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Carlos Orsi

Já que o assunto do fim de semana é o horror e o terror, o que poderia ser melhor que uma olhada nas teorias que regeram a medicina até poucos séculos atrás?

De Hipócrates (300 AEC) a Galeno (150 EC) e por todos os séculos posteriores em que as ideias desses dois sábios reinaram, o que se passava por ciência médica no ocidente começava e terminava nos quatro elementos — terra, fogo, ar e água — e em suas qualidades: a terra é fria e seca; o fogo é quente e seco; o ar é quente e úmido; e a água é fria e úmida.

O que diabos isso tem a ver com saúde humana? No século VI, Alexandre de Tralles decretava que o dever do médico era “esfriar o quente; secar o úmido; aquecer o frio; umedecer o seco”. Em outras palavras, restaurar, no paciente, o equilíbrio entre essas propriedades fundamentais, balanço cuja perda seria a causa da  doença.

Como isso era feito? Achava-se que o equilíbrio era ditado pelos temperamentos, que por sua vez eram controlados pelos humores. Dizer que fulano tem um “temperamento ruim” porque “vive de mau humor” hoje pode ser uma queixa fútil contra o chefe ranzinza, mas há mil anos era diagnóstico médico da maior gravidade.

Os humores eram fluidos que, acreditava-se, percorriam o corpo; sua abundância ou escassez determinava os temperamentos, e cabia ao médico pôr a casa em ordem.

O fluido, ou humor, quente e úmido é o sangue, e o temperamento dominado por ele é o sanguíneo, ou otimista e impetuoso; seu oposto é a bile negra, fria e seca, que produz o temperamento melancólico; a bile amarela é o humor quente e seco, e domina o temperamento colérico; a fleuma é fria e úmida e predomina no temperamento, você adivinhou, fleumático.

Além de corresponder aos quatro elementos clássicos, os humores ligavam-se às estações do ano (o verão, quente e seco, pertence à bile amarela e aos coléricos) e, por meio delas, à astrologia.

Era com base nessa intrincada rede de metáforas e superstições que se praticava a medicina. Um diagnóstico do século XVI, citado por Joseph Jastrow em seu monumental Error and Eccentricity in Human Belief, dizia: “Temperatura e condição muito úmidas e frias, o fluxo dos humores coincidindo com as conjunções e oposições da Lua”.  Sangrias eram realizadas para drenar excessos de calor e/ou umidade.

Claro, o processo tinha algum dinamismo e a medicina fazia avanços, ainda que terrivelmente lentos para os nossos tempos, que viram os antibióticos, a radioterapia, o remédio para pressão alta e o Viagra surgirem em menos de 100 anos.

No século XII, talvez como um efeito colateral das duas ou três primeiras Cruzadas, pó de múmia passou a ser um componente popular de medicamentos. Não só inúmeras múmias egípcias foram destruídas para alimentar essa farmacopeia, como corpos frescos também passaram a ser usados.

Uma receita do século XVII pede, como matéria-prima, o “cadáver (…) de um homem completo, não mutilado, limpo e sem nódoas da idade de 24 anos, que tenha sido enforcado ou quebrado na roda (…)”. “Quebrar na roda” era, claro, um método especialmente excruciante de morte sob tortura.

Quem quiser saber mais sobre múmias medicinais pode baixar a edição de Halloween da Annals of Improbable Research, que traz boas referências a respeito.

Ilustração mostra dentista em ação no século XIV

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Seus genes têm algo a dizer sobre suas preferências políticas? Uma série de estudos realizada ao longo dos últimos cinco anos — a partir do clássico Are Political Orientations Genetically Transmited?, que analisou pares de gêmeos — sugere que sim.

Os autores do mais recente, publicado no Journal of Politics da Universidade de Cambridge, acreditam ter identificado, pela primeira vez, uma interação específica, entre gene e ambiente, que leva as pessoas a serem mais liberais.

(“Liberal”, aqui, é usado no contexto do espectro de opiniões sociais que vai de liberal a conservador — digamos, de totalmente a  favor de que casais gays possam se casar até mesmo na igreja a totalmente contra qualquer sugestão de reconhecimento de uniões civis homossexuais — e não no sentido mais estrito de liberalismo econômico)

Os pesquisadores, da Universidade da Califórnia em San Diego e Harvard, dizem ter encontrado uma forte correlação entre um receptor de dopamina do cérebro, um determinado tipo de experiência de vida e o liberalismo político. O receptor, sem a experiência, não correlaciona com liberalismo; a experiência, sem o receptor, também não.

Esmiuçando: dopamina é um neurotransmissor, uma molécula que atua no cérebro. Sabe-se que ela afeta, entre outras coisas, a experiência de prazer e dor.  O receptor é a molécula do neurônio que é sensível à presença do neurotransmissor.

No estudo, a correlação foi encontrada entre a presença — determinada geneticamente — de uma versão do receptor de dopamina, o DRD4-7R, o número de amigos que a pessoa teve na adolescência e a opinião política que desenvolveu na vida adulta.

Das 2.000 pessoas que tiveram dados analisados pelos autores do trabalho, as com o DRD4-7R e muitos amigos na juventude mostraram-se mais liberais, na idade adulta, que as com DRD4-7R e com poucos amigos; e que as sem DRD4-7R  mas com muitos amigos.

Estudos anteriores haviam indicado que portadores do DRD4-7R são pessoas com mais tendência a buscar e apreciar novas experiências. Os autores sugerem que essa abertura,  associada a um amplo círculo de amizades que expõe o indivíduo a diferentes estilos de vida e pontos de vista, leva a uma visão mais liberal da sociedade.

Há um velho mantra da estatística que diz que “correlação não é causação”: o fato de duas coisas acontecerem juntas não implica necessariamente que uma é causa da outra. E este ainda é um primeiro estudo. É preciso ver se a correlação se mantém em trabalhos posteriores.

Mas suspeito que para muita gente a questão mais importante nem é saber se essa correlação se sustenta, e sim se faz sentido, ou se vale a pena, buscar esse tipo de correlação, para começo de conversa.

Os pesquisadores que seguem essa linha de investigação não se veem empreendendo uma tentativa de impor o “determinismo genético” à política, mas sim buscando moderar o “determinismo ambiental” reinante — a ideia de que suas opiniões políticas são ditadas pela sua classe social, pela igreja ou torcida organizada que você frequenta.

No fim, cada um de nós é um ponto de vista, construído por genes e experiências. Se uns ou outros fossem diferentes, seríamos outras pessoas.

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Quem curte ficção científica (como eu) e não estiver (como estarei) trabalhando no próximo sábado, tem uma opção para se desligar, por algumas horas, do furor político-eleitoral e, só para variar, ouvir alguns debates sobre temas realmente interessantes, envolvendo gente de verdade — e não androides teleguiados por marqueteiros: o evento Science’n'Fiction, realizado na Faculdade Cásper Líbero a partir das 8h30 da manhã e que vai até as 18h (programação aqui).

Este é o segundo — que eu saiba — evento sobre ficção científica realizado na Avenida Paulista neste semestre, depois do III Invisibilidades, que aconteceu no Itaú Cultural em agosto.

Não sei se o que está ocorrendo é mesmo um aumento de interesse pelo gênero ou se um aumento da tolerância para com o gênero, mas suponho que uma coisa acaba levando à outra, então não há do que reclamar.

A entrada do Science’n'Fiction é franca, mas é preciso fazer uma inscrição prévia, mandando um e-mail para o endereço divulgado no blog oficial do evento — o link está lá em cima, no primeiro parágrafo. Quem for, divirta-se!

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Sei que o assunto já envelheceu um pouco, mas a cada dia aparece uma outra pessoa sugerindo que eu comente algo a respeito da reportagem da TV Record sobre Bilu, o suposto “ET de Corguinho”.

A matéria está disponível no YouTube, assim como um vídeo-resposta feito pela comunidade ufológica que se sentiu ofendida pela produção.

Para quem, como eu, prefere ler ou ver DVDs no domingo à noite e entrou boiando na história, um resumo: no último dia 10, o Domingo Espetacular da Record apresentou uma matéria de cerca de 20 minutos sobre o Projeto Portal, uma comunidade mística-esotérica-ufológica encabeçada por Urandir Fernandes de Oliveira na cidade de Corguinho, no Mato Grosso do Sul.

Esse grupo já havia sido tema de reportagem do caderno Aliás, do Estado, há alguns meses.

O ponto alto da matéria televisiva foi a aparição fugaz de “Bilu”, um suposto extraterrestre fracamente vislumbrado em meio à escuridão e que se comunica numa voz fina, quase infantil, e numa gramática estilo “Mim-Tarzã-Tu-Jane”.

Embora o nome “Bilu” de certa forma deponha a favor da autenticidade da criatura — por que todo ET teria se se chamar Darth Vader, Klaatu, Mar-Vell ou Bashelbazaar? — perito ouvido pela reportagem da Record concluiu que se tratava de um sujeito usando um capacete com duas lâmpadas presas na testa, o que me parece uma explicação muito mais econômica e perfeitamente capaz de dar conta dos mesmos fatos.

Enquanto assistia ao vídeo na internet, no entanto, o que me veio à mente não foram os filmes Contatos Imediatos do Terceiro Grau ou 2012 — ambos citados na matéria — mas o grande charlatão da era de ouro da fraude espiritualista do século 19, D.D. Home.

Diz a lenda que Home nunca foi pego cometendo fraude de forma tão flagrante como outra estrela da época, Eusapia Paladino. Mas, como pondera Martin Gardner,  ”depende do que você quer dizer com ‘pego’ “. Há pelo menos um caso em que ele foi visto pondo o pé de volta no sapato, debaixo da mesa, depois de uma mulher dizer ter sido tocada por um espírito.

Home, Paladino e outros dos falsificadores razoavelmente bem-sucedidos de fenômenos paranormais dos anos 1800s e início dos 1900s sempre insistiam em duas condições para realizar seus feitos, e só eram capazes de mostrar a plenitude de seus poderes, incluindo levitação e o “aporte” de objetos do mundo espiritual,  quando essas condições eram obtidas: escuridão total ou quase total e a ausência de descrença. Trevas e uma atitude mental positiva da plateia eram requisitos fundamentais.

Esses dois requisitos também têm grande destaque na reportagem da Record. Diversas vezes vemos os jornalistas sendo admoestados para apagar a luz ou reduzir a iluminação, e Urandir insiste que a presença do extraterrestre “depende da energia gerada pelo grupo”.

Claro que esse coincidência, digamos, metodológica entre o charlatanismo vitoriano e o contato extraterrestre brasileiro pode ser só isso, uma coincidência. Mas não pude evitar que, em minha mente, a imagem dos salões londrinos do fim do século 19 sobrepusesse-se à do interior sul-matogrossense do início do 21.

Concepção artística de uma levitação de Home

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Sempre que me perguntam isso, respondo com um pequeno desafio: “Qual você acha que é?” A maioria das pessoas não acerta logo na primeira, e quase todo mundo desiste de tentar se não obtém sucesso até o terceiro palpite, quando a chance de um acerto por pura sorte chega a 10%. Não faz diferença se quem pergunta é alguém que me conhece já há algum tempo, ou uma pessoa a quem acabo de ser apresentado.

Curiosamente, observo também um fenômeno oposto: quando tem bolo de aniversário na redação do Estado, não é raro alguém comentar: “Ah, Fulano é geminiano (ou escorpiano, ou ariano, ou qualquer que seja o signo do mês). Tinha de ser! Eu sabia!”

Temos um aparente paradoxo: num momento o sistema parece incapaz de associar corretamente o signo à pessoa; no outro, permite associações diretas e perfeitamente corretas. Como assim? A resposta — ainda mais óbvia que o signo do aniversariante da vez — é que no primeiro caso o que se esperava da astrologia era uma previsão; no segundo, o que se tem é meramente uma constatação a posteriori.

O que ocorre no episódio do aniversário é um fenômeno psicológico que nada tem a ver com os astros: dado o cardápio de características associadas ao signo e o fato de que a pessoa que faz anos pertence a esse signo, não é difícil focalizar nas concordâncias, ignorar as divergências e chegar a uma conclusão tão evidente — e tão válida — quanto uma previsão detalhada da manchete dos jornais de ontem.

Há tantas coisas erradas com a ideia de astrologia do ponto de vista estritamente físico — o fato de que as estrelas não estão onde as cartas astrológicas dizem; o fato de que não existe uma força natural capaz de transmitir as influências dos astros necessárias para tornar a astrologia válida; etc, etc — que esta postagem ficaria muito acima da média de 500 palavras que tento manter se fosse mencionar todas.

A interpretação mais caridosa que consigo oferecer para contornar essas dificuldades é a de que o uso de estrelas e planetas na astrologia é meramente simbólico. Que a astrologia lida na verdade com momentos, e que o céu estilizado usado nas cartas é, na verdade, um relógio, onde “estrelas” e “planetas” representam números e ponteiros. Mesmo essa versão simbólica tem problemas, já que a atribuição de significados aos signos e planetas ainda precisa ser justificada, mas que seja: o relógio astrológico funciona?

A resposta é não. Os dois gráficos abaixo foram retirados do website Astrology & Science:

Este representa os resultados cumulativos de uma série de testes em que se pediu a astrólogos que associassem cartas astrais ao perfil psicológico, biografia ou descrição das pessoas a quem as cartas pertenciam. A taxa de sucesso não foi melhor que a esperada por pura sorte — igual à que seria obtida se, digamos, perfis e cartas fossem jogados para o alto e associados com base no ponto do chão em que caíssem.

Este outro gráfico é o meu favorito: indica a capacidade dos astrólogos de concordar na interpretação de uma carta astral. Entrega-se uma mesma carta a alguns astrólogos e pede-se que descrevam a pessoa representada ali. De novo, o resultado é o esperado por pura sorte. Seria como se você levasse um mesmo exame de sangue a vários médicos e metade deles dissesse que seu colesterol está alto e a outra metade, que está baixo.

No entanto, astrólogos têm milhares (ou milhões) de clientes satisfeitos dispostos a jurar que a técnica funciona. Um estudo revelador a respeito disso foi descrito pelo britânico Geoffrey Dean em 1987.

Um grupo de entusiastas da astrologia recebeu interpretações de suas cartas astrais, sendo que a metade deles foi dada a interpretação correta dos aspectos planetários e, à outra metade, a interpretação inversa (por exemplo, um aspecto que normalmente indicaria cautela foi traduzido como impetuosidade). Os voluntários que receberam as cartas reversas mostraram um grau de identificação com o resultado tão grande quanto os que receberam cartas corretas.

Trata-se de um fenômeno feito em partes iguais de linguagem e psicologia. A parte “linguagem” entra no fato de que qualquer defeito pode ser descrito como qualidade e vice-versa (eu sou persistente, você é teimoso, ele é uma mula) e de que afirmações vagas podem soar específicas (“você tem um potencial que ainda não foi capaz de explorar como gostaria”, por exemplo, parece dizer algo muito importante e pessoal, mas na verdade se aplica a qualquer um).

A parte psicologia envolve seletividade –é mais fácil lembrar e ficar impressionado com os acertos do que contar os erros –, o desejo de acreditar, o desejo de participar (há pessoas que realmente curtem “representar o papel” do signo) e, graças aos usos da linguagem descritos acima, a facilidadede de projetar-se no que é dito.

Não tenho a esperança de que esta postagem vá fazer com que algum adepto da astrologia mude de ideia, mas talvez sirva de alerta para alguém que esteja começando a se impressionar com a coisa e não esteja obtendo acesso a material crítico (que é lamentavelmente escasso, em comparação à propaganda favorável).

E paro por aqui, porque já estourei bastante tais as 500 palavras…

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A notícia da surpreendente quantidade de água encontrada pela Lcross perto do polo sul da Lua chega dez meses depois de os planos para aproveitar essa água — como fonte de insumos para uma estação lunar — terem sido formalmente cancelados.

O Programa Constellation, que previa o retorno americano à Lua, já era um morto-vivo quando Obama anunciou o cancelamento. Tinha sido reduzido ao estado de zumbi pelo subfinanciamento dado durante o governo Bush.

Mais uma vez — como já havia acontecido com o Projeto Marte de Von Braun, com a Iniciativa de Exploração Espacial de Bush pai, com a Estação Espacial Freedom — repete-se o ciclo em que uma ideia passa de ficção científica  a projeto de governo só para virar, logo em seguida, estudo de história alternativa: o que poderia ter sido.

O Estadão impresso me pediu uma breve análise sobre o resultado da Lcross, que reproduzo abaixo:

Os resultados da missão Lcross, que descobriu que o fundo da cratera Cabeus, perto do polo sul da Lua, contém mais água que as areias do Saara, embora cientificamente importantes, têm um sabor de anticlímax: em 2009, a Lcross era vista como uma missão precursora para a instalação de uma base tripulada na Lua, meta estabelecida, no governo de George W. Bush, para a década de 2020.

A lógica da busca por água era exatamente a de encontrar um local onde astronautas pudessem usar o máximo de recursos locais, sem depender exclusivamente de dispendiosas remessas de material da Terra.

No início deste ano, o presidente Barack Obama cancelou o retorno à Lua. A motivação foi complexa, envolvendo questões logísticas e de orçamento, mas Obama não resistiu a usar uma frase de desdém: “Been there, done that” (“já fomos lá, já fizemos isso”).

Os dados da Lcross vêm mostrar que a Lua pode ser um lugar mais interessante do que o presidente supunha. Mas chegam tarde demais, ao menos para a geração atual.

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Que tal ir a Marte para nunca mais voltar? A ideia está num artigo assinado por Dirk Schulze-Makuch e Paul Davies (sim, aquele Paul Davies, autor de O Quinto MilagreO Enigma do Tempo, entre outros), lançado numa publicação online relativamente recente — está completando um ano agora — o Journal of Cosmology.

Aliás, toda a edição atual do Journal é dedicada à exploração de Marte. Outros artigos (que podem ser encontrados no link acima; uma descrição detalhada do trabalho de Schulze-Makuch e Davies aparece aqui) incluem perspectivas oferecidas pelos ex-astronautas do programa Apollo Edgar Mitchell — cuja ligação com pesquisas paranormais nos anos 70 talvez não sejam uma boa recomendação — e Harry Schmitt, que foi o único cientista a pisar na Lua.

A revista tem seções inteiras dedicadas à psicologia de uma viagem a Marte, artigos técnicos sobre detalhes da viagem e da construção de uma base e dois textos na categoria Sex on Mars. Radiation, Brain, Heart, Sexuality, Fertility, Pregnancy, Fetal Development, o que pode soar um pouco bizarro e rebuscado, mas se seres humanos forem até lá para ficar alguém vai ter de pensar nisso, certo?

Enfim, para quem estiver interessado em escrever um romance sobre os pioneiros da colonização de Marte, esta edição do Journal parece ser uma ótima fonte de pesquisa.

A ideia de mandar para o espaço pessoas que nunca mais pisarão na Terra  não é exatamente nova, mas ela costuma aparecer mais em propostas de exploração interestelar.

O motivo óbvio é o limite da velocidade da luz: a estrela mais próxima da Terra que talvez tenha um planeta que valeria a pena visitar é Epsilon Eridani, a 10 anos-luz daqui.

Numa nave que percorra o trajeto a 10% da velocidade da luz, a viagem duraria 100 anos. A dilatação do tempo causada pela relatividade não faria muita diferença, mesmo se essa velocidade absurdamente alta (algo como 100 milhões de km/h) fosse atingida, e com isso duas ou três gerações teriam de se suceder a bordo.

Em 2002, A Associação Americana para o Progresso da Ciência (a AAAS, que publica a revista Science) realizou um simpósio chamado Viagem Interestelar e Naves Espaciais de Múltiplas Gerações. Do simpósio saiu um livro do mesmo nome, que teve como um dos editores o falecido escritor de ficção científica Charles Sheffield.

Uma das ideias apresentadas envolve o uso de um sistema de velas solares para acelerar e desacelerar a nave, algo parecido com o que (pausa para o comercial) uso em meu romance juvenil Nômade (fim da pausa para o comercial).

Considerações de custo e motivação a parte, esse tipo de projeto sempre esbarra na questão de quem enviar, como garantir a estabilidade psicológica da tripulação e se é justo comprometer gerações inteiras no projeto — tudo bem que o seu avô foi voluntário para passar a vida trancado numa lata de sardinha rumo às estrelas, mas ninguém perguntou se você topava.

Mas essa última questão me parece meio falsa: ninguém nunca me perguntou também se eu concordava com a decisão de Giuseppe Orsi de vir para o Brasil, e eis-me aqui.

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Esta quinta-feira marca o auge das Orionídeas, uma chuva de meteoros que deve o nome ao fato de ter radiante — o ponto do céu da onde as estrelas cadentes parecem vir — na vizinhança da constelação de Órion.

Diferentemente das Perseidas, que causaram grande expectativa (e alguma frustração) entre os internautas brasileiros em agosto, as Orionídeas são bem visíveis no hemisfério sul.

Para ver os meteoros, a receita é pegar um bom agasalho (a temperatura mínima prevista para hoje e amanhã em São Paulo não passa dos 12º C) e um colchonete, tentar se afastar ao máximo da poluição luminosa das grandes cidades e, depois das 23h, que é quando Betelgeuse, a estrela alfa de Órion, aparece sobre o horizonte, deitar no chão e olhar para o alto do céu.

De acordo com o Fluxtimator da Nasa, nos arredores de São Paulo deve ser possível ver um número crescente de meteoros à medida que a noite entra na madrugada, chegando a seis por hora às 3 horas de sexta-feira. O pico deve acontecer um pouco antes das 6 da manhã de sexta, com mais de 24 meteoros/hora.

Quem quiser tentar a sorte de dentro da zona urbana pode conseguir algo como 1 meteoro por hora na madrugada, começando a partir da meia-noite.

As Orioníedas são causadas pela passagem periódica da Terra por uma nuvem de migalhas do cometa Halley. Quando esses grãos de poeira de cometa colidem com nossa atmosfera, eles se desintegram e produzem o efeito visual das estrelas cadentes.

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Geralmente, quando a ciência é invocada num debate sobre questões éticas, ela acaba funcionando como uma espécie de espelho psicológico, onde o uso do dado científico apenas explicita intuições sobre o assunto que já estavam lá, latentes ou não, na cabeça dos debatedores.

Um exemplo disso são duas interpretações diametralmente opostas (das várias possíveis) que já encontrei para o fato de que todos os seres vivos da Terra descendem de um ancestral comum: para algumas pessoas isso faz com que toda vida, humana ou animal, seja sagrada; para outras, com que toda vida, humana ou animal, seja desprezível.

Essa constatação costuma ser resumida no lugar-comum “a ciência descreve, não prescreve”. Muitas vezes a descrição — digamos, dos efeitos devastadores de uma explosão nuclear — é tão potente que parece implicar uma prescrição inegável (“armas nucleares não devem ser usadas!”).

Mas, se analisarmos o argumento com calma, veremos que há uma segunda premissa implícita — a de que devastações são coisas ruins que devem ser evitadas –, que não é, de forma alguma, um “fato científico”, embora eu suponha que muito pouca gente discorde de que se trata de uma intuição ética perfeitamente válida.

Em linhas gerais, eu diria que a ciência pode lhe dizer como conseguir o que você quer, mas a consciência sobre “o que é que você quer” e sobre “se é certo querer o que você quer” é algo que tem de vir de outro lugar.

Antes que me acusem de prática ilegal da metafísica, digo que esse “outro lugar” me parece estar bem aqui na Terra, nas intuições éticas e nas reações emocionais produzidas por milênios de evolução humana como espécie social, tal como filtradas e pesadas pelo exemplo da história e pelo uso da razão.

Esse preâmbulo todo está aí porque boa parte da discussão sobre se a mulher deve ou não ter o direito de optar por interromper a gravidez costuma ser tratada como equivalente à questão (supostamente científica) de quando tem início a vida de um ser humano.

O argumento tem a forma geral conhecida como “ladeira escorregadia”, na qual se pressupõe que um determinado evento, se ocorrer, desencadeará uma série inevitável de consequências funestas.

No caso do início da vida, ele vai assim: se não pusermos o início da vida no instante mais precoce imaginável, se não definirmos “ser humano” da forma mais ampla possível, um dia alguém poderá decretar que o grupo X (uma faixa etária, uma minoria étnica, portadores de uma determinada doença) não é composto por seres humanos e pode ser exterminado impunemente.

Mas o simples apelo à ladeira escorregadia (uma forma argumentativa que se presta muito facilmente à falácia, aliás) mostra que a questão de fundo não é científica, e sim de conveniência. Define-se “ser humano vivo” de acordo com uma intuição ética — a de que o quanto antes, melhor — e em seguida busca-se, na ciência, o instante que parece corresponder a essa intuição.

Pondo de lado tudo o que há de discutível e problemático no instante selecionado — para ficar num só exemplo: a Medicina e os governos deveriam, então, dedicar tanto esforço e recursos para salvar os óvulos fecundados que naturalmente nem chegam a se fixar na parede do útero (uma ocorrência extremamente comum) quanto os que são gastos no combate às principais causas de mortalidade infantil? –, eu proponho que essa é a intuição errada a sondar.

Qual a intuição certa? Permita-me apresentar um exemplar do que Einstein chamava de gedankenexperiment, um experimento imaginário.

Imagine que um dia você vai para uma festa, toma um porre homérico, desmaia e, no dia seguinte, acorda com outra pessoa cirurgicamente costurada às suas costas. Como isso aconteceu? Você não sabe. Talvez um cientista louco tenha invadido sua casa e se aproveitado do seu estado lamentável para realizar um experimento cruel. O estranho também não sabe como foi parar lá. Ele sofre de amnésia profunda. Não se lembra de quem é, se tem parentes vivos, nada.

Você (inevitavelmente, com ele junto) corre para o pronto-socorro e, depois de uma bateria de exames ouve, consternado, o diagnóstico: o estanho não tem coração. O sistema circulatório dele está ligado ao seu. A fila de espera para transplante de coração é de nove meses. Se o estranho for retirado das suas costas antes disso, ele morrerá. Você aceita ficar com ele, por esses nove meses?

Repare que este cenário, por mais absurdo que seja, contorna todas as dúvidas a respeito do “início da vida”: o estranho é um ser humano vivo, que respira, pensa, sofre, tem medo, sente fome, sede; talvez até escreva poesia.

Parece perfeitamente óbvio que seria um ato de grande bondade e generosidade você aceitar o enorme custo pessoal, financeiro, emocional, psicológico e social de carregá-lo pelos 270 dias até o transplante. Sua dieta terá de ser ajustada; sua privacidade diminuirá; talvez sua saúde sofra com a carga extra imposta ao coração.

É até possível que, por conta dos seus valores pessoais, você se sinta moralmente obrigado a encarar o desafio.

Pergunta: mas seria justo a lei mandar você para a cadeia caso decida dizer “não”?

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18.outubro.2010 07:26:37

O poder do preconceito

Imagine que eu lhe apresente quatro cartas especiais, que tenham uma letra numa face e um número no lado oposto. Coloco as cartas na mesa, com as seguintes faces voltadas para cima:

A   D   4   7

Pergunta: qual a forma mais eficiente de determinar se a seguinte afirmação é verdadeira: “no verso de uma vogal sempre há um número par, e vice-versa“? (vice-versa acresentado após intervenção do Daniel Lima, nos comentários, e omitido após intervenção de Israfel…).

Não responda ainda! Antes, leia a historinha abaixo…

Em 1960, o psicólogo P.C. Wason fez o seguinte experimento com 29 voluntários: apresentou-lhes uma sequência de números — 2, 4, 6 — e pediu que tentassem descobrir qual a lei de formação por trás dela.

Como a amostragem era pequena demais, Wason ofereceu uma colher de chá: antes de anunciar qual a regra deduzida e descobrir se haviam acertado ou errado, os voluntários poderiam gerar uma sequência hipotética, baseada de alguma forma na ideia que tivessem tido, e os pesquisadores lhes diriam se ela se encaixava ou não na lei.

Uma vez de posse da resposta, os voluntários poderiam ajustar suas hipóteses de acordo.

O resultado foi interessante: a maioria dos voluntários gerou sequências corretas (como 102, 106, 110 ou 7, 8 ,9 ou 15, 17, 19) mas anunciou regras erradas – por exemplo, três números pares, três números sendo o do meio a média dos outros dois, três números com uma diferença de duas unidades entre eles. A lei verdadeira era muito mais simples — três números quaisquer, desde que em ordem crescente.

Wason atribuiu a dificuldade dos voluntários a um fenômeno psicológico que chamou de viés de confirmação: uma vez formulada a hipótese sobre qual deveria ser a regra, a tendência natural dos participantes era gerar exemplos que a confirmassem, e não buscar casos que pudessem desmenti-la.

O filósofo britânico Francis Bacon, um contemporâneo de Shakespeare, já conhecia — e deplorava — o efeito. Escreveu ele:

“O entendimento humano, tendo uma vez adotado uma opinião (…) mobiliza todas as outras coisas para apoiá-la e concordar com ela. E embora haja um número e peso maior de casos em apoio ao lado oposto, ainda assim esses são desprezados e negligenciados, ou postos de lado por alguma distinção.”

Voltando agora à pergunta das cartas: quais devem ser viradas para testar a afirmação de que vogais têm números pares no verso?

Se você nunca encontrou esse problema antes e for como a maioria das pessoas,  provavelmente respondeu A e 4.

E, de fato, é necessário virar essas cartas a carta A — se houver um número ímpar atrás dela, a tese estará desprovada.

O 4 não é necessário: nosso enunciado diz que é preciso haver um número par atrás de cada vogal, mas nada a respeito do que esperar atrás de um número par.

Mas é fato que, se houver um número par no verso de A e uma vogal atrás do 4, poderemos sentir mais confiança na afirmação original. No entanto, a despeito dessas duas aparentes confirmações, também será preciso virar a carta 7: se houver uma vogal em seu verso, a tese fica invalidada.

Ninguém é imune ao viés de confirmação, mas precaver-se contra  ele não é muito difícil — basta manter em mente que, ao testar uma ideia, buscar provas de que ela está errada pode ser ainda mais útil do que procurar sinais de que está certa.

Continuando com Bacon, que descreve o viés de confirmação como um “deleite das vaidades”:

“É o erro peculiar e perpétuo do intelecto humano excitar-se mais por afirmativas que por negativas; quando deveria propriamente manter uma disposição indiferente quanto a ambas. De fato, no estabelecimento de qualquer axioma verdadeiro, o exemplo negativo é o que mais deve se impor.”

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