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Carlos Orsi

Confesso que não sinto lá muito apreço pela “Saga Crepúsculo”. Isso provavelmente tem uma causa geracional: tendo assistido, no fim da adolescência, à transformação dos vampiros, de monstros vorazes, em emos incompreendidos — sim, meninos, eu estava lá no auge da Era Anne Rice — vejo-me sentindo falta dos primeiros e com muito pouca paciência para os segundos. Ainda mais porque o papel de monstro-voraz-e-contagioso acabou sobrando para os zumbis, no geral estúpidos demais para render bons vilões.

(Repare que na esmagadora maioria dos filmes de zumbi, o verdadeiro vilão é um ser humano ou uma característica humana — orgulho, vaidade, cobiça, covardia…)

Mas, enfim: a estreia do novo blockbuster vampirístico me fez lembrar de dois artigos científicos que andaram chamando atenção na imprensa em anos recentes, porque usam monstros cinematográficos como parte essencial do argumento.

Robert Pattinson e Kristen Stewart? Não, Christopher Lee e Barbara Shelley!

Robert Pattinson e Kristen Stewart? Não, Christopher Lee e Barbara Shelley!

O mais antigo, de 2007, chama-se Cinema Fiction vs Physics Reality: Ghosts, Vampires and Zombies (“Ficção cinematográfica versus realidade: Fantasmas, Vampiros e Zumbis”), e chegou a ser uma espécie de “hit” de Halloween, quando foi apresentado como recurso educacional para o ensino de ciências.

A parte a respeito de vampiros, por exemplo, rende uma boa aula (ou questão de prova!) sobre progressão geométrica. Os autores supõem que, no início do ano 1600,  havia apenas um vampiro no mundo, que a população humana mundial em 1600 era de cerca de 580 milhões e que cada vampiro transforma um ser humano normal em outro vampiro a cada mês.

Isso leva à extinção da raça humana em junho de 1602.

O segundo artigo, mais recente — de 2009 — rendeu até matéria na Wired. Com o título When zombies attack!: Mathematical modelling of an outbreak of zombie infection (“Quando zumbis atacam!: Modelo Matemático de uma epidemia de infecção de zumbi”), ele usa a zumbificação para criar um modelo abstrato que, segundo os autores, poderia se aplicar a situações como o caso de doenças que demoram a se manifestar ou “aliança a partidos políticos”.

(Pois é: matematicamente, decidir apoiar um partido político pode ser indistinguível de ter seu cérebro devorado por um morto-vivo. Por que isso não me surpreende?)

Uma última nota: além de significar um morto ressuscitado,  o termo “zumbi” é usado, em filosofia da mente e da consciência, para se referir a uma entidade hipotética que seria idêntica, em suas ações e reações observáveis, a um ser humano, mas totalmente desprovida de subjetividade — uma espécie de androide capaz de rir, chorar, conta piadas, fazer sexo mas incapaz de realmente vivenciar alegria, tristeza, saborear humor ou sentir atração. O debate em torno  da possibilidade (ou impossibilidade) prática e conceitual desse tipo de criatura é muito interessante, mas não cabe neste blog.

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29.junho.2010 08:49:12

Armas no espaço?

Quase ninguém notou, parece, mas ontem, durante o primeiro tempo de Brasil e Chile, funcionários da Casa Branca  realizaram uma entrevista coletiva para apresentar a nova política oficial dos Estados Unidos para o uso do espaço além da atmosfera da Terra.

No Twitter, muita gente ligada ao setor ficou surpresa com o anúncio — jornalistas foram convidados a participar da coletiva, literalmente, em cima da hora. O pessoal da @NasaWatch disse que foi avisado com “seis minutos de antecedência”.

A estratégia do chamado programa espacial civil — basicamente, o que a Nasa vai fazer — já havia sido anunciada pessoalmente, pelo próprio presidente Obama, em abril deste ano. O que a “política espacial” faz é dar mais algumas informações sobre os aspectos diplomáticos e, sim, militares do uso do espaço.

Os pontos que chamam mais atenção são a ênfase em cooperação internacional, a preocupação com os perigos do lixo espacial, a valorização do papel da iniciativa privada e, por último mas não menos importante, a notável mudança de tom em relação à  política anterior, divulgada em 2006 e elaborada sob o governo Bush.

Em 2006, a Casa Branca de Bush emitiu um documento prepotente (para não dizer belicoso)  anunciando que os EUA se reservavam o direito de “negar acesso ao espaço” a países inimigos e que rejeitariam tratados limitando a opção de levar armas ao espaço.

Em contraste, a política de Obama pede o “uso responsável e pacífico” do espaço por todos e se propõe a, em princípio, discutir tratados de limitação de armas.

O uso do espaço como base para armas é uma questão antiga, e antecede a delirante Iniciativa de Defesa Estratégica de Ronald Reagan.

Ilustração de 'Guerra nas Estrelas' ao estilo Reagan

Ilustração de 'Guerra nas Estrelas' ao estilo Reagan

 

Uma doutrina — acho que articulada pelo escritor de ficção científica Robert A. Heinlein, mas posso estar enganado — propõe que o espaço é o “terreno elevado definitivo”: da mesma forma que um homem com uma metralhadora, no alto de um morro, é capaz de dominar todo o terreno mais baixo ao redor, um país com uma dúzia de bombas em órbita… Bom, dá para ver aonde o raciocínio vai.

Nem todo mundo compra a ideia, no entanto (uma arma desse tipo em órbita, antes de ser uma ameaça, é um ótimo alvo). Mas, hoje em dia,  é provável que armas, se forem colocadas no espaço, não venham a ser apontadas para  a Terra, e sim para o próprio espaço, onde poderiam abater a infraestrutura de comunicações, dados, observação e navegação do inimigo.

Em anos recentes, China e EUA flexionaram seus músculos nesse sentido.  Em 2008, os Estados Unidos abateram com um míssil um satélite descontrolado que ameaçava cair na Terra.

Embora a iniciativa tenha sido divulgada como uma medida de segurança (para proteger a população da área onde o objeto iria cair e/ou para evitar que equipamentos sensíveis que sobrevivessem à reentrada caíssem em mãos erradas), o feito parece ter sido uma resposta à China, que em 2007 havia testado uma arma para abater satélites.

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Esportes e estatísticas têm uma convivência meio conflituosa. Todo evento esportivo– de corridas de cavalos a partidas de xadrez — é, afinal, uma fonte praticamente inesgotável de dados numéricos (tempos, pontos marcados, pesos, alturas, vitórias, derrotas…).

A tentação de agregar esses dados de alguma forma e submetê-los a um tratamento estatístico, na busca de restringir a incerteza quanto a eventos futuros, muitas vezes é forte demais para ser vencida. Ainda mais, se houver um mercado de apostas por trás, seja uma bolsa profissional ou um mero bolão amigável.

Mas, afinal: isso faz sentido? Partir da observação de um fato (100% das pessoas que são atropeladas beberam pelo menos um copo de água nas 24 horas anteriores ao acidente) para a inferência causal (beber água induz ao atropelamento) não é tão simples, como o exemplo dos parênteses mostra.

No caso do jogo da tarde desta segunda-feira, sabemos que o Brasil costuma ganhar do Chile. Na verdade, segundo o site da CBF, dos 65 jogos disputados pelos dois países em mais de 90 anos, o Brasil ganhou 46 e perdeu 7. Isso dá cerca de 70% de vitórias.

Se formos apelar para a Lei dos Grandes Números — que afirma que, num número grande o suficiente de eventos, a frequência de resultados tende a refletir a probabilidade real — isso quer dizer que, num jogo qualquer com o Chile, o Brasil tem 70% de chance de ganhar.

Mas quem diz que 65 jogos é um número “grande o suficiente”? Bom, para um nível de confiança de 99%, um total de 65 testes produz uma margem de erro de fantásticos 16 pontos. Isso quer dizer que a probabilidade de vitória brasileira, na verdade, vai de 54%, no mínimo, a 86%, no máximo.

Também dá para fazer uma análise do número de gols: em todos os jogos entre as duas seleções, foram marcados 207 gols, sendo 152 do Brasil. Mais uma vez, isso gera uma taxa de gols brasileiros de cerca de 70%, contra 30% de gols chilenos.

Isso indica que, se você escutar alguém gritando “gol” durante um jogo qualquer entre Brasil e Chile e não souber de quem foi, há pouco mais de 2/3 de chance de que ele tenha sido brasileiro.

É importante destacar que essa análise toda não substitui o jogo em si — no máximo, ajuda a preparar o bolão — e que depende da suposição, altamente questionável, de que “seleção brasileira” e “seleção chilena” são entidades mais ou menos estáveis, em termos de talento futebolístico relativo, desde 1916.

Em outras palavras, se você tiver motivos para acreditar que a seleção chilena atual é significativamente melhor (ou a brasileira, significativamente pior) que  a média dos últimos 94 anos, pode esquecer toda a numeralha.

Além disso, as chances  de vitória do Chile (entre 14% e 46%) estão longe de ser desprezíveis. Não só 46% é quase meio a meio, como 14% é uma vez em cada sete. Igual, por exemplo, à chance de você ter nascido numa segunda-feira.

P.S. Após o jogo:

Bem, mais um “data point” para o conjunto… Agora são 66 jogos, 47 vitórias e (ainda) 7 derrotas; 210 gols, sendo 155 do Brasil. A proporção de gols brasileiros na série histórica se aproxima de 3/4, subindo a partir de 2/3. E que venha a Holanda!

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Mais uma para a série “parentesco evolutivo”: quando um chimpanzé resolve imitar o comportamento de outro membro de seu grupo — por exemplo, copiar uma técnica para conseguir ganhar uma porção extra de comida — ele escolhe plagiar quem?

Resposta: os membros do grupo que têm mais prestígio.

Cientistas dos Estados Unidos chegaram a essa conclusão depois de realizar o seguinte experimento: permitir que alguns chimpanzés assistissem enquanto colegas de grupo — alguns com o equivalente símio de alta posição social e outros, de status mais plebeu — realizavam uma tarefa (pôr objetos de plástico dentro de um balde) que era recompensada com guloseimas.

A tarefa era exatamente a mesma para ambas as “categorias sociais”, e a recompensa, igual. A única diferença estava na aparência dos baldes usados: o do “macaco-celebridade” e o do “macaco-comum” tinham tipos diversos de decoração externa.

Uma vez confrontados com a oportunidade de também encher o balde em troca de um mimo, o que os demais chimpanzés fizeram? Optaram por usar o mesmo recipiente do colega célebre!

Estudos anteriores já haviam revelado a existência de uma espécie de “diversidade cultural” entre os chimpanzés, com diferentes grupos adotando diferentes comportamentos. Este, agora, procurou esclarecer um dos mecanismos que levam novos comportamentos a se espalhar entre os animais.

O paralelo entre imitação do estilo de decoração do balde das celebridades (no caso dos chimpanzés) e de imitação do estilo de roupa, penteado, linguagem das celebridades (no caso humano) não só é forte, como a suspeita de sua existência foi um dos motivadores do estudo.

“Humanos seguem o exemplo de indivíduos prestigiosos e de alto status muito mais prontamente que o de outros, como quando copiam o comportamento de anciãos da vila, líderes da comunidade ou celebridades. Esta tendência tem sido declarada exclusivamente humana, mas continua sem ter sido testada em outras espécies”, diz o primeiro parágrafo do estudo, publicado na PLoS ONE.

É a observação do que o homem faz ajudando a entender os macacos.

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A sonda LRO, da Nasa, completou um ano em órbita da Lua nesta semana, e para comemorar a agência espacial publicou uma lista de “10 coisas legais” que o instrumento fez nesse período, incluindo localizar os equipamentos deixados em solo lunar pelos astronautas pro projeto Apollo (a lista completa você vê aqui).

Mas eu queria destacar esta imagem, feita por altímetro laser, do lado oculto da Lua:

hiddenside

As cores representam altitudes. Elevações acima de 6.000 metros estão marcadas em vermelho e bacias com mais de 6.000 metros de profundidade, em azul. Compare com a primeira imagem feita dessa face da Lua, obtida pela sonda soviética Luna 3, em 1959.

far-side-luna

Em 50 anos, a resolução disponível certamente melhorou bastante! (Se quiser fazer uma comparação mais detalhada, tenha em mente que a foto da Luna 3 está invertida, no sentido esquerda-direita, em relação à da LRO)

Uma diferença marcante entre o lado próximo e o lado oculto é que no segundo praticamente não se veem “mares” — como são chamadas as planícies de lava que vemos como manchas escuras quando olhamos para a Lua. As causas dessa assimetria ainda não são bem comprrendidas.

Os soviéticos aproveitaram que eram os primeiros e deram nomes às características mais proeminentes da imagem. A mancha escura no alto à direita, por exemplo, foi batizada Mare Moscovrae (Mar de Moscou).

Talvez tenha dado para notar que estou usando a expressão “lado oculto” e não “lado escuro”. Por um bom motivo: com o perdão do Pink Floyd, o fato é que o lado da Lua que não vemos aqui da Terra também recebe luz do Sol, dentro do ciclo lunar de dia e noite, e portanto não é permanentemente “escuro”.

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23.junho.2010 09:03:39

Alan Turing, 98

Cá estava eu achando que não ia ter o que blogar hoje, e eis que encontro um tuíte da @CyberDecker (que mantém o blog CyberGi) lembrando que hoje é — ou seria — aniversário do matemático britânico Alan Turing. Se não tivesse sido levado ao suicídio pela política cruel de repressão ao homossexualismo que vigorava no Reino Unido na década de 50, ele poderia estar fazendo 98 anos.

Tratar de Turing num blog é quase desrespeitoso. Ele teve uma vida (e realizou uma obra) que requer volumes inteiros para ser bem apresentada; seu vulto simplesmente não cabe numa postagem de 500 palavras. Suas contribuições à ciência — a “Máquina de Turing”, o “Teste de Turing”, entre outras — têm uma enorme riqueza não só em termos de potencial tecnológico, mas também conceitual e filosófico.

Quer saber mais? A Wikipedia está aí para isso.

Mas vou mencionar aqui uma descoberta de Turing que recebe relativamente pouca atenção dos popularizadores, mas que me parece ter implicações monumentais. Estou me referindo ao “Halting Theorem”, ou Teorema da Parada.

Pense no WordPress, o programa que estou usando para blogar, e no texto desta postagem, o “input” que estou dando ao programa.

Assim que eu clicar em “publicar”, o programa vai começar a processar o input, e uma de duas coisas pode acontecer: o processamento terminar em algum momento — com a provável publicação do texto no blog ou, falhando isso, a emissão de algum tipo de mensagem de erro — ou o WordPress travar e ficar mastigando meu input ad infinitum, sem apresentar nenhum resultado.

(Estou abstraindo outras possíveis complicações, como minha conexão com a internet cair, o Windows dar pau, o iTunes que também estou rodando travar tudo… Este é apenas um exemplo idealizado)

Seria interessante se houvesse um outro programa (dá para imaginar um site com essa função) onde, se você informasse que programa está usando — WordPress, MS Word, Excel, etc. — e o input que pretende fornecer, gerasse já de cara uma previsão de resultado: “vai rodar” ou “vai travar”. Pouparia muito trabalho!

Seria interessante, mas é impossível. Alan Turing provou isso, em 1936. Não é possível criar um programa genérico capaz de, dado um outro programa qualquer X e um input para X, prever se a computação vai dar certo.

Soa meio inócuo, não? Mas pense: isso significa que um programa de computador – um conjunto de instruções lógicas, perfeitamente determinístico, movido a zero e um, sim ou não — pode ser essencialmente imprevisível.

Além de representar um álibi para programadores, que podem alegar que alguns bugs são inevitáveis porque imprevisíveis, esse  resultado poderia também informar a discussão filosófica sobre determinismo e livre arbítrio.

O argumento completo está, se não me engano, em Freedom Evolves, de Daniel C. Dennett, mas resumindo: se as coisas mais determinísticas que somos capazes de criar — programas de computador — conseguem, a partir de um certo grau de complexidade, ser imprevisíveis, por que nossas mentes, que são muito mais complexas (e muito mais imprevisíveis) que os programas que criamos não poderiam ser simplesmente fruto do determinismo das leis naturais?

Enfim: morto há mais de 50 anos, Turing continua a alimentar discussões fundamentais.

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Cientistas descrevem, na edição mais recente a revista Current Biology, como chimpanzés vâo à guerra: patrulhas de machos se infiltram no território de grupos vizinhos e, quando se veem em superioridade numérica, matam, de emboscada, os moradores da  área — que, então, a tribo agressora passa a ocupar.

Em termos humanos, isso é menos “guerra” do que banditismo covarde e terrorismo. Mas, claro, são animais, e portanto juízos de ordem ética não se aplicam.

No entanto, se é impossível usar o estudo para julgar os macacos, é difícil resistir à tentação de usá-lo para julgar a nós mesmos: chimpanzés, afinal, são nossos parentes vivos mais próximos.  Uma participante da pesquisa, ouvida pela agência de notícias Reuters, descreveu o ataque de uma patrulha a um grupo e fêmeas que carregava dois filhotes de colo. A intenção básica dos agressores, pela descrição, era matar os bebês.

Essa sanha pelo infanticídio me fez lembrar de uma passagem bíblica — o início do capítulo 15 do primeiro Livro de Samuel, quando o profeta transmite as ordens de Jeová a Saul, rei de Isarel, para o modo de condução da guerra contra os amalecitas: “Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver, e nada lhe poupes; porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos”.

Ouso especular que há uma linha evolutiva ligando o infanticídio dos chimpanzés ao édito divino pelo genocídio dos amalecitas, e que talvez possa ser resumida pela metáfora do “gene egoísta”: a morte das crianças efetivamente põe fim à linhagem genética “inimiga”. A eliminação da prole do adversário, de fato, não é algo incomum na natureza.

O principal autor do estudo sobre a guerra dos chimpanzés, John Mitani, acredita, no entanto, que seus resultados podem ser mais úteis para entender não a guerra entre grupos humanos, mas a evolução da cooperação — já que as patrulhas são empreendimentos cooperativos entre os machos, que se organizam e depois dividem os espólios.

O que me faz lembrar de outro texto, não mais bíblico — a “graphic novel” Skreemer, escrita por Peter Milligan, que se passa num futuro pós-apocalíptico dominado por grupos mafiosos.

Em um dado momento, um personagem diz a outro que a quadrilha  – entendida como um grupo de pessoas unidas para sobreviver e enriquecer às custas da exploração, agressão e morte dos que são “de fora” — é a forma mais fundamental de organização social humana.

O fato de sermos capazes de ir além disso é certamente uma vitória, mas não custa nada lembrar que a tentação de formar quadrilhas e “patrulhas de chimpanzé” sempre estará lá embaixo, à espreita. O preço da humanidade, enfim, é a eterna vigilância.

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21.junho.2010 08:56:54

Feliz solstício!

O Sol atingiu hoje, às 8h28, o ponto mais ao norte de sua trajetória no céu — para nós, no hemisfério Sul, isso marca o solstício de inverno e o afastamento máximo do astro em relação à gente.

A partir de agora, o Sol começa a voltar em nossa direção, até atingir sua altura mais meridional em dezembro, no solstício de verão.

Para quem mora acima do equador, claro, isso tudo se inverte, com o Sol alto no céu hoje e baixo em dezembro. Ao longo do ano, o Sol, se fotografado todos os dias no mesmo horário e de um mesmo local, traça no céu uma figura em forma de “8″, o analema.

A seguir, um analema feito na Alemanha (os números marcam as datas em que o Sol chega a cada posição — no nosso hemisfério, eles estariam invertidos, com 21/6 definindo a posição mais baixa):

Analemma_pattern_in_the_sky

Para mim, que moro num apartamento do lado sul do prédio, isso significa que ainda terei de esperar alguns meses antes de ter sol na área de serviço para secar melhor a roupa…

Este também é o dia mais curto do ano no hemisfério Sul, e o mais longo, no Norte – isto é, com menos horas de luz natural por aqui, e mais horas por lá. Em São Paulo, o Sol nasceu às 6h47 e vai e pôr às 17h28. Em Londres, em comparação, a alvorada foi às 4h43 e o Sol só se põe às 21h22.

Muitas festas tradicionais surgidas na Europa (e disseminadas pelo restante do mundo com a expansão da civilização ocidental) estão ligadas ao ciclo do analema, como a Páscoa, o Natal e diversas celebrações pagãs.

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Neste mundo online, a morte de José Saramago provavelmente já é notícia velha; e é até mais que provável que muita gente, muito mais capaz que eu, já esteja preparando análises do homem e de sua obra sob os mais diversos aspectos.

Ouso sugerir, no entanto, uma abordagem que talvez escape à maioria dos analistas usuais: o dia em que José Saramago foi declarado escritor de ficção científica, nada mais nada menos, nas páginas de revista Asimov’s Science Fiction.

Foi em 2001, na coluna de Robert Silverberg — ele próprio, um grande escritor em geral e de ficção científica, em particular. A declaração de Silverberg foi feita por conta do romance Ensaio sobre a Cegueira.

O artigo com o argumento de Silverberg foi traduzido para o português pelo escritor, conterrâneo de Saramago, Jorge Candeias. E, sem me alongar mais, informo que pode ser lido na íntegra aqui.

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A Agência Espacial Europeia (ESA) postou no YouTube um vídeo em que um dos participantes da missão Mars500, que simula uma viagem de 500 dias a Marte, apresenta o interior da “nave espacial”. Ela me fez pensar imediatamente numa versão reduzida da Estação Antártica Comandante Ferraz, mantida pelo Brasil na região da Península Antártica.

É a velha história, suponho, de forma seguindo função:  se você precisa manter um grupo de pessoas vivo, mentalmente são e isolado do meio externo, há provavelmente apenas uma meia dúzia de formas de fazer isso direito.

Também resolvi pesquisar que tipo de missão a Marte está pressuposto no design da Mars 500. O press-release da ESA fala em viagem “de “ida” de 250 dias, 30 dias na “superfície marciana” e viagem “de volta” de 230 dias. Isso sugere que os russos e europeus estão pensado uma missão do tipo de oposição,  que é possível quando Mate e a Terra estão do mesmo lado do Sol.

Curiosamente, a maioria dos entusiastas do envio de astronautas a Marte considera esse design um tremendo desperdício. Os motivos exatos podem ser vistos aqui,  mas basicamente: consome-se muito combustível, expõe-se os astronautas a muita radiação e, no fim, o tempo de exploração de Marte é uma fração mínima da duração total da viagem!

A missão favorecida pelos visionários é a de conjunção, quando Marte e a Terra estão em lados opostos do Sol. Graças às peculiaridades a mecânica celeste, esse tipo de viagem, embora mais longo em termos de distância a percorrer, é mais rápido, consome menos energia — ou seja, menos combustível — e permite que os astronautas permaneçam quase dois anos na superfície de Marte.

Esse último ponto é a grande vantagem e o grande problema da viagem de conjunção. Deixar a tripulação por 500 dias na superfície marciana (com 6 meses de ida e 6 meses de volta no espaço) é uma fantástica oportunidade científica e um ótimo custo-benefício, mas e se alguém tiver dor de dente, uma crise de apendicite ou perder um membro da família durante a missão? E se dois astronautas começarem a se odiar por volta do dia número 200?

Abaixo, o vídeo da ESA:

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