ir para o conteúdo
 • 

Carlos Orsi

No romance Drácula, de Bram Stoker, a personagem Lucy Westerna se vê cortejada por três pretendentes: Arthur Holmwood, Quincy P. Morris e John Seward.

Ela faz algum drama sobre como é difícil decidir entre eles, mas levando-se em conta que Holmwood é um herdeiro milionário, Morris um caubói do Texas e Seward, um psiquiatra que mora num hospício cheio de maníacos violentos, a escolha final não é nada surpreendente: a senhorita Westenra fica com o mais rico.

Depois o vampiro chega e complica um pouco as coisas, mas isso não vem ao caso. O fato é que nem todas as damas que se veem disputadas por mais de um cavalheiro têm diante de si uma situação tão clara quanto a de Lucy. E é improvável que, mesmo com os recentes dados do Censo — segundo os quais há 3,9 milhões de mulheres a mais que homens no Brasil — esse tipo de situação venha a sumir.

Soluções românticas para o problema abundam nas revistas femininas. Aqui vou sugerir uma saída matemática.

Suponha que a dama em questão tenha dez pretendentes, sendo que nenhum deles apresente uma clara vantagem (seja o único herdeiro de um rico lorde inglês) ou desvantagem (more num manicômio judiciário ao lado da cripta do vampiro) em relação aos demais. Como proceder?

Se ela aceitar  o primeiro que formalizar a proposta, sua chance de estar optando pelo melhor de todos será 1/10, ou 10%; se esperar para ficar com o último, novamente sua chance de acabar ao lado do melhor do lote será 10%.

Mas deve existir um momento, ao longo da fila de propostas, onde a probabilidade de acertar dizendo “sim” supere a de acertar esperando mais um pouco. É como se a chance de pegar o melhor candidato fosse descrita por uma curva que começa em 10%, sobe até uma zona máxima desconhecida e depois volta a cair a 10%.

A melhor estratégia parece ser, então, descartar um certo número s de pretendentes, até que a probabilidade de acertar cresça o bastante, e então pegar o primeiro que seja melhor do que todos os que vieram antes.

A determinação do ponto s é importante. Se s for muito pequeno, a escolha será feita num momento em que a chance de o melhor pretendente ainda estar mais para o fim da fila é alta; se for muito grande, haverá um risco considerável de o melhor já ter ficado para trás.

Felizmente, existe uma fórmula matemática pronta para determinar o melhor ponto s, para qualquer número n de pretendentes. Infelizmente, ela é um pouco complicada demais para que eu apresente a dedução aqui.

O resultado geral, no entanto, é o seguinte: deixe passar os primeiros 37% e escolha o melhor que surgir em seguida. No caso com dez candidatos, descarte os quatro iniciais e pegue o primeiro que seja melhor que qualquer membro do quarteto original.

Para quem estiver curioso em saber de onde raios vêm esses 37%: 0,37 é um valor aproximado para 1/e, onde e simboliza a entidade conhecida como constante de Napier, número de Euler ou base dos logaritmos naturais.

Trata-se de um número irracional e transcedental, cuja expansão decimal começa com 2,7182818284590452353602874713526624977572470936999595749669… e assim por diante. É um dos números mais importantes do Universo, ao lado de π, i, 0 e 1 (que se relacionam entre si por meio de uma fórmula fantástica, aliás).

E por que e é importante? Existem algumas dúzias de livros que exploram a questão, mas um dos motivos é que se trata de uma constante que costuma aparecer quando cientistas ou engenheiros tentam equacionar processos onde um dado recurso é consumido de forma proporcional à sua quantidade inicial.

Naves espaciais funcionam assim: quanto mais combustível o foguete carrega, mais combustível ela precisa queimar — para deslocar o peso do combustível. É por isso que os foguetes largam os estágios gastos para trás.

Como se fossem, digamos, pretendentes descartados.

comentários (80) | comente

  • A + A -
29.novembro.2010 08:49:35

Construindo a percepção

Uma das frases mais enganosas do amplo vocabulário de clichês à disposição da raça humana é “vi com meus próprios olhos”. A afirmação implica uma espécie de correspondência perfeita e direta entre o que está diante dos olhos, o que o cérebro vê e aquilo que memória registra. Essa correspondência, no entanto, é muito mais tênue do que estamos dispostos a admitir no cotidiano.

A percepção humana é, na verdade, construída: além dos fótons que chegam à retina, o que chamamos de visão é formado também por memórias, crenças, expectativas. O cérebro está constantemente preenchendo lacunas e fazendo suposições a respeito do que temos diante de nós.

Um exemplo clássico disso é o fenômeno conhecido como “constância da cor”: mesmo quando a iluminação lançada sobre um objeto conhecido muda, temos a tendência de continuar a vê-lo em sua cor “correta”: uma maçã verde continua verde mesmo sob a luz amarela de uma lâmpada incandescente, sob o sol claro do meio-dia ou debaixo da luz avermelhada do crepúsculo.

Além disso, os receptores de cor do olho humano se concentram na região central do campo visual; do ponto de vista estritamente físico, a visão periférica humana deveria ser em preto e branco. Mas, ao construir a imagem, o cérebro colore essas áreas.

O bisturi impiedoso da seleção natural faz com que o trabalho inconsciente de preenchimento seja bom o bastante na maioria das vezes, tanto que nem nos damos conta dele.  O papel das crenças e do contexto nesse processo, principalmente, costuma ser fortemente subestimado.

Veja, por exemplo, as imagens abaixo, que tirei neste domingo. A única manipulação digital a que foram submetidas foi realizada para que coubessem na largura de coluna deste blog:

E se eu dissesse que tirei essas fotos do terraço do prédio onde moro e as apresentasse como provas da existência de um óvni que pulsou no céu por alguns minutos, emitiu raios de luz para a direita e para a esquerda e em seguida se desintegrou, produzindo uma chuva prateada?

Suponho que a maioria dos leitores deste blog soltaria grunhidos de desgosto, entupiria a área de comentários com merecidas recriminações contra minha pessoa e nunca mais visitaria este endereço.

Mas em outro blog, com outro público e em outro contexto, a história poderia muito bem colar. E mesmo alguns leitores deste blog, menos familiarizados com as peculiaridades do processo fotográfico, talvez se sintam um pouco confusos: afinal, o que aparece nas fotos?

Minha descrição do contexto em que as imagens foram feitas — do terraço do prédio — foi mentirosa. Na verdade, fiz as fotos das janelas do apartamento. Janelas têm vidros, e vidros podem refletir o flash. Vidros também podem estar sujos, e a sujeira também pode refletir o flash forçado.

Por fim, ao reduzir as fotos para incluí-las no blog, eliminei deliberadamente as margens, onde a moldura da janela aparecia. Uma versão sem cortes:

comentários (12) | comente

  • A + A -

Com o anúncio de que o maior mamífero terrestre da pré-história foi o Indricotherium, de 17 toneladas e 5,5 metros, o primata King Kong (Megaprimatus kong), cuja altura varia de um mínimo de 6 a um máximo de 18 metros — dependendo do filme e da cena — e cujo peso estimaremos abaixo, mantém a coroa de  maior mamífero de terra firme de todos os tempos.

(Existe o pequeno detalhe de que Kong é uma criatura ficcional, criada por Merrian C. Cooper para o filme de 1933, mas nunca deixo esse tipo de minúcia me incomodar às sextas-feiras).

O tamanho dos animais reais e ficcionais é tema de um ensaio clássico do biólogo JBS Haldane, que qualquer pessoa que se interesse por ciência em geral — e por um bom texto sobre ciência, em particular —  deveria conhecer de cor. Ele aparece em inúmeras antologias, a mais recente provavelmente sendo The Oxford Book of Modern Science Writing, e pode ser lido aqui.

O primeiro ponto que Haldane apresenta no ensaio é o de que, quando se multiplicam os medidas lineares de um ser vivo — com 6 metros de altura, Kong é três vezes maior que um gorila ordinário — as áreas de seu corpo são multiplicadas pelo mesmo fator ao quadrado (no caso de Kong, por nove), e os  volumes, pelo fator ao cubo (27, no rei-primata da Ilha da Caveira).

Isso tudo pode parecer muito acadêmico até que nos damos conta de que a massa — e por tabela, o peso — do bicho varia junto com o volume (já que a densidade dos materiais de que o corpo é feito se mantém constante), e que a capacidade  do animal de suportar o próprio peso segue a área da seção transversal de ossos e músculos.

Resumindo: Kong é 27 vezes mais pesado  que um gorila africano comum, mas apenas nove vezes mais forte. Um gorila africano macho pesa, em média, 200 kg. Então, Kong pesa assustadoras 5,4 toneladas, com uma estrutura óssea e muscular que estaria confortável deslocando, no máximo, 1,8 tonelada.

Há ainda a questão da temperatura: o corpo gera calor de forma proporcional ao volume, mas só consegue dissipá-lo de modo proporcional à área.

No clima úmido-tropical da Ilha da Caveira, isso deveria bastar para deixar Kong prostrado. Nesse aspecto, ao menos — abstraindo, claro, a presença de Fay Wray/Jessica Lange/Naomi Watts–  Nova York deve ter lhe parecido muito mais agradável.

Enfim, o corpo do Megaprimatus kong deve se submeter a pressões enormes apenas para caminhar; talvez respirar já seja até um pouco demais. Não admira que ele grite o tempo todo e, no geral, demonstre tanto mau humor. Também não surpreende que a espécie tenha sido extinta.

comentários (20) | comente

  • A + A -

Você já deve ter visto (ou mesmo feito) isso: dada uma questão que admite apenas duas respostas possíveis — “menino ou menina?”, “ela me ama?” e “devo sair do emprego?” são fórmulas clássicas –, pega-se um pequeno objeto pesado (pode ser um anel, um chumbinho de pesca, uma pedra) amarrado à ponta de um fio, barbante ou corrente. Segura-se o tal barbante, etc., de forma que o objeto fique suspenso, seu peso mantendo o fio esticado. E espera-se.

Depois de algum tempo — geralmente não muito — o objeto vai começar a se mover. Ele pode oscilar para frente e para trás ou para a direita e para a esquerda, ou ainda girar, no sentido horário ou anti-horário. Antes de começar o exercício, você deve ter adotado uma convenção para distinguir os sinais: por exemplo, “frente-atrás” é “sim”, “esquerda-direita” é “não”, ou vice-versa.

O que está acontecendo? O objeto parece se mover por conta própria! Seria magnetismo animal, ondas gravitacionais, transmissão de fluidos etéreos, a detecção de táquions trazendo informação do futuro? Uma pista sobre a verdadeira fonte do movimento pode ser obtida com um experimento simples: feche os olhos, respire fundo e relaxe. Isso. Relaxe. Agora, abra os olhos (se você estava de olhos fechados, não há como ter lido esta instrução, claro. Ela está aqui apenas para efeito retórico).

O movimento parou.

O “pêndulo explorador” é um exemplo do chamado efeito ideomotor, uma reação involuntária e inconsciente dos músculos em resposta aos pensamentos da pessoa. Muita gente acha essa definição estranha — como uma reação aos pensamentos pode ser inconsciente? — mas se você se lembrar de como sua expressão facial costuma trair suas emoções, a coisa se torna autoevidente. E, afinal, para corar ou chorar de forma consciente e voluntária, geralmente é preciso ser um ator.

O fenômeno também é um exemplo de como uma questão pode continuar a ser tratada como algo místico e misterioso quase dois séculos depois de o caso ter sido satisfatoriamente encerrado pela ciência — ou, como não basta um fato sólido para matar mil superstições vaporosas. Senão, vejamos.

A expressão “efeito ideomotor” foi usada  para descrever esse tipo de ocorrência,  pela primeira vez, na década de 1850. E mais de vinte anos antes, o aparente poder oracular dos pêndulos já havia sido analisado, por meio de experimentos detalhados, pelo químico francês Michel Eugène Chevreuil, que descreveu suas conclusões numa carta a Ampère — o mesmo sujeito que iria dar nome à unidade de corrente elétrica — de 1833.

Na época de Chevreuil, a ideia era de que o pêndulo reagia de modo diferente a diferentes substâncias, movendo-se de uma forma sobre ouro e de outra sobre mercúrio, por exemplo.

O químico primeiro testou  se um obstáculo entre o pêndulo e a substância a ser detectada faria o oráculo parar. E —  mirabili dictu! — foi o que aconteceu. Em seguida, no entanto, Chevreuil sofisticou o procedimento, vendando os olhos e fazendo com que o obstáculo fosse colocado ou removido sem tomar conhecimento do que ocorria.

Resultado: o pêndulo reagia ao que o cientista acreditava que estava acontecendo, e não aos fatos reais. Escreveu Chevreuil, em 1833:

“Esta é a interpretação que dou a estes fenômenos: quando segurei o pêndulo em minha mão, um movimento muscular de meu braço, embora imperceptível para mim, moveu o pêndulo (…) uma vez que as oscilações começaram, elas logo foram aumentadas pela influência exercida pela visão (…) Esse movimento muscular, mesmo ampliado dessa forma, é fraco o bastante para parar, não direi pelo comando da vontade, mas apenas pelo pensamento de ver se isso ou aquilo vai detê-lo.”

Experimentos realizados de lá para cá também demonstraram que o efeito ideomotor está por trás de outros “fenômenos misteriosos”, como o uso de forquilhas e varas para encontrar água ou a famigerada “brincadeira do copo” que tanto assusta as crianças (ou assustava, no meu tempo).

Ah, sim: se você entrou nesta postagem procurando o conto de Edgar Allan Poe, ele pode ser encontrado aqui, em inglês.

comentários (13) | comente

  • A + A -

Abre nesta sexta-feira, na Oca — no parque o Ibirapuera, em São Paulo — a exposição Água na Oca. Minha colega Karina Ninni, do caderno Planeta, já fez uma bela reportagem sobre o evento, então aqui eu vou basicamente oferecer uma espécie de “tour guiado” pessoal e impressionista, já que na terça-feira visitei a mostra, a convite dos organizadores.

Não estava tudo pronto ainda, mas deu para ver que o projeto é ambicioso, oferecendo  desde interpretações artísticas — incluindo cinco obras de William Pye, o escultor que trabalha “moldando água” — a experiências assustadoras, como o simulador de um barraco em meio a uma enchente, com direito a goteiras no teto, vendaval e som de trovões.

A imagem acima mostra um trecho de uma das obras da seção artística da mostra. De autoria de Gisela Motta e Leandro Lima, Zero Hidrográfico usa lâmpadas azuis e braços mecânicos para recriar a ondulação da superfície do oceano e lembrar que o nível do mar — o ponto zero das escalas de altitude usadas para medir montanhas, planaltos (São Paulo está 760 metros acima do mar), etc. — é, de fato, algo muito dinâmico.

Além das obras de arte — algumas interativas — a mostra tem ainda uma interessantíssima seção informativa, que por si só vale algumas horas de visita.

Além de uma impressionante tela com imagens em movimento de seres abissais (animais que vivem a grandes profundezas), de aquários e de um terrário virtual que exemplifica a relação entre os seres vivos da terra e da água, há uma série de brinquedos interativos.

Aí em cima você vê a tela de uma balança que mostra, em termos comparativos, quanto de água, em peso, há em diferentes seres vivos. Movendo as mãos sobre a balança, é possível mudar o conteúdo de qualquer um dos “pratos” virtuais.

Outra comparação que pode ser feita é a que aparece abaixo, mostrando quanto de água é consumido na produção de diferentes alimentos:

E que nos leva a um outro enfoque da mostra, o educativo. Nessa parte da exibição aprende-se que ao consumir um copo de 200 ml de água o morador de uma casa ou apartamento na verdade está gastando cerca de seis litros (a água bebida, mais a água da descarga da posterior ida ao banheiro)  e que lavar um carro pode consumir 14 litros — com esponja e balde — ou 250 litros — no lava-rápido. Parte desse material vem do Movimento Cyan.

Também há um espaço para a World Community Grid, onde é possível cadastrar computadores pessoais e doar tempo de máquina ocioso para projetos de interesse científico e social –  incluindo alguns envolvendo água, como o que trata do planejamento de políticas de recursos hídricos.

A mostra conta ainda com uma bancada onde estudantes de escolas que agendarem visita poderão realizar experimentos envolvendo água — da observação de micro-organismos em microscópio à eletrólise da água em oxigênio e hidrogênio, e o uso desses gases como fonte de energia.

O Instituto Sangari, organizador da Água na Oca,  espera receber de 100.000 a 120.000 crianças e jovens nesse laboratório, ao longo dos cinco meses e meio de duração da mostra. Sete mil alunos já estão inscritos até o fim de 2010.

O lado de fora da Oca foi decorado para a exposição. Quem se aproxima do prédio vê, primeiro, as janelas opacas:

Mais de perto, nota-se que as aberturas foram convertidas em “escotilhas”, como as de submarinos, com bolhas de ar subindo pela “água”:

A Água na Oca é uma adaptação — e ampliação — da exposição Water: H2O = Life, apresentada em Nova York em 2007. Ela vai de 26 de novembro a 8 de maio de 2011. Funciona às terças, quartas e sextas das 9h às 18h; às quintas, das 9h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 20h. Não abre às segundas e nem nos dias 24, 25, 31 de dezembro, e nem em 1º de janeiro de 2011.

O ingresso custa R$ 20 para o público em geral e R$ 10 para estudantes e professores. No último domingo de cada mês, a entrada é gratuita para todos.  Escolas particulares que queiram agendar visitas guiadas e atividades no laboratório pagam R$ 15 por aluno.

comentários (21) | comente

  • A + A -

Mais de 50% de minha massa corporal é água, sendo que 24 litros estão dentro das células e 5,5 litros são de sangue. Estou 11 quilos acima do peso. No entanto, se morasse nos Estados Unidos, seria mais magro do que mais de 60% da população. Em compensação, seria mais baixo que quase 70%.

Essa verdadeira enchente biométrica é cortesia do Wolfram Alpha.

Que, por sua vez, é um serviço online de busca de “conhecimento computável” — por exemplo, a entrada “(number of stars in the universe)/(number of people who ever lived)” produz o resultado “700 bilhões per capita”. Há cerca de uma semana, o sistema incorporou uma série de equações sobre saúde e medicina.

Com todas as ressalvas necessárias — entre as principais, o fato óbvio de que uma consulta ao sistema do Wolfram Alpha certamente não substitui uma visita ao médico, e que os padrões usados nas equações médicas são os médios da população americana, que podem ou não ser válidos para indivíduos específicos, nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo — não deixa de ser curioso preencher a caixinha de busca com peso, idade e sexo e ver o que aparece.

(Aliás, a sintaxe para usar o Wolfram Alpha é meio na base de tentativa e erro. Para conseguir os dados biométricos básicos, preencha o espaço de busca com sexo, idade, peso e altura em inglês, em qualquer ordem – por exemplo: “female, 53 kg, 39 years, 163 centimeters“. Depois, dá para brincar jogando os números resultantes em outras buscas. Por exemplo, pedir “43 L in pints“, diz quantos copos grandes de cerveja seria possível encher com o conteúdo de água de meu corpo: 90,88)

A comparação entre os órgãos do corpo é especialmente interessante.

Já que vai contra a impressão geral — com o perdão da metáfora capenga — de que, no mais das vezes, o coração tem mais peso que o cérebro (o Wolfram Alpha indica que o peso médio de um coração humano adulto é 300 gramas).

Mas o mais interessante é o dado de área corpórea: sou informado de que a superfície de meu corpo é de 1,96 m2. Pele suficiente, ainda de acordo com o serviço, para revestir 11 bolas de basquete.

comentários (3) | comente

  • A + A -
22.novembro.2010 13:02:38

Perlman e McCartney

Com todo mundo (compreensivelmente) falando sobre o show de Paul McCartney em São Paulo, fico quase acanhado em dizer que  o único efeito que a apresentação do ex-Beatle teve sobre a minha noite de domingo foi me fazer esperar quase meia-hora para conseguir um táxi do lado de fora da Sala São Paulo, onde eu havia assistido a um concerto de violino e piano estrelado por Itzhak Perlman.

Perlman é um dos maiores violinistas do século passado; segue sendo um dos maiores deste. Sem entrar em discussões estéreis sobre o erudito e o popular (como já dizia o Eclesiastes, há um tempo para tudo — incluindo violino e guitarra ), não consigo resistir a uma comparação, não entre as músicas, mas entre os eventos.

A presença de Paul McCartney simplesmente dominou São Paulo. Na banca de camisetas da feira de domingo de um shopping da Avenida Paulista, as pilhas eram P, M, G e Beatles.  Perlman, que eu saiba, deu uma entrevista ao Estado de sábado, e só.

E a escala dos espetáculos: a Sala São Paulo não é, obviamente, o Morumbi. O que tem a vantagem de filas muito menores, mas não só. Com todo o público sentado a poucas fileiras de onde Perlman apresentava seu virtuosismo, não era difícil ter uma consciência muito direta, uma experiência palpável, da presença de um gênio entre nós.

No caso de McCartney, essa presença passa por uma série de mediações — amplificadores, telão — que tanto diluem quanto  reforçam a experiência.

Mas talvez a maior diferença esteja na divisão muito clara, no caso do concerto, entre os papéis do artista e do público na construção do espetáculo.

Perlman, durante copncerto na Casa Branca

Desfrutar de uma sonata de Beethoven para violino e piano é algo que se faz imóvel, sentado, talvez até de olhos fechados — uma experiência radicalmente individual. Se não houvesse mais ninguém na sala, praticamente não faria diferença.

Confesso que as longas sessões de aplauso quase chegaram a me irritar: não porque Perlman não merecesse cada bater de palmas, mas porque eu estava ali para ouvi-lo tocar, e cada minuto de aplauso era um minuto a menos de música!

No show de McCartney o público é, obviamente, parte do espetáculo. Está contabilizado no design do evento. Espera-se que as pessoas aplaudam e cantem junto.

De novo, nenhum juízo de valor aqui: há a hora de ouvir em silêncio reverente, e há a hora de cantar até perder a voz.

Você talvez se pergunte o que esta crônica mal ajambrada está fazendo num blog sobre ciência. Confesso que o objetivo original era escrever algo sobre os efeitos da música no cérebro, mas desisti (por enquanto — devo voltar ao tema um dia). Fica apenas o registro de que, na noite de Paul McCartney, Itzhak Perlman também esteve aqui — e se apresenta ainda nesta segunda e terça.

Amanhã, voltamos à programação normal.

comentários (17) | comente

  • A + A -

Morreu, no fim de outubro, o fotógrafo britânico Geoffrey Crawley, de 83 anos. Numa série de dez artigos publicada na revista British Journal of Photography, entre 1982 e 1983, ele ofereceu a mais completa explicação — e desmitificação — das famosas fotografias das “Fadas de Cottingley”.

Você talvez já tenha encontrado a história por aí: em 1917, duas meninas, as primas Frances Griffith e Elsie Wrigh, pegaram emprestada a câmera fotográfica do pai de Elsie e produziram as primeiras de uma sequência de fotos que mostram “fadas” e “gnomos” brincando no jardim.

Em 1920, as fotos chegaram ao conhecimento de Sir Arthur Conan Doyle — que décadas antes tornara-se famoso como o criador de Sherlock Holmes e que, após a I Guerra Mundial, passara a ser um ardente defensor do sobrenatural.

Sir Arthur escreveu um artigo e um livro a respeito, atestando a autenticidade das imagens, criando uma polêmica que duraria décadas.

A primeira das fotos: Frances Griffith com suas amiguinhas, em 1917

Agora, simples bom-senso sugere que as fadas acima não passam de recortes de cartolina pendurados nos arbustos, certo? E é exatamente o que são.  Na década de 70, o escritor britânico Fred Gettings reconheceu as imagens como cópias das ilustrações de um livro infantil publicado em  1915, Princess Mary’s Gift Book.

Nos anos 80, as primas, já senhoras idosas (Elsie faleceu em 1988; Frances, em 1986), confessaram: Elsie havia copiado as ilustrações do livro em cartolina. Os bonecos recortados foram fixados no cenário por meio de alfinetes.

Sir Arthur, no entanto, não só havia aceitado as imagens como verdadeiras, como ainda passara a fazer deduções a respeito: como na primeira foto uma das fadas aparece tocando flauta, o escritor pondera: “Isso não sugere toda uma gama completa de instrumentos e utensílios?” E também: “Essas pessoas [as fadas] estão destinadas a se tornar tão sólidas e reais quanto os esquimós”.

Crowley, em sua investigação, obteve as câmeras originais usadas pelas meninas, testou-as e tornou-se amigo de Elsie, que confirmou a fraude. Os testes realizados por ele mostraram que a versão das imagens que ficara famosa era formada por cópias manipuladas em laboratório para ganhar mais nitidez.

Elsie e o gnomo, segunda foto feita pelas primas em 1917

Crowley sempre manteve uma relação de respeito com as primas. Escrevendo sobre Elsie em 2000, ele disse que “ela nos deu um mito que nunca machucou ninguém”. Não sei se concordo: a reputação de Conan Doyle, por exemplo, não saiu exatamente ilesa.

A questão de por que o escritor abraçou com tamanho fervor a autenticidade das fotos é especialmente intrigante.

James Randi, em sua análise do caso, atribui a credulidade de Sir Arthur a uma mistura de preconceito e ingenuidade: o famoso autor teria uma visão de mundo na qual era mais plausível fadas existirem e posarem para fotos do que duas crianças bem educadas, de classe alta — e ainda por cima do sexo feminino! — mentirem descaradamente.

O biógrafo Andrew Lycett oferece uma interpretação alternativa: Charles Altamont Doyle, pai do escritor, era um ilustrador, e também um alcoólatra, que passou boa parte da vida internado em asilos para lunáticos. Em seus delírios, ele  via criaturas fantásticas, que desenhava.

“Se pudesse provar a verdade [das fadas], ele avançaria muito na reabilitação da memória do pai e mostraria que, longe de ser um louco, Charles Doyle tinha evoluído uma sensibilidade para se comunicar com seres espirituais elevados”, escreve Lycett.

comentários (26) | comente

  • A + A -
18.novembro.2010 08:42:16

Habemus antimatéria!

Cientistas do Cern anunciaram ontem a criação — e contenção — de 38 átomos de antimatéria, formados por um antipróton no núcleo com um pósitron ao seu redor. Trata-se de uma versão em negativo do átomo mais simples existente na natureza, o de hidrogênio, formado por um próton e um elétron.

Suponho que a maioria das pessoas encontrou a palavra “antimatéria” pela primeira vez em algum produto de cultura pop, seja um filme, uma história em quadrinhos ou um seriado de TV.

Antimatéria é o que move a nave estelar Enterprise (os cristais de dilítio estão lá apenas para “regular a reação”); uma onda de antimatéria quase destruiu o universo de super-heróis da DC Comics durante a Crise nas Infinitas Terras; e uma bomba de antimatéria é o “mcguffin” — o prêmio/ameaça que mantém heróis e vilões correndo de um lado para o outro — do livro Anjos e Demônios, de Dan Brown.

Mas, afinal, de que se trata?

Antimonitor, o vilão de antimatéria do universo DC Comics

A existência da antimatéria — partículas idênticas às da matéria comum, mas de carga elétrica invertida — foi prevista por Paul Dirac no início do século passado.

(Adendo corretivo: o físico @Dbohr me lembra de que partículas eletricamente neutras também têm contrapartes de antimatéria, como os neutrinos, que contam com os antineutrinos)

Na verdade, não exatamente “prevista”. A antimatéria inicialmente surgiu como uma espécie de efeito colateral de uma equação criada por Dirac para adaptar as descobertas da mecânica quântica à Teoria da Relatividade Restrita, que postula que o tempo e o espaço são relativos e a velocidade da luz no vácuo é a maior velocidade possível no Universo.

O próprio Dirac demorou um pouco pra entender que o fato de a equação também produzir resultados meio malucos — que podiam ser interpretados como elétrons com carga elétrica  invertida — não era um apenas uma espécie de bug no sistema, mas a previsão teórica de uma entidade física que até então jamais havia sido observada. O pósitron, ou elétron positivo, acabou sendo descoberto experimentalmente em 1932. Dirac recebeu o Nobel de Física em 1933.

Mas o que torna antimatéria interessante para o roteirista de quadrinhos, o escritor de ficção científica e os produtores de filmes-catástrofe em geral é o fato de que quando uma partícula e uma antipartícula se encontram, ambas são destruídas, produzindo energia. Muita energia.

Em 1950, o cientista alemão Eugen Sänger propôs a criação de um foguete de antimatéria, onde elétrons e pósitrons seriam aniquilados. A energia da aniquilação produziria raios gama, que seriam expelidos num jato, gerando o impulso da nave.

Esse foguete seria perfeito, exceto por uma dificuldade: as partículas dos raios gama estariam se movendo em direções aleatórias, e para um foguete funcionar  é preciso que o jato seja apontado na direção oposta à que se deseja seguir.

Na década de 80, Robert L. Forward propôs um design diferente, baseado na aniquilação de prótons e antiprótons. Isso produziria partículas  dotadas de carga elétrica, que poderiam ser guiadas por campos magnéticos.

O problema disso tudo é que a energia necessária para produzir e controlar a antimatéria, nessas escalas, é proibitiva. Como diz o site do Cern, “primeiro precisamos fazer cada antipartícula individual, e temos de investir (muito) mais energia do que tiramos durante a aniquilação”.

comentários (16) | comente

  • A + A -

Minha primeira reação à notícia de que astrônomos acreditavam ter encontrado um buraco negro de 30 anos foi pensar: “Caraca, um fenômeno astrofísico que é mais novo do que eu”.

Está certo que  já me acostumei a ter colegas de trabalho que eram recém-nascidos quando eu estava entrando na faculdade — gente que me olha com um misto de espanto e comiseração quando faço reminiscências de uma infância sem computadores ou videogames, movida a gibis da Ebal e vivida durante o governo Geisel. No entanto, a ideia de que um fenômeno astrofísico pode ser mais novo que eu abriu toda uma nova dimensão de sentimentos jurássicos.

Mas aí me bateu o paradoxo da coisa: como assim, 30 anos? A que distância esse cara fica?

Galáxia M100, que abriga o novo buraco negro

Mergulhando no website do Telescópio de Raios X Chandra,  descobri que o tal buraco negro está (ou parece estar; os sinais de sua presença comportam explicações alternativas) na galáxia M100, a 50 milhões de anos-luz. O que quer dizer que a luz e a radiação que avisaram os astrônomos de que ele existe passou 50 milhões de anos a caminho a Terra. E, portanto, ele não tem 30 anos, e sim 50 milhões e 30!

O que, confesso, trouxe um certo alívio.

Os cientistas, no entanto, estão certos ao afirmar que o que observam é um fenômeno de 30 anos. A luz que partiu de lá, da galáxia M100, há 50 milhões de anos, registra as características de um evento cósmico com três décadas de existência. É como receber uma foto do seu bisavô, ainda bebê, pelo correio: a imagem pode ter anos e anos, mas retrata uma criança.

É o mesmo efeito que permite que o Hubble faça imagens das primeiras galáxias surgidas após o Big Bang. A luz emitida por elas passou 13 bilhões de anos em trânsito até chegar aqui.

O fato de a velocidade da luz no vácuo ser um limite absoluto para a transferência de  informação no Universo — salvo buracos de minhoca, atalhos pelo hiperespaço ou outras ocorrências altamente hipotéticas — faz com que o tempo seja relativo. Diferentes observadores, movendo-se a diferentes velocidades, vão discordar quanto ao horário exato de um determinado fenômeno.

Mas esse mesmo limite para a velocidade da luz que relativiza o tempo faz com que o passado se torne algo muito concreto: qualquer evento que venhamos a conhecer tem de ter acontecido há algum tempo, que é o tempo necessário para que sua luz chegue até nós.

O fato de a luz ser tão rápida torna essa distinção irrelevante na escala do dia-a-dia, mas não deixa de ser um experimento filosófico interessante tentar encarar as coisas assim por algum tempo: tudo o que você acha que está acontecendo agora — o passarinho que passa voando pela janela, a criança brincando no chão, você lendo este blog — na verdade já aconteceu algumas frações de segundo atrás.

Tudo o que você está vendo não está mais lá.

comentários (22) | comente

  • A + A -

Arquivos

Blogs do Estadão