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Blog da Garoa

Assisti, no último domingo, 9, à noite, ao filme Sete Voltas, da TV Cultura, que conta histórias de bairros de São Paulo. É uma criativa forma de falar sobre o passado da cidade. Leve, bem-humorada, a primeira parte do filme usa animação de obras importantes na memória paulistana, como telas de Debret, e outros artistas, mais fotografias de Militão de Azevedo.

 O Tamanduateí de então serpenteava pela baixada na qual se construiu o que hoje é o Parque Dom Pedro 2º. Um dia, a cidade decidiu enquadrar o rio, e o canalizou. Virou aquilo que existe lá na Avenida do Estado- onde, de vez em quanto, caem um carro e seu motorista desastrado.

O filme exibido pela Cultura é uma sequência de sete crônicas que mostram o lugar desde os relatos de jesuítas até o depoimento de moradores contemporâneos da região, como um sem-casa que se abriga por lá, e o jornalista Heródoto Barbeiro, que foi criança naquela paisagem.

Interessante também a animação de episódio, do qual já tratei aqui: o calcanhar de Castro Alves. O poeta costumava caçar nos charcos da Várzea do Carmo e arredores. O filme recria a cena na qual o escritor,  acidentalmente, deu um tiro no pé.

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Hoje o clima não é mais assim, com garoa e frio. Mas, nos idos de 1860, São Paulo viu gente morrer em noite de geada forte no atual Parque Dom Pedro. Foi numa noite dessas que um bêbado adormeceu na rua e amanheceu de corpo gelado na Várzea do Carmo, segundo relato de Álvares de Azevedo. O Tamanduateí, hoje espremido no canal, fazia praias pelo descampado gelado até a Rua 25 de Março. E ao rio se juntavam riachos. Ao saltar um desses córregos, durante uma caçada no Brás, em novembro de 1868, o poeta Castro Alves acidentalmente deu um tiro no pé esquerdo. E abreviou a vida. Mas essa já é outra história.

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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É do italiano Angelo Agostini o desenho, reproduzido aqui, de dois cidadãos paulistanos remando numa canoa em plena rua alagada de São Paulo do Século 19.  Caricaturista, criador de histórias em quadrinho, Agostini usava o talento para a ironia para exercer em jornais e revistas sua crítica política — e se divertir observando os costumes.

Ele migrou para São Paulo em 1859. Foi contemporâneo de figuras importantes, como Luís Gama, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José Maria da Silva Paranhos, que viveram aqueles tempos de agitação acadêmica e política do Largo São Francisco pré-república.

Era época de efervescência estudantil e de florescimento de jornais e revistas na cidade, ainda com seus meros 40 ou 50 mil habitantes. Houve ali naquelas décadas o surgimento em São Paulo de publicações como Diabo Coxo, em 1865, O Cabrião (1866), O Coaracy (1875).

As caricaturas são eficientíssimas na comunicação. Agostini as unia a pequenos textos. O barão do Rio Branco, por exemplo, que é o nosso José Maria aí do segundo parágrafo, foi uma figura adorada pelos caricaturistas, com seu perfil ovalado e sua história riquíssima de bastidores.

E Agostini era um desses privilegiados pela natureza no humor. O desenhista foi, com o fotógrafo Militão Augusto de Azevedo, também já conhecido aqui do Garoa, um documentarista. Ele nos permite, por meio da dedicação de colecionadores e pesquisadores de hoje, trazer para século e meio depois as imagens e o ambiente de seu tempo.

Um belo artigo sobre essas figuras do passado da cidade, atualíssimas como as águas que sobem nas ruas, foi escrito por Heloísa de Faria Cruz, mineira, doutora em história pela USP, no livro organizado por Paula Portas sobre a cidade no Império. Doutora Heloísa conta detalhes da vida de Agostini no texto “A imprensa paulistana: do primeiro jornal aos anos 50”. Um outro texto sobre esse italiano inquieto é de Rosangela de Jesus Silva, que o estudou para a Unicamp.

Já falei aqui também sobre jóias existentes no Arquivo Público do Estado. Agora recebi informação sobre o trato que está sendo dado a publicações daquela época. Há lá diversos tipos, alguns muito curiosos: anticlerical (A Lanterna), anarquista (La Barricata, em italiano), integralista (Anauê). E outras revistas, como O Malho, editada no Rio, para a qual Agostini também desenhava.

 Tenho usado o Arquivo para andar (virtualmente) por aquele mundo de Agostini. Ele e seus amigos baixavam o “malho” nos poderosos de seu tempo. E tenho me divertido. Quase como se divertiam o então jovem Rio Branco e seus colegas de Direito quando iam nadar sem as roupas no Tamanduateí.

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Cidade incomodada com trânsito, assustada com os desabamentos matando mais gente, só desta vez pelo menos 5 pessoas mortas por soterramentos na região metropolitana, outro tanto desaparecido logo cedo da manhã após uma chuva fortíssima na madrugada, uma situação muito difícil. São Paulo sempre conviveu com as enchentes, desde os tempos de vila colonial, com as águas do Tamanduateí e outros córregos sendo retratadas nas belas telas de Benedito Calixto, de 1892, ou pelas fotos de 1958, na Rua da Cantareira ou, ainda, no que ficou conhecido como “Piscina” do Adhemar.

Cena da Inundação na Várzea do Carmo, de Benedito Calixto

Reprodução: Inundação na Várzea do Carmo (Benedito Calixto)

Enchente de 1958: Piscina do Adhemar, no Anhangabaú

Piscina do Adhemar, no Anhangabaú, em 1958 (Reprodução)

Mas de uns anos para cá a situação ficou muito pior. O volume de pessoas atingidas e a gravidade dos efeitos das águas, que requisitam espaço para se espraiar, foram multiplicados quando mais e mais pessoas se aproximaram de suas áreas de domínio. Obviamente que faltou planejamento e o poder público fracassou. Não só não conseguiu evitar que a população ocupasse as beiradas perigosas de morros como não consegue oferecer solução de engenharia para acomodar no seio da terra a água caída do céu.

Há muito tempo que o rio não é do rio. Pelo mundo, a engenharia doma as águas.

Lamentavelmente São Paulo já está acostumada com as desculpas dos administradores públicos, que se sucedem na cadeira do poder sem apresentar soluções para o problema. Toda vez é uma discurseira sobre as bombas de túneis que não funcionaram, que estão vindo não se sabe bem de onde e indo também não se sabe bem para qual cruzamento submerso. É a mesma ladainha. Uma ladainha cantada, cada vez mais, sobre cadáveres. E sobre milhões de contribuintes que têm o dia corrompido pela ineficiência do serviço público.

E o cidadão morga horas no trânsito ou anda a pé por quilômetros e perde o dia de trabalho. Os hospitais sofrem, as empresas perdem, as abóboras bóiam no Ceagesp e a cidade para para ver descer a água e surgir o barro, a sujeira, o caos. E, vejam, ainda estamos em janeiro, aliás, na semana dos 456 anos da cidade, que se completam no dia 25.

E a temporada das águas de março ainda nem começou.

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