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Carlos Orsi

O evento é só no sábado, mas como a semana é curta, vamos lá: lanço nos próximos dias o romance de ficção científica Guerra Justa, que envolve, entre outras coisas, manipulação da mente humana, conspirações internacionais, asteroides assassinos e uma insinuação de sexo em microgravidade, sem falar em algumas referências oblíquas à biografia de Santo Agostinho  e a disputas teológicas medievais.

Ah, sim: também tem porrada e explosões.

capaO lançamento será no sábado, dia 5, na livraria Martins Fontes da Avenida Paulista. O escritor, jornalista, blogueiro, tradutor e professor universitário Fábio Fernandes estará presente e vai participar de um bate-papo comigo e com o editor Eric Santos sobre cyberpunk e literatura brasileira; como o Fábio entende muito de cyberpunk e o Eric de literatura, eu provavelmente vou ficar quieto no canto autografando livros, que com certeza é o melhor que posso fazer.

O convescote está marcado para começar às 15h30.

Dois dias antes disso, na quinta-feira, 3, participo, com o crítico literário Rodrigo Gurgel, de uma mesa sobre ficção científica no Festival Internacional de Leitura de Campinas, o FILC. Minha participação será no Largo do Rosário, às 18h. O programa completo do FILC pode ser visto neste PDF aqui.

Enfim, a despeito do feriado, sou forçado a repetir as sábias palavras de Calvin e Haroldo: os dias estão simplesmente lotados. Mas enquanto a lotação for de coisas legais, realmente não reclamo!

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Claro que a data exata do nascimento da ciência é desconhecida, mas gosto da sugestão do físico Robert L. Park, que comemora o 28 de maio. Neste dia, 2.595 anos atrás, uma batalha entre medos e lídios, onde hoje é a Turquia, foi interrompida por um eclipse do Sol — interpretado, por ambos os lados da refrega, como um sinal de desaprovação, pelos deuses, da carnificina.

O fato certamente tem apelo dramático — não é difícil imaginar o pessoal vestido mais ou menos como figurantes de 300 de Esparta (a batalha das Termópilas foi uns 100 anos mais tarde) parando de repente, cada guerreiro olhando para o céu e sentindo mais medo do que se passava lá em cima do que das lanças e espadas dos guerreiros do outro lado — mas sua importância pra a história da ciência é outro.

O eclipse de 28 de maio de 585 AEC (“Antes da Era Comum”; acho mais prático que “Antes de Cristo”; e, oras, o blog é meu) foi o primeiro a ser previsto; ou, ao menos, o primeiro cuja previsão foi registrada pela história.

Está em Heródoto, pode conferir.

O autor da previsão foi Tales de Mileto que, simbolicamente, pode ser considerado o primeiro cientista e, também, o primeiro filósofo (era o que Aristóteles dizia, ao menos).

Como se não bastasse a previsão, a ele também é atribuída a articulação do princípio básico da ciência: Todo fenômeno observável tem uma causa física. Ou, nas palavras de Sherlock Holmes: “O mundo é vasto o bastante para nós. Fantasmas são desnecessários”.

Abaixo, um mapa com os eclipses solares de cerca de 600 AEC, cortesia da Nasa:

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Diferentemente, ao que tudo indica, da esmagadora maioria da parcela da população humana com acesso a TV por assinatura, nunca acompanhei a série Lost. Mas era inevitável que volta e meia ouvisse falar algo a respeito (pessoas presa numa ilha; eventos inexplicáveis; conspiração; uma empresa misteriosa; etc.).

Quando me contaram que havia viagem no tempo envolvida na história,  pensei: “Pronto, é isso”.

“Isso, o quê?”, perguntavam-me os amigos mais envolvidos com o seriado. “A explicação”, eu respondia.  ”Explicação do quê?”, insistiam. “De tudo”, dizia eu.

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Acontece que existe um ótimo motivo para que a maioria dos cientistas considere viagens no tempo — mais especificamente, ao passado — impossíveis ou, se possíveis, cercadas por limitações e dominadas por circunstâncias especiais.

Aceitar a  volta ao passado é o equivalente físico de se aceitar uma contradição na lógica clássica: uma vez que isso seja feito, vale tudo. Qualquer coisa é possível, incluindo o fato e seu oposto. Verdades podem se converter em falsidades, e vice-versa, um número infinito de vezes. A realidade torna-se instável.

(Um bom exemplo disso é o conto All You Zombies, de Robert Heinlein. Para quem já conhece a história ou não tem medo de “spoilers”, aqui há uma linha do tempo explicando todas as convolutas conexões entre passado, presente e futuro no interior da narrativa.)

Bom, resumindo: uma vez aberta a possibilidade irrestrita de viagem entre o presente e o passado, qualquer absurdo passa a ter uma explicação em potencial, nem que a explicação seja, em si, um paradoxo. O próprio J.J. Abrams usou o princípio em seu “reboot” de Star Trek.

Mas, pelo que ouvi, não foi via viagem no tempo que se fez a solução de Lost, o que certamente prejudicará mina reputação como palpiteiro.  Se tivesse uma máquina do tempo, voltaria ao passado para corrigir isso.

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Faz algum tempo, estávamos conversando aqui na redação sobre as campanhas de vacinação contra gripe e uma colega sugeriu uma entrevista com alguém que se opusesse à vacina, para equilibrar a  pauta. Eu disse que não valia a pena. E acho que, por alguns instantes, o pessoal ficou meio chocado — como assim, “não vale a pena” ouvir o outro lado?

Creio que a primeira vez em que tive contato com a questão foi ao ler o volume Flim-Flam!, de James Randi, no qual o autor se pergunta por que noções já demonstradamente falsas (como, digamos, a Maldição de Tutancâmon, o Triângulo das Bermudas ou o Óvni de Roswell) ainda se mantêm vivas, como fatos ou possibilidades de fato, na consciência popular. Sua resposta incluiu uma série de fatores, dos quais o que mais me marcou foi: “Jornalismo irresponsável”.

Mais recentemente, numa postagem do Twitter, o astrônomo e divulgador da ciência Phil Plait queixou-se — estou parafraseando agora — da “falácia do equilíbrio” que assalta a mídia quando o assunto é ciência. E há exatamente um mês, o colega jornalista-e-blogueiro Reinaldo José Lopes enfiou o pé na jaca virtual — com consciência e objetividade — ao tratar da questão, aplicada especificamente ao problema do aquecimento global.

O fato é que “ouvir o outro lado” ou “abrir o contraditório” é um bom princípio geral para o jornalismo, mas aplicá-lo a questões de ciência e saúde requer uma cautela especial.

Mas é fácil entender o porquê: imagine, por exemplo, se cada vez que se fosse escrever algo sobre satélites em órbita da Terra, fosse preciso ouvir também a Sociedade da Terra Plana; ou se toda nota a respeito da entrada de uma nova estação tivesse de vir acompanhada de uma ressalva sobre os geocentristas contemporâneos.

Absurdo, certo? A forma da Terra e sua posição em órbita do Sol são fatos bem estabelecidos, e polemizar sobre eles faz tanto sentido quanto polemizar sobre a impossibilidade de se viver sem ar.

O problema é que existem muitos outros fatos que estão bem estabelecidos pela ciência mas que ainda não penetraram o senso comum da mesma forma que o sistema heliocêntrico fez (num processo de séculos, aliás).

Valendo-se disso, diversos grupos (muitos deles bem-intencionados, diga-se) tentam se apresentar para a mídia como portadores de alternativas legítimas. E o jornalista incauto acaba correndo o risco de, na busca de uma “visão equilibrada”, deseducar o público.

Aliás: a questão específica do dano que essa noção de “outro lado a qualquer preço” pode causar à saúde pública é bem explorada pela colega Fabiane Leite, aqui e aqui.

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Hoje fiz uma entrevista com o psicólogo holandês Peter Bos, que realizou um estudo sobre os efeitos da testosterona sobre o cérebro feminino, voltado especificamente para a sensação de confiança em outras pessoas.

O avanço das correlações – comprovadas, prováveis ou simplesmente hipotéticas – entre “estados do cérebro” e “estados de espírito” parece não assustar mais ninguém, a despeito das possíveis implicações metafísicas.

E assim, aos poucos, o conceito do teatro cartesiano (a ideia de que o cérebro seria uma espécie de “ponte de comando” controlada pela consciência) se torna cada vez menos sustentável,  enquanto que a consciência emerge cada vez mais como produto, e não produtora, da fisiologia do sistema nervoso.

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Morreu no fim de semana Martin Gardner. Escritor, matemático, polemista, foi talvez o maior divulgador da matemática para o público em geral do século 20 (outros grandes nomes da área, como Havil e Stewart, citam-no com admiração e carinho).

Seu livro de 1952, Fads and Fallacies in the Name of Science (“Modismos e Falácias em Nome da Ciência”) praticamente abriu caminho para o movimento cético nos Estados Unidos. Obras como O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan, são descendentes diretos desse trabalho pioneiro.

Durante décadas, Gardner manteve uma coluna sobre matemática na Scientific American e uma sobre abusos cometidos contra a lógica e a ciência na Skeptical Inquirer. Pelo menos uma de suas coletâneas de artigos céticos, O Umbigo de Adão, chegou a ser publicada no Brasil, e eu dificilmente seria capaz de pensar num livro de ensaios curtos que pudesse recomendar mais às mentes curiosas que ainda não conheçam a prosa clara, elegante e contundente de Martin Gardner.

A paixão de Gardner por lógica e matemática gerou, talvez inevitavelmente, uma paixão por Lewis Carroll, o que levou o escritor a produzir edições definitivas — com anotações exaustivas explicando o contexto histórico, social e, claro, lógico-matemático — das duas aventuras de Alice (No País das Maravilhas e Através do Espelho) além do meu Carroll favorito, A Caçada do Snark. As edições anotadas de Alice estão disponíveis em português, e imagino que andem vendendo bem, graças ao filme de Tim Burton.

Diferentemente da maioria dos polemistas céticos que vieram depois, como Sagan, Dawkins ou Randi, Gardner nunca se declarou ateu, embora fosse um crítico das religiões organizadas. Manteve-se teísta, dentro da máxima credo consolans (“acredito porque consola”).

Isso, no entanto, jamais diminuiu a admiração que as gerações que ajudou a formar sentiam por ele. James Randi, talvez o mais ácido dos céticos atuais, num elogio tocante, diz: “Jamais troquei uma palavra áspera com Martin. Nunca”.

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Esta semana foi especialmente agitada em termos de noticiário científico — da célula sintética ao lançamento da sonda japonesa para Vênus, entre outras coisas. Em meio a isso tudo, a notícia de que o robô Opportunity, da Nasa, tornou-se o artefato humano há mais tempo em atividade em Marte passou meio batido. Mais do que para a notícia, no entanto, é para esta imagem que eu gostaria de chamar atenção:

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Além de ser uma bela foto em si — as marcas das rodas do Opportunity fazendo uma curva rumo ao horizonte, em meio às dunas prateadas (na verdade são avermelhadas, mas o p&b neste caso ajuda na estética) — é meio chocante pensar no que ela representa: o rastro de um objeto criado por seres humanos. Na superfície. De Marte.

A distância entre Marte e a Terra varia de 50 milhões a mais de 200 milhões de quilômetros, dependendo da posição relativa dos plantas em suas órbitas.

Eu uma vez consegui me perder procurando um endereço entre a Sé e o Anhangabaú, mas cientistas, usando um punhado de equações, conseguem acertar um alvo móvel no volume do Sistema Solar. Enquanto outros cientistas, usando dados em um computador e um kit de química recriam, pela primeira vez, uma forma de vida.

É estranho pertencer a uma espécie que consegue ter olhos em outros mundos, que começa a desvendar a mecânica mais íntima da biologia,  e que ao mesmo tempo faz o monte de bobagens a respeito do que você lê todo dia nas demais páginas do estadao.com.br

A imagem do rastro do Opportunity é um signo tão eloquente do potencial humano quanto são as fotos do vazamento de petróleo no Golfo do México. Ambas nos lembram de que há mais coisas no Universo, além de nossos umbigos. Uma mostra o que podemos fazer quando nos deixamos estimular por esse fato; a outra, o que ocorre quando nos esquecemos dele.

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A notícia da criação da célula sintética me fez pensar em Frankenstein, o livro que fará 200 anos daqui a pouco (em 2017).

No romance de Mary Shelley, Victor Frankenstein cria um ser humano sintético a partir de pedaços de cadáveres. Na edição desta semana da Science, a equipe de J. Craig Venter anuncia ter ativado a uma célula bactéria sem genoma — para todos os efeitos, morta — a partir de uma montagem sintética de pedaços de DNA.

Usar leveduras para costurar trechos de código genético selecionados a partir de um banco de dados informatizado não é exatamente o mesmo que usar agulha e linha para costurar pedaços de cadáver roubados de cemitério, claro. Mas a ideia de síntese de uma nova vida a partir de restos biológicos dados pela natureza está presente nos dois casos.

O paralelo é ainda maior porque a bactéria “sintética” de Venter é uma cópia de uma bactéria natural, assim como o “novo Adão” de Frankenstein era uma cópia de um animal natural, o ser humano.

frankenstein-blog

Antes que achem que estou brandindo o velho argumento obscurantista do “complexo de Frankenstein”, ou “há coisas que a humanidade não foi feita para descobrir”, etc, digo que sou do partido dos que acham que o erro de Victor Frankenstein não foi criar vida, e sim traumatizar o pobre do monstro recém-nascido. Hoje em dia, o cientista teria sido preso por abandono de incapaz.

Enfim, criar não é um problema; fugir da responsabilidade, é. Venter parece ter sido bem cuidadoso neste aspecto, consultando autoridades e especialistas em bioética antes de prosseguir. Mas segundo a Associated Press, pelo menos um grupo ambientalista já manifestou preocupação com a possível fuga de bactérias sintéticas para o meio ambiente, e pediu uma suspensão dos experimentos até que haja uma regulamentação governametal em vigor.

Criação num pen-drive

Em análise publicada no Estado de hoje, Fernando Reinach compara o feito de Venter a Jurassic Park,  e oferece a seguinte avaliação: “Minha impressão inicial é que esse experimento demonstra definitivamente que toda a informação necessária para criar um ser vivo pode ser guardada em um arquivo de computador”.

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Japoneses criam uma borboleta artificial — ou, ao menos, um construto mecânico que voa como se fosse uma borboleta. Eles fizeram um vídeo de 14 segundos com o voo.

O trabalho foi publicado na revista Bioinspiration & Biomimetics que, como o nome diz, trata de tecnologias inspiradas pelas soluções da natureza, e que traz artigos como Feedback distribuído em artrópodes e robôs ou A mecânica da mordida do mosquito, com aplicações para o design de microagulhas.

O modelo voador de borboleta foi elaborado por Hiroto Tanaka e Isao Shimoyama, da Universidade de Tóquio. O vídeo é curto e escuro, mas mecere ser visto com atenção. A dica me chegou via Twitter, pelo @guardianscience.

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Uma feira na Alemanha está apresentando os mais recentes desenvolvimentos no campo dos robôs de uso militar. Nenhum modelo Terminator em vista, por enquanto; o desafio principal parece ser criar um jipe capaz de guiar-se sozinho, poupando os soldados dos riscos de bombas de beira de estrada e de emboscadas a comboios (ecos da guerra no Iraque e do primeiro Homem de Ferro nesta história).

Robô sensor apresentado na feira. Associated Press

Robô sensor apresentado na feira. Associated Press

Duas coisas interessantes, que remetem a temas mais ou menos comuns na ficção científica: a primeira é a preocupação em criar robôs para que corram risco no lugar dos soldados.

Acho que é no romance Hyperion, de Dan Simmons, que se narra um linchamento em massa de militares por populações civis revoltadas com o fato de que, nas guerras, só eles, os civis, morriam, enquantos os guerreiros profissionais ficavam em segurança em seus bunkers.

A outra é a dificuldade na criação de inteligências artificiais para os robôs — e nem estou falando de inteligência de nível humano, mas o suficiente para a máquina saber distinguir uma árvore sólida de uma sombra no caminho. Os modelos teleguiados fuincionam bem; os que tentam se autoguiar só dão problema.

Pessoalmente, acho que inteligência é independente do substrato: salvo algum impedimento físico ainda desconhecido, mentes podem existir em silício tanto quanto em matéria orgânica, bastando apenas (mas é um grande “apenas”) que se atinja o grau de sofisticação e complexidade necessário.

A perspectiva mais interessante nisso é que a primeira mente artificial real, se um dia viermos a criar uma, não vai ser uma máquina onisciente como a calamitosamente prevista por Fredric Brown, mas algo mais como um bebê, crescendo em inteligência e em imprevisibilidade à medida que interage com o mundo.

Resta imaginar o que seus criadores vão querer ensinar a ela.

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