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A pegada do tênis dos dedinhos

Valéria França

sábado 02/06/12

Ele parece uma luva para os pés. É maleável, leve e tem borracha resistente e antiderrapante. O tênis dos dedinhos, como ficou conhecido, virou acessório comum entre modernos e quem pratica esportes radicais. Agora, começa a se popularizar. Já ganhou os iogues, corredores e dá os primeiros passos no mundo fitness. A academia Competition, por [...]

Ele parece uma luva para os pés. É maleável, leve e tem borracha resistente e antiderrapante. O tênis dos dedinhos, como ficou conhecido, virou acessório comum entre modernos e quem pratica esportes radicais. Agora, começa a se popularizar. Já ganhou os iogues, corredores e dá os primeiros passos no mundo fitness.

A academia Competition, por exemplo, oferece desde o mês passado aulas formuladas especialmente para esse tipo de calçado. Quase todas as marcas de esporte também estão investindo em tênis que deixem os pés livres para fazer os mesmos movimentos que fariam se estivessem sem calçado.
Os modelos chegaram às lojas adaptados às modalidades para as quais foram desenvolvidos. Alguns saem de fábrica mais resistentes e com leve amortecimento – caso dos modelos para corredores –, ou mais maleáveis – para atividades indoor, como pilates ou ioga. Todos, porém, são fabricados com tecidos macios, do tipo segunda pele, e estrutura que deixa o pé próximo ao chão.

A Vibram tem 30 modelos do Five Fingers, entre eles o Treaksport, adequado até para andar dentro de cachoeira. Custa US$ 100 no site da marca. Na Bayard Esportes, há alguns modelos do Five Fingers como o Classic, indicado para ioga. Sai por R$ 299,90. “O fato de manter os dedos separados diminuiu o atrito e evita bolhas”, diz Rogério Teixeira da Silva, de 43 anos, ortopedista especializado em Medicina e Traumatologia Desportiva.

A Adidas está apostando no adiPure Trainer, feito especialmente para academia. “É um tênis que dá mais equilíbrio e força aos saltos”, explica Mauro Yamasaki, de 40 anos, que usa o tênis para dar aula de Performance Training na Competition da Rua Oscar Freire.

Tradicional.A Nike usou o conceito da luva para os pés, que ficou conhecido como minimalista, mas optou por um desenho mais comercial – sem os dedinhos separados. Neste ano, lançou três modelos: o Free 3.0 e o Free 4.0 (R$ 329,90) são os mais flexíveis. Já o Nike Free Run (R$ 299,90) tem solado de carbono para absorver impacto e entressola de espuma.

A New Balance lançou o Minimus para situações diferentes. No asfalto, o ideal é o Road (R$ 399), com dez milímetros de amortecimento; em terrenos irregulares, o Trail (R$ 399); na recuperação pós corrida, o Life (R$ 349); na academia, o Cross Training (R$ 349). A marca diz que seus tênis são 50% mais leves que os concorrentes. “Só não acho que seja um tênis ideal para corrida”, diz o ortopedista Silva. “Quem ainda não está muito bem preparado fisicamente tem risco de lesão.”

ONDE ENCONTRAR:

BAYARD: BAYARDESPORTES.COM.BR;

NIKE: TEL.: (11) 5504-6644 OU 0800-7036453 (OUTRAS LOCALIDADES)

ADIDAS: TEL.: 2161-2961 (SÃO PAULO E REGIÃO METROPOLITANA) OU 0800-556277 (DEMAIS REGIÕES)

 

ENTREVISTA

TÊNIS CONVENCIONAL  X TÊNIS MINIMALISTA

Rogério Teixeira da Silva, de 43 anos, ortopedista especializado em Medicina e Traumatologia Desportiva

 

1. Qual é a principal diferença entre tênis um modelo Five Fingers da Vibran e um
Nike Free Run ? Os dois seguem o conceito minimalista. 

 Os dois tendem a seguir uma moda, e como toda moda, daqui a um tempo poderemos perceber que algo não era tão bom quando se imaginava. O Nike Free ainda  tem um pouco do tênis como conceito, e no outro o que se procura fazer é “imitar” o formato do pé. Eu vejo o Five Fingers com muita ressalva, porque acho que recomendar isso para os nosso corredores pode ser um grande risco em termos de gerar lesões. O Five Fingers foi desenvolvido e tem como consultores podólogos e quiropratas, e nenhum médico ou cientista participou das pesquisas. Isso soa um pouco estranho, quando se vê que em outras empresas (Adidas, Nike, Reebok, Asics, Nike, entre outras) muito se gastou em pesquisas para estudar mecanismos de redução do impacto dos tênis para corrida.

2. Hoje quase todas as marcas estão apostando no tal tênis minimalista, que dá a sensação de estar descalço. Dizem que o calçado fortalece a musculatura dos pés? É verdade?Eles não apresentam mais riscos de provocar lesões do que um tênis com amortecimento?

Quando você anda descalço isso estimula a musculatura intrínseca do pé (os músculos que estão entre os vários ossos que compõe a estrutura do pé são chamados de intrínsecos). Além disso, quando pensamos em lesões, sabemos que se essa musculatura está boa dificilmente as lesões ocorrem. Mas isso é somente uma causa para lesões em corredores. Outro fator muito importante, que a ciência já tem bem definido como causador de lesão, é o impacto da corrida sobre os ossos. E uma das poucas certezas que temos hoje na medicina esportiva é essa: maiores impactos sobre os ossos e tendões causam mais lesões. Se os calçados minimalistas melhorarem a dinâmica dos músculos do pé (observe que estou falando SE, pois nada ainda está comprovado), como saberemos se é melhor isso ou retirar a possibilidade de se absorver impacto? por enquanto não há nenhuma evidência da literatura médica sobre isso.
Na minha opinião, até prova em contrário, a falta de absorção de impacto pode gerar mais lesões com o uso destes tênis minimalistas, quando pensamos em corredores.
Se você só quer andar um pouco por aí, acredito que não vai dar maiores problemas. Mas acho temerário recomendar isso para quem corre 10km, meia e maratona. No consultório eu continuo priorizando a indicação de tênis convencionais com amortecimento de impacto, aliado a um trabalho de reabilitação (quando necessário) para fortalecer os músculos do pé.
3. Nas lojas encontrei tênis minimalistas específicos para academia, trilha e corrida. Eles realmente são indicados para estas modalidalidades? Tem um tipo de atividade que ele seja mais indicado?
 Acredito que para quem somente está na academia e vai correr pouca quilometragem na esteira esses tênis possam ser um caminho interessante, pois estaremos junto com a atividade física melhorando a condição dos músculos do pé. Para trilhas longas, tenho minhas dúvidas. O que pode ocorrer é a diminuição do atrito, já que cada dedo está protegido, e isso pode diminuir as bolhas que as vezes encontramos nesses atletas de trilha. Mas acho que o five fingers serve mais como proteção do pé do que material preventivo para lesões.
Na corrida de rua, geral, como te disse na outra pergunta, não costumo indicar o Five Fingers. Em alguns pacientes (magros, com peso ideal, bem treinados – o que é exceção no consultório) pode se ter um benefício em termos de conforto com o Nike Free. Mas o atleta tem que estar muito bem fisicamente.