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Carlos Orsi

06.dezembro.2009 09:31:28

A Antártida que vai a Copenhague

As terras e as águas entre o polo sul e o paralelo 60 não são um país, nem pertencem a nenhum país – pelo menos, não até a renegociação do Tratado Antártico, prevista para 2048. Dessa forma, a Antártida não tem governo, diplomatas e não conta com representantes oficiais na COP-15, a reunião de Copenhague sobre mudança climática que começa nesta segunda-feira, 7.

 Isso não significa, no entanto, que o continente gelado não tenha uma voz nas conversações patrocinadas pelas Nações Unidas e que têm o objetivo (que só deve ser atingido em 2010) de elaborar um conjunto de compromissos obrigatórios para o combate e mitigação do aquecimento global.

 

Como um continente “dedicado à paz e à ciência” – palavras do mesmo tratado que congelou as pretensões territoriais sobre a Antártida até meados deste século – a região estará presente em Copenhague tanto como objeto de uma série de estudos científicos quanto como fonte de imagens eloquentes, das quais a desintegração da geleira Larsen B, usada no documentário Uma Verdade Inconveniente, talvez seja a mais famosa.

 

Larsen B era uma gigantesca massa de gelo flutuante presa à face leste da Península Antártica, que se despedaçou e se soltou do continente. O gelo quebrado formou uma nuvem de icebergs que avançou mar adentro.

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Fragmentação de icebergs em Larsen B. Imagem da Nasa

Segundo a Nasa, 3.250 quilômetros quadrados de gelo desintegraram-se num período de 35 dias, a partir do fim de janeiro de 2002. Entre 1997 e 2002, a geleira perdeu 5.700 quilômetros quadrados.

 A Península Antártica, uma projeção do continente que chega a cerca de 900 km do extremo sul da América do Sul, é uma das regiões do mundo que mais rapidamente se aquecem, tendo ganho 3° C enquanto o restante do planeta se aqueceu, em média, 0,8° C no último século.

 Uma análise de dados obtidos pelos satélites GRACE e publicada recentemente na revista Nature, indica que todas as regiões da Antártida estão perdendo gelo. A despeito disso, o continente parece estar sendo protegido dos piores efeitos do aquecimento global pelos fortes ventos que o cercam.

 A Antártida acumula mais de 90% de todo o gelo do mundo, e mais de 70% de toda a água doce. Um derretimento total do continente elevaria o nível dos mares em 63 metros. Embora não se preveja uma catástrofe dessas proporções para o futuro próximo, estima-se que o progressivo derretimento da Antártida contribuirá com a elevação prevista do nível dos mares em 1,4 metro até 2100. Segundo relatório do programa Habitat, das Nações Unidas, há no mundo mais de 3.000 cidades costeiras com elevação inferior a dez metros, sendo a maioria delas localizada na Ásia.

 O gelo antártico traz um registro da composição da atmosfera terrestre em eras passadas, um auxílio importante na compreensão da evolução do clima. Esses dados indicam que as concentrações atuais de CO2 e metano, dois gases causadores do efeito estufa, estão em nível recorde para os últimos 800 mil anos.

 Nem mesmo o frio recorde registrado no verão deste ano na área onde o Brasil mantém sua estação de pesquisas antárticas anula o fato de que séries históricas, com cobertura de décadas, revelam um aumento progressivo da temperatura na região. A tabela abaixo é uma miniatura da encontrada no site do Inpe:

 table

Segundo um relatório apresentado em maio deste ano, a Ilha Rei George, onde fica a Estação Antártica Comandante Ferraz, perdeu 65 km2 de sua cobertura de gelo entre 1950 e 2000, em reação a uma elevação média da temperatura atmosférica de 1,1° C entre o fim dos anos 40 e meados da década de 90.

 A ilha tem 1138 km2, sendo 92% deles cobertos por gelo, com espessura máxima de 395 metros. Dois dos principais atores do mundo em desenvolvimento na reunião de Copenhague – Brasil e China – mantêm bases permanentes em Rei George.

comentários (5) | comente

5 Comentários Comente também
  • 06/12/2009 - 16:11
    Enviado por: Ricardo

    Oi, boa noite,
    uma perguntinha rápida só… Esse prognóstico de 1,4 metro de elevacao do nível do mar até 2100 provém mesmo só da massa de gelo derretida na Antártida? Nao é também uma questao de aumento de temperatura dos oceanos e uma consequente expansao do volume d´água?

    Agradeceria o esclarecimento

    Ricardo

    Oi, Ricardo! Essa é a elevação total do nível do mar projetada até 2100, incluindo todos os fatores envolvidos

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  • 06/12/2009 - 20:44
    Enviado por: heri

    A despeito das afirmações catástróficas dos cientistas,sou otimista em relação ao futuro do planeta.

    Heri, o futuro do planeta está mais do que garantido. O da civilização é que são elas…

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  • 08/12/2009 - 13:12
    Enviado por: joseph simons

    Observe o topo esquerdo da foto ,e um homem assoprando ar,minha esposa e filha viram a imagem tambem.

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  • 09/12/2009 - 00:34
    Enviado por: Álvaro Carvalho

    Boa noite Carlos Ossi!
    Estou acompanhando diariamente seu ótimo blog sobre a Antártida.
    Ao ler esse texto sobre o aquecimento da geleira tenho algumas dúvidas que você pode tirá-las ou conheça as pessoas que possam dar as respostas:

    - Sobre a questão do nível de CO2 do planeta, analisei e li matérias sobre isso inclusive na Carta Capital e no documentário do Channel 4 Britânico que está no link http://www.youtube.com/watch?v=RDzuXPM1W3k que na verdade o nível de CO2 aumenta posteriormente e num intervalo de anos do aumento da temperatura e não ao contrário. Ou seja, o Sol teve um aumento de ondas e consequentemente de calor e estamos recebendo esse aumento agora, o que tende a diminuir nos próximos anos.

    - Em diversas fases da história ouve picos de elevação e diminuição das temperaturas. Se observar a série histórica de temperaturas que leva em conta as camadas da Antártida, observei que já ouve temperaturas médias maiores que a que temos hoje (creio que na época medieval).

    - Li que a temperatura do mar, pelo fato de ele ser muito grande, enorme, demora séculos para se espalhar. Ou seja, talvez a temperatura do Oceano reflita ondas de calores do passado e não a onde de calor do ano de 2000 para 2007.

    - O aumento da temperatura do mar libera uma quantidade infinitamente maior de CO2 do que a produção do homem?

    - Na revolução industrial houve uma diminuição da temperatura e no pós guerra de 45 também. Duas épocas de aumento de produção de CO2 pelo homem. As temperaturas só voltaram a aumentar no fim da década de 70 com a recessão de diversos países.

    - O pior do aquecimento foi até 2007 e você acha que há sinais de reversão da tendência?

    Enfim estou muito interessado, abraço e boa sorte!

    Oi, Álvaro! O importante,creio, é lembrar que (1) o efeito do CO2 como um aprisionador de calor está mais do que confirmado cientificamente (o que ocorre às vezes é que outros efeitos, como a emissão de fuligem, atuam no sentido contrário) e (2) a mudança climática é constatada numa escala de décadas ou séculos, não a partir de eventos imediatos. Um dos melhores blocos de respostas para essas questões que conheço está aqui:

    http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=seven-answers-to-climate-contrarian-nonsense

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    • 09/12/2009 - 11:56
      Enviado por: Álvaro Carvalho

      Oi Carlos, Obrigado pela resposta vou estudar essa matéria que você me indicou apesar do meu inglês hehe.
      A minha preocupação é quando políticos repetem muito uma verdade, sendo que muitos estão ganhando muito dinheiro com isso como por exemplo Al GOre.

      Abraço,
      Álvaro

      Álvaro, ceticismo sempre é uma atitude inicial saudável. Evita que a gente engula muitas empulhações logo de cara. Mas quando o assunto é importante, depois de duvidar o melhor a fazer é o que você está fazendo, estudar para tirar a dúvida. Eu publiquei um post no blog logo depois de respopnder à sua primeira mensagem, com outras indicações sobre o assunto.

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