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Carlos Orsi

Com a Bienal de Livro se aproximando, minha caixa de e-mail começa a encher com anúncios do lançamento de livros que trazem as palavras “quantum” ou “quântico” no título. Infelizmente, muito pouco desse material — na verdade, temo que nada – trata de história da ciência ou da tentativa de traduzir conceitos complexos da física para a linguagem popular. A maioria simplesmente parece ser literatura de autoajuda que decidiu que “quântico” é o novo “místico”.

Tudo isso dá a impressão de girar em torno da ideia de que, como as partículas subatômicas parecem só assumir características bem definidas quando observadas, e o universo é feito de patículas subatômicas, o universo só assume  características bem definidas quando observado.

Dessa pequena joia filosófica — que eu vou chamar de quantum de confusão — , derivam-se doutrinas que vão da defesa do otimismo e do pensamento positivo como solução para tudo (se você olhar para as coisas positivamente, elas ficarão positivas) à existência de uma realidade metafísica (quem, afinal, é o observador que observa os observadores que estão observando…?).

Pessoalmente, considero a doutrina do pensamento positivo como panaceia universal um tanto quanto perversa — dela pode-se deduzir que a culpa sempre é da vítima, que não se concentrou o suficiente para “atrair boas energias” e “mudar a realidade”; algo difícil de aplicar, convenhamos, ao Holocausto ou ao genocídio de Ruanda.

O problema mais profundo, no entanto, está no fato de que o quantum de confusão simplesmente não é válido.

Mesmo supondo que, sim, observações são necessárias para definir algumas das propriedades das partículas subatômicas (e há muitos cientistas sérios que não estão convencidos disso), em nenhum lugar está especificado que “observação” requer um observador consciente: interações com objetos inanimados, moléculas de ar, partículas de luz, etc., também contam.

Segundo, generalizar da parte (partícula) para o todo (universo) simplesmente não funciona. Senão, vejamos: é impossível morrer afogado em uma molécula de água. O oceano é feito de moléculas de água. Logo, é impossível morrer afogado no oceano.

Evidentemente, há algo errado nessa cadeia de argumento.

Enfim, só para equilibrar um pouco a balança, eu adoraria receber o press-release do lançamento no Brasil de, por exemplo, The Unconscious Quantum (“o Quantum Inconsciente”), de Victor J. Stenger. Mas algo me diz que é melhor esperar deitado — e numa câmara criogênica…

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Juntei dois vídeos nesta postagem. Um deles é uma animação, feita pelo japonês Isao Mashimoto, que mostra todas as explosões nucleares ocorridas no planeta Terra desde o teste da primeira bomba nos EUA, em 16 de julho de 1945.

Ao todo, são 2.053 detonações confirmadas, e três suspeitas (incluindo os dois supostos “testes nucleares” da Coreia do Norte), desde então.

A animação começa meio devagar, mas entre os anos 60 e 80 atinge um ritmo que lembra as luzes estroboscópicas de pista de dança.  Peguei a dica desse com Kieran Mulvaney, do Discovery News.

O outro traz J. Robert Oppenheimer, o cientista que encabeçou a criação das primeiras armas nucleares, descrevendo seus pensamentos quando o teste de 45 se mostrou um sucesso. A frase com que encerra o depoimento é sobejamente conhecida, mas ouvi-la dos lábios de Oppenheimer ainda é desconcertante.

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O telescópio espacial Kepler, da Nasa, criado para buscar planetas semelhantes ao nosso, já encontrou pelo menos 140 candidatos que podem se encaixar na categoria, todos astros com menos de duas vezes o raio da Terra. Este é o grupo dominante na lista de cerca de 700 novos mundos descobertos pela sonda. A informação foi divulgada há alguns dias por um coinvestigador da missão, Dimitar Sasselov, durante um evento realizado em Oxford, Inglaterra.

Até agora, o conjunto de exoplanetas – como são chamados os mundos encontrados em órbita de outras estrelas – era dominado por objetos muito maiores que a Terra e mais parecidos com os planetas gigantes do Sistema Solar, como Júpiter ou Netuno. Existem, no momento, cerca de 400 exoplanetas confirmados.

Vídeo da apresentação feita em Oxford mostra Sasselov afirmando que, embora os candidatos ainda precisem ser confirmados, “o resultado estatístico é alto e claro (…) planetas como a nossa Terra estão lá fora. Nossa Via Láctea é rica nesse tipo de planeta”.

(Nesse contexto, um planeta “semelhante à Terra” não seria necessariamente hospitaleiro ou habitável — Mercúrio, Vênus e Marte, por exemplo, encaixam-se na categoria.)

Em junho, a equipe do Kepler havia anunciado a descoberta de mais de 700 novos candidatos a planeta. O anúncio causou polêmica porque apenas os dados de 306 desses candidatos foram liberados para que cientistas de todo o mundo pudessem analisá-los e confirmar, ou não, a presença de outros planetas fora do Sistema Solar. O restante da massa de dados, referente a 400 planetas, só seria divulgada em fevereiro de 2011.

A apresentação de Sasselov causou surpresa não só por vir pouco mais de um mês após o anúncio oficial dos 700 candidatos, mas também por ter sido feita num evento fechado e realizado fora dos Estados Unidos. A Nasa costuma divulgar resultados de grande impacto em eventos abertos e com ampla cobertura de mídia. Em 1996, o anúncio da descoberta de possíveis fósseis em um meteorito marciano envolveu até mesmo o então presidente Bill Clinton.

Sasselov, búlgaro, atualmente atua no Departamento de Astronomia da Universidade Harvard. Depois da tempestade de questionamentos que se seguiu a sua apresentação em Oxford, incluindo acusações de falta de transparência dirigidas aos pesquisadores ligados ao Kepler, ele preparou uma declaração para ser publicada no blog da missão. Ela ainda não tinha aparecido até o começo da noite desta terça-feira.

ADENDO: Uma curta nota de esclarecimento de Sasselov apareceu no site da Nasa e, por volta das 21h, uma postagem mais detalhada veio à tona no blog da missão Kepler.  Nela, o pesquisador esclarece que “semelhante à Terra”, no jargão que usou na palestra de Oxford, pode não significar planetas realmente muito parecidos com o nosso (como notado no parágrafo entre parênteses mais acima).

Além disso, reitera que o que Kepler tem por enquanto são candidatos a planeta, e não planetas confirmados.

Gráfico aresentado na palestra que causou a confusão

Gráfico apresentado na palestra que causou a confusão

Ele dá, ainda, a informação um tanto quanto desanimadora de que nenhum dos candidatos já descobertos e com raio aparente inferior a dois raios terrestres  fica numa zona habitável — isto é, à distância adequada de sua estrela para sustentar água em estado líquido (e portanto vida como a conhecemos) na superfície.

(O conceito de “zona habitável” é altamente discutível, mas não vou entrar nisso agora.)

Por fim, a postagem traz um link para um artigo científico sobre o tamanho dos planetas-candidatos encontrados pelo Kepler.

Abaixo, o vídeo feito em Oxford:

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Relendo o sempre ótimo Fads & Falacies in the Name  of Science, de Martin Gardner, reparei que os ensaios sobre Lysenko e nazismo aparecem um em seguida do outro. Faz sentido: ambos tratam das consequências catastróficas de se tomar bobagem por ciência.

Trofim Lysenko (1898-1976) foi um agricultor soviético que caiu nas graças de Stálin e conseguiu impor à União Soviética, durante décadas, suas teorias infundadas sobre genética e produção agrícola.

Em linhas gerais, ele defendia a ideia de que uma mudança de ambiente poderia “destroçar” a herança genética das plantas — algo que talvez tenha parecido se harmonizar com o ideal socialista de criar um novo ser humano a partir da transformação social.

Sua obra é uma história de terror em duas partes. A primeira, feita pela perseguição, assassinato e intimidação dos geneticistas e agrônomos que se opunham a ele ou que tentavam manter alguma integridade científica e intelectual; a segunda, pelo atraso a que a agricultura soviética foi submetida durante seu período de graça.

O nazismo, claro, é um caso mais complicado. Sua matriz não foi apenas política e pseudocientífica, como também mitológica, cultural e religiosa.

Propostas para expulsar ou escravizar os judeus da Alemanha já apareciam em escritos de Martinho Lutero; Albert Einstein era ameaçado e atacado por fazer “física judia” bem antes da ascensão de Hitler; e o nacionalismo alemão fazia um apelo romântico à Idade Média e a tempos pagãos. Uma mixórdia.

De qualquer forma,  o Reich não teve dificuldade para encontrar antropólogos dispostos a escrever rapsódias sobre a superioridade das “raças nórdicas”. Hans Günther(1891-1968), da Universidade de Jena, que segundo a Wikipedia continuou a publicar material racista e eugenista até 1959, é o exemplo mais destacado.

Gardner acerta o alvo ao escrever que os trabalhos de homens como Günther “são  um testemunho contundente da facilidade com que uma ciência pode ser pervertida por fortes preconceitos emocionais que o cientista deriva não de seu objeto de estudo, mas das forças culturais que o cercam”.

Eu acrescentaria que a relação mantida entre a ciência real e trabalhos como os de Lysenko e Günther é a mesma que há entre aeroportos de verdade e as “pistas de pouso” e “torres de controle” de madeira que, em certa época, eram erguidas por moradores de ilhas do Pacífico para magicamente “atrair” aviões: alguma coincidência de forma, mas absoluta divergência de conteúdo.

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Como a maior parte dos comentaristas notou, a solução para o enigma da postagem de sexta-feira é a constatação de que a soma total, em centavos, do valor da compra teria de ser um múltiplo de três — o que 2,92, ou 292 centavos, não é.

E agora, mudando radicalmente (ou talvez nem tanto) de assunto, queria dar um pequeno pitaco a respeito do tipo de discurso a que estamos sendo submetidos neste período pré-eleitoral.

Este é, essencialmente, um blog de ciência, que às vezes entra um pouco na filosofia. Sendo a lógica uma ferramenta essencial a ambos os campos, tenho especial apreço por ela e, embora geralmente consiga fazer ouvidos moucos às agressões a que a pobre dama é submetida no dia-a-dia, o volume do soi-disant “debate político” está tão alto que não é mais possível ignorá-lo, ou deixar de sentir algum incômodo com sua baixíssima qualidade argumentativa.

(Não estou entrando no mérito do conteúdo de alegações e propostas; trato apenas da forma lamentável como vêm sendo apresentadas e/ou contestadas)

Imagino que uma lista completa dos atos de desonestidade intelectual cometidos por políticos (e por seus seguidores, apoiadores, correligionários, etc) encheria um livro muito divertido, mas vou me limitar a dois que, ao menos em minha opinião, clamam aos céus por identificação e denúncia.

O primeiro é tão manjado que tem até um nome em latim, tu quoque, que quer dizer “você também”. É a manobra de, em vez de responder a uma acusação, devolvê-la. Crianças fazem muito isso: “Mãe, Pedrinho pegou uma fatia a mais de bolo!”, diz Gabrielzinho.  A que Pedrinho responde: “Mas o Gabrielzinho também!”

Perceba que em nenhum momento Pedrinho, o acusado, nega ter exagerado no bolo. No contexto de discutir a culpa ou inocência de Pedrinho, o que Gabrielzinho fez ou deixou de fazer é estritamente irrelevante. A questão da culpa de Gabrielzinho pode vir a ser importante mais tarde (quando a mãe decidir a punição, se houver) mas a frase “Pedrinho pegou uma fatia a mais de bolo” não depende de nada que Gabrielzinho tenha feito, ou deixado de fazer, para ser verdadeira ou falsa.

O segundo truque é o cui bono (“quem se beneficia”). Trata-se de uma questão importante  e relevante em várias situações — numa investigação de homicídio, por exemplo — mas, como ferramenta de prestidigitação retórica, cui bono é a técnica de, em vez de discutir a questão em si ou sua relevância intrínseca, começar a perguntar “a quem interessa” o fato de a questão ter sido levantada.

O cui bono vem sendo muito usado no debate sobre meio ambiente. Você provavelmente já leu ou ouviu algo nesta linha: A quem interessa a pressão de ONGs internacionais pelo corte de emissões de CO2?

Assim como o comportamento supostamente hipócrita de Gabrielzinho no caso da fatia de bolo, esta é uma pergunta cuja resposta pode até ser interessante em seu próprio contexto, mas que é absolutamente irrelevante frente às questões de fundo: no caso, o nexo científico entre emissões de CO2 e aquecimento global, e  as consequências de longo prazo desse aquecimento.

Para finalizar: tanto tu quoque quanto cui bono costumam ser introduzidos no discurso em um tom de indignação, ironia ou ambos, o que aumenta consideravelmente seu poder de intimidação moral e intelectual. Mas não se engane: quem os usa provavelmente está morrendo de medo de ver o debate avançar e louco para mudar de assunto.

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A notícia (que passou quase despercebida) dos 35 anos da primeira missão espacial conjunta entre Estados Unidos e União Soviética, quando as cápsulas Soyuz 19 e Apollo 18 se encontraram no espaço, me fez mergulhar nos armários aqui de casa em busca de um livro que acho que é meio raro, The Moscow Puzzles.

Diz a introdução: “O livro que o leitor agora tem em mãos é a primeira tradução para o inglês de Know-how Matemático, o melhor e mais popular livro de enigmas jamais publicado na União Soviética. Desde sua primeira aparição em 1956, houve 8 edições, bem como traduções do russo original para o ucraniano, estoniano, letão e lituano”, além de edições fora da URSS, incluindo França, China e Japão.

A primeira edição americana é de 1972, e uma busca na Amazon indica que a última (ou mais recente) é de 1992. O autor, Boris Kordemsky, faleceu em 1999. A edição americana foi preparada por (quem mais?) Martin Gardner.

O aniversário do encontro Apollo-Soyuz me trouxe a obra de Kordemsky à lembrança ao me fazer pensar em como o auge da ciência soviética coincidiu com o sucesso do livro de enigmas matemáticos. As primeiras bombas H soviéticas foram testadas entre 1953 e 1955; Know-how Matemático saiu em 1956; Gagarin viu a “Terra azul” em 1961.

Claro que evocar uma relação de causa e efeito aqui seria exagero — e, de qualquer forma, exigiria muito mais dados — mas a hipótese de que o interesse popular em matemática e a percepção do avanço científico da nação estejam, de alguma forma, ligados é certamente plausível.

E no Brasil? Uma busca pela palavra-chave “matemática” em duas grandes livrarias online traz algumas obras recreativas (traduzidas) publicadas pela Jorge Zahar, seguidas por um grande número de livros didáticos. O Homem Que Calculava, de Malba Tahan, ainda está em catálogo, o que é uma fonte de alento.

Tempos atrás, encontrei numa banca de jornais Os Enigmas de Canterbury,  tradução para o português de Portugal (e tinha gente que achava que a reforma ortográfica ia fazer diferença…), impressa da Espanha, de uma obra inglesa de 1907. Prometia ser parte de uma “coleção desafios matemáticos”, mas não notei outros volumes à venda.

Para animar o fim de semana, deixo aqui um enigma “vintage” de Kordemsky:

O clinte disse ao caixa: “Peguei dois pacotes de banha, a 9 centavos; duas barras de sabão a 27 centavos; e três sacos de açúcar e seis doces, mas não me lembro do preço do açúcar e dos doces”.

Responde o caixa: “Sua conta toda fica 2,92.”

O cliente retruca: “Você está enganado.”

O caixa refaz as contas e percebe o erro. Como o cliente adivinhou que a conta estava errada?

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Depois de muito resistir — meu senso prático não via razão para gastar nem 99 centavos de dólar na coisa — acabei comprando e baixando para o celular um aplicativo chamado Spacetime, que converte quantidades de espaço em tempo, e vice-versa.

A ideia da conversão pode soar estranha, a princípio, mas faz sentido: de acordo com a relatividade geral, o tempo seria apenas mais uma dimensão, uma coordenada extra no mapa do universo, que deixa de contemplar apenas o espaço — altura, largura, profundidade — e o passa a dar conta do espaçotempo.

Não é difícil encontrar na internet diagramas espaçotempo, gráficos onde um eixo representa a combinação das coordenadas espaciais normais e o outro, o tempo.

A escala é dada pela velocidade da luz no vácuo — 300.000 km/s —  de forma que a cada 300.000 km no eixo do espaço corresponde 1 segundo no do tempo.

Isso, a velocidade da luz, é o fator de conversão usado pelo aplicativo Spacetime. Minha resistência em adquirir o aplicativo estava, primeiro, na inutilidade básica da coisa e, segundo, na constatação de que ele não passava e uma calculadora maquiada — o que o programinha faz é apenas multiplicar ou dividir por 300.000, dependendo do caso.

O que me ganhou foi o fato de o aplicativo trazer também um sistema de cálculo de datas — basicamente, um meio de ver quanto “espaço” se passou desde o seu nascimento ou casamento. E foi exatamente o que fiz.

Descubro então que nasci a 374 trilhões de quilômetros atrás. Essa é a distância que um raio de luz — digamos, o reflexo do olhar crítico do obstetra que me viu pela primeira vez — viajou desde então.

Corresponde a um milhão de vezes a distância entre a Terra e o limite interior do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Nesse mesmo tempo, o mais longe a que já cheguei foi até a Antártida e a Londres. Um pulinho na esquina, em comparação.

Meu casamento foi a 98 trilhões de quilômetros atrás. Partículas de luz do flash da máquina que fez a imagem sorridente mantida por minha sogra num porta-retratos da sala de estar já passaram bem além de Proxima Centauri, a estrela que fica mais perto do Sol.

Se a conversão de datas em espaço oferece uma perspectiva nova, quase cósmica, a conversão de distâncias em tempo chega a ser meio tragicômica. O espaço que separa minha casa do prédio do Estadão — cerca de 40 km — corresponde a mísero 0,13 milissegundo. E pensar que levo de 40 minutos a uma hora e meia para chegar ao trabalho, dependendo do trânsito.

Já minha altura equivale a 5,6 nanossegundos. Eis aí um fato que prefiro não comentar.

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O Laboratório de Robótica de Bristol, na Inglaterra, publicou em seu website um vídeo que comprime 24 horas na “vida” do Ecobot III (ou BREADbot), uma máquina sobre trilhos que se alimenta de matéria orgânica: o robô suga um caldo nutritivo que sustenta as bactérias abrigadas em seu interior. Essas bactérias, por sua vez, produzem o hidrogênio que  vai ser assimilado nas células de combustível que movem o robô. O caldo não utilizado é excretado. O robô também bebe água, para repor eventuais perdas de líquido no processo.

Dá para assistir ao Ecobot III realizando suas funções vitais aqui.

Ecos de Matrix, alguém poderia dizer, mas repare que, ao contrário do filme — onde os humanos que geravam eletricidade para as máquinas eram alimentados com os restos de outros seres humanos geradores de eletricidade, numa violação da lei da conservação da energia — o Ecobot III precisa receber nutrientes de uma fonte externa. O mundo real é mais cruel que a ficção.

Há várias possibilidades conceituais aqui, por exemplo a de encarar o sistema robô-bactéria como uma espécie de simbionte micróbio-máquina, onde as bactérias geram a energia necessária para que a máquina as leve ao alimento de que precisam.  Ou tratar a coisa toda como um cyborg (Cybernetic Organism, “organismo cibernético”).

Ou ainda, numa versão mais pé no chão, como uma prova de conceito de que é possível construir máquinas movidas a um tipo de combustível cada vez mais abundante — esgoto.

Mas confesso que o vídeo me fez lembrar de um conto de ficção científica de Rudy Rucker, no qual um grupo de seres humanos avançadíssimos do futuro — tão avançados que em precisam mais comer, fazem fotossíntese — resolve fazer uma refeição, para ver o que era, afinal, aquela forma bárbara de alimentação de seus ancestrais pré-históricos.

Depois de encontrar um velho livro de receitas, preparar um banquete e deliciarem-se com os novos prazeres descobertos, os humanos do futuro ficam se perguntando que razão teria levado seus antepassados a trocar aquela maravilha sensorial por algo tão sem graça quanto viver de luz.

A resposta chega algumas horas mais tarde, depois de todos se queixarem de uma sensação estranha no abdome.

As bactérias estão nas duas fileiras de "bolsos" ao redor do robô

As bactérias estão nas duas fileiras de "bolsos" ao redor do robô

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Ontem foi uma correria aqui, por conta da divulgação dos resultados de um experimento com gel vaginal contra a aids. Durante a entrevista coletiva em que as notícias (positivas) do estudo foram divulgadas, surgiu uma questão sobre a ética de se realizarem novos estudos antes de liberar o remédio, já que ele parece ser a resposta às preces de muita gente que luta contra a epidemia.

O padrão mais elevado para o teste de medicamentos em seres humanos é o chamado teste duplo-cego aleatório com placebo. Do fim para o começo:

Placebo é alguma coisa que tem cara de remédio, cheiro de remédio, gosto de remédio… mas não é remédio. Pode ser açúcar, farinha, água, corante, amido, etc. Para saber se um novo remédio realmente funciona, cientistas dão a algumas pessoas a droga sendo testada e a outras, o placebo. Depois, comparam resultados. A ideia é que um remédio que não conseguir ser melhor que uma pílula de farinha não vale lá grande coisa.

O teste é aleatório porque a divisão dos participantes entre os que vão receber placebo e os que vão receber a substância ativa é feita ao acaso, por sorteio.

E é duplo-cego porque nem a pessoa que está recebendo a dose, nem o pesquisador encarregado de aplicá-la (ou de entregar as pílulas, o xarope, etc.) sabe se o que está sendo injetado e/ou trocando de mãos ali é o placebo ou a coisa real.

O caráter duplo-cego é importante porque o simples fato de uma pessoa acreditar que está sendo tratada pode ter impacto no resultado do estudo; e porque o pesquisador dificilmente conseguiria deixar de transmitir pistas inconscientes ao paciente, denunciando se o pacotinho entregue contém a possível pílula milagrosa ou uma mera cápsula de amido.  Então, para que um não deduza, é importante que o outro não saiba.

O dilema ético surge quando os pesquisadores acreditam que têm algo realmente importante nas mãos — um método seguro de evitar a aids, uma cura para algum tipo de câncer, um analgésico perfeitamente seguro, etc. — e sentem que estão, deliberadamente, sonegando esse recurso a parte dos voluntários.

Alguém poderia imaginar que é preciso muita frieza para olhar nos olhos de uma pessoa que está sofrendo e, mesmo acreditando que a cura para esse sofrimento está à mão, deliberadamente entregar ao sofredor algo que pode não ser  nada além de farinha de trigo com corante.

A questão é complexa, mas em minha opinião a chave para o dilema está na diferença entre o que se acredita e o que se sabe. O experimentador pode acreditar que a droga em teste funciona e é segura. Mas ele só vai poder saber disso  depois que o estudo estiver pronto e tiver sido replicado. É para isso que os estudos existem: para separar crença de conhecimento.

Claro, há situações de emergência em que o risco percebido de se agir com base numa crença bem fundamentada é menor do que o de esperar pela confirmação científica, mas essa é a exceção, não a regra.

Esse é o caso do gel contra aids? A questão merece debate. Mas os testes duplo-cegos aleatórios com placebo devem continuar conosco por ainda muito tempo.

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Divertido vídeo em que o astrônomo Neil deGrasse Tyson fala sobre as limitações da capacidade humana de distinguir ilusão de realidade, tira sarro do jornalismo científico e explica como convencer um cético de que uma abdução alienígena é real. Em inglês, mas a dicção é boa o suficiente para se fazer entender sem muito esforço — embora eu realmente ache que legendar isto aqui seria prestar um importante serviço público:

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