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Carlos Orsi

01.dezembro.2010 08:21:48

A verdadeira lua negra

A foto acima, feita pela sonda europeia Mars Express, mostra Fobos (“Medo”, em grego), uma das duas luas de Marte, com a superfície do planeta ao fundo. A outra lua é Deimos (“Terror”).

O fato de a lua aparecer como uma mancha negra de encontro ao planeta não é um acidente óptico:  Fobos é — algo que combina bem com seu nome — a lua mais escura do Sistema Solar.

Uma teoria sobre sua origem propõe que  ela seja, na verdade, um asteroide capturado pela gravidade marciana. Um fato confirmado é que Fobos está caindo, e deve colidir com Marte daqui a 50 milhões de anos.

A Rússia está capitaneando uma missão para recolher amostras da superfície de Fobos, que deveria ter partido em 2009 mas foi adiada e que deve ser lançada em novembro do ano que vem.

A sonda russa levará, de carona, a primeira sonda marciana da China, além do experimento “Life”, da organização Planetary Society, que estudará como seres vivos da Terra se viram no espaço durante uma viagem a Marte. A cápsula Life transportará amostras de bactérias e até da planta Arabidopsis thaliana, um clássico organismo-modelo.

Fobos também é lar de uma enorme cratera, Stickney, batizada em homenagem à matemática, ativista política e abolicionista americana Angeline Stickney Hall, mulher do descobridor de Fobos, Asaph Hall. Medindo 9 km de diâmetro, a cratera ocupa uma boa proporção da superfície da lua, que tem 22 km de diâmetro ao todo.

A foto abaixo é um close-up de Stickney, feito pela sonda americana MRO:

A “cratera dentro da cratera” chama-se Limtoc, nome de um personagem das Viagens de Gulliver. Nesse livro de Jonathan Swift, publicado em 1726, os astrônomos da ilha Laputa dizem ter descoberto duas luas em Marte. Fobos e Deimos foram realmente descobertas na década de 1870 por Asaph Hall.

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Minha primeira reação à notícia de que astrônomos acreditavam ter encontrado um buraco negro de 30 anos foi pensar: “Caraca, um fenômeno astrofísico que é mais novo do que eu”.

Está certo que  já me acostumei a ter colegas de trabalho que eram recém-nascidos quando eu estava entrando na faculdade — gente que me olha com um misto de espanto e comiseração quando faço reminiscências de uma infância sem computadores ou videogames, movida a gibis da Ebal e vivida durante o governo Geisel. No entanto, a ideia de que um fenômeno astrofísico pode ser mais novo que eu abriu toda uma nova dimensão de sentimentos jurássicos.

Mas aí me bateu o paradoxo da coisa: como assim, 30 anos? A que distância esse cara fica?

Galáxia M100, que abriga o novo buraco negro

Mergulhando no website do Telescópio de Raios X Chandra,  descobri que o tal buraco negro está (ou parece estar; os sinais de sua presença comportam explicações alternativas) na galáxia M100, a 50 milhões de anos-luz. O que quer dizer que a luz e a radiação que avisaram os astrônomos de que ele existe passou 50 milhões de anos a caminho a Terra. E, portanto, ele não tem 30 anos, e sim 50 milhões e 30!

O que, confesso, trouxe um certo alívio.

Os cientistas, no entanto, estão certos ao afirmar que o que observam é um fenômeno de 30 anos. A luz que partiu de lá, da galáxia M100, há 50 milhões de anos, registra as características de um evento cósmico com três décadas de existência. É como receber uma foto do seu bisavô, ainda bebê, pelo correio: a imagem pode ter anos e anos, mas retrata uma criança.

É o mesmo efeito que permite que o Hubble faça imagens das primeiras galáxias surgidas após o Big Bang. A luz emitida por elas passou 13 bilhões de anos em trânsito até chegar aqui.

O fato de a velocidade da luz no vácuo ser um limite absoluto para a transferência de  informação no Universo — salvo buracos de minhoca, atalhos pelo hiperespaço ou outras ocorrências altamente hipotéticas — faz com que o tempo seja relativo. Diferentes observadores, movendo-se a diferentes velocidades, vão discordar quanto ao horário exato de um determinado fenômeno.

Mas esse mesmo limite para a velocidade da luz que relativiza o tempo faz com que o passado se torne algo muito concreto: qualquer evento que venhamos a conhecer tem de ter acontecido há algum tempo, que é o tempo necessário para que sua luz chegue até nós.

O fato de a luz ser tão rápida torna essa distinção irrelevante na escala do dia-a-dia, mas não deixa de ser um experimento filosófico interessante tentar encarar as coisas assim por algum tempo: tudo o que você acha que está acontecendo agora — o passarinho que passa voando pela janela, a criança brincando no chão, você lendo este blog — na verdade já aconteceu algumas frações de segundo atrás.

Tudo o que você está vendo não está mais lá.

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Ninguém menos que o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, fez uma figuração durante a a apresentação das primeiras imagens enviadas à Terra pela mais recente sonda lunar chinesa, a Chang’e 2.

O premiê chines com um pôster da Lua

E, como anunciado no lançamento, feito no início de outubro, as imagens são de Sinus Iridium (“Bacia do Arco-Íris”), local de pouso previsto para o primeiro robô lunar chinês, Chang’e 3.

Detalhe de Sinus Iridium, em imagem enviada pela Chang'e 2

Infelizmente não sei traduzir as legendas em chinês, mas o site da agência oficial de notícias da China, a Xinhua, traz uma galeria de imagens feitas pela sonda, com legendas em inglês. Essa galeria pode ser acessada aqui.

Desde 2003, quando se tornou o terceiro país a desenvolver a tecnologia necessária para enviar um ser humano à órbita terrestre (depois de Rússia e EUA) o programa espacial chinês  vem avançando a passos largos.

A China pretende ter uma estação espacial própria dentro de dez anos — o primeiro módulo vai ao espaço no ano que vem — e talvez envie astronautas à Lua na década de 2020.

Dos chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) o Brasil é, de fato, o único a não ter um programa espacial de fôlego.

Projeção da cratera Coulomb, feita com imagens de sonda lunar indiana

A Índia, recentemente citada como candidata a uma vaga permanente no Conselho de segurança da ONU, também tem um programa de exploração lunar bem-sucedido, o Chandrayaan. E a Rússia é, claro, além de herdeira dos sucessos da União Soviética, o principal esteio da Estação Espacial Internacional, que depende dos cargueiros russos Progress e das cápsulas tripuladas Soyuz para se manter.

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08.novembro.2010 17:33:21

Que tal sobrevoar Marte?

A sonda MRO, da Nasa, está em órbita de marte desde 2006. Além de funcionar como retransmissora de dados para os robôs que trabalham na superfície do planeta vermelho, a MRO é o lar da HiRise – sigla em inglês para Experimento Científico de Imagens de Alta Resolução.

A HiRise já mandou para a Terra algumas paisagens marcianas de tirar o fôlego (por exemplo, esta superfície próxima ao polo norte):

Com a tecnologia digital, é possível colorir as imagens, gerando uma visão muito próxima do que um olho humano encontraria ao sobrevoar o planeta – como no caso dessas depressões que parecem fluir da região mais elevada à esquerda:

Mas a utilidade dos processos digitais não para na colorização. As imagens podem ser usadas  para criar os chamados modelos digitais de terreno, DTMs, feitos a partir de pares de fotos de uma mesma área – o que traz um efeito tridimensional – associados aos dados do altímetro laser da MRO. 

O resultado codifica muita informação sobre a superfície, e geralmente é usado para a análise de processos geológicos e de detalhes da topografia. Segundo a Nasa,  praticamente todos os DTMs já levaram à elaboração de artigos científicos publicados.

Um exemplo de DTM é a imagem abaixo — as cores representam variações na altura do terreno, com depressões em tons frios e elevações em coloração quente:

Além de alimentar a literatura científica, os DTMs também podem ser bem divertidos. São a base de uma série de animações que simulam sobrevoos, em primeira pessoa, de pontos marcantes da paisagem  marciana. Há várias disponíveis no canal Mars3DdotCom do YouTube. Uma das mais recentes é a que você vê aqui:

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Se um asteroide parecido com o que caiu no México há 65 milhões de anos e causou a extinção dos dinossauros atingisse a cidade de São Paulo amanhã, o que aconteceria? A cratera aberta iria um pouco além de Campinas:

Se você estiver, digamos, no Rio de Janeiro, isso pode parecer uma boa notícia, mas nem tanto. Cerca de 12 segundos após o impacto, a bola de fogo gerada pela colisão chega ao Rio.

O brilho é mais de 100 vezes maior que o do Sol. A grama, as árvores, livros e jornais pegam fogo, bem como a roupa no corpo das pessoas, que sofrem queimaduras de terceiro grau. A bola de fogo é assim:

Se, em vez do Rio, você estiver no Recife, Pernambuco, a bola de fogo não será um problema, mas mesmo assim a destruição da capital paulista não passará despercebida.

Cerca de 7 minutos após o impacto, o chão treme um pouco — o suficiente para fazer cair quadros das paredes ou acordar pessoas que estejam dormindo. Os desdobramentos sísmicos serão, de fato, sentidos em boa parte do hemisfério, e até na África:

Mas o principal efeito para quem estiver na capital de Pernambuco será o vendaval. Uma hora e meia depois da vaporização de São Paulo, uma muralha de ar em alta pressão varrerá a cidade.

Prédios serão derrubados, janelas explodirão e árvores serão arrancadas do solo, tudo acompanhado por um estrondo de quase 100 decibéis. A bolha de ar do impacto será sentida até no Chile e na Bolívia:

Em Bogotá, o estrondo chega como um som comparável ao do trânsito pesado nas ruas da cidade, e o terremoto também se faz sentir. Mas talvez o efeito mais notável, a essa distância, seja a chuva das cinzas de São Paulo e do material lançado ao ar pelo choque: ela começa a cair sobre a capital da Colômbia cerca de 21 minutos após o impacto e se acumula no chão numa espessura de quase 2 centímetros. A distribuição global dos restos cremados da cidade é esta:

Isso pode soar um pouco humilhante, mas a destruição de São Paulo não causará mudanças perceptíveis no eixo ou no movimento da Terra.

O intervalo médio entre colisões do tipo, na história de nosso planeta, é estimado em 22 milhões de anos. Como o último conhecido foi há 36 milhões, talvez estejamos tendo um pouco mais de sorte do que os dinossauros.

Todas as informações desta postagem saíram do sistema Impact: Earth! criado por cientistas da Universidade Purdue, do Reino Unido, e que inclui a interface com o Google Earth da onde vieram os impressionantes mapinhas acima.

O Impact: Earth! é uma atualização do Impact Calculator desenvolvido na Universidade do Arizona anos atrás, e que sempre foi uma de minhas páginas favoritas na web.

Agora, é possível acessar não apenas a velha interface  do “calculator” — basicamente, uma página de texto com caixinhas para preencher com números como massa do asteroide, local do impacto, velocidade, etc — como também usar uma interface gráfica que oferece, de lambuja, os parâmetros de alguns impactos famosos, como o da extinção dos dinossauros e o de Tunguska, na Sibéria.

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Sempre que me perguntam isso, respondo com um pequeno desafio: “Qual você acha que é?” A maioria das pessoas não acerta logo na primeira, e quase todo mundo desiste de tentar se não obtém sucesso até o terceiro palpite, quando a chance de um acerto por pura sorte chega a 10%. Não faz diferença se quem pergunta é alguém que me conhece já há algum tempo, ou uma pessoa a quem acabo de ser apresentado.

Curiosamente, observo também um fenômeno oposto: quando tem bolo de aniversário na redação do Estado, não é raro alguém comentar: “Ah, Fulano é geminiano (ou escorpiano, ou ariano, ou qualquer que seja o signo do mês). Tinha de ser! Eu sabia!”

Temos um aparente paradoxo: num momento o sistema parece incapaz de associar corretamente o signo à pessoa; no outro, permite associações diretas e perfeitamente corretas. Como assim? A resposta — ainda mais óbvia que o signo do aniversariante da vez — é que no primeiro caso o que se esperava da astrologia era uma previsão; no segundo, o que se tem é meramente uma constatação a posteriori.

O que ocorre no episódio do aniversário é um fenômeno psicológico que nada tem a ver com os astros: dado o cardápio de características associadas ao signo e o fato de que a pessoa que faz anos pertence a esse signo, não é difícil focalizar nas concordâncias, ignorar as divergências e chegar a uma conclusão tão evidente — e tão válida — quanto uma previsão detalhada da manchete dos jornais de ontem.

Há tantas coisas erradas com a ideia de astrologia do ponto de vista estritamente físico — o fato de que as estrelas não estão onde as cartas astrológicas dizem; o fato de que não existe uma força natural capaz de transmitir as influências dos astros necessárias para tornar a astrologia válida; etc, etc — que esta postagem ficaria muito acima da média de 500 palavras que tento manter se fosse mencionar todas.

A interpretação mais caridosa que consigo oferecer para contornar essas dificuldades é a de que o uso de estrelas e planetas na astrologia é meramente simbólico. Que a astrologia lida na verdade com momentos, e que o céu estilizado usado nas cartas é, na verdade, um relógio, onde “estrelas” e “planetas” representam números e ponteiros. Mesmo essa versão simbólica tem problemas, já que a atribuição de significados aos signos e planetas ainda precisa ser justificada, mas que seja: o relógio astrológico funciona?

A resposta é não. Os dois gráficos abaixo foram retirados do website Astrology & Science:

Este representa os resultados cumulativos de uma série de testes em que se pediu a astrólogos que associassem cartas astrais ao perfil psicológico, biografia ou descrição das pessoas a quem as cartas pertenciam. A taxa de sucesso não foi melhor que a esperada por pura sorte — igual à que seria obtida se, digamos, perfis e cartas fossem jogados para o alto e associados com base no ponto do chão em que caíssem.

Este outro gráfico é o meu favorito: indica a capacidade dos astrólogos de concordar na interpretação de uma carta astral. Entrega-se uma mesma carta a alguns astrólogos e pede-se que descrevam a pessoa representada ali. De novo, o resultado é o esperado por pura sorte. Seria como se você levasse um mesmo exame de sangue a vários médicos e metade deles dissesse que seu colesterol está alto e a outra metade, que está baixo.

No entanto, astrólogos têm milhares (ou milhões) de clientes satisfeitos dispostos a jurar que a técnica funciona. Um estudo revelador a respeito disso foi descrito pelo britânico Geoffrey Dean em 1987.

Um grupo de entusiastas da astrologia recebeu interpretações de suas cartas astrais, sendo que a metade deles foi dada a interpretação correta dos aspectos planetários e, à outra metade, a interpretação inversa (por exemplo, um aspecto que normalmente indicaria cautela foi traduzido como impetuosidade). Os voluntários que receberam as cartas reversas mostraram um grau de identificação com o resultado tão grande quanto os que receberam cartas corretas.

Trata-se de um fenômeno feito em partes iguais de linguagem e psicologia. A parte “linguagem” entra no fato de que qualquer defeito pode ser descrito como qualidade e vice-versa (eu sou persistente, você é teimoso, ele é uma mula) e de que afirmações vagas podem soar específicas (“você tem um potencial que ainda não foi capaz de explorar como gostaria”, por exemplo, parece dizer algo muito importante e pessoal, mas na verdade se aplica a qualquer um).

A parte psicologia envolve seletividade –é mais fácil lembrar e ficar impressionado com os acertos do que contar os erros –, o desejo de acreditar, o desejo de participar (há pessoas que realmente curtem “representar o papel” do signo) e, graças aos usos da linguagem descritos acima, a facilidadede de projetar-se no que é dito.

Não tenho a esperança de que esta postagem vá fazer com que algum adepto da astrologia mude de ideia, mas talvez sirva de alerta para alguém que esteja começando a se impressionar com a coisa e não esteja obtendo acesso a material crítico (que é lamentavelmente escasso, em comparação à propaganda favorável).

E paro por aqui, porque já estourei bastante tais as 500 palavras…

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A notícia da surpreendente quantidade de água encontrada pela Lcross perto do polo sul da Lua chega dez meses depois de os planos para aproveitar essa água — como fonte de insumos para uma estação lunar — terem sido formalmente cancelados.

O Programa Constellation, que previa o retorno americano à Lua, já era um morto-vivo quando Obama anunciou o cancelamento. Tinha sido reduzido ao estado de zumbi pelo subfinanciamento dado durante o governo Bush.

Mais uma vez — como já havia acontecido com o Projeto Marte de Von Braun, com a Iniciativa de Exploração Espacial de Bush pai, com a Estação Espacial Freedom — repete-se o ciclo em que uma ideia passa de ficção científica  a projeto de governo só para virar, logo em seguida, estudo de história alternativa: o que poderia ter sido.

O Estadão impresso me pediu uma breve análise sobre o resultado da Lcross, que reproduzo abaixo:

Os resultados da missão Lcross, que descobriu que o fundo da cratera Cabeus, perto do polo sul da Lua, contém mais água que as areias do Saara, embora cientificamente importantes, têm um sabor de anticlímax: em 2009, a Lcross era vista como uma missão precursora para a instalação de uma base tripulada na Lua, meta estabelecida, no governo de George W. Bush, para a década de 2020.

A lógica da busca por água era exatamente a de encontrar um local onde astronautas pudessem usar o máximo de recursos locais, sem depender exclusivamente de dispendiosas remessas de material da Terra.

No início deste ano, o presidente Barack Obama cancelou o retorno à Lua. A motivação foi complexa, envolvendo questões logísticas e de orçamento, mas Obama não resistiu a usar uma frase de desdém: “Been there, done that” (“já fomos lá, já fizemos isso”).

Os dados da Lcross vêm mostrar que a Lua pode ser um lugar mais interessante do que o presidente supunha. Mas chegam tarde demais, ao menos para a geração atual.

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Que tal ir a Marte para nunca mais voltar? A ideia está num artigo assinado por Dirk Schulze-Makuch e Paul Davies (sim, aquele Paul Davies, autor de O Quinto MilagreO Enigma do Tempo, entre outros), lançado numa publicação online relativamente recente — está completando um ano agora — o Journal of Cosmology.

Aliás, toda a edição atual do Journal é dedicada à exploração de Marte. Outros artigos (que podem ser encontrados no link acima; uma descrição detalhada do trabalho de Schulze-Makuch e Davies aparece aqui) incluem perspectivas oferecidas pelos ex-astronautas do programa Apollo Edgar Mitchell — cuja ligação com pesquisas paranormais nos anos 70 talvez não sejam uma boa recomendação — e Harry Schmitt, que foi o único cientista a pisar na Lua.

A revista tem seções inteiras dedicadas à psicologia de uma viagem a Marte, artigos técnicos sobre detalhes da viagem e da construção de uma base e dois textos na categoria Sex on Mars. Radiation, Brain, Heart, Sexuality, Fertility, Pregnancy, Fetal Development, o que pode soar um pouco bizarro e rebuscado, mas se seres humanos forem até lá para ficar alguém vai ter de pensar nisso, certo?

Enfim, para quem estiver interessado em escrever um romance sobre os pioneiros da colonização de Marte, esta edição do Journal parece ser uma ótima fonte de pesquisa.

A ideia de mandar para o espaço pessoas que nunca mais pisarão na Terra  não é exatamente nova, mas ela costuma aparecer mais em propostas de exploração interestelar.

O motivo óbvio é o limite da velocidade da luz: a estrela mais próxima da Terra que talvez tenha um planeta que valeria a pena visitar é Epsilon Eridani, a 10 anos-luz daqui.

Numa nave que percorra o trajeto a 10% da velocidade da luz, a viagem duraria 100 anos. A dilatação do tempo causada pela relatividade não faria muita diferença, mesmo se essa velocidade absurdamente alta (algo como 100 milhões de km/h) fosse atingida, e com isso duas ou três gerações teriam de se suceder a bordo.

Em 2002, A Associação Americana para o Progresso da Ciência (a AAAS, que publica a revista Science) realizou um simpósio chamado Viagem Interestelar e Naves Espaciais de Múltiplas Gerações. Do simpósio saiu um livro do mesmo nome, que teve como um dos editores o falecido escritor de ficção científica Charles Sheffield.

Uma das ideias apresentadas envolve o uso de um sistema de velas solares para acelerar e desacelerar a nave, algo parecido com o que (pausa para o comercial) uso em meu romance juvenil Nômade (fim da pausa para o comercial).

Considerações de custo e motivação a parte, esse tipo de projeto sempre esbarra na questão de quem enviar, como garantir a estabilidade psicológica da tripulação e se é justo comprometer gerações inteiras no projeto — tudo bem que o seu avô foi voluntário para passar a vida trancado numa lata de sardinha rumo às estrelas, mas ninguém perguntou se você topava.

Mas essa última questão me parece meio falsa: ninguém nunca me perguntou também se eu concordava com a decisão de Giuseppe Orsi de vir para o Brasil, e eis-me aqui.

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Esta quinta-feira marca o auge das Orionídeas, uma chuva de meteoros que deve o nome ao fato de ter radiante — o ponto do céu da onde as estrelas cadentes parecem vir — na vizinhança da constelação de Órion.

Diferentemente das Perseidas, que causaram grande expectativa (e alguma frustração) entre os internautas brasileiros em agosto, as Orionídeas são bem visíveis no hemisfério sul.

Para ver os meteoros, a receita é pegar um bom agasalho (a temperatura mínima prevista para hoje e amanhã em São Paulo não passa dos 12º C) e um colchonete, tentar se afastar ao máximo da poluição luminosa das grandes cidades e, depois das 23h, que é quando Betelgeuse, a estrela alfa de Órion, aparece sobre o horizonte, deitar no chão e olhar para o alto do céu.

De acordo com o Fluxtimator da Nasa, nos arredores de São Paulo deve ser possível ver um número crescente de meteoros à medida que a noite entra na madrugada, chegando a seis por hora às 3 horas de sexta-feira. O pico deve acontecer um pouco antes das 6 da manhã de sexta, com mais de 24 meteoros/hora.

Quem quiser tentar a sorte de dentro da zona urbana pode conseguir algo como 1 meteoro por hora na madrugada, começando a partir da meia-noite.

As Orioníedas são causadas pela passagem periódica da Terra por uma nuvem de migalhas do cometa Halley. Quando esses grãos de poeira de cometa colidem com nossa atmosfera, eles se desintegram e produzem o efeito visual das estrelas cadentes.

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Já que o momento é de ressaca de feriado e entressafra eleitoral, vamos aproveitar para nos distrair com um pouco de conversa de boteco — ou, na verdade, um similar cosmologicamente razoável.

Há algum tempo, o leitor Eduardo Roberto deixou, nesta postagem, um link para um item do Arxiv Blog referente a um artigo que argumenta que o fim do Universo está próximo (se considerarmos 5 bilhões de anos algo “próximo”).

A ideia de um Universo  com limites — começo e fim — tem lá seu apelo: praticamente tudo em nossa experiência começa num momento e termina em outro (incluindo nossas vidas!). Então, se eu acabo, por que o Universo seria diferente?

Claro que generalizar demais a partir da experiência pode ser um erro — como o bebê, que se acostuma a ganhar carinho toda vez que dá um berro e esperneia, acaba aprendendo, em algum momento da dura jornada rumo à vida adulta. Generalizações só  ganham força se tiverem o apoio da lógica e de fatos externos à elaboração original.

Uma tentativa de concluir pela lógica que o Universo teve um início vai mais ou menos assim: se o Universo não teve um começo, então o passado é infinito; se o passado é infinito, então um tempo infinito precisa ter transcorrido para chegarmos aqui, ao presente. Como um tempo infinito não acaba nunca, o presente é impossível. Mas essa conclusão é absurda e, portanto, o passado não é infinito e o Universo teve um começo.

O argumento, no entanto, é furado: a possibilidade de o passado ser infinito não implica que ele contenha intervalos infinitos de tempo.

Se a ideia parece estranha, pense no conjunto dos números inteiros (…  -3,-2, -1, 0, 1, 2, 3 …), e imagine que a parte negativa da sequência corresponde aos instantes do passado.

Agora, está claro que, não importa quais os dois instantes que se escolha, entre eles sempre haverá um intervalo finito de tempo. Alguém ainda poderia insistir que a distância até a origem é infinita, mas o argumento é exatamente o de que a origem não existe. Então, por que estamos falando nela?

Mas se a lógica não ajuda, os fatos parecem indicar que o Universo teve, sim, um começo: há a evidência física do Big Bang, sob a forma do fundo cósmico de micro-ondas. Pode-se imaginar, no entanto, que a grande explosão tenha sido apenas um episódio numa história maior, e não um “início” em termos absolutos.

A ideia do fim, tal como defendida no artigo mencionado pelo Eduardo Roberto, parte de uma pressuposição lógica: se o Universo é infinito no tempo, então tudo que pode acontecer, acontece uma infinidade de vezes (ecos do Eterno Retorno de Nietzsche).

Só que, se tudo o que pode acontecer, acontece, então qual o sentido de se falar em probabilidades? Num tempo infinito, a chance de qualquer coisa é sempre 100%: mesmo que você não ganhe na Mega-Sena hoje, daqui a um infinitilhão de anos, quando os átomos que formam seu corpo, o planeta Terra e o bilhete de loteria se reencontrarem, talvez aí você ganhe. E, se não nessa vez, então numa outra, mais um infinitilhão de infinitilhões de anos adiante!

Agora, se o conceito de probabilidade não faz sentido, então as próprias leis da Física não fazem sentido. Mas as leis da Física funcionam. Portanto…

O argumento é interessante. Porém, tem problemas que não vou conseguir explorar a fundo aqui.  Mas menciono dois deles: primeiro, pressupõe uma ligação muito automática entre “funcionar” e “fazer sentido”; segundo, parte de uma generalização, talvez indevida, do próprio conceito de “fazer sentido”.

Se o apoio na lógica falha, então que tal o apoio nos fatos? Para isso, será preciso esperar mais um pouco…

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