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Carlos Orsi

O filme abaixo é um registro, a 500 quadros por segundo, do lançamento do foguete Saturno 5 que levou a Apollo 11 à Lua. Nele, 30 segundos de lançamento são dilatados em cerca de oito minutos, o que permite ver com detalhes o jato de gás incandescente partindo dos motores da nave. Há uma narração (em inglês) explicando cada etapa do processo.

Apollo 11 Saturn V Launch (HD) Camera E-8 from Mark Gray on Vimeo.

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Se a senilidade ainda não me alcançou, a frase acima (ou uma outra muito parecida com ela) fazia parte do texto de abertura da série de TV Galactica — a que passava nos anos 70/80 junto com Buck Rogers, não a mais moderninha. Cito-a porque cada vez mais parece plausível que ela esteja certa — ainda que não de uma forma tão dramática como a de astronautas que usam capacetes de faraó para pilotar naves espaciais que manobravam, no vácuo, como se fossem Fokkers da I Guerra Mundial.

Cientistas– incluindo uma pesquisadora brasileira–  informam que há sinais de água e matéria orgânica, ingredientes fundamentais para a vida, em um asteroide (reportagem minha e do colega Alexandre Gonçalves sobre o assunto pode ser lida aqui). Esta é apenas a mais recente detecção do duo em partes do Universo que antes pareceriam altamente improváveis.

Richard Hatch, no papel do galante capitão Apollo

Richard Hatch, no papel do galante capitão Apollo

Moléculas essenciais para a vida, ou fortes indícios delas, já foram detectadas em meteoritos, luas de gigantes gasosos, planetas-anões além da órbita de Plutão, em planetas extrassolares e em nuvens de poeira cósmica a anos-luz daqui.

Isso não significa claro, que a vida na Terra tenha começado com o desembarque pré-histórico de um casal de refugiados alienígenas de jaqueta de camurça, bata e cortes de cabelo dos anos 70, longe disso. Mas, como me disse o astrônomo Humberto Campins, da Universidade da Flórida Central: “Asteroides e cometas podem ter trazido para a Terra os blocos constituintes para a vida formar-se e evoluir em nosso planeta (…) O estudo de asteroides primitivos como ‘fertlizadores’ pode se tornar uma área de interesse”.

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Já que estamos no assunto da vida na Terra, em particular, e no Universo, em geral (o tema fez sucesso ontem), vou cumprir uma promessa que fiz algum tempo atrás na seção de comentários de uma postagem anterior e falar um pouco sobre o chamado “princípio antrópico”.  Esse princípio nasce da constatação de que, uma vez que estamos aqui, as leis do Universo devem permitir que existamos.

Soa meio bocó, não? Parece mais ou menos como dizer que, já que 2+2=4, então as regras da aritmética têm de ser tais que 2+2=4. Dã.

Mas há quem veja no princípio antrópico sutilezas ocultas. Elas dependem, basicamente, da interpretação que se procura dar ao enunciado. Em sua forma mais simples,  o princípio apenas lembra que a existência de vida como a conhecemos deve ser levada em conta na elaboração das descrições do Universo.

É mais ou menos como deduzir que a pessoa que está sentada na sua frente no metrô tem uma mãe biológica, porque sem mãe biológica a pessoa não estaria ali.

Foi assim que o astrofísico (e escritor de ficção científica) Fred Hoyle previu uma característica específica do carbono-12, necessária para facilitar a formação desse tipo de núcleo atômico no interior das estrelas. A característica depois foi descoberta na prática. Hoyle chegou a sua previsão raciocinando a partir da abundância de carbono-12 observada nos seres vivos.

Mais polêmica é a chamada forma “forte” do princípio, que afirma que o Universo tem um ajuste fino para produzir e sustentar vida. O princípio forte faz da vida uma espécie de causa final do Universo.

A visão, digamos, darwiniana — de que a vida é uma acidente que se aproveita de condições favoráveis — é virada de cabeça para baixo: as condições é que conspiram para ser favoráveis, e a vida é um resultado inevitável.

Isso, no entanto, soa como uma inversão do princípio e causa e efeito —  como a velha piada de que os narizes foram feitos para suportar os óculos. Ou a fábula da  água empoçada, que se maravilha ao notar como o buraco onde está parece ter sido criado por uma inteligência superior e amorosa, já que tem o formato exato para contê-la, e com todo o conforto.

Os defensores do princípio “forte” costumam ainda lembrar que se qualquer uma das constantes fundamentais da natureza — como a velocidade da luz, ou a massa do próton — fosse um pouco diferente, toda a cadeia de fenômenos físicos e químicos que levam à vida como a conhecemos seria quebrada; logo, o Universo em que vivemos é extremamente improvável.

Confesso que o argumento não me parece muito bom. Primeiro, porque denota uma certa falta de imaginação, como se vida como a conhecemos fosse a única realmente possível.

É certo que a variação de uma ou duas constantes universais — enquanto as outras leis e constantes da natureza se mantêm — poderia inviabilizar até mesmo a formação de átomos, mas e se todas as leis e constantes variassem livremente? É concebível que exista uma infinidade de combinações capazes de dar origem a algo que talvez até nós, com todo o nosso provincianismo, reconhecêssemos como “vida”.

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A declaração do físico Stephen Hawking, de que não seria sábio buscar contato com civilizações tecnologicamente mais avançadas que a nossa, ganhou um grande destaque. Menos atenção, no entanto, recebeu a resposta  postada no Twitter pelo astrônomo Seth Shostak, do Instituto SETI — uma organização que busca, exatamente, descobrir vida inteligente fora da Terra.

“Eis a questão”, escreveu ele. “Qualquer sociedade capaz de vir até à Terra é capaz de ver os nossos postes de rua”.

Isso não é tão absurdo quanto pode parecer. No mesmo dia em que as declarações de Hawking ganharam repercussão mundial, um consórcio de países europeus anunciou a construção de um supertelescópio no Chile, que vai observar planetas rochosos girando em torno de estrelas distantes.

E mesmo hoje, anos antes desse telescópio gigantesco ser construído, astrônomos já observam rotineiramente os chamados trânsitos de planetas distantes, que ocorrem quando esses mundos cruzam a linha de visão que liga a Terra à estrela em torno da qual orbitam.

Instrumentos são capazes de comparar a luz que vem da direção da estrela antes, durante e depois do trânsito. Assim, mesmo sem ver diretamente o planeta, cientistas conseguem deduzir que tipo de radiação ele emite e determinar, por exemplo, a composição de sua atmosfera. Um dia, essa técnica poderá descobrir grandes quantidades de oxigênio no ar de um mundo alienígena — o que seria um forte indício da presença de vida.

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Ilustração das placas de ouro inseridas nas sondas Pioneer 10 e 11, com a localização do Sistema Solar

Não é preciso muita imaginação para supor que um povo dotado da capacidade de viajar entre as estrelas tenha também instrumentos de pesquisa astronômica muito mais avançados que os nossos.

Não são, portanto, os sinais de rádio com mensagens em código emitidos pela antena de Arecibo, nem as placas  de ouro das sondas espaciais da década de 70 que vão nos denunciar – se é que há alguém lá fora para receber a denúncia. É, simplesmente, o fato bastante saliente de a  Terra ter os dois hemisférios iluminados ao mesmo tempo!

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A menos que você tenha passado os últimos cinco dias num vale perdido cercado por criaturas pré-históricas, provavelmente a informação de que o Telescópio Espacial Hubble completou 20 anos em órbita no último fim de semana já lhe é familiar. Em vez de dar a notícia, portanto, eu gostaria de sugerir uma reflexão: imagine como era o mundo antes do Hubble.

Não é tão fácil quanto parece; na verdade, é quase tão difícil quanto pensar na vida antes da internet, do celular, da televisão. Toda uma geração humana nasceu e chegou à idade adulta sob uma dieta regular de imagens feitas pelo telescópio e diligentemente divulgadas na TV, nas revistas e em jornais — que, a propósito, começaram a experimentar com a impressão de fotos em cores mais ou menos na mesma época em que o Hubble iniciava sua jornada.

Em termos de uma vida humana: o piloto do ônibus espacial que pôs o Hubble no espaço, Charles Bolden, era um ex-piloto de testes da Marinha e veterano da Guerra do Vietnã — para os Estados Unidos, isso é duas guerras atrás! Hoje, 30 anos depois da guerra e 20 depois do Hubble, Bolden é um respeitável general reformado. E o atual administrador da Nasa.

Em termos do imaginário humano: a ideia que a maioria das pessoas tinha do espaço entre as estrelas havia sido moldada pela visão do céu noturno, ou pelas paisagens negras, marcadas por pontos brancos, da série Jornada nas Estrelas ou do filme Guerra nas Estrelas. As visões majestosas de nuvens de gás multicoloridas tiveram de esperar o supertelescópio.

O aglomerado  Hodge 301 na nebulosa da Tarântula. Hubble/Nasa-ESA

O aglomerado Hodge 301 na nebulosa da Tarântula. Hubble/Nasa-ESA

E olhando para a imagem nítida de Marte feita pelo Hubble durante a oposição de 2003 (quando Marte e Terra atingiram uma distância mínima entre si, de meros 68 milhões de quilômetros) é difícil imaginar que, durante muitos anos, imagens feitas a partir de telescópios baseados no solo causaram dúvidas quanto à presença de canais artificiais, e talvez mesmo de vegetação, na superfície do planeta vermelho.

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Mas nem tudo sempre deu certo para o telescópio espacial. Ele chegou míope ao espaço, e teve de ser “salvo” por uma missão de emergência. Há cerca de sete anos, a Nasa chegou a  anunciar que iria abandoná-lo, antes que a opinião pública a forçasse a mudar de ideia. Mais do que uma história de sucessos, o Hubble tem uma vida marcada por quase tragédias e superações.

Um folheto de quatro páginas distribuído pela Nasa resume as 20 maiores descobertas científicas viabilizadas pela existência do Hubble. Eu me lembro do choque que senti, na antiga redação da Agência Estado — era 1998 ou 1999 –, quando recebi a notícia da descoberta “número um”: a expansão do Universo está acelerando. Hoje, todo mundo já ouviu falar em “energia escura”, mas até então vivíamos (bom, pelo menos quem se interessa por esse tipo de coisa, claro) na expectativa do “Big Crunch”, quando a expansão iria parar e reverter-se, reduzindo novamente o tempo e o espaço a nada.

Uma das provas da expansão acelerada foi obtida graças a fotos de supernovas distantes feitas pelo telescópio.

É sempre bom lembrar que, além da Nasa, a Agência Espacial Europeia (ESA) também é dona do Hubble. Existe mesmo um site europeu sobre o telescópio que merece ser visitado tanto quanto o americano. Ele fica em http://www.spacetelescope.org/

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Peço licença para usar a sexta-feira, outra vez, para falar um pouco de ficção científica.

A mais recente edição brasileira de O Fim da Infância (confissão de possível conflito de interesse: eu traduzi uma parte dos “extras” incluídos no volume), de Arthur C. Clarke, vem com uma curiosa advertência ao leitor, que avisa que as opiniões expressas no livro não representam as do autor.

Em princípio, isso pode parecer estranho. Afinal, ninguém espera que o autor de um livro sobre um psicopata assassino, narrado em primeira pessoa, seja também um psicopata assassino; ou que Sax Rohmer, o criador do infame Dr. Fu Manchu, tivesse mesmo ganas de destruir o Império Britânico e conquistar o mundo.

No caso da ficção científica, no entanto, a coisa realmente parece mais delicada. O enredo de O Fim da Infância não só é pessimista quanto o futuro da exploração espacial — iniciativa da qual Clarke era entusiasta — como ainda incorpora, como reais, elementos como ufologia e paranormalidade, coisas que Clarke,  um cético racionalista, jamais endossaria com base na evidência nos dados disponíveis até este século.

Mas o jogo da ficção exige que o autor seja o mais consistente possível dentro da história que está narrando. Como um bom advogado, ele precisa defender a inocência de seu cliente (ou a integridade de seu enredo) com todas as forças, não importa quais seus sentimentos íntimos a respeito do caso. Logo, não seria difícil interpretar o romance como uma peça de defesa de posições em que Clarke, na verdade, não acreditava. Daí, o “disclaimer“.

Menciono a situação do escritor porque ela é bastante comum na especulação científica, tanto na feita por ficcionistas quando por cientistas: a construção de argumentos com base em, ou na defesa de, ideias nas quais não se necessariamente acredita. Além de representar um bom exercício de lógica e ter o potencial de multiplicar caminhos e possibilidades, também pode ser uma prática de humildade.

Mas também é preciso manter a perspectiva de que ideias são ideias, fatos são fatos, e o fato de uma ideia ser interessante e trazer implicações agradáveis não basta para torná-la real. O intervalo entre ponderar e acreditar não se percorre, ou não se deve percorrer, em um único passo.

No entanto, isso acontece com frequência no dia-a-dia. Uma narrativa, por ser lisonjeira ou por oferecer alguma consistência interna — embora a consistência com os fatos no mundo ainda fique indefinida–, não é apenas apreciada, mas também adotada. Mais sábio talvez fosse seguir o caminho de Clarke: esta é uma boa ideia, que rende uma boa história, e acho que podemos nos divertir com ela. Mas não acredito em uma palavra.

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A edição da revista Science que circula esta semana traz uma série de artigos sobre “alfabetização científica”, ou como transmitir para a população em geral — e para as crianças, em particular — o mínimo de conhecimento científico necessário para navegar no mundo contemporâneo.

O analfabetismo científico é um problema em praticamente todo o mundo. Com o agravante de que, diferentemente do analfabetismo literal, muitas vezes não chega a ser reconhecido como um problema, mesmo entre as parcelas mais educadas e/ou poderosas da sociedade.

Parafraseando um antigo aforismo de C.P. Snow, um milionário que ignore quem foi Machado de Assis acaba visto como uma figura folclórica, excêntrica; um que ignore a segunda lei da termodinâmica é só mais um cara normal. Além, claro, de uma ótima vítima para esquemas de moto-perpétuo.

Este, aliás, é um ponto que passa em branco na maioria dos discursos sobre a alfabetização científica: quando se reconhece o valor do ensino e da divulgação da ciência, o foco costuma repousar sobre os benefícios econômicos — pesquisa e desenvolvimento,  novos produtos, engenharia — que são, evidentemente, reais e importantes. Mas pouco se fala sobre a educação científica como fator de cidadania e, se me permitem o termo, de defesa pessoal.

Mais do que uma instituição acadêmica ou de um conjunto de princípios, leis e teorias a assimilar, ciência é um método, uma disciplina, uma postura. De forma bem resumida, é o hábito de não aceitar afirmações como verdadeiras sem prova, e de avaliar criticamente toda prova apresentada. Ciência, enfim, é uma ferramenta de detecção de falsidades e de busca da verdade.

Tão ou mais importante do que conhecer os resultados obtidos por essa ferramenta é familiarizar-se com o instrumento em si. Empunhá-lo, acostumar-se com seu peso, ver como sua lâmina é afiada e, por fim, aprender a usá-lo no dia-a-dia, ao lidar com coisas tão díspares quanto promessas de políticos, discursos de autoajuda, comerciais de produtos milagrosos, ofertas de crediário, terapias e, sim, esquemas de moto-perpétuo.

Um do artigos da Science trata, aliás, exatamente disso: Jonathan Osborne, da Universidade Stanford, queixa-se de que há muito pouco debate crítico nas aulas de ciências.

“Como uma das marcas registradas do cientista é o ceticismo crítico e racional, a ausência de oportunidades para desenvolver a capacidade de pensar e discutir cientificamente parece ser uma fraqueza significativa na prática educacional contemporânea”, escreve Osborne.

Há alguns anos, a jornalista de ciência do New York Times Natalie Angier escreveu um livro — premiado — chamado The Canon (“O Cânone”), que buscava explicar o que há de mais básico na ciência atual. A partir de um primeiro capítulo sobre, exatamente, o pensamento científico, a obra se lança numa exploração da matemática, biologia, física, química, geologia e astronomia.

São pouco mais de 260 páginas e não creio que tenha sido traduzido, infelizmente. Mas se todos tivessem contato com as ideias e princípios que descreve, este seria um mundo com menos vítimas e melhores cidadãos.

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Meu GPS me diz que estou 23º 14′ 24″ ao sul do equador, e 46º 53′ 21″ a oeste do meridiano de Greenwich. Como ele sabe disso? A resposta simples é que, por meio de uma troca de sinais com satélites do sistema de posicionamento global, o aparelho calcula essa posição. Mas, como uma matriosca, ou boneca russa, explicações simples geralmente têm outras, menos óbvias, por dentro. Vamos abrir esta aqui.

Primeiro, como a troca de sinais entre o GPS e os satélites pode me dizer alguma coisa sobre onde estou? Claro, conhecendo a velocidade do sinal e o tempo que ele leva para ir e voltar, dá para calcular a distância percorrida. Mas parece que alguém esqueceu um detalhe importante: a Terra está girando, e os satélites estão em órbita, eu mesmo posso estar dentro de um carro, me deslocando. Em outras palavras, tudo está se movendo. Como garantir que isso não vai afetar a leitura da velocidade do sinal?

É como no problema do homem correndo dentro de um trem em movimento: ele tem uma velocidade relativa ao trem, outra relativa ao solo, outra relativa ao trem que vem em sentido oposto… Então: qual das velocidades do sinal — relativa a mim, ao carro, ao solo, ao satélite — é usada?

Entra Albert Einstein. A velocidade da luz (assim como a de todo o espectro eletromagnético: rádio, micro-ondas, raios gama, etc) é sempre a mesma. Não varia com o estado de movimento da fonte ou do(s) observador(es). Esse fato foi postulado por Einstein na Teoria da Relatividade Restrita, em 1905, e comprovado inúmeras vezes.

Enfim: o sinal se desloca a cerca de 300.000 km/s, não importa a que velocidade eu, a Terra, o satélite ou a galáxia estejamos nos movendo. Mas a Relatividade Restrita resolve apenas o primeiro problema com a “explicação simples” do GPS. Existe outro: como os satélites se localizam? Para usar a distância que me separa deles no cálculo de minha posição, é preciso saber em que ponto do espaço eles estão.

Se a posição dos satélites da rede GPS é o quadro de referência usado para localizar objetos na superfície da Terra, qual o quadro de referência usado para localizar objetos na rede GPS?

Quasares. Esses são objetos astronômicos extremamente brilhantes e extremamente distantes — ficam tão longe, na verdade, que para todos os efeitos estão perfeitamente parados no céu em relação a nós. Acredita-se que sejam ativados por gigantescos buracos negros.

O quadro de referência a que o GPS apela foi criado a partir da observação de cerca de 3.000 quasares localizados a mais de 1 bilhão de anos-luz. A rede criada é conhecida como o International Celestial Reference Frame 2 (ICRF-2, ou Segundo Quadro de Referência Celeste Internacional), que substituiu, agora em 2010, o primeiro ICRF, estabelecido a partir de meros 600 objetos.

O ICRF-2 foi adotado durante a reunião da União Astronômica Internacional, realizada ano passado no Rio de Janeiro.

Portanto, da próxima vez que você usar um GPS para encontrar o retorno certo na estrada, a pizzaria ou a praia, reserve alguns instantes para ponderar as toneladas de poeira cósmica que mergulham em vorazes estrelas mortas a 1 bilhão de anos-luz daqui, e que são a causa distante do brilho da tela que ilumina seu caminho.

icrf-map

Mapa com 295 quasares que serão usados para a manutenção do ICRF-2

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Existe um velho clichê, geralmente usado nas discussões sobre o impacto social da teoria da evolução, que diz que a ciência descreve, não prescreve. Ou seja, a constatação científica de que morte e sofrimento são inseparáveis do processo de transformação e desenvolvimento do mundo natural não significa que o mesmo deva se aplicar às sociedades humanas. “Sobrevivência do mais apto” é uma descrição, não uma exortação.

A mesma coisa foi dita, de outra forma, por Peter Medawar, ganhador de um Nobel de Medicina por seu trabalho no combate à rejeição de órgãos transplantados: a missão da ciência seria “apontar o caminho para tudo o que é possível”. A transformação da superfície da Terra num deserto radioativo ou a erradicação da pólio são feitos cientificamente possíveis. A decisão sobre qual, ou quais, vai se realizar não é dos cientistas, e sim da comunidade maior.

Muitas vezes, a linha entre descrição e prescrição parece borrada — como se um determinado resultado científico implicasse necessariamente (e, portanto, legitimasse) uma decisão política; é por isso que estudos comparativos entre populações (“raças”, como quer que se queira defini-las) são polêmicos.

Mas uma premissa sozinha não implica nada além de si mesma. Parafraseando Isaac Asimov: suponha que uma análise estatística impecável demonstre que pessoas de cabelos lisos são, em média, menos inteligentes que pessoas de cabelos cacheados. Se esse resultado vai ser usado na formulação de políticas públicas — e se essas políticas serão criadas para para garantir que as criancinhas de cabelos lisos recebam atenção e carinho especial na escola ou, alternativamente, para reduzir os lisos a cidadãos de segunda classe — é uma decisão da sociedade.

Um caso bem menos abstrato de articulação entre descrição científica e prescrição social é o das restrições à queima de tabaco em locais públicos, que deriva dos estudos a respeito do impacto do fumo passivo na saúde.

Recentemente, uma análise de 50 trabalhos científicos realizados em 13 países onde há restrições em vigor constatou uma redução no fumo passivo e nas internações hospitalares por problemas cardíacos — o que indica, basicamente, que em algumas partes do mundo os não-fumantes estão tendo menos ataques do coração porque os fumantes não podem mais contaminar a atmosfera com gases tóxicos.

O resultado parece implicar que as restrições são obviamente corretas mas, de novo, a atitude da sociedade frente a um dado científico não emana diretamente do dado, e sempre leva em consideração premissas particulares do corpo político, como onde está o ponto de equilíbrio entre saúde e liberdade, entre responsabilidade individual e paternalismo estatal.

Seria  concebível, por exemplo, a criação de bares só para fumantes, onde os garçons tivessem acesso a um plano de saúde especial ou recebessem adicional de insalubridade.

Enfim, sempre que você ouvir ou ler alguém dizendo que, em vista do o resultado científico X ou Y, “é óbvio” que as autoridades têm de tomar a medida Z (ou, alternativamente, que o trabalho científico K é muito perigoso, porque vem a reforçar a abominável posição política W), pense bem antes de engolir o argumento. Porque, com certeza, há uma segunda premissa oculta em algum lugar.

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Ontem à tarde, depois de acompanhar pelo Twitter o discurso de Barack Obama sobre a política espacial americana, escrevi esta reportagem a respeito. Mais tarde, o pessoal do jornal impresso me pediu uma análise sucinta do que havia sido anunciado. Esse é o texto que reproduzo abaixo:

A Nasa, diz a sabedoria convencional, precisa de metas simples, claras e com prazos definidos. Sua maior conquista, afinal, veio depois de um discurso do presidente John F. Kennedy que, em 1961, deu à agência espacial um mandado cristalino: levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança, em menos de dez anos. Dito e feito.

Em seu discurso de ontem, proferido exatamente no centro espacial que leva o nome de seu épico antecessor, o atual presidente, Barack Obama, buscou satisfazer esse critério: astronautas visitarão asteroides a partir de 2025 e chegarão a Marte na década de 2030.

Esses são prazos significativamente mais frouxos que o dado por Kennedy, mas, com eles, Obama espera escapar de parte das críticas feitas ao programa espacial anunciado por seu governo no início do ano, que havia sido considerado, exatamente, vago demais.

O presidente não recuou, porém, na parte mais polêmica: entregar à iniciativa privada a tarefa de garantir o acesso de astronautas americanos à órbita terrestre pelos próximos anos, após a aposentadoria dos ônibus espaciais, ainda em 2010. Seu governo aposta que jovens empresas como a SpaceX – fundada em 2002 por Elon Musk, o criador do serviço de transferência de fundos online Paypal – estarão suficientemente maduras, dentro em breve, para levar seres humanos em segurança ao espaço. Parece arriscado: o primeiro voo espacial tripulado feito totalmente com meios e tecnologia privados, o da SpaceShipOne, ocorreu em 2004 e atingiu uma altitude de 100 km, numa viagem com duração total de 90 minutos. A Estação Espacial Internacional, em comparação, orbita a Terra a uma altitude de mais de 300 km, e o acesso a ela depende de voos que duram mais de 24 horas.

O que o governo espera é que a injeção estratégica de recursos públicos estimule o crescimento dessas novas companhias.

A teoria por trás da decisão de Obama é a de que a terceirização de operações “rotineiras”, como o acesso à órbita, liberará recursos para que a Nasa possa investir no envio de astronautas a partes do Sistema Solar onde a iniciativa privada não seria mesmo capaz de chegar por ora, como Marte, e em projetos científicos e ambientais. O monitoramento do aquecimento global, por exemplo, passou a ser prioridade com o novo governo.

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