos cinco anos — a partir do clássico Are Political Orientations Genetically Transmited?, que analisou pares de gêmeos — sugere que sim.

Os autores do mais recente, publicado no Journal of Politics da Universidade de Cambridge, acreditam ter identificado, pela primeira vez, uma interação específica, entre gene e ambiente, que leva as pessoas a serem mais liberais.

(“Liberal”, aqui, é usado no contexto do espectro de opiniões sociais que vai de liberal a conservador — digamos, de totalmente a  favor de que casais gays possam se casar até mesmo na igreja a totalmente contra qualquer sugestão de reconhecimento de uniões civis homossexuais — e não no sentido mais estrito de liberalismo econômico)

Os pesquisadores, da Universidade da Califórnia em San Diego e Harvard, dizem ter encontrado uma forte correlação entre um receptor de dopamina do cérebro, um determinado tipo de experiência de vida e o liberalismo político. O receptor, sem a experiência, não correlaciona com liberalismo; a experiência, sem o receptor, também não.

Esmiuçando: dopamina é um neurotransmissor, uma molécula que atua no cérebro. Sabe-se que ela afeta, entre outras coisas, a experiência de prazer e dor.  O receptor é a molécula do neurônio que é sensível à presença do neurotransmissor.

No estudo, a correlação foi encontrada entre a presença — determinada geneticamente — de uma versão do receptor de dopamina, o DRD4-7R, o número de amigos que a pessoa teve na adolescência e a opinião política que desenvolveu na vida adulta.

Das 2.000 pessoas que tiveram dados analisados pelos autores do trabalho, as com o DRD4-7R e muitos amigos na juventude mostraram-se mais liberais, na idade adulta, que as com DRD4-7R e com poucos amigos; e que as sem DRD4-7R  mas com muitos amigos.

Estudos anteriores haviam indicado que portadores do DRD4-7R são pessoas com mais tendência a buscar e apreciar novas experiências. Os autores sugerem que essa abertura,  associada a um amplo círculo de amizades que expõe o indivíduo a diferentes estilos de vida e pontos de vista, leva a uma visão mais liberal da sociedade.

Há um velho mantra da estatística que diz que “correlação não é causação”: o fato de duas coisas acontecerem juntas não implica necessariamente que uma é causa da outra. E este ainda é um primeiro estudo. É preciso ver se a correlação se mantém em trabalhos posteriores.

Mas suspeito que para muita gente a questão mais importante nem é saber se essa correlação se sustenta, e sim se faz sentido, ou se vale a pena, buscar esse tipo de correlação, para começo de conversa.

Os pesquisadores que seguem essa linha de investigação não se veem empreendendo uma tentativa de impor o “determinismo genético” à política, mas sim buscando moderar o “determinismo ambiental” reinante — a ideia de que suas opiniões políticas são ditadas pela sua classe social, pela igreja ou torcida organizada que você frequenta.

No fim, cada um de nós é um ponto de vista, construído por genes e experiências. Se uns ou outros fossem diferentes, seríamos outras pessoas.

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Sei que o assunto já envelheceu um pouco, mas a cada dia aparece uma outra pessoa sugerindo que eu comente algo a respeito da reportagem da TV Record sobre Bilu, o suposto “ET de Corguinho”.

A matéria está disponível no YouTube, assim como um vídeo-resposta feito pela comunidade ufológica que se sentiu ofendida pela produção.

Para quem, como eu, prefere ler ou ver DVDs no domingo à noite e entrou boiando na história, um resumo: no último dia 10, o Domingo Espetacular da Record apresentou uma matéria de cerca de 20 minutos sobre o Projeto Portal, uma comunidade mística-esotérica-ufológica encabeçada por Urandir Fernandes de Oliveira na cidade de Corguinho, no Mato Grosso do Sul.

Esse grupo já havia sido tema de reportagem do caderno Aliás, do Estado, há alguns meses.

O ponto alto da matéria televisiva foi a aparição fugaz de “Bilu”, um suposto extraterrestre fracamente vislumbrado em meio à escuridão e que se comunica numa voz fina, quase infantil, e numa gramática estilo “Mim-Tarzã-Tu-Jane”.

Embora o nome “Bilu” de certa forma deponha a favor da autenticidade da criatura — por que todo ET teria se se chamar Darth Vader, Klaatu, Mar-Vell ou Bashelbazaar? — perito ouvido pela reportagem da Record concluiu que se tratava de um sujeito usando um capacete com duas lâmpadas presas na testa, o que me parece uma explicação muito mais econômica e perfeitamente capaz de dar conta dos mesmos fatos.

Enquanto assistia ao vídeo na internet, no entanto, o que me veio à mente não foram os filmes Contatos Imediatos do Terceiro Grau ou 2012 — ambos citados na matéria — mas o grande charlatão da era de ouro da fraude espiritualista do século 19, D.D. Home.

Diz a lenda que Home nunca foi pego cometendo fraude de forma tão flagrante como outra estrela da época, Eusapia Paladino. Mas, como pondera Martin Gardner,  ”depende do que você quer dizer com ‘pego’ “. Há pelo menos um caso em que ele foi visto pondo o pé de volta no sapato, debaixo da mesa, depois de uma mulher dizer ter sido tocada por um espírito.

Home, Paladino e outros dos falsificadores razoavelmente bem-sucedidos de fenômenos paranormais dos anos 1800s e início dos 1900s sempre insistiam em duas condições para realizar seus feitos, e só eram capazes de mostrar a plenitude de seus poderes, incluindo levitação e o “aporte” de objetos do mundo espiritual,  quando essas condições eram obtidas: escuridão total ou quase total e a ausência de descrença. Trevas e uma atitude mental positiva da plateia eram requisitos fundamentais.

Esses dois requisitos também têm grande destaque na reportagem da Record. Diversas vezes vemos os jornalistas sendo admoestados para apagar a luz ou reduzir a iluminação, e Urandir insiste que a presença do extraterrestre “depende da energia gerada pelo grupo”.

Claro que esse coincidência, digamos, metodológica entre o charlatanismo vitoriano e o contato extraterrestre brasileiro pode ser só isso, uma coincidência. Mas não pude evitar que, em minha mente, a imagem dos salões londrinos do fim do século 19 sobrepusesse-se à do interior sul-matogrossense do início do 21.

Concepção artística de uma levitação de Home

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