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Carlos Orsi

Não é incrível que os seres humanos se tolerem? Digo, é óbvio que existe uma forte pressão seletiva para que tenhamos paciência com os parentes, por mais irritantes que sejam — afinal, são nossos genes ali também ou, no caso de cunhados e cunhadas, são os veículos para a propagação de nossos genes — mas o que nos faz aturar o sujeito ouvindo axé, sem headphones, no ônibus lotado? Ou os militantes partidários de aluguel que distribuem santinhos na feira?

O fato desse tipo de tolerância existir é o que torna possíveis grandes cidades como São Paulo, e empreendimentos que dependem da colaboração de um grande número de pessoas. Está entre as maiores conquistas da humanidade. E não é uma capacidade trivial: chimpanzés de uma determinada tribo, por exemplo, parecem perfeitamente dispostos a torturar e matar membros indefesos de outras tribos; e a própria tolerância do homem para com o próximo é delicada e instável — como guerras, terrorismo e crime bem demonstram.

Uma das fontes da tolerância em nossa espécie é, muito provavelmente, o reconhecimento de nossa humanidade comum: a capacidade de ver-se no outro. Isso é uma das coisas que faz com que viagens e eventos esportivos internacionais sejam tão importantes.

Quando, digamos, “o ruritano” passa a ser Alexei, aquele cara engraçado com quem rachamos o táxi na volta para o hotel, a ideia de uma guerra contra a Ruritânia torna-se repugnante num nível ainda mais profundo que o intelectual.

A estratégia de buscar a manutenção da paz pela humanização do próximo parece vir desde a pré-história: uma descoberta arqueológica divulgada nesta semana mostra que um grande banquete, para mais de 30 pessoas (uma multidão para a a época!) foi realizado numa caverna da Galileia há cerca de 12.000 anos.

Uma das autoras da descoberta, Natalie Munro, descreve assim o contexto da festança, ocorrida num momento de transição do nomadismo para a cultura agrícola sedentária:

“As pessoas estavam se encontrando muito mais, o que causava fricção. Antes, era possível ir embora quando os vizinhos se tornavam incômodos. Agora, esses eventos públicos serviam como oportunidades de construir um senso comunitário, o que ajudava a aliviar tensões e solidificar as relações sociais”.

Não se trata de uma solução perfeita, como, novamente, nossa longa história de crimes, guerras e atrocidades sortidas bem mostra. E realmente ainda não consegui decidir se o fato de estarmos tentando há tanto tempo é uma motivo para alento ou de desespero.

Só sei que de vez em quando me vejo simpatizando com a reação do personagem de Burgess Meredith ao holocausto nuclear que acontece no episódio  Tempo Suficiente, Afinal, do seriado “Além da Imaginação” — e que pode ser visto abaixo:

(Aliás, há vários episódios de “Além da Imaginação” online no site da CBS — mas, como fui alertado nos comentários, não para quem está no Brasil…)

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No domingo eu participei do lançamento da antologia de histórias de ficção científica Vaporpunk, realizada durante a IV Fantasticon, em São Paulo. Num dos eventos relacionados ao lançamento, um dos organizadores do livro, o escritor carioca Gerson Lodi-Ribeiro, deu uma palestra na qual descreveu brevemente algumas das narrativas que compõem o volume.

A descrição da minha história, que especula como seria o mundo se algumas hipóteses científicas formuladas no século 17 e superadas por desenvolvimentos posteriores tivessem se mostrado corretas, causou um pequeno debate na plateia, o que me deixou feliz e também preocupado.

Feliz porque foi, afinal, um indicador de que a premissa do conto é instigante o suficiente para provocar reações até mesmo em quem ainda não o leu. E preocupado porque algumas pessoas realmente pareciam levar extremamente a sério a noção de que o sucesso ou fracasso de uma teoria científica não passa de contingência histórica, definida por questões culturais e ideológicas. O que é um absurdo.

É evidente que cientistas são seres humanos, imersos na cultura em que vivem, tão sujeitos a pressões políticas, preconceitos e vieses quanto qualquer um de seus contemporâneos. E também é verdade que, em alguns momentos da história — a negação do heliocentrismo pelo Vaticano, a antropologia racista do 3° Reich, a imposição da biologia lisenkoísta por Stálin logo vêm à mente — disputas científicas pareceram ter sido resolvidas por um fiat ideológico.

É preciso lembrar, no entanto, que esses foram momentos excepcionais, episódicos e patológicos: tratá-los como se fossem o curso normal da ciência equivale a dizer que a temperatura normal do corpo humano é 42° C. Ao fim e ao cabo, ao longo dos séculos e a despeito das contingências da história, uma teoria científica deita raízes enquanto outra soçobra por um único motivo: por ser uma descrição melhor da realidade objetiva.

O que constitui uma “descrição melhor” é um tema complexo, mas resumindo eu mencionaria três critérios, que enumero em ordem crescente de importância:

1. Economia: uma teoria é melhor que outra se dá conta dos mesmos fenômenos, mas pressupondo a existência de menos entidades, forças, partículas, agentes, etc. O caso clássico é o da Relatividade Restrita, que tornou desnecessário o conceito do éter luminífero.

2. Poder explicativo: uma teoria é melhor que outra se é capaz de incorporar — isto é, explicar logicamente — fenômenos que não tinham explicações ou eram considerados anomalias na teoria anterior. Aqui o exemplo clássico é o modelo quântico do átomo.

3. Capacidade de propor e realizar previsões: este é talvez o critério mais importante. Uma teoria científica é superior quando permite não apenas explicar as observações feitas no passado, mas também prever o resultado de experimentos ainda não realizados e, até, de sugerir observações que ninguém ainda havia considerado fazer — o caso clássico é o do desvio da luz pela gravidade, um fenômeno inimaginado até que Einstein aparecesse com a Relatividade Geral.

É óbvio que a realidade objetiva é complexa e provavelmente jamais venhamos a ter uma descrição que dê conta de sua totalidade — assim como nenhum mapa jamais dá conta de todo o terreno — mas, da mesma forma que os mapas evoluíram, tornando-se cada vez mais úteis e precisos, a ciência também evolui, produzindo teorias cada vez mais próximas da “coisa como ela é”.

Enfim, teorias científicas não são movimentos literários ou modas, estes sim criações da mente humana moldadas unicamente por contingência histórica e cultural. Os experimentos geram um conteúdo empírico que os fenômenos estritamente culturais são livres para ignorar, mas que o teórico é forçado a levar em consideração.

Esta postagem já vai grande demais, então vou fechá-la com uma citação de Paul Feyerabend: “Como um empreendimento (a ciência) que depende tanto da cultura pode produzir resultados tão sólidos? (…) relativistas de todos os tipos ficam excitados com o componente cultural e esquecem as previsões e a tecnologia”.

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Ontem, publiquei uma entrevista com o líder de um grupo de pesquisas que buscou determinar em que condições uma decisão coletiva pode, realmente, ser melhor do que uma decisão autocrática, tomada pelo membro mais capaz, competente ou especializado do grupo.

(O texto pode ser lido aqui, na íntegra.)

A conclusão foi a de que uma decisão coletiva pode ser melhor que uma decisão individual especializada, desde que se cumpram dois critérios: (a) o nível de competência dos participantes estar razoavelmente equilibrado; e (b) os participantes serem sinceros ao descrever as dúvidas que têm sobre as próprias opiniões.

Quando comentei com alguns colegas que estava trabalhando nessa história, obtive uma certa reação de surpresa. A pauta científica da semana tinha, afinal, tinha coisas mais sensacionais, como os novos planetas do Kepler , a simulação dos buracos negros primordiais e (confesso que esta realmente me deixou tentado) os efeitos da luz solar na formação de asteroides duplos.

Em comparação, as conclusões da equipe de Bahador Bahrami pareciam soar “óbvias”. “Ciência confirma o bom-senso”, brincou um amigo, sugerindo um título para o texto que eu iria produzir.

Então: por que diabos peguei essa pauta, especificamente?

Imagino que por três motivos. O primeiro é que realmente gosto de pesquisas que trazem uma abordagem mais experimental e quantitativa ao estudo das interações humanas. Sou um consumidor ávido de resultados sobre o Dilema do Prisioneiro e de Jogos de Ultimato, por exemplo.

O segundo motivo é que o resultado pode até ser “óbvio” e de “bom-senso”, mas não reflete a prática corrente. De reuniões corporativas às próximas eleições, passando pelas famigeradas discussões de relação, em quantas oportunidades um esforço real é feito para equalizar competências e explicitar incertezas?

O terceiro, talvez mais importante, é formado pelas duas últimas palavras do parágrafo acima: explicitar incertezas. De acordo com o resultado de Bahrami, a boa decisão só acontece quando os debatedores estão não só  dispostos a reconhecer que têm dúvidas quanto às posições que defendem, mas também comunicam claramente um ao outro o grau dessa dúvida.

A ideia de que ignorância e incerteza podem existir em graus, e de esses graus podem (e devem) ser efetivamente reconhecidos e comunicados por meio do diálogo — se o objetivo do diálogo é chegar a uma decisão correta — até soa óbvia uma vez articulada, mas na verdade é muito sutil e sofisticada. Estou, digamos, 90% certo disso.

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A animação abaixo mostra as descobertas de asteroides no Sistema Solar nos últimos 30 anos. Começa devagar, mas ganha impulso a partir da virada do século. O total vai de menos de 10 mil a mais de meio milhão.

É sempre bom lembrar que, em 2005, o Congresso americano determinou que a Nasa descobrisse 90% dos objetos com órbitas que se aproximam da Terra e que tivessem mais de 140 metros de diâmetro, isso até 2020.

Na animação, os asteroides verdes são os que se mantêm a uma distância segura de nós; amarelos, os que chegam meio perto e vermelhos, os que efetivamente cruzam a órbita da Terra.

No início deste ano, um relatório do Conselho Nacional de Pesquisas dos EUA advertiu que a verba era insuficiente para que o mandado fosse cumprido.

(Por alguma razão, o contador de asteroides e de data fica fora da tela no “embed” do blog. A URL original, para quem quiser conferir os números direto no YouTube, está neste link).

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A animação abaixo é Vila Sésamo vintage. Lembro-me de assistir ao programa de manhã cedo, nos anos 70, logo depois (ou seria logo antes? ou não teria nada a ver?) do seriado do Zorro da Disney, estrelado por Guy Williams.

A música é de Philip Glass.

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Tecnologia gera desemprego, diz o senso comum. Tecnologia liberta o ser humano do trabalho repetitivo e alienante para que possa se dedicar a coisas mais elevadas,  responderam, ao longo da história, figuras visionárias como — no século passado — Monteiro Lobato e Isaac Asimov.

Reconhecendo que a situação dificilmente chega a ser assim tão bem definida e na verdade é muito dinâmica, com os “libertados” de hoje devendo muito ao sofrimento bem real dos “desempregados” de uma ou duas gerações atrás, seria interessante, pelo menos, tentar quantificar  quantos funcionários cada um de nós precisaria ter para manter o padrão de vida que a civilização tecnológica atual nos dá.

Digamos que, em vez de carros, houvesse liteiras ou jinriquixás; que, em vez de lâmpadas, precisássemos de mordomos (em nossas casas) e funcionários públicos (nas ruas) para acender e apagar velas (e fabricantes de velas e de fósforos para suprir a demanda); que esta postagem, em vez de ser transmitida pela internet, tivesse de ser ditada a um escriba, copiada à mão centenas ou milhares de vezes e enviada, por estafeta, a cada um de seus leitores.

O empurrador do jinriquixá ficou desempregado ou foi libertado?

O empurrador do jinriquixá ficou desempregado ou foi libertado?

Um jeito grosseiro, mas curioso, de estimar essa “população fantasma” de escravos, servos e funcionários substituídos pela tecnologia é fazendo o cálculo de “pessoa virtual”.

Encontrei o conceito de “pessoa virtual” num artigo escrito por um engenheiro americano, Robert P. Burruss, publicado na edição mais recente da revista Free Inquiry. Burruss parte da constatação de que o consumo energético médio do metabolismo humano é de 2.000 calorias alimentares ao dia, o que equivale (arrendondando) a 100 W.  Então, pronto: cada 100 W de energia potência que você consome representa uma pessoa virtual, ou VP, “virtual person”.

Nos Estados Unidos, de acordo com Burruss, há 120 VPs para cada habitante real.  No restante do mundo desenvolvido — Europa e Japão — a taxa cai para 60 VPs por ser humano de carne e osso. O resto do mundo tem acesso, em média, a 13 VPs per capita.

E no Brasil? De acordo com o IBGE, o consumo per capita de energia, em 2007, foi de 51,9 bilhões de joules.  Convertendo joules/ano em watts, isso dá 1.645, ou 16 VPs por habitante.

Dezesseis empregados virtuais para cada brasileiro!

Dadas as desigualdades que permanecem no País, é bem provável que esse número varie um bocado entre as regiões, e até dentro de uma mesma cidade.

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Depois de quase perder o café da manhã procurando um livro que não estava onde eu o havia deixado, me vi refletindo sobre o que faz com que o chamado princípio antrópico forte (a ideia de que há um ajuste especial nas leis do Universo para tornar a vida humana possível) pareça tão mais altissonante do que a Lei de Murphy, ou a ideia de que há um ajuste especial nas leis do Universo para tornar a vida humana miserável.

“Antrópico” é uma palavra chique, sem dúvida. Mas a Wikipedia registra uma fala em que o mágico Nevil Maskelyne menciona a “depravação das coisas inanimadas”. Essa frase é, afinal, quase tão elegante quanto “princípio antrópico” (“PA”, para encurtar).

Talvez seja uma questão de incentivos: defensores acadêmicos do PA têm chance de ganhar o milionário Prêmio Templeton. Já os formuladores da versão atual da Lei de Murphy — “se alguma coisa pode dar errado, dará” –, incluindo o próprio Edward Murphy Jr, só conseguiram o IgNobel. E póstumo, ainda por cima.

Como eu mesmo já escrevi neste blog sobre PA mas nunca havia me manifestado sobre a Lei de Murphy (“LM”, para evitar repetição excessiva), trato de consertar essa negligência agora.

Um bom jeito de olhar para a LM  é a partir do conceito de entropia, muitas vezes definido como a medida da desordem de um sistema. Eu realmente não gosto dessa definição: qualquer adolescente que já tenha discutido com a mãe sobre a arrumação do quarto sabe que “desordem” é uma coisa subjetiva demais para ser medida, afinal.

Prefiro resumir entropia como o número de maneiras em que alguma coisa poderia ser diferente e continuar a ser ela mesma. Talvez soe complicado, mas voltemos ao exemplo do quarto de adolescente.

Para a hipotética mãe de nosso hipotético jovem, só existe uma maneira de um “quatro arrumado” continuar a ser um “quarto arrumado”: com a cama esticada, as revistas numa pilha sobre a escrivaninha, as roupas dobradas nas gavetas e/ou penduradas no cabide.

Já um “quarto desarrumado” pode existir de várias formas: com as revistas espalhadas pelo chão ou as cobertas jogadas displicentemente sobre a cama ou com roupas dispersas por aí. Ou com tudo isso, e mais, ao mesmo tempo.

Logo, o quarto desarrumado tem mais entropia (mais “modos de ser ele mesmo”) do que o quarto arrumado (que só existe em um estado específico). Essa noção se liga de forma muito íntima à de probabilidade: uma coisa que pode acontecer de vários jeitos diferentes é mais provável do que uma coisa que só pode acontecer de um jeito único.

Disso decorre a Lei de Murphy: “dar certo” geralmente envolve um conjunto bem limitado de resultados, dentro de um universo maior. Todo o resto é “dar errado”.

A formulação atual da lei dramatiza o efeito, ao afirmar que basta deixar uma só janela aberta para o erro que ele há de se manifestar, mas isso leva em conta nossa ignorância: se há um caminho conhecido para a falha, é provável que haja outros em que ninguém pensou.

E agora, onde está aquele livro?

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23.agosto.2010 08:01:28

Frankenstein, 1910

Filmes como Origem trazem de volta o previsível debate entre “arte” e “efeitos especiais” no cinema. O que é engraçado porque, quando nasceu, o próprio cinema era uma espécie de truque de mágica — um “efeito especial” — em si. Georges Méliès, por exemplo, tinha sido mágico no Teatro Robert-Houdin, batizado com o nome do grande ilusionista francês do século 19 que serviu de inspiração para o americano Robert Harry Houdini.

(As peripécias de Robert-Houdin na Argélia na década de 1850, onde ele teria usado truques de mágica para desmoralizar um grupo de fanáticos religiosos, talvez mereçam estudo renovado, aliás)

A ligação íntima entre mágica e a origem (sem trocadilho) do cinema aparece de forma muito clara no filme abaixo, onde os momentos-chave são muito obviamente truques. Trata-se da primeira versão cinematográfica de Frankenstein, produzida por Thomas Edison em 1910 — e que, portanto, completou um século neste ano.

Com apenas 12 minutos, este não apenas é o primeiro filme inspirado na obra de Mary Shelley, como também a primeira película de terror americana. O que traz a questão de o que Edison teria feito se soubesse que estava inaugurando uma linhagem que iria dar em Vincent Price, Sexta-feira 13O Bebê de Rosemary?

Com vocês, o Frankenstein de 1910:

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Cada vez que publico no estadão.com.br alguma coisa a respeito da Lua (por exemplo, esta entrevista com um cientista que acredita que o satélite encolheu ao longo do último bilhão de anos) surgem comentários pondo em dúvida a realidade das missões Apollo 11 a 17 — das quais todas, com exceção da 13, puseram homens na superfície da Lua.

De acordo com farta documentação histórica, entre 1969 e 1972, 12 seres humanos caminharam sobre o satélite da Terra, metade dos quais pilotou veículos motorizados na superfície lunar. Desses, nove ainda estão vivos.

É concebível que tudo não tenha passado de uma farsa, implementada pelo governo dos EUA e que vem contando, desde então, com a cumplicidade, não só dos mais de 40 astronautas e milhares e funcionários ligados ao projeto Apollo, mas também de historiadores, jornalistas e cientistas de todas as partes do mundo, incluindo de países que já foram inimigos e ainda hoje são rivais dos Estados Unidos?

Claro que é. Da mesma forma que é concebível uma grande conspiração universal para nos convencer de que a Terra é redonda e não chata (como, evidentemente, qualquer um pode ver), ou para ocultar o “fato” de que o registro fóssil é, na verdade, formado por animais mortos durante dilúvio da Arca de Noé.

Como já bem notou o matemático Roger Penrose (e duvido que ele tenha sido o primeiro), nem tudo que a mente humana é capaz de conceber  encontra correspondência na realidade física. Ele estava falando de abstrações matemáticas, mas o mesmo se aplica a conspirações.

Ano passado, como parte das celebrações das quatro décadas do pouso de Armstrong e Aldrin no módulo Águia, preparei uma lista de perguntas e respostas sobre as “provas” de que o homem jamais teria estado na Lua. Infelizmente, não consegui dar “Ctrl C”-”Ctrl V” na relação para reproduzi-la dentro do blog, mas o endereço dela ainda está funcionando e pode ser acessado aqui.

Gene Cernan, da Apollo 17, saúda a bandeira

Gene Cernan, da Apollo 17, saúda a bandeira

Ali, respondo a questões que vão desde a bandeira que parece tremular no vácuo aos malignos cinturões de Van Allen, passando por uma série de questões relativas às fotografias, como a intensidade das sombras, a ausência de estrelas no céu e outros clássicos do negacionismo lunar.

Não tenho a ilusão de que meu quiz vá convencer os mais fanáticos, mas tenho a esperança de que possa ajudar a esclarecer algum espírito curioso que tenha, por um motivo ou outro, caído no conto do negacionsimo.

ADENDO:

Um comentário publicado no quiz menciona o fato de que a superfície lunar não é uniformemente branca, mas apresenta tons de cinza. Penitencio-me: quando escrevi que a superfície lunar era “branca e brilhante”, eu estava condensando um argumento mais longo que trata de uma propriedade da poeira lunar de refletir luz de volta para fonte, o que opera atenuando as sombras. A descrição completa pode ser encontrada na detalhada e definitiva desmistificação da “fraude lunar” feita por Phil Plait, em seu site Bad Astronomy.

ENIGMA

E agora, para animar o fim de semana, um enigma matemático clássico de que me lembrei ao fazer a história do encolhimento lunar: de acordo com a hipótese de Thomas Watters, a Lua teria perdido 100 metros de raio no último bilhão de anos. Suponha, então, que houvesse uma corda amarrada rente ao redor do equador lunar, 1 bilhão de anos atrás. Hoje, se ainda estivesse lá, a corda apresentaria uma folga, já que a Lua encolheu. Pergunta: quantos metros de corda estariam sobrando?

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Todo mundo, acho, já sabe que cada ser humano vivo é um fardo para o meio ambiente: criamos lixo, consumimos produtos que geram emissões de gases do efeito estufa, nossa comida é produzida em áreas onde a paisagem natural foi devastada e substituída por pasto e plantação.

De acordo com o quiz do MyFootPrint.org,  eu sozinho preciso de 12,8 hectares para sustentar meu estilo de vida, sendo 7,7 só para produção do que como, o que está acima da média brasileira, de 5,7 (creio que vou começar uma dieta).

O que talvez venha a abalar as esperanças dos misantropos em geral é o fato de que seres humanos mortos também são um problema. Cadáveres sepultados obviamente requerem um terreno — roubado da natureza — para o enterro, além de liberar metano, um potente gás do efeito estufa, entre demais substâncias desagradáveis; e há o desperdício de madeira e outros materiais. Cremações, por sua vez, além de espalhar cinzas de chaminé pela vizinhança, geram emissões de CO2  da ordem de 150 kg por cliente.

(O que pode parecer estranho, já que o ser humano médio pesa menos do que isso, mas não se esqueça do oxigênio do ar que entra na combustão, e do combustível original que inicia a chama.)

Agora, uma empresa australiana, Aquamation Industries, citada pela NewScientist, propõe um meio de reduzir a pegada ecológica dos cadáveres: aquamação, a dissolução dos restos mortais em água  quente, com uma pequena adição de potássio. Diz a brochura promocional (em PDF) da companhia:

“Com aquamação, um corpo individual é gentilmente colocado num recipiente limpo, de aço inoxidável. Uma combinação de água corrente, temperatura e alcalinidade é usada para acelerar o curso natural de hidrólise do tecido. O processo é totalmente digno.”

A água servida, com os órgãos e tecidos dissolvidos, acrescenta o panfleto, é um ótimo fertilizante que pode ser usado, por exemplo, nas flores de um jardim. Os ossos são triturados, produzindo o equivalente à urna de cinzas das cremações.

A aquamação permite ainda que próteses metálicas sejam recuperadas e reutilizadas.

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