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Carlos Orsi

Nos 13 meses — mais ou menos — em que mantenho este blog, vim me esforçando em deixar o teor de autobiografia o mais baixo possível. Essa é uma regra que vou suspender agora. Por um bom motivo, já que está é uma postagem especial. A última.

Depois de 14 anos e alguns meses, o Grupo Estado e eu finalmente estamos nos separando. É possível — meramente possível — que, nestes 14 anos, eu tenha me tornado o jornalista da imprensa brasileira com mais tempo de atuação contínua na internet.

Comecei nas Olimpíadas de 1996, passei pelo pouso do Sojourner em Marte e pela derrota do campeão mundial de xadrez por um computador em 1997, e não parei desde então. Ou melhor, não tinha parado até agora.

Mas, como diz Colin Farrell em Miami Vice: ”The odds catch up. Probability is like gravity”. “As probabilidades nos alcançam. Probabilidade é como gravidade”. Numa indústria como a jornalística, 14 anos no mesmo grupo, na mesma mídia, é uma anomalia estatística. E a gravidade é a gravidade.

Outro dia, olhei em volta e vi que todos os outros veteranos do serviço online tinham pelo menos quatro anos de casa a menos que eu. Ainda me lembro de uma reunião, em 1998, da qual participaram diretores — nenhum deles está mais no grupo — e onde a então redação online foi informada de que a internet tinha mesmo vindo para ficar.

(Até  então, havia a dúvida de se a rede aberta não seria apenas fogo de palha, uma coisa só para iniciados e sem viabilidade comercial, um novo videotexto.)

Os 13 meses de duração deste blog estiveram entre os mais agitados de minha vida: nesse meio tempo fui ao sul do Chile e à Antártida, voltei da Antátida (e do sul do Chile), publiquei dois romances, entrevistei três ganhadores do Prêmio Nobel e cobri — da Terra, infelizmente — o voo final de um ônibus espacial, o Endeavour.

A quem acompanhou o blog até aqui, meu muito obrigado. É possível que eu comece um novo blog em algum outro lugar; se acontecer, aviso no Twitter: @carlosom71.

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O psicólogo britânico Richard Wiseman publicou em seu blog um vídeo com dez sugestões de simples truques de inspiração científica que podem ser realizados por praticamente qualquer um — desde que, claro, com a supervisão de um adulto, já que algumas das proezas envolvem fogo ou o risco de vidro quebrado.

Com a temida temporada de festas de fim de ano e confraternizações corporativas já sobre nós, as dicas de Wiseman oferecem algumas opções para evitar a destruição da casa pelos lindos pimpolhos ou, no caso da festa da firma, desviar a atenção das pessoas do vexame de algum colega.

O áudio é em inglês e às vezes fica um pouco difícil de entender, mas as imagens em si já bastam como tutoriais na maioria dos casos.

Minha intenção inicial era integrar o vídeo a esta postagem, mas o sistema de edição do blog parece estar se comportando mal nesta manhã. Então, vejam Proezas científicas para o Natal neste link.

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06.dezembro.2010 09:30:15

Os números Potemkin

Um livro que saiu recentemente nos EUA e que merece uma tradução urgente é Proofiness, de Charles Seife, professor do curso de Jornalismo da Universidade de Nova York. A obra é um divertido, instrutivo — e, às vezes, desolador — passeio pelas maneiras com que números são usados para obscurecer, e não esclarecer, as mais variadas questões, desde o verdadeiro estado da economia de um país à melhor marca de creme hidratante.

Seife começa o livro citando o famoso (ou infame) discurso em que o senador Joe McCarthy, nos anos 50, disse possuir uma lista com “205 comunistas” que trabalhariam no Departamento de Defesa.

A suposta lista foi o catalisador de uma onda de caça às bruxas que tanto dano causou à cultura americana, e Seife, além de lembrar que ela simplesmente não existia, chama atenção para o jogo retórico de McCarthy: “205″. Por que não 200, 207 ou 211? Ao pendurar um número aparentemente exato em sua retórica, McCarthy deu peso ao blefe.

Isso porque as pessoas tendem a levar números a sério, e números quebrados mais a sério que números redondos: se eu lhes digo que no último mês a audiência deste blog aumentou 10%, você provavelmente suporá que estou fazendo uma estimativa; se eu lhe disser que ela subiu 11,37%, você corre o risco de achar que se trata de um dado exato, e não de algarismos digitados ao acaso (o que estaria mais próximo da verdade, aliás).

Uma expessão que o autor adota no livro é a de “Número Potemkin”, a partir da lenda de que o ministro russo Grigori Potemkin teria construído cidades cenográficas para enganar a imperatriz Catarina, durante uma visitra da monarca à Crimeia.

Diz a lenda que, à beira das estradas percorridas pela imperatriz, foram erigidas fachadas coloridas que imitiavam vilas e cidades reais. O objetivo era apresentar a Catarina uma ideia falsa do nível de desenvolvimento da região.

“Números Potemkin”, de acordo com Seife, funcionam da mesma forma: dão uma impressão de solidez científica e precisão, mas são ocos e, muitas vezes, induzem a acreditar em bobagens.

Veja, por exemplo, o gráfico abaixo:

Charting Software

Nele, eu tracei uma correspondência entre os protagonistas dos filmes de maior bilheteria mundial dos últimos sete anos — e de 2010, até agora — e a variação do PIB dos EUA.

Como se vê, filmes de pirata (mais exatamente, da série Piratas do Caribe) são indutores de estabilidade econômica. Já a maior variação positiva se deveu a um episódio da série Harry Potter (Cálice de Fogo), o que gera otimismo para os próximos dois anos e uma perspectiva de recuperação econômica no hemisfério norte. Também seria uma boa ideia do Federeal Reserve tentar bloquear a relização de novos episódios de Toy Story.

Espero que o ridículo da correlação apresentada no parágrafo acima seja autoevidente.  Mas correlações não menos absurdas nos são apresentadas quase todos os dias, pela publicidade e por “especialistas” que ou não sabem do que estão falando ou que, na verdade, têm interesses particulares e/ou uma causa ideológica a avançar. E, como vêm embaladas em números quebrados e gráficos coloridos, muitas vezes não nos defendemos delas como deveríamos.

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Imagino que a esta altura todo mundo já viu ou leu alguma coisa sobre a descoberta, nos Estados Unidos, de uma espécie de bactéria que parece ser capaz de trocar um dos elementos fundamentais da vida como a conhecemos — o fósforo, que entre outras coisas está na estrutura do DNA — por arsênico (detalhes aqui).

E imagino que todo mundo também já foi informado de que essa descoberta foi a causa da grande celeuma online que se propagou, ao longo da semana, sobre qual seria o tema da “importante descoberta de astrobiologia” para a qual a Nasa havia convocado uma entrevista coletiva, finalmente concedida às 17h de quinta-feira.

Se não me engano, chegou-se a publicar um vídeo no YouTube com  a “revelação” de que seria anunciada a descoberta de vida em Titã, uma das luas de Saturno.

Muita gente saiu culpando a Nasa por fazer “hype” indevido, mas tendo já alguns anos de experiência em teleconferências da agência espacial, posso dizer que a forma como o evento de quinta foi preparado, com a emissão de um comunicado “misterioso” sugerindo que algo muito importante seria anunciado,  é o procedimento-padrão da agência. A descoberta de percloratos em Marte, por exemplo, foi tratada da mesmíssima forma.

O “tom misterioso” do comunicado é, até certo ponto, uma necessidade. A pesquisa sairia numa revista científica, a Science, e seu conteúdo não poderia vir a público antes do fim do embargo imposto pelos editores da publicação. No fim, a pressão foi tanta que a revista liberou o embargo quase duas horas antes do prazo final.

Muitos jornalistas (eu inclusive) têm acesso prévio ao conteúdo que será publicado na Science. Isso acontece para que possamos, se for o caso, realizar entrevistas e pesquisas antes da divulgação oficial do material, e assim ter algo pronto sobre o assunto logo que a “lei do silêncio” cair.

Estando do “lado de dentro” do embargo wall, não foi difícil deduzir que a coletiva da Nasa — marcada para o horário exato da liberação pública do conteúdo da Science– tratava de algo que estaria na revista; e olhando o conteúdo da revista, não foi difícil achar qual era o estudo dali financiado pela Nasa.

Nada a ver com ETs dando alô para os nossos radiotelescópios ou com o anúncio de vida em Titã, como todos já sabemos. Mas fica a questão de por que um comunicado muito dentro do padrão da Nasa — como de costume, redigido em termos escolhidos para chamar atenção, já que é isso que as assessorias de imprensa fazem —  provocou tanto alvoroço.

De acordo com este despacho da Associated Press, a coisa toda começou com especulações em um blog cujo autor estava fora do embargo wall, e portanto não sabia mesmo do que se tratava o anúncio, e que resolveu arriscar algumas deduções em público.

Mas, como disse Sherlock Holmes em Um Escândalo na Boêmia, “É um erro capital teorizar antes de se obter os dados. Inconscientemente, começa-se a torcer os fatos para que caibam nas teorias, e não as teorias para que  caibam nos fatos”.

Curiosamente, o “hype”, que levou ao fim prematuro do embargo, acabou fazendo com que a coletiva, quando finalmente ocorreu, soasse como notícia velha.

Muitas análises da descoberta já estavam online quando Felisa Wolfe-Simon começou a falar, inclusive com cientistas notando que o arsênico é um pobre substituto para o fósforo, e que as bactérias descobertas são menos “vida baseada em arsênico” e mais “vida que consegue se virar com arsênico”. O que me traz ao Horta do título.

Para quem não está devidamente familiarizado com os clássicos: no vigésimo-sexto episódio da série original de Jornada nas Estrelas, os protagonistas encontram um alienígena chamado Horta, cuja biologia é baseada em silício, e não em carbono. O episódio chama-se Demônio da Escuridão.

Antes que me acusem de estar fazendo proselitismo televisivo: o Horta foi citado durante a coletiva da Nasa, como uma espécie de paralelo: a bactéria põe arsênico no lugar de fósforo; o Horta tinha silício no lugar de carbono; a bactéria é um Horta do mundo real!

O que parece claro, no entanto, é que este não é o caso: a bactéria GFAJ-1 revela-se mais uma forma de vida baseada em fósforo que, pressionada, adota o arsênico in extremis, do que uma forma de vida confortavelmente baseada em arsênico. Ela ainda não é o Horta. Mas sugere que ele pode estar por aí — talvez, quem sabe, lá em Titã.

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Vendo o grande número de astros do pop-rock que vieram/estão vindo/virão se apresentar no Brasil, e acompanhando — basicamente, via Twitter — a intensa vibração das pessoas que parecem felicíssimas em se desfazer de centenas de reais pelo privilégio de ficar algumas horas em pé (debaixo e sol forte ou talvez na chuva) numa fila para depois passar algumas horas em pé (talvez na chuva) vendo alguém tocar alguma coisa ao longe, eu me lembro de um pequeno paradoxo que encontrei, se não me engano, no livro The Armchair Economist, de Steven Landsburg: por que os shows de rock não custam muito mais caro?

Sei que a maioria dos fãs de música provavelmente já considera os ingressos para esses espetáculos caros demais, mas vamos pensar em termos da boa e velha lei da oferta e da procura: quando o número de pessoas interessada em um produto supera o número de unidades do  produto à venda, o preço sobe. Isso funciona para roupas, sacas de café, ações na bolsa. É por isso que há cambistas nos estádios de futebol.

No caso dos shows de grandes astros do rock: eles sempre lotam. As pessoas disputam os ingressos a tapa. Gente que chega à bilheteria depois que a última entrada é vendida chora mais que vestibulando que perde o fechamento dos portões.

Obviamente, os promotores desses espetáculos poderiam estar cobrando muito mais, e ainda assim garantir lotação completa. Eles certamente sabem disso. Mas não cobram. Por quê?

A explicação proposta por Landsburg é de que o, digamos, “complexo musical-industrial” se abstém de tirar tudo o que pode do público no preço do ingresso porque precisa deixar algum dinheiro para as pessoas gastarem em outros produtos relacionados ao ídolo — álbuns, camisetas, bonecos, DVDs, etc, etc.

É uma possibilidade, e seria curioso ver o que aconteceu com os preços dos shows nos últimos anos, depois que a onda dos downloads de música se espalhou. Como há menos gente pagando por música, é de se supor que tenham subido os ingressos, numa tentativa de assimilar a receita perdida com a velha venda de CDs.

Mas será que foi mesmo o que aconteceu? Esta é provavelmente uma questão para o colega Edmundo Leite responder!

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01.dezembro.2010 08:21:48

A verdadeira lua negra

A foto acima, feita pela sonda europeia Mars Express, mostra Fobos (“Medo”, em grego), uma das duas luas de Marte, com a superfície do planeta ao fundo. A outra lua é Deimos (“Terror”).

O fato de a lua aparecer como uma mancha negra de encontro ao planeta não é um acidente óptico:  Fobos é — algo que combina bem com seu nome — a lua mais escura do Sistema Solar.

Uma teoria sobre sua origem propõe que  ela seja, na verdade, um asteroide capturado pela gravidade marciana. Um fato confirmado é que Fobos está caindo, e deve colidir com Marte daqui a 50 milhões de anos.

A Rússia está capitaneando uma missão para recolher amostras da superfície de Fobos, que deveria ter partido em 2009 mas foi adiada e que deve ser lançada em novembro do ano que vem.

A sonda russa levará, de carona, a primeira sonda marciana da China, além do experimento “Life”, da organização Planetary Society, que estudará como seres vivos da Terra se viram no espaço durante uma viagem a Marte. A cápsula Life transportará amostras de bactérias e até da planta Arabidopsis thaliana, um clássico organismo-modelo.

Fobos também é lar de uma enorme cratera, Stickney, batizada em homenagem à matemática, ativista política e abolicionista americana Angeline Stickney Hall, mulher do descobridor de Fobos, Asaph Hall. Medindo 9 km de diâmetro, a cratera ocupa uma boa proporção da superfície da lua, que tem 22 km de diâmetro ao todo.

A foto abaixo é um close-up de Stickney, feito pela sonda americana MRO:

A “cratera dentro da cratera” chama-se Limtoc, nome de um personagem das Viagens de Gulliver. Nesse livro de Jonathan Swift, publicado em 1726, os astrônomos da ilha Laputa dizem ter descoberto duas luas em Marte. Fobos e Deimos foram realmente descobertas na década de 1870 por Asaph Hall.

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No romance Drácula, de Bram Stoker, a personagem Lucy Westerna se vê cortejada por três pretendentes: Arthur Holmwood, Quincy P. Morris e John Seward.

Ela faz algum drama sobre como é difícil decidir entre eles, mas levando-se em conta que Holmwood é um herdeiro milionário, Morris um caubói do Texas e Seward, um psiquiatra que mora num hospício cheio de maníacos violentos, a escolha final não é nada surpreendente: a senhorita Westenra fica com o mais rico.

Depois o vampiro chega e complica um pouco as coisas, mas isso não vem ao caso. O fato é que nem todas as damas que se veem disputadas por mais de um cavalheiro têm diante de si uma situação tão clara quanto a de Lucy. E é improvável que, mesmo com os recentes dados do Censo — segundo os quais há 3,9 milhões de mulheres a mais que homens no Brasil — esse tipo de situação venha a sumir.

Soluções românticas para o problema abundam nas revistas femininas. Aqui vou sugerir uma saída matemática.

Suponha que a dama em questão tenha dez pretendentes, sendo que nenhum deles apresente uma clara vantagem (seja o único herdeiro de um rico lorde inglês) ou desvantagem (more num manicômio judiciário ao lado da cripta do vampiro) em relação aos demais. Como proceder?

Se ela aceitar  o primeiro que formalizar a proposta, sua chance de estar optando pelo melhor de todos será 1/10, ou 10%; se esperar para ficar com o último, novamente sua chance de acabar ao lado do melhor do lote será 10%.

Mas deve existir um momento, ao longo da fila de propostas, onde a probabilidade de acertar dizendo “sim” supere a de acertar esperando mais um pouco. É como se a chance de pegar o melhor candidato fosse descrita por uma curva que começa em 10%, sobe até uma zona máxima desconhecida e depois volta a cair a 10%.

A melhor estratégia parece ser, então, descartar um certo número s de pretendentes, até que a probabilidade de acertar cresça o bastante, e então pegar o primeiro que seja melhor do que todos os que vieram antes.

A determinação do ponto s é importante. Se s for muito pequeno, a escolha será feita num momento em que a chance de o melhor pretendente ainda estar mais para o fim da fila é alta; se for muito grande, haverá um risco considerável de o melhor já ter ficado para trás.

Felizmente, existe uma fórmula matemática pronta para determinar o melhor ponto s, para qualquer número n de pretendentes. Infelizmente, ela é um pouco complicada demais para que eu apresente a dedução aqui.

O resultado geral, no entanto, é o seguinte: deixe passar os primeiros 37% e escolha o melhor que surgir em seguida. No caso com dez candidatos, descarte os quatro iniciais e pegue o primeiro que seja melhor que qualquer membro do quarteto original.

Para quem estiver curioso em saber de onde raios vêm esses 37%: 0,37 é um valor aproximado para 1/e, onde e simboliza a entidade conhecida como constante de Napier, número de Euler ou base dos logaritmos naturais.

Trata-se de um número irracional e transcedental, cuja expansão decimal começa com 2,7182818284590452353602874713526624977572470936999595749669… e assim por diante. É um dos números mais importantes do Universo, ao lado de π, i, 0 e 1 (que se relacionam entre si por meio de uma fórmula fantástica, aliás).

E por que e é importante? Existem algumas dúzias de livros que exploram a questão, mas um dos motivos é que se trata de uma constante que costuma aparecer quando cientistas ou engenheiros tentam equacionar processos onde um dado recurso é consumido de forma proporcional à sua quantidade inicial.

Naves espaciais funcionam assim: quanto mais combustível o foguete carrega, mais combustível ela precisa queimar — para deslocar o peso do combustível. É por isso que os foguetes largam os estágios gastos para trás.

Como se fossem, digamos, pretendentes descartados.

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29.novembro.2010 08:49:35

Construindo a percepção

Uma das frases mais enganosas do amplo vocabulário de clichês à disposição da raça humana é “vi com meus próprios olhos”. A afirmação implica uma espécie de correspondência perfeita e direta entre o que está diante dos olhos, o que o cérebro vê e aquilo que memória registra. Essa correspondência, no entanto, é muito mais tênue do que estamos dispostos a admitir no cotidiano.

A percepção humana é, na verdade, construída: além dos fótons que chegam à retina, o que chamamos de visão é formado também por memórias, crenças, expectativas. O cérebro está constantemente preenchendo lacunas e fazendo suposições a respeito do que temos diante de nós.

Um exemplo clássico disso é o fenômeno conhecido como “constância da cor”: mesmo quando a iluminação lançada sobre um objeto conhecido muda, temos a tendência de continuar a vê-lo em sua cor “correta”: uma maçã verde continua verde mesmo sob a luz amarela de uma lâmpada incandescente, sob o sol claro do meio-dia ou debaixo da luz avermelhada do crepúsculo.

Além disso, os receptores de cor do olho humano se concentram na região central do campo visual; do ponto de vista estritamente físico, a visão periférica humana deveria ser em preto e branco. Mas, ao construir a imagem, o cérebro colore essas áreas.

O bisturi impiedoso da seleção natural faz com que o trabalho inconsciente de preenchimento seja bom o bastante na maioria das vezes, tanto que nem nos damos conta dele.  O papel das crenças e do contexto nesse processo, principalmente, costuma ser fortemente subestimado.

Veja, por exemplo, as imagens abaixo, que tirei neste domingo. A única manipulação digital a que foram submetidas foi realizada para que coubessem na largura de coluna deste blog:

E se eu dissesse que tirei essas fotos do terraço do prédio onde moro e as apresentasse como provas da existência de um óvni que pulsou no céu por alguns minutos, emitiu raios de luz para a direita e para a esquerda e em seguida se desintegrou, produzindo uma chuva prateada?

Suponho que a maioria dos leitores deste blog soltaria grunhidos de desgosto, entupiria a área de comentários com merecidas recriminações contra minha pessoa e nunca mais visitaria este endereço.

Mas em outro blog, com outro público e em outro contexto, a história poderia muito bem colar. E mesmo alguns leitores deste blog, menos familiarizados com as peculiaridades do processo fotográfico, talvez se sintam um pouco confusos: afinal, o que aparece nas fotos?

Minha descrição do contexto em que as imagens foram feitas — do terraço do prédio — foi mentirosa. Na verdade, fiz as fotos das janelas do apartamento. Janelas têm vidros, e vidros podem refletir o flash. Vidros também podem estar sujos, e a sujeira também pode refletir o flash forçado.

Por fim, ao reduzir as fotos para incluí-las no blog, eliminei deliberadamente as margens, onde a moldura da janela aparecia. Uma versão sem cortes:

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Com o anúncio de que o maior mamífero terrestre da pré-história foi o Indricotherium, de 17 toneladas e 5,5 metros, o primata King Kong (Megaprimatus kong), cuja altura varia de um mínimo de 6 a um máximo de 18 metros — dependendo do filme e da cena — e cujo peso estimaremos abaixo, mantém a coroa de  maior mamífero de terra firme de todos os tempos.

(Existe o pequeno detalhe de que Kong é uma criatura ficcional, criada por Merrian C. Cooper para o filme de 1933, mas nunca deixo esse tipo de minúcia me incomodar às sextas-feiras).

O tamanho dos animais reais e ficcionais é tema de um ensaio clássico do biólogo JBS Haldane, que qualquer pessoa que se interesse por ciência em geral — e por um bom texto sobre ciência, em particular —  deveria conhecer de cor. Ele aparece em inúmeras antologias, a mais recente provavelmente sendo The Oxford Book of Modern Science Writing, e pode ser lido aqui.

O primeiro ponto que Haldane apresenta no ensaio é o de que, quando se multiplicam os medidas lineares de um ser vivo — com 6 metros de altura, Kong é três vezes maior que um gorila ordinário — as áreas de seu corpo são multiplicadas pelo mesmo fator ao quadrado (no caso de Kong, por nove), e os  volumes, pelo fator ao cubo (27, no rei-primata da Ilha da Caveira).

Isso tudo pode parecer muito acadêmico até que nos damos conta de que a massa — e por tabela, o peso — do bicho varia junto com o volume (já que a densidade dos materiais de que o corpo é feito se mantém constante), e que a capacidade  do animal de suportar o próprio peso segue a área da seção transversal de ossos e músculos.

Resumindo: Kong é 27 vezes mais pesado  que um gorila africano comum, mas apenas nove vezes mais forte. Um gorila africano macho pesa, em média, 200 kg. Então, Kong pesa assustadoras 5,4 toneladas, com uma estrutura óssea e muscular que estaria confortável deslocando, no máximo, 1,8 tonelada.

Há ainda a questão da temperatura: o corpo gera calor de forma proporcional ao volume, mas só consegue dissipá-lo de modo proporcional à área.

No clima úmido-tropical da Ilha da Caveira, isso deveria bastar para deixar Kong prostrado. Nesse aspecto, ao menos — abstraindo, claro, a presença de Fay Wray/Jessica Lange/Naomi Watts–  Nova York deve ter lhe parecido muito mais agradável.

Enfim, o corpo do Megaprimatus kong deve se submeter a pressões enormes apenas para caminhar; talvez respirar já seja até um pouco demais. Não admira que ele grite o tempo todo e, no geral, demonstre tanto mau humor. Também não surpreende que a espécie tenha sido extinta.

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Você já deve ter visto (ou mesmo feito) isso: dada uma questão que admite apenas duas respostas possíveis — “menino ou menina?”, “ela me ama?” e “devo sair do emprego?” são fórmulas clássicas –, pega-se um pequeno objeto pesado (pode ser um anel, um chumbinho de pesca, uma pedra) amarrado à ponta de um fio, barbante ou corrente. Segura-se o tal barbante, etc., de forma que o objeto fique suspenso, seu peso mantendo o fio esticado. E espera-se.

Depois de algum tempo — geralmente não muito — o objeto vai começar a se mover. Ele pode oscilar para frente e para trás ou para a direita e para a esquerda, ou ainda girar, no sentido horário ou anti-horário. Antes de começar o exercício, você deve ter adotado uma convenção para distinguir os sinais: por exemplo, “frente-atrás” é “sim”, “esquerda-direita” é “não”, ou vice-versa.

O que está acontecendo? O objeto parece se mover por conta própria! Seria magnetismo animal, ondas gravitacionais, transmissão de fluidos etéreos, a detecção de táquions trazendo informação do futuro? Uma pista sobre a verdadeira fonte do movimento pode ser obtida com um experimento simples: feche os olhos, respire fundo e relaxe. Isso. Relaxe. Agora, abra os olhos (se você estava de olhos fechados, não há como ter lido esta instrução, claro. Ela está aqui apenas para efeito retórico).

O movimento parou.

O “pêndulo explorador” é um exemplo do chamado efeito ideomotor, uma reação involuntária e inconsciente dos músculos em resposta aos pensamentos da pessoa. Muita gente acha essa definição estranha — como uma reação aos pensamentos pode ser inconsciente? — mas se você se lembrar de como sua expressão facial costuma trair suas emoções, a coisa se torna autoevidente. E, afinal, para corar ou chorar de forma consciente e voluntária, geralmente é preciso ser um ator.

O fenômeno também é um exemplo de como uma questão pode continuar a ser tratada como algo místico e misterioso quase dois séculos depois de o caso ter sido satisfatoriamente encerrado pela ciência — ou, como não basta um fato sólido para matar mil superstições vaporosas. Senão, vejamos.

A expressão “efeito ideomotor” foi usada  para descrever esse tipo de ocorrência,  pela primeira vez, na década de 1850. E mais de vinte anos antes, o aparente poder oracular dos pêndulos já havia sido analisado, por meio de experimentos detalhados, pelo químico francês Michel Eugène Chevreuil, que descreveu suas conclusões numa carta a Ampère — o mesmo sujeito que iria dar nome à unidade de corrente elétrica — de 1833.

Na época de Chevreuil, a ideia era de que o pêndulo reagia de modo diferente a diferentes substâncias, movendo-se de uma forma sobre ouro e de outra sobre mercúrio, por exemplo.

O químico primeiro testou  se um obstáculo entre o pêndulo e a substância a ser detectada faria o oráculo parar. E —  mirabili dictu! — foi o que aconteceu. Em seguida, no entanto, Chevreuil sofisticou o procedimento, vendando os olhos e fazendo com que o obstáculo fosse colocado ou removido sem tomar conhecimento do que ocorria.

Resultado: o pêndulo reagia ao que o cientista acreditava que estava acontecendo, e não aos fatos reais. Escreveu Chevreuil, em 1833:

“Esta é a interpretação que dou a estes fenômenos: quando segurei o pêndulo em minha mão, um movimento muscular de meu braço, embora imperceptível para mim, moveu o pêndulo (…) uma vez que as oscilações começaram, elas logo foram aumentadas pela influência exercida pela visão (…) Esse movimento muscular, mesmo ampliado dessa forma, é fraco o bastante para parar, não direi pelo comando da vontade, mas apenas pelo pensamento de ver se isso ou aquilo vai detê-lo.”

Experimentos realizados de lá para cá também demonstraram que o efeito ideomotor está por trás de outros “fenômenos misteriosos”, como o uso de forquilhas e varas para encontrar água ou a famigerada “brincadeira do copo” que tanto assusta as crianças (ou assustava, no meu tempo).

Ah, sim: se você entrou nesta postagem procurando o conto de Edgar Allan Poe, ele pode ser encontrado aqui, em inglês.

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