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Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
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Do jeito que está, eu jogo fácil

Vendo o baixo nível técnico do Campeonato Brasileiro e o sucesso dos veteranos que sabem jogar bola, estou pensando seriamente em me internar por dois meses num spa para perder 20 quilos. Quando estiver fininho, mesmo com 63 anos, vou procurar um clube grande e topo até fazer teste se for preciso para voltar a jogar. Garanto que se eu jogar hoje, do jeito que está fácil para quem sabe das coisas, não erro um passe e coloco os atacantes na cara do gol toda hora.
Digo isso porque em quase todos os times os “professores” escalam volantes brucutus para correr, marcar e truncar o jogo. E aí quem sabe o que fazer com a bola se destaca mesmo que já esteja em fim de carreira. Sabem aquele ditado que diz “em terra de cego quem tem um olho é rei”? Pois bem, é por aí. Zé Roberto, Juninho Pernambucano, Felipe, Marcos Assunção, Seedorf e Deco são exemplos de veteranos que sobram na turma.
Sempre tive uma condição física excepcional e nunca fui operado nem tive lesão séria. Então, se perder a barriga e treinar um pouco aposto que me crio. O Falcão, que não tem barriga, também jogaria fácil de volante. Um brucutu tomava a bola por ele e lhe entregava rápido. Com certeza o Rei de Roma arrumaria tudo e tocaria redonda no pé de alguém lá no ataque.
Se Falcão, Júnior, Zico, Tostão, Riva, eu e outros que tratavam bem a bola jogássemos hoje íamos querer atacar com e envolver o adversário, e não fazer o que Atlético Mineiro e Grêmio fizeram domingo. Estavam em campo dois candidatos ao título, ambos sabendo que precisavam ganhar para não deixar o Fluminense abrir, e o que tivemos foi uma partida feia, truncada, de muitas faltas, muita correria e pouquíssima emoção.
Parece que hoje em dia ser ousado e jogar ofensivamente é uma afronta. É como se existisse um pacto silencioso para ninguém atacar muito. O Luxemburgo está se rendendo ao estilo gaúcho, além de adotar um discurso pouco ambicioso que não combina com seu passado. Toda hora diz que está feliz em estar no G-4, como se lutar pelo título fosse um objetivo supérfluo. O negócio é ir pra Libertadores, ser campeão fica em segundo plano.
O Atlético vem me decepcionando nas últimas rodadas. O Cuca tem feito algumas escolhas rodadas (insistir no Guilherme, que entrou mal no time, é uma delas) e alguns jogadores importantes caíram de rendimento, como o Danilinho, o Bernard e o Ronaldinho. O Gaúcho, por sinal , deu uma patada no Kleber indigna de seu talento.
Até tu, Ronaldinho?

O Palmeiras pensa pequeno

Os cartolas fazem cada uma… Não consigo me conformar com o fato de o Palmeiras não ter contratado o Falcão num dia e fechado com o Gilson Kleina no dia seguinte.

Pelo que li e ouvi, o Verdão ofereceu só três meses de contrato para o Rei de Roma, que queria assinar até dezembro de 2013. Mas no dia seguinte deu ao Gilson Kleina os 15 meses de vínculo que se recusou a dar para o Falcão. Só pode ser brincadeira…

Quem é o Kleina perto do Falcão? Dá para comparar a história dos dois no futebol? Alguém colecionou figurinha do Kleina? As hienas dirão que o Falcão foi um monstro jogando, mas não têm um grande currículo como treinador. Ok, currículo tem o Gilson Kleina, que nunca chutou uma laranja e treinou times do “porte” de Coruripe, Duque de Caxias, Ipatinga, Gama… Ele começou a carreira como auxiliar do Abel, que não jogava nada como zagueiro. O que pode ter aprendido com ele?

É incrível a má vontade dos dirigentes em dar espaço a ex-jogadores de alto nível como o Falcão. Ele jogou muito, tem ótimas ideias, mas os cartolas não lhe dão tempo para fazer o trabalho que gostaria de fazer.
Eu estava torcendo para o Palmeiras se salvar do rebaixamento, mas depois dessa acho que merece ir para a Série B. Fazer um esforço para contratar o Kleina (pagaram multa pra Ponte, prometeram prêmio especial se o time não cair…) e não fazer para fechar com o Falcão é coisa de quem pensa pequeno.

O futebol precisa do talento do Ganso

Não vejo a hora de que chegue ao fim a novela sobre o destino do Paulo Henrique Ganso, porque estou com saudade de vê-lo em ação motivado. Ele é uma ave rara no futebol brasileiro infestado de brucutus, um meia-armador da estirpe de Gérson, Rivellino e Ademir da Guia, um meia canhoto habilidoso e inteligente como Tostão, Pita, Aílton Lira e Alex (que por sinal acaba de ganhar uma estátua na Turquia, honraria que jamais caberá a quem só corre e dá trombada…).
Essa gente desfilava (o verbo vai para o presente nos casos de Alex e Ganso) pelos gramados com uma classe admirável.

Entendo perfeitamente suas preocupações com o futuro e a carreira. Acho que ele está certo em não dar mole para os dirigentes santistas, e que deve fazer o mesmo com relação aos seus agentes. Porque essas pessoas – tanto no clube como os empresários – só querem saber do craque enquanto podem sugá-lo. Quando acaba o suco, não hesitam dois segundos em lhe dar um pontapé no traseiro. Escrevo isso por experiência própria, porque fui chutado do Botafogo em 1972 – como o grande Gérson havia sido em 1969.

Nessa briga que vem de longe com os cartolas da Vila quem mais perdeu foi o futebol brasileiro, que se viu privado do futebol refinado e inteligente do Ganso. As lesões o atrapalharam muito, é verdade, mas se ele estivesse com a cabeça tranquila – ou se tivesse sido vendido antes – teria tido mais condições de jogar toda a bola que sabe.

A Seleção precisa de gente como ele no meio de campo para pensar e organizar o jogo. Esse negócio de jogar com só um homem de criação é uma roubada, porque se o adversário anula esse homem amarra o time.

Sempre defendi e vou continuar defendendo que o meio de campo tenha dois meias que saibam passar, tabelar e finalizar, e é por isso que acho que o Ganso vai se dar muito bem ao lado do Jadson se for para o São Paulo.

Fiquei animado com a formação que o Ney Franco colocou em campo contra a Lusa, com um volante que sabe jogar (Denílson), dois meias (Maicon e Jadson), dois atacantes velozes abertos (Lucas e Osvaldo, que é bom de bola) e um fazedor de gols que também tem recursos (Luis Fabiano). É uma luz no fim do túnel num futebol em que predominam o pragmatismo e a “eficiência”.

Imaginem o Ganso ao lado do Jadson metendo passes para os três da frente e fazendo o time rodar a bola para desgastar o adversário e manter o resultado. Vai ser uma beleza.

Torço muito por você, Ganso. Mostre seu talento e cale as hienas que querem te ver por baixo.

NOTAS

‘Professor’ tem cada uma…
A torcida do Cruzeiro não aguenta mais o Celso Roth e deixa isso claro a cada jogo, mas o “professor” não perde a pose. Depois do empate com o Vasco, ele soltou a seguinte bobagem: “A torcida tem o direito de protestar, mas estamos em oitavo lugar mesmo tendo carências sérias no elenco.” Puxa, que bom, o time está em oitavo lugar… Quer dizer, o cara dá a entender que se não fosse por seu trabalho o time estaria pior. Então, tá…

Cenas lamentáveis
Fiquei abismado com as imagens de descontrole de jogadores e torcedores que vi no clássico entre Palmeiras e Corinthians no Pacaembu. Os jogadores palmeirenses entraram muito pilhados, mais preocupados em brigar e discutir do que em tentar jogar bola. O Luan, então, estava alucinado. O que me incomoda é ver que nenhum jogador do Verdão tentou acalmar o time e botar na cabeça dos companheiros que aquela postura não levaria a nada. Faltou um líder para gritar com os companheiros e mostrar a eles que o caminho era botar a cabeça no lugar. Fora de campo, o comportamento de alguns palmeirenses foi uma barbaridade. Invasão das tribunas, tentativa de agressão a dirigentes, depredação do restaurante do Frizzo… Será que com a ajuda das imagens a polícia não consegue prender esses valentões? É preciso punição severa para os vândalos que se dizem torcedores.

O show do Barça não para
Depois de apenas quatro rodadas do Campeonato Espanhol, o Barcelona já tem oito pontos de vantagem sobre o Real Madrid. Que delícia! A filosofia de jogo que deu tão certo com o Guardiola foi mantida pelo Tito Vilanova, e o time continua asfixiando os adversários com seu jogo coletivo e sua absurda posse de bola. O time que ataca e tem qualidade sempre terá mais chance de ganhar, mas nossos “professores” parecem não entender isso…

Felipão não respeitou a tradição palmeirense

O Palmeiras demorou para demitir o Felipão.  Ele vive do título mundial de 2002 há anos e não se preocupou em se renovar. Continua sendo o técnico “copeiro”, que monta “times guerreiros”, que forma a “família Scolari”, que “motiva os jogadores”… Essa receita é batida.
Tudo bem, ele ganhou a Copa do Brasil. Mas foi um torneio de baixo nível, sem os melhores times do Brasil e que o Palmeiras conquistou sem jogar um futebol de ficar na memória do torcedor.
Na minha opinião ele só resistiu tanto tempo no cargo por causa do seu currículo e pelo que ganhou na primeira passagem pelo Verdão. Se fosse um técnico iniciante ou de currículo modesto, teria rodado há um tempão.
Lembram de quando o Jorginho dirigiu o time depois da saída do Luxemburgo? Ele estava indo bem, ganhando jogos e fazendo a equipe jogar no ataque e com a bola no chão – como manda a tradição alviverde. Mas a diretoria achou que ele era muito “verde” e apostou num medalhão como o Muricy, que não deu certo.
O Felipão deixa terra arrasada no Palmeiras. O elenco que está aí foi montado por ele, e tem pouca qualidade. O legado da Academia não foi respeitado.
A diretoria agora tem a chance de contratar alguém que queira fazer o Verdão jogar como manda a sua história. E o Leão seria um bom nome por três motivos: tem personalidade, se identifica com o clube e sempre tenta encontrar a melhor formação para fazer o time jogar no ataque. Quem me acompanha aqui no blog e nas colunas que escrevo no JT sabe que gosto do trabalho dele.
Discordo dos que dizem que na situação em que se encontra o Palmeiras precisa jogar como pequeno para tentar se salvar, ficando fechadinho para não levar gol e tentando um gol de contra-ataque ou numa bola parada. É preciso mostrar coragem e jogar no ataque. E com certeza a torcida vai apoiar muito mais um time assim do que um que entra para tomar sufoco durante 90 minutos.
O meu medo, agora que o Felipão está sem desempregado, é que o Marin se anime a colocá-lo no lugar do Mano. Se fizer isso, não vai mudar nada. Vai sair um técnico que não gosta de futebol bem jogado e entrar outro. E seria a continuidade da escola gaúcha, aquela que vem acabando com a graça do futebol brasileiro. Depois de Dunga, Mano. Depois de Mano, Felipão? A Seleção não merece isso…

O fundo do poço se aproxima

Não me canso de falar e opinar sobre o momento tenebroso vivido pelo futebol brasileiro já há alguns anos. Alguns leitores me mandam email dizendo que sou repetitivo, mas para essas pessoas digo que nada mais faço do que retratar a realidade do nosso futebol. E não estou sozinho nas críticas à pobreza que vemos em campo hoje nem na cruzada pela volta do jogo bonito e ofensivo. Tostão em suas colunas, Gérson e Casagrande em seus comentários, Rivellino e Carlos Alberto Torres em suas entrevistas – só para citar alguns – também vivem mostrando a decepção que sentem com o que têm visto. Não sou de fazer média com ninguém nem de dourar a pílula, por isso vou continuar dando pancada enquanto o quadro não mudar.
O futebol brasileiro está caminhando a passos largos para o fundo do poço porque está ruim em todos os aspectos.
Dentro de campo, nunca vi tanto jogador de baixa qualidade técnica vestindo a camisa de times grandes. São poucos os que tratam bem a bola, poucos os que sabem se posicionar em campo, raros os que dominam os fundamentos. E o resultado é que vemos partidas cada vez mais feias e violentas, com jogadores que são melhores no antijogo do que no jogo…
Como pode um clássico entre Santos e São Paulo ter mais de 80 passes errados num gramado bom como o da Vila? Deviam devolver o dinheiro para quem pagou ingresso…E como pode um cara como o Pierre, que é escalado para não deixar o adversário jogar, fazer sete faltas só no Valdivia e só receber o cartão amarelo aos 45 minutos do segundo tempo?
Aí entramos em outro problema do nosso futebol: o nível das arbitragens. A safra é muito ruim, com apitadores incompetentes, despreparados e mal orientados.

Também estamos a pé de treinadores. Os “professores” tentam manter seus empregos jogando para não perder e dando mais espaço a quem corre e dá carrinho do que a quem joga bola.

Os dirigentes também são de doer. Gastam mais do que podem, jogam pra torcida, colocam interesses pessoais acima dos do clube e da CBF… Joguei dez anos na Seleção e defendi cinco grandes clubes, por isso sei como as coisas funcionam no meio. E digo que o baixo nível dos cartolas de hoje assusta.

Por fim, ainda temos de aturar os analistas de computador, comentaristas que nunca chutaram uma laranja e “resolvem” todos os problemas com uma arrogância irritante. PVC, PCV, Bertozzi, Calçade, Loffredo, Lino… Haja controle remoto…

Violência é culpa dos ‘professores’

Vocês prestaram atenção no número de cartões mostrados pelos árbitros nos jogos do fim de semana do Brasileirão? Citando só os dos times paulistas: no do Palmeiras, foram 13 amarelos e um vermelho; no do Corinthians, 11 amarelos e dois vermelhos; no do São Paulo, nove amarelos; e no do Santos, sete amarelos e um vermelho. A média é de 11 cartões por partida!
Faz tempo que bato na tecla de que a violência e o antijogo imperam no futebol brasileiro. E a culpa desse quadro, na minha opinião, é dos treinadores. O comandante é um educador, ele deve repreender e punir quem apela, e não ficar passando a mão na cabeça dos caras e limpando a barra deles nas entrevistas coletivas.
No jogo do São Paulo contra o Bahia houve dois lances que mereciam cartão vermelho, mas sua senhoria, o gaúcho Márcio Chagas da Silva, não pensou assim. Um deles foi o sarrafo absurdo que o Fahel deu no Lucas para matar uma arrancada do garoto pela direita. Esse Fahel eu conheço de longa data, porque ele me deu muito desgosto quando envergou a gloriosa camisa do meu Fogão.
O duro foi ver o brucutu reclamar com o juiz dizendo que tinha sido a sua primeira falta no jogo… Quer dizer que na primeira é permitido quebrar o adversário? Dá um tempo!
No meu tempo de jogador tinha técnico que falava o seguinte para os jogadores de defesa: “Dá uma bem dada com menos de cinco minutos porque juiz nenhum expulsa no começo do jogo.” Era uma “instrução” para tentar intimidar alguma fera do adversário. Lamentável, né?
O outro lance que me revoltou nesse jogo foi um pisão intencional que o Douglas deu no tornozelo de um jogador do Bahia. O Jorginho e o Ney Franco têm de chamar esses caras pra conversar e dizer que não é para fazer mais isso. Se não derem uma dura, não vão educar o jogador.
Os juízes dão cartão a torto e a direito e não conseguem proteger os artistas nem garantir um jogo limpo. E as partidas vão ficando cada vez mais truncadas e sem graça.
O novo presidente da Comissão de Arbitragem, o coronel Aristeu Tavares (não gosto de militar no meio do futebol, e isso não é de hoje), está me saindo pior do que o seu antecessor. E os erros graves continuam a acontecer.
Para mim, o gol anulado do Galo contra o Corinthians foi legal. E aí me vem uma dúvida: será que o fato de o comando da CBF ser todo paulista (Marin, Del Nero e Andres Sanches) não intimida os apitadores que trabalham em jogos de times de São Paulo?

Félix merecia mais atenção

Fiquei duplamente chocado com a morte do ótimo goleiro Félix. Primeiro, porque perdi um grande amigo e um ser humano espetacular. E em segundo com a pouca atenção que o fato recebeu da mídia, dos dirigentes da CBF e do Fluminense e até mesmo dos companheiros que participaram da conquista do tricampeonato mundial em 1970 – o que mostra que a classe dos jogadores de futebol continua a ser muito desunida.
Não vi um representante do Flu nem da CBF no velório e no enterro do grande Papel – que é como a gente chamava o Félix porque ele era muito magro quando jogava.  Em cima do caixão, junto com a bandeira brasileira, havia uma da Portuguesa. Mas não apareceu ninguém para levar uma do Fluminense, clube onde ele ganhou vários títulos.

Vi que o presidente da CBF, o senhor José Maria Marin, esteve no Pacaembu domingo para acompanhar o clássico entre Corinthians e São Paulo. O velório e o enterro do Félix foram no Araçá, que é colado no estádio, mas ele não passou por lá nem sexta nem sábado. Mandou a secretária enviar uma coroa de flores e ficou por isso mesmo.
Também não tenho notícia de que o arroz de festa do Marco Polo Del Nero, que vive grudado no Marin em viagens pelo mundo, tenha gasto cinco minutos do seu tempo para ir lá dar um abraço na família.
Para completar, domingo só lembraram de fazer o minuto de silêncio em homenagem ao Felix no intervalo do jogo no Pacaembu. Antes do começo da partida fizeram um minuto de silêncio pela morte do conselheiro de um dos clubes.
O Papel, assim como o Gérson, fumou demais durante muitos anos. Os dois não fumavam, eles comiam cigarro. O Félix tinha parado há uns dez anos, mas o estrago já estava feito. Ele tinha uns ataques de tosse muito feios, e se cansava bastante. Algumas vezes o vi de cadeira de rodas para se locomover.
O que vou dizer pode parecer “chororô”, mas é uma constatação não apenas minha, mas de muitos jogadores que foram campeões em 58, 62 e 70: o pessoal que jogou na Seleção de 94 para cá é tratado com mais carinho pela mídia e pela CBF do que nós. E foram os jogadores mais antigos, principalmente os de 58, que colocaram o Brasil no mapa do futebol.

O Papel se foi sem poder usufruir da justa e tardia aposentadoria especial que será paga aos jogadores que foram campeões do mundo pela Seleção.  Mas pelo menos a sua família receberá esse presente a partir de janeiro.

Félix, um amigo que se foi

Levei um baque logo cedo nesta sexta-feira. O telefone tocou e recebi da neta do meu grande amigo Félix a notícia de que ele tinha morrido. Para mim foi uma grande perda, porque eu tinha muita afinidade com o Papel (apelido do Félix porque ele era muito magro quando jogava).

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que ele nunca teve o reconhecimento que merecia por ter sido um senhor goleiro. Tem muita gente que diz que a Seleção de 70 não precisava de goleiro porque tinha um ataque espetacular. Isso é uma tremenda bobagem. O Félix deu sua contribuição para o título, e foi fundamental em dois jogos: contra a Inglaterra, quando fez duas defesaças (a segunda mostrando muita coragem) quando o jogo estava 0 a 0, e na final com a Itália, quando pegou duas ou três bolas importantes depois que sofremos o empate.

Um grande goleiro aparece nessas horas, evitando gols em momentos críticos de partidas decisivas. E posso garantir que o time inteiro tinha muita confiança no Papel, porque ele passava segurança para os companheiros. Era um goleiro muito ágil, seguro e que não precisava ser espalhafatoso.

O Félix sempre fumou muito, desde os tempos em que jogava. Outro fumante inveterado era o Gérson. E os dois tinham outra coisa em comum: sofriam de insônia. Por isso, o Zagallo tomou uma sábia decisão quando começamos a nossa preparação na altitude de Guanajuato, já lá no México: botou os dois no mesmo quarto. Ah, e obrigou os dois a reduzir de 40 para 20 o número de cigarros que fumavam por dia.
Eu dei graças a Deus por isso, porque às vezes sofria com o Gérson nas concentrações do Botafogo. Já pensou como seria ficar no quarto com um deles durante três meses seguidos? O cara ia ficar fumando até pegar no sono e eu no meio daquela fumaça…

Ali comecei a estreitar minha amizade com o Papel, com quem depois tive o prazer de jogar no primeiro ano da “Máquina do Fluminense”, em 1975. Antes de sermos companheiros, meti alguns gols nele quando jogava pelo Fogão e pelo Flamengo.

Por causa do cigarro, ele tinha uma tosse muito feia. Às vezes tinha uns ataques e ficava curvado de tanto tossir, e quem estava em volta via aquela cena com aflição porque não tinha o que fazer. Quando isso acontecia eu me lembrava do João Saldanha, que tinha a mesma tosse por causa do cigarro.

Só lamento que a CBF sempre tenha tratado com tanto descaso os jogadores da geração que tornou o futebol brasileiro admirado no mundo todo. Em 2006, por exemplo, os alemães convidaram todos os jogadores campeões mundiais para acompanhar a abertura da Copa do Mundo. A CBF nunca fez uma gentileza que chegasse perto disso para os jogadores de 58, 62 e 70.

Vai em paz, querido Papel. Você fez muito mais pelo torcedor brasileiro do que João Havelange, Ricardo Teixeira, José Maria Marin e outros cartolas do mesmo naipe juntos.

O melhor técnico que conheci

Numa época em que os “professores” se preocupam mais em montar o time para não perder, vou dedicar este texto ao maior treinador que tive ao longo da minha carreira: Valdir Pereira. Para os que não conhecem a história do futebol brasileiro, esclareço que esse senhor era conhecido como Didi.

 Como jogador foi um gênio. Elegante, inteligente, habilidoso… Sabia tudo com a bola. Como técnico, tinha obsessão pelo futebol bem jogado.

Tive a honra e o privilégio de trabalhar com ele no timaço do Fluminense de 1975. É justo que se diga que foi graças ao trabalho do Didi que aquela equipe passou a ser chamada de “Máquina” – e é conhecida assim até hoje. O que ele mais falava pra gente era o seguinte: “Time meu não dá chutão. Quero a bola o tempo todo.” Notaram alguma semelhança com os conceitos que tornaram o Barcelona do Guardiola admirado no mundo inteiro três décadas depois?

O Príncipe Etíope (como era chamado pelo Nelson Rodrigues por causa da sua elegância) parava o treino sempre que alguém rifava a bola. Ele exigia que a bola passasse de pé em pé e dizia que não precisávamos ter pressa para chegar na área, porque enquanto a bola estivesse com o nosso time só nós poderíamos fazer gol. E que quanto mais ficássemos com a bola, mais o adversário ia cansar.

 Ele vivia pegando no pé no Toninho Baiano, o nosso lateral-direito. O Toninho gostava de pegar a bola e sair correndo para a linha de fundo, e às vezes não percebia que o campo tinha acabado. O Didi dizia: “Pra que essa pressa toda? Toca a bola.”

Uma vez fomos jogar um amistoso em Goiânia contra o Atlético. Começamos a tocar e em 15 minutos estávamos ganhando de 3 a 0 sem que os caras tivessem chegado perto da redonda. Aí um jogador deles virou pro Rivellino e pediu para a gente dar uma maneirada, senão eles iam passar 90 minutos só correndo atrás da bola.

Como foi um craque, o Didi sabia mostrar para o jogador o que queria que fosse feito. Não é como esses professores de educação física que viram treinador, ou esses zagueiros botinudos que estão aos montes dirigindo times da Série A. Esses caras que nunca chutaram uma laranja ou não sabiam tratar a bola só podem ensinar os jogadores a marcar, correr, fazer faltas, apelar pro antijogo… O Didi era diferente.

Tem uma história famosa que vale a pena ser lembrada. Num treino nas Laranjeiras, a gente ficava em fila, tocava pro Didi na meia-lua e ele rolava pra gente chegar batendo de primeira. Numa certa altura, o Mário Sérgio, que estava começando, falou: “Será que esse senhor jogou tanta bola como dizem que jogou? Vou dar uns passes envenenados pra ver se ele devolve redonda ou apanha da bola.”

Dito isso, sempre que chegava a sua vez o Mário dava a bola cheia de efeito naquele gramado irregular para ver se complicava a vida do Didi. E o mestre ajeitava todas de primeira. Lá pelas tantas, o Didi mandou essa: “Garoto, você vai cansar de tentar me derrubar e não vai conseguir.” E todo mundo caiu na risada. Se os “professores” de hoje recebem uma bola assim com certeza batem de canela ou vão pro chão…

 O Didi se preocupava em fazer o jogador melhorar nos fundamentos: passe, drible, chute, cabeceio… Hoje os técnicos só trabalham bola parada e marcação. E, como todo craque que se preza, o negócio dele era montar o time para tomar a iniciativa de atacar e envolver o adversário. Não foi por acaso que a melhor seleção peruana da história, a de 1970, era treinada por ele. O goleiro e a defesa eram uma porcaria, mas do meio de campo para a frente era uma equipe excepcional, com jogadores muito habilidosos.

 É de técnicos como o imortal Didi que o futebol brasileiro precisa para recuperar a sua essência.

Um cenário difícil de mudar

Escrevo com muito gosto a coluna no JT há quatro anos e meio, e garanto que ainda não perdi a esperança de um dia enxergar motivo para acreditar que o futebol brasileiro voltará aos bons tempos em que era admirado (e temido) por sua qualidade técnica e seu estilo que envolvia os adversários. Mas basta acompanhar uma rodada completa e depois ouvir as declarações dos “professores” e jogadores para concluir que vai ser difícil o cenário mudar.

Não aguento ouvir os treinadores repetindo as “palavras mágicas” em suas entrevistas: “focado”, “trabalho” e “pegada”. Parece que todos os males do time serão resolvidos com mais trabalho, mais pegada e mais “foco”. Esse discurso é irritante! É como se os “professores” participassem de uma peça de teatro em que todos têm falas parecidas. E todos as decoram muito bem.

Em campo, suas equipes são o reflexo dessa falta de imaginação. Chutão pra cá, chutão pra lá, bola pra cima, chuveirinhos, toda atenção às bolas paradas, laterais sendo cobrados para dentro da área, mais volantes do que jogadores criativos, mais gente que corre do que gente que pensa…
Quando falam em “trabalho” é isso o que querem dizer? Se for, acho que deveriam trabalhar menos. Porque “aprimorar” esses itens citados acima não acrescenta nada ao futebol.

Cada vez que acaba uma rodada me ajeito no sofá para ver as entrevistas, sempre com a esperança de ouvir um treinador ou um jogador dizer: “O time precisa jogar mais com a bola no chão, ser mais criativo e ousado.” Mas lá vem “trabalho”, “focado” e “pegada”…
É por isso que adorei ler as declarações dadas semana passada pelo meia argentino Maxi Rodriguez, que voltou a jogar em seu país depois de dez anos na Europa. Ele disse que a qualidade dos jogos na Argentina caiu muito, que os times jogam com medo porque os técnicos temem ser demitidos se perderem três ou quatro jogos seguidos, que há muita correria e que ninguém liga mais para a técnica e a beleza do jogo. Isso é o que eu chamo de sinceridade.

Por aqui, técnicos e jogadores (e muita gente da imprensa também) ficam tentando iludir o torcedor com essa conversa mole de que o campeonato é empolgante, equilibrado, cheio de craques… E não aparece um “Maxi Rodriguez” para dizer a verdade. Para completar o quadro, temos José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Andres Sanches definindo o destino do nosso futebol. É o fim do mundo.