O número de mortes em acidentes com bicicletas em São Paulo subiu 6%, passando de 49 vítimas fatais em 2011 para 52 mortos em 2012. A dura estatística da Companhia de Engenharia de Trânsito (CET), divulgada outro dia pelo governo, esclarece também que 51 dos mortos em bicicletas são homens com idade média de 35 anos. Noves fora o chocante caso do rapaz que perdeu o braço ao ser atingido por um carro em plena Avenida Paulista, episódio que comoveu a cidade por características absolutamente brutais – o atropelador livrou-se de um pedaço do atropelado jogando o braço arrancado no rio – esse número crescente de mortes revela o quanto é perigoso pedalar na cidade.
São Paulo, mostra o dado, não é cidade amiga das bicicletas. Pedalar nas ruas é coisa de doido. É claro que essa realidade precisa ser mudada, que a cidade deveria se transformar em um espaço tolerante para pedalantes. Como ocorre em comunidades europeias, famosas pela convivência pacífica no trânsito, ou como Vancouver, na Colúmbia Britânica, no Canadá, cidade da qual gosto muito e que está entre as mais bem avaliadas do mundo no quesito qualidade de vida.
Em Vancouver há excelente convivência no trânsito. Mas isso não é só de carro com bicicleta. Lá, pedestre tem prioridade, carro é meio de transportes (não é objeto de status econômico), e ciclista tem tranquilidade para curtir a bela geografia do lugar sem poluir o ambiente.
Mas Vancouver é Vancouver, tem 600 mil habitantes, está num mundo organizado, com renda alta, educação top e respeito pela existência do outro. São Paulo é São Paulo. Achar que se pode ter nesta megalópole latina o comportamento existente com ciclistas na rica maravilha canadense é uma agressão ao bom senso. Aqui a coisa está mais para o trio Garcin, Estelle e Inês – aqueles personagens da obra “Huis Clos”, do Sartre, e da conclusão atualíssima: “o inferno são os outros”.
Nada contra os militantes do ciclismo que sonham em mudar hábitos e reivindicam mais respeito e igualdade nas ruas. Nem contra as fábricas e lojas de bicicletas. Devem ser apoiados. Mas dar murro em ponta de faca é, no mínimo, bobagem. Expor as pessoas às neuras paulistanas é forçar uma barra que deveria ser contornada, não confrontada. Trata-se de uma ameaça concreta contra a vida. Há por aí milhares de motoristas malucos que empunham seus carros como armas.
Os fundamentalistas do pedal precisam puxar o freio, precisam ter mais cuidado. O ambiente ainda é muito desfavorável a eles. A doideira do automóvel, o estresse do trânsito, e a falta de educação do paulistano provocam resultados trágicos – é só olhar a estatística!
Além das mortes, que são as perdas mais lamentáveis, sem dúvida, o relatório da CET mostra que todos os dias 9 ciclistas são levados a hospitais por causa de acidentes de trânsito. No Estado, segundo a Secretaria Estadual da Saúde, 3,2 mil pessoas foram internadas devido a esses acidentes e o SUS teve um custo de R$ 3,3 milhões com tratamentos.
Tentar mudar hábitos da cidade dessa forma, no peito e na raça, sem que as condições mínimas de segurança urbana sejam garantidas, tem preço muito alto. E aqui não se trata de defesa pura e simples do carro, de apologia do motor. Não é nada disso. Olhando a cidade como é hoje, responda aí: você mandaria seu filho de 10 anos de bicicleta para a escola? Duvido!
PS:
E abril começa com mais uma dessas tragédias. Desta vez, no Rio. No Leblon, um ônibus contra uma bicicleta – e a diretora de TV da Rede Globo, Gisela Matta, 36 anos, não teve a mínima chance. Na manhã de segunda-feira, 1/04, ela chegou a ser hospitalizada, mas não resistiu.
O petista Fernando Haddad completa 100 dias no comando da prefeitura de São Paulo em 10 de abril. É tempo suficiente para um prefeito entrante entender o tamanho real da encrenca na qual se meteu. É um razoável prazo de carência, digamos, um tempo para o homem e seu time tomarem assento.
Não há ainda na cidade marcas relevantes da nova administração, o que é compreensível. Mas depois de 3 meses de governo o povo precisa começar a ver coisas acontecendo. Ainda mais em São Paulo, essa gigantesca malha de interesses conflitantes.
Então, a partir do dia 10 a paciência do paulistano entra naquele esquema do julgador de escola de samba no qual todo mundo parte do 10, mas o que vale mesmo é pisar o menos possível na bola durante o desfile.
Acabou a festa. É hora de mostrar serviço em quesitos como saúde, educação, enchentes, habitação, pobreza, transportes públicos, trânsito, aeroportos, especulação imobiliária e meio ambiente – para ficarmos somente em 10 dos principais.
O primeiro debate do segundo turno em São Paulo não teve um ganhador disparado, aquele candidato que põe o adversário na lona, que expõe claramente as deficiências do outro, que mostra que é bem melhor, vence por nocaute. Não foi isso que aconteceu no debate da Band na noite de quinta-feira. Mas o encontro entre Fernando Haddad (PT), que lidera no Ibope com 49%, e José Serra (PSDB), que tem 33%, teve sim um perdedor.
Serra perdeu a oportunidade de expor as fragilidades políticas de Haddad. Deixou de traduzir claramente para o eleitor da periferia, onde precisa crescer, o que significa exatamente o escândalo de corrupção do PT que o Supremo Tribunal Federal está julgando. O PT nunca esteve tão vulnerável diante de um dos pilares da vida pública, a retidão, a ética, o combate à corrupção. Se isso não é sopa no mel para um debate político eleitoral, o que mais pode ser? Imaginemos a situação invertida. No passado, com muito menos munição do que isso o PT fez estragos eleitorais poderosos na tropa tucana.
O mensalão deu de mão beijada ao candidato do PSDB dias e dias de marketing negativo do adversário. A expectativa agora no confronto direto dos dois projetos de governo era que Serra transformasse a maré de escândalos de Delúbio, José Dirceu e Genoino em tsunami da roubalheira e ataque aos cofres públicos nacionais, inclusive com reflexos em São Paulo. Manchetes de jornais, longos programas de televisão em horário nobre e coberturas intensivas de rádios mostraram ao Brasil, exatamente durante a campanha, a maneira de operar de membros do partido de Haddad, gente muito ligada à cidade. Mas Serra praticamente não tocou no assunto.
Equivocado, aceitou a esperteza do petista que logo de saída propôs um debate “de alto nível” no campo dos problemas de São Paulo. É claro que a equipe de Haddad sabe que ele é menos preparado do que Serra. E o marqueteiro João Santana operou Serra. O tucano caiu na armadilha como um pato. Inebriado com o próprio desempenho de homem público, entrou por um caminho de divulgação de obras no qual o imaginário do eleitor está muito nublado pelos problemas do dia a dia e, portanto, no qual ele tem mais a perder do que a ganhar. Serra, aliás, deveria era fugir do debate em campo aberto sobre a administração da cidade. Ele carrega consigo um aliado que está no comando da Prefeitura, Gilberto Kassab, que tem avaliação sofrível da população.
Serra é realmente melhor preparado do que Haddad. Já esteve na Prefeitura com a caneta na mão, coisa que Haddad só tenta agora. Serra já foi ministro do Planejamento da República, depois ministro da Saúde. Serra teve 44 milhões de votos em disputa nacional pelo Planalto. Do outro lado, Haddad foi ministro uma vez, da Educação, é íntegro, não está no meio da podridão mensaleira, não tem flanco pessoal descoberto. Mas no início da campanha tinha 3% nas pesquisas, teve votação inferior no primeiro turno, nunca antes neste país disputou um cargo no voto e ainda tem contra si o peso da caneta do ministro Joaquim Barbosa.
Ao adotar o caminho paz e amor, proposto no debate por Haddad, e tentar reafirmar competências administrativas que o paulistano já sabe que ele tem (mas que Kassab encobriu), Serra deixou de cutucar com força as contradições éticas do PT. E ajudou o adversário a ficar do tamanho dele. O tucano precisava de um nocaute neste primeiro debate. Vai ser difícil virar o jogo. Serra legitimou a candidatura de Haddad.
P.S.: Horas depois do debate, pela manhã, o Datafolha confirmou a dificuldade da empreitada tucana: Haddad, 49%; Serra, 32%, ou seja, 17 pontos percentuais de vantagem para o petista.
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(Texto originalmente publicado no Estadão Noite, no iPad, em 19/10)
Boa parte da disputa pela Prefeitura de São Paulo vai ocorrer num cenário bem distante da terra da garoa. Lances relevantes da guerra pela cobiçada caneta de prefeito paulistano, que vale R$ 40 bilhões por ano, já estão ocorrendo nesta cidade que não tem prefeito, mas que não há quem não conheça: Brasília.
Durante o primeiro turno, foi de lá que saiu a ordem para que Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo, que fazia cara de paisagem em relação ao candidato do PT indicado por Lula, Fernando Haddad, entrasse na campanha em troca de um ministério, o da Cultura, que vinha sendo chefiado por Ana de Hollanda, irmã de Chico, filha de um dos maiores intelectuais paulistas, Sérgio Buarque de Hollanda, ex-diretor do Museu Paulista, ex-professor da USP, e de dona Maria Amélia, matriarca da família que viveu anos na famosa casa da Rua Buri, no Pacaembu.
Pois foi de Brasília que saiu o tiro que abateu a paulistana Ana de Hollanda para que Marta se acomodasse no staff do Planalto e apoiasse Haddad, ele próprio um ex-integrante da Esplanada. E foi por Brasília, igualmente, que o candidato tucano José Serra, o adversário de Haddad no dia 28, já lutou colecionando mais de 44 milhões de votos no país. E é de lá que Serra hoje tenta se afastar ao máximo para eliminar a ideia disseminada em São Paulo de que só pensa na cidade inventada por Oscar Niemeyer.
Pois, mais uma vez, será de Brasília que deverão sair nos próximos dias elementos que podem ser decisivos para o futuro imediato dos paulistanos. Um deles, no terreno das alianças, já está sendo costurado entre Lula e o vice-presidente da República, Michel Temer, que é o apoio de Gabriel Chalita (PMDB), quarto colocado no primeiro turno, para Haddad.
Outros dois lances, ainda mais relevantes, estão por ocorrer. Primeiro, a construção da ponte entre o PT e o PRB, o partido que deu sustentação a Celso Russomanno na conquista dos mais de 1,3 milhões de votos contados no último dia 7. Pelos principais líderes nacionais do PRB e pastores de igrejas evangélicas que tentaram eleger Russomanno mas fazem parte da base de apoio do governo federal, deve passar a decisão sobre se agora são Haddad ou Serra. E, por fim, há a bomba política das decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), que lá no desértico clima do cerrado julga o mensalão.
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Ainda era noite de domingo quando se soube que José Serra e Fernando Haddad haviam passado para o segundo turno da eleição em São Paulo. E ainda não havia acabado a apuração e o candidato tucano já sinalizava o tom que espera para o próximo embate: discutir o mensalão.
Nos próximos dias as atenções estarão voltadas para o plenário do Supremo Tribunal Federal. Líderes importantes do PT, como José Dirceu, estão na reta dos ministros do STF. E Serra aposta nisso como desgaste político de Haddad. Por seu lado, o candidato petista e seu padrinho Lula tentarão demonstrar que o tema não tem relação com a vida do eleitor na cidade.
O que é certo, pelo menos por enquanto, é que o bombardeio do mensalão não foi assim tão efetivo contra Haddad, já que o candidato manteve-se na margem histórica dos cerca de 30% do eleitorado que o PT tem na cidade mesmo depois da contundência das decisões que emergiram do STF nos últimos dias. Nessa balada, a chapa vai ter de esquentar bastante no STF nos próximos dias para que as fichas de Serra virem valor.
Até lá, o que se tem mesmo como relevante é o preço que o candidato Celso Russomanno, que por mais de mês liderou as pesquisas e foi relegado a terceiro plano pelo eleitor paulistano, vai querer por seu espaço político. Russomanno fez uma bela votação. Alcançou 1.324.021 votos, 21% do eleitorado da capital. E pelo menos no primeiro momento esse desempenho é que pode estabelecer a diferença na campanha que segue até o dia do juízo derradeiro, dia 28.
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Tudo indica que a cidade de São Paulo ainda terá de esperar mais 20 dias para saber quem será o substituto de Gilberto Kassab na Prefeitura. A julgar pelos números dos institutos de pesquisas Celso Russomanno, José Serra e Fernando Haddad, nesta ordem no ranking das intenções de voto, brigam embolados, esquina por esquina, na caça ao voto.
Essa divisão no eleitorado foi estreitada nos últimos dias pelo registro, nos dois principais institutos (Datafolha e Ibope), da queda de Russomanno. Ele vinha na frente desde a metade de agosto. Mas perdeu força na reta de chegada. E a piscada do líder deu um gás nos comitês dos adversários e levou a um acirramento dos ânimos na campanha de TV.
Assim, ao votarem no domingo os paulistanos dificilmente darão a um dos candidatos uma vantagem clara suficiente para matar a questão no primeiro turno. Então, no segundo turno, quem sobrar na corrida até o dia 28 arrastará consigo uma herança tensa do primeiro turno, de qualquer que seja dos lados. Notem que o tiro da segunda volta é mais curto do que o de eleições anteriores. É natural, portanto, que os nervos ainda estejam à flor da pele quando as alianças começarem a ser alinhavadas.
Como é arriscado fazer prognósticos quando a coisa está nesse pé – diferente, por exemplo, do caso do atual prefeito Eduardo Paes, do Rio, que tem larga vantagem e pode encerrar já a eleição -, pelo menos será possível se saber, ainda na noite de domingo, o tamanho do estrago eleitoral provocado na campanha por um outro fato político não menos tenso e relevante, o julgamento do escândalo do mensalão no Supremo Tribunal Federal.
As condenações de petistas como José Genoino, João Paulo Cunha e os votos de ministros contra o ex-todo-poderoso José Dirceu, todos figuras relevantes no recente cenário político de São Paulo, vão grudar em Haddad – eleitoralmente em falando? Ou teremos vivido um período de um intenso bombardeio vindo de Brasília com muito barulho mas pouca pontaria?
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O que o distinto contribuinte espera de um administrador público? Espera que ele ofereça soluções para os conflitos de interesse da vida em sociedade. Espera que o administrador público resolva os problemas que surgem da convivência urbana – já que o que está na ordem do dia é o comando da Prefeitura.
Mas todo mundo sabe, também, que desde que Jericó, a 11 mil anos, começou a se formar como pioneira da vida urbana, que não basta agir nas cidades como gerente ou zelador – ficar tampando buracos, trocando lâmpadas ou desentupindo bueiros.
É preciso que o administrador público, em seu competente espaço geográfico e político, seja mais do que um síndico. É preciso ser estrategista, pensar, planejar o bem comum de médio e longo prazos. É preciso que o administrador público seja alguém que use os orçamentos para se antecipar às crises.
Reportagem de Adriana Ferraz, no Estadão, sobre os gastos da Prefeitura de São Paulo com emergências, nos mostra o quanto estamos distantes desse ponto. Somente neste ano, o administrador público municipal gastou R$ 23 milhões com obras de emergência em viadutos e pontes na cidade. É o preço da falta de planejamento. Não é possível esperar a enchente para construir o piscinão; apagar o incêndio para construir habitação popular; cair um pilar para refazer a ponte.
Quem não investe em melhorias e conservação paga por isso. Adriana Ferraz conta ainda que de 2009 para cá a cidade “gastou nove meses mais com correção das chamadas ‘obras de arte viárias’, que incluem ainda túneis e passagens subterrâneas, do que com manutenção.”
E note que, segundo a reportagem, neste cálculo da cobertura emergencial de ocorrências na cidade ainda não há o custo do conserto do Viaduto Orlando Murgel, destruído parcialmente dias atrás por um incêndio de uma favela, a Favela do Moinho, uma das mais de 1.500 chagas sociais existentes na cidade há anos.
O financiador, lembremos, é o amigo contribuinte paulistano – de quem o caixa municipal suga mais do que deveria, e sem a menor cerimônia. A Fazenda anual é bilionária, na casa dos R$ 40 bilhões, e crescente. E, segundo a propaganda eleitoral na TV, há milhões sobrando no cofre. Não é mais falta de dinheiro. É falta de visão.
(texto também publicado na Edição Noite do Estadão no iPad)
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Lá estava ele, parado no trânsito da Rebouças, perto do Hospital das Clínicas, às 10h do ensolarado sabadão, quando a moça do rádio do carro informou: “Temos 4 quilômetros de congestionamento em São Paulo. A Avenida Rebouças tem o único engarrafamento da cidade”.
“Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.”
Não é março; é setembro. Mas essas três linhas do “O guardador de águas” Manoel de Barros (Record, 1998) são boa companhia no retorno alegre à cidade da chuva, que à noite virou garoa.
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A semana começou tensa em São Paulo. Uma pane de trens logo cedo na segunda-feira, seguida de quebra-quebra de vagões, atrasou o deslocamento de milhares de pessoas. Pior: um incêndio na favela do Moinho, região de Santa Cecília, o segundo em menos de um ano, interrompeu o tráfego em outras linhas da CPTM e danificou um viaduto. Caos no trânsito e inferno na vida de centenas de moradores que perderam o pouco que tinham, consumido pelo fogo. Uma pessoa morreu.
Esta é uma São Paulo precária, que muita gente não nota mas que insiste em existir sem que o poder público delas dê conta, é real. O belo livro Cidade de Muros – crime, segregação e cidadania em São Paulo, de Teresa Pires do Rio Caldeira, editado pela Edusp, aborda o tema com profundidade. E lembra, à página 240, que o problema da habitação é antigo mas que se agravou bastante nas últimas duas ou três décadas.
A pesquisadora mostra que em 1973 São Paulo tinha 1,1% da população em favelas. Em 1980 já eram 4,4% paulistanos vivendo como favelados. Em 1987, 8,9%. Em 1993 esse número era de 19%, ou seja, quase 2 milhões de pessoas morando em precárias condições na “rica” São Paulo.
Uma olhada no mapa da Habisp, órgão da Prefeitura, nos revela que em 2008 havia 1.565 favelas na cidade, além de 1.152 loteamentos irregulares e 1.885 cortiços. Os dados atuais da Habitação municipal mostram que há gente precisando muito de ajuda para morar em 33 locais do Centro; 285 na zona Leste; 399 na norte; 201 na região sudeste; e 714 comunidades na zona sul. Ao todo, segundo o município, há 1.632 áreas identificadas para projetos de urbanização. É muita coisa.
A Prefeitura costuma fazer propaganda de seu Programa de Urbanização de Favelas dizendo que atende a 200 mil pessoas. Há aí até o trabalho do arquiteto Ruy Ohtake, que faz habitação popular em Heliópolis. É bastante. Mas o passivo ainda é muito grande. A cada uma destas queimadas de barracos – uma centena nos últimos dois anos – dezenas de pessoas entram em pânico.
O livro de Teresa Pires do Rio Caldeira trata dessas deficiências. Segundo a pesquisadora, são sinais da falta de democracia na cidade. Tem razão. Não há democracia plena com tanta gente nesta situação. E a julgar pelo que se vê na campanha eleitoral, onde os candidatos lutam pelo controle de um orçamento anual de quase R$ 40 bilhões, a coisa não tem solução no horizonte.
(Texto atualizado após publicação no Estadão Noite no iPad)
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