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Blog da Garoa

Enquanto em São Paulo o drama é a falta de água para abastecimento, no Norte ocorre o inverso. É a enchente que preocupa. Outro dia, navegando na inundação recorde que ocorre no Rio Madeira, em Rondônia, encontramos a dura realidade dos brasileiros que vivem naquela terra de água. A reportagem, publicada no Estado de domingo, mostra um pouco do impacto da estação das chuvas no rio e em áreas urbanas até a manhã de sábado, dia 22.

Óbvio que horas depois, como dizia previsão do Sipam (do Ministério da Defesa) relatada na reportagem, a água já havia subido ainda mais alcançando novos limites, encobrindo novas ruas e casas, e desabrigando mais gente. Conta-se 13 mil afetados, boa parcela deles desabrigados que foram removidos para abrigos na Capital. A previsão das autoridades é a de que o rio deve subir até o início de abril. É muita água!

Os técnicos explicam que a chuva que deveria ter vindo para o Sul-Sudeste terminou por cair no meio do caminho, ou seja, na Bolívia e em Rondônia, locais nos quais estão os rios que formam a gigantesca do Madeira. Em vez de irrigar São Paulo, Paraná, Santa Catarina, a chuva caiu ainda nas matas e vai escorrendo para o Madeira, alargando as margens do rio e tomando tudo por lá. O tráfego para o Acre foi cortado e comércio se ressente com falta de mercadorias. Até o Museu da Madeira Mamoré virou lagoa.

A força da natureza, mais as incompetências na gestão pública do ambiente, incomodam muita gente. Em áreas inundadas da Capital não há saneamento básico. Era tudo na base da fossa, como contou uma moradora do bairro Nacional. Um quadro bem brasileiro, diga-se! É uma calamidade que vai se estender por meses, mesmo após as águas começarem a baixar.

Quando chegam assim, em excesso, essas chuvas amazônicas criam imagens lamentáveis no chão – e impressionantes no céu.

Baixo Madeira. No caminho para a comunidade de São Carlos do Jamari, rio subiu o barranco e empurrou a margem por cerca de  5 quilômetros / Foto: Pablo Pereira/20.03.2014

Céu aberto. Em Porto Velho, as chuvas do fim da tarde caem do céu como cachoeira. Desde dezembro as inundações ameaçam moradores. Recorde da cheia foi batido em fevereiro / Foto: Pablo Pereira/20.03.2014

 

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O governo paulista anunciou nesta segunda, 27, que houve uma queda de 14% no número de assassinatos na capital de São Paulo. Em 2012 tinham sido mortas 1.368 na cidade; planilha, em 2103, conta 1.176 assassinados.

No Estado de São Paulo, a epidemia (2012) espalhou por aí 4.836 cadáveres. Agora (2013), 4.439 cidadãos foram para o cemitério. A reportagem é de Caio do Valle, do Estado. Ele acrescenta: “Em dezembro, na capital foram 99 homicídios dolosos, ante 156 no mesmo mês de 2012. No Estado, em dezembro, houve o registro de 400 homicídios – foram 530 no último mês de 2012″, informa a reportagem.

Os números paulistas e paulistanos mostram redução nos casos, uma “melhora” no comportamento geral. Legal. Boa notícia. Mas indicam também que continuamos a viver numa terrível e assustadora matança!

Aqui se mata o dobro da região metropolitana de Los Angeles, cidade na qual vivem cerca de 10 milhões de habitantes, portanto, no quesito número de humanos, com impacto semelhante ao de São Paulo.

Há um mapa de mortes  (The Homicide Report) na região de Los Angeles, feito pelo jornal Los Angeles Times, que mostra que desde 2007, quando os assassinatos passavam dos 900 por ano, aquele conglomerado urbano vem reduzindo a mortandade. Em 2013, registrou 593 casos – a metade do total de homicídios que aqui é divulgado com ares de conquista!

E, note, Los Angeles tem índices de criminalidade considerados altos para o contexto americano. A cidade registra 7,7 mortes para cada grupo de 100 mil. Nova York está na casa dos 5/100 mil, segundo dados (2012) do FBI, citados no LA Times. A média nacional dos EUA (2012) foi de 4,7 mortes para 100 mil habitantes.

Pobre (rica, fascinante e violenta) São Paulo!

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O pensador tucano Bolívar Lamounier os chamou de “nova classe média”; a pensadora petista Marilena Chauí preferiu “nova classe trabalhadora”. O pessoal em questão é gente (milhões e milhões) que por décadas esteve fora do consumo mas que desde o início dos anos 90 passou a comprar, consumir, produzir, negociar, vender – e a fazer coisas que até então não podia, como trocar de casa, de carro, curtir a Disney, colocar filhos na universidade.

Tudo começou com os tucanos estabilizando a moeda brasileira, que neste ano completa 20 anos, e foi se acelerando na segunda metade desse período com os petistas, que derrubaram juros e criaram ambiente para maior oferta de crédito, inflação baixa, desemprego em queda e renda familiar em alta. Os governos da “turma de Lamounier” fizeram a primeira parte; os “de Chauí”, a segunda.

Nesse longo período, menino que nasceu com o Real hoje já passou até do serviço militar. E aqui ou ali variantes da economia se moveram para cima e para baixo. As setas de um curioso índice, criado por economistas, ajudam a entender o quadro. O Corecon (Conselho Regional de Economia) mede esses movimentos no que chama de Índice do Custo de Vida da Classe Média (ICVM) e confirma que, na essência, a vida brasileira mudou para melhor.

Os “Lamounier” e os “Chauí” nasceram da mesma mãe, a esquerda oposicionista alijada das decisões nacionais durante a ditadura militar dos anos 60, 70 e 80. Depois de um breve período no qual o país esteve sob comando de oportunistas projetos de transição (Sarney e Collor), ambos governaram. E levaram o país a um copo “meio cheio e meio vazio” (só para lembrar raciocínio usado outro dia pela presidente Dilma Rousseff quando falava de otimismo e pessimismo). 

Agora os dois lados voltam a se enfrentar em campanha eleitoral que já está nas ruas. Quem está no governo (os “Chauí”) exalta a parte do copo meio cheio; os da oposição (os “Lamounier”), claro, chamam a atenção para a ameaça da metade ainda vazia. 

Olhando as manifestações das ruas de junho e, atualmente, as visitas de uma moçada aos shoppings, nota-se sinais de que o tal copo tem de ser olhado com bastante cuidado. É a hora da cobrança da terceira parte.

Sejam eles filhos da “nova classe média” ou da “nova classe trabalhadora”, enchem as avenidas e combinam “rolezinhos” nas redes sociais da web em busca de alguma coisa bem concreta: mais! Quem já tirou a cabeça da lama tem sede. E quem ainda não conseguiu, está com pressa.

E não é somente pelo interior do país, governado de Brasília pelos “Chauís”, não. Em São Paulo, dirigido pelos “Lamouniers”, também. Tanto lá quanto cá achar que copo pela metade está de bom tamanho é ilusão. 

Seria bom que “Chauís” e “Lamouniers” também fizessem bastantes “rolezinhos”. Não pelos shoppings, mas pelas periferias.

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Sair de casa às 4h da matina, num dia normal de semana, e rodar por São Paulo provoca duas sensações bem contraditórias. A primeira é a de que com a cidade vazia chega-se rapidinho ao destino. Nada de incômodos engarrafamentos, nada de estressadinhos no trânsito, de gente sem educação cortando, agredindo, disputando vagas.

Mas a segunda, Deus me livre! A escuridão e o vazio das ruas dá medo. Dizem que a cidade não para, que há vida (boa) pela madrugada. Meia verdade. São Paulo dorme, sim. E quando notívagos param nos faróis, não há como fugir da sensação de que se pode, a qualquer momento, ser atacado – como num filme de zumbis.

A neura é muita! Infelizmente.

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Eita São Paulo! Eita Brasil! Pegou fogo num dos patrimônios da cidade, o Memorial da América Latina, obra do arquiteto Oscar Niemeyer. Bombeiros sofrem na UTI com queimaduras gravíssimas nos pulmões, obras de arte foram destruídas e mais uma conta (custo da operação do combate ao incêndio e do tratamento dos feridos) será empurrada, claro, no contribuinte – esse mané que tudo paga sem reclamar. É de lascar!

A cara de pau dos gestores públicos brasileiros, os que mandam e os que fiscalizam, é tão acintosa, o comportamento dos “responsáveis” por administrar é tão rasteiro, que dá é pena.

Dizem agora que o Memorial, símbolo da integração regional da América de baixo – uma casa de cultura! -, não estava de acordo com as regras de segurança havia anos. Ou seja: havia muito tempo que o Memorial colocava em risco a vida de milhares de pessoas, adolescentes, crianças, que por lá passavam curiosos para encontrar saber. Ou, como diz o próprio presidente da Fundação, João Batista de Andrade, na Folha de S.Paulo, nunca esteve conforme com a exigência legal. O Memorial funcionava com alvará vencido, com documentos “especiais”.

Estava amparado pelo jeitinho nosso de cada dia, primo da feia conivência que alimenta a corrupção nas fábricas de alvarás para construtoras, uma delas recentemente estourada dentro da Prefeitura. E notem que agora não se trata de uma boate clandestinamente construída e enfeitada com materiais suspeitos para enriquecer irresponsáveis. É o Memorial! O Memorial não é mais deste ou daquele. O Memorial é da comunidade. Está ligado à Secretaria Estadual da Cultura (Lei 6472/89), editada no governo Quércia, mas é espaço público. Não é um curral estatal.

Sabem o que vai acontecer com quem deveria ter a obrigação de governar aquele espaço público com eficiência e com quem deveria ter fiscalizado e não cumpriu com a tarefa de evitar o que agora chamam de “acidente”? Absolutamente NADA!

E sabem por que? Porque o contribuinte, extorquido em sua renda suada pela cobrança abusiva de impostos, é mané mesmo. E o bando de  “administradores públicos” sabe que quem é mané paga essas contas sem protestar, como mansos cordeirinhos. No fundo, se merecem!

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Muitas cidades costumam ter seus mimos, aqueles espaços de vias públicas que se transformam em ícones locais, marcas de convivência. Nova York tem a Quinta Avenida e a Times Square, ambas bem conhecidas de milhares dos brasileiros que por lá se divertem – e cada vez mais!

Roma, Paris, Madri, Barcelona, Buenos Aires, Rio, Porto Alegre – e, claro, São Paulo- também conservam essas áreas cobiçadas por ávidos turistas e amadas por seus nativos. Ontem e hoje (26 e 27), a Avenida Paulista, marco maior da capital paulista, foi assunto de uma roda de debates que tenta olhar para ela não só na conjuntura de usos e costumes, mas também para o seu futuro próximo.

Para saber mais sobre a iniciativa, clique em Avenida Paulista.

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Os jurados do Prêmio Esso de Jornalismo da próxima temporada terão vida fácil quando forem olhar as melhores fotos publicadas nos jornais brasileiros em 2013. A fotografia de Nelson Antoine, que ilustra as capas de Estado e Folha deste sábado, 26, já é favorita! A imagem é o resumo do descontrole na relação estado-cidadão que vivemos desde junho e que resultou na onda de protestos violentos que assola o país e populariza os métodos violentos dos black blocs. O Estado, que chefia as polícias, vive perdido em sua política de comando. Perdido antes, quando reagiu com violência exagerada; perdido depois, quando não contém os quebra-quebras pelas ruas.

O sensacional retrato feito por Nelson Antoine mostra um mascarado dos black blocs quebrando a cabeça do coronel Reynaldo Rossi, espancado com uma chapa de aço na noite de ontem durante manifestação do Movimento Passe Livre no Centro de São Paulo. O coronel é profissional preparado para negociar. Consciente de sua condição, mantém o controle mesmo sendo atacado. O negociador apanha porque os mascarados não querem conversar, o intento deles é confrontar. A cena mostra que Rossi, mesmo ferido, não reage à agressão. A reportagem da Folha informa que, ferido, Rossi ainda grita para manter a calma da tropa sob seu comando.

Para a PM essa imagem do negociador diante da intolerância do agressor significa uma vitória. A corporação sofreu desgaste quando surrou indiscriminadamente quem estava nas ruas numa noite de junho, reagindo contra o espancamento de outro policial. Internamente, no entanto, a foto pode provocar outra reação: raiva, como da vez anterior. O próximo confronto será revelador do rumo que essa batalha tomará.

Nelson Antoine fez um retrato do Brasil.

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Há exatos 4 anos uma entrevista do urbanista Benedito Lima de Toledo para o Blog da Garoa, que acabava de nascer, analisava São Paulo. O tempo passou. Mas os argumentos do professor de urbanismo da USP, uma autoridade na história da cidade, que para ele é uma “megalópole” e se reescreve como num palimpsesto, permanecem atuais e reveladores.

A entrevista com uma referência da formação paulistana marcava o início do Blog. E a ferramenta da web, à época uma inovação em conteúdo no site, claro, como a cidade do pensador, também se transformou. Além dos assuntos refrescados pela saudosa garoa que outrora banhou piques, becos, várzeas e, mais tarde, bondes puxados por burros e cracolândias, recebe também temas que preocupam a convivência urbana bem além das fronteiras do Jaraguá.

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A Prefeitura de São Paulo decidiu rever o aumento no IPTU na cidade anunciado outro dia pelo prefeito Fernando Haddad. Marketagem e demagogia, como a tal ideia de ir trabalhar de ônibus. Baixar o aumento de 30% para 20% para moradores é enrolação. É aquela coisa da criação de dificuldades para, depois, tentar faturar com (enganadora) facilidade. A inflação oficial está nos 5,8% (Relatório Focus, Banco Central, 14/10) e a prefeitura quer aplicar no contribuinte três vezes isso de aumento na conta. Haddad só tira o bode que ele mesmo colocou na sala. Mas a fedentina permanece.

Para quem mora nas áreas nas quais Haddad planeja a extorsão que será entregue pelos Correios a partir de janeiro a medida é revoltante. Esse negócio de política de compensação para os transportes públicos, para atender aos tais clamores de junho, é muito bonito lá para os planos políticos do ex-ministro petista que ocupa cadeira de gerente paulistano bombado por Lula e Dilma Rousseff. Mas não para o bolso do desgraçado do contribuinte.

Vincular o financiamento do sistema de ônibus ao dinheiro suado do morador já é coisa de doido! Os empresários de ônibus, com faturamento garantido, riem nas garagens. O absurdo é ainda maior quando se trata de imputar ao infeliz paulistano extorquido, que usa imóvel como moradia (proprietário ou inquilino), um imposto diretamente relacionado com a valorização de mercado imobiliário.

Perguntinha: o que tem o paulistano comum a ver com a exploração dos terrenos do bairro? O que um cidadão tem a ver com os que ganham dinheiro com a construção civil? Morador não vive da especulação. Morador compra imóvel para morar.

Com um orçamento de mais de R$ 50 bilhões na mão para 2014, dos quais R$ 41,5 bilhões são de impostos, taxas e transferências para atividades correntes (Receitas Correntes), um “crescimento de 13,5% face o orçamento de 2013″, o prefeito petista ainda quer cravar mais um prego na testa do contribuinte.

Aí é fácil. Se você não consegue administrar esse montão de imposto arrecadado de forma a melhorar os transportes, mande a conta para o infeliz que rala todo dia numa cidade violenta, desigual, insana e coalhada de exemplos de falta de competência na gestão – e que já é penalizado por uma carga tributária que suga a renda de seu bolso para o cofre da autoridade.

Há gente com descontos e isenções nas periferias? Sim, claro. Outra petista, Marta Suplicy, quando governou a cidade (2000-2004) tinha orçamento cinco vezes menor e também fazia isso. A prefeitura não está aí a fazer nenhum favor. Há muito tempo que nas periferias de São Paulo o poder público não entrega o serviço público compatível com a tão ciosa tarefa de cobrar – não só o IPTU, mas também ISS e taxa e mais taxa. Foi assim também com a dupla José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD), que também fizeram demagogia com as isenções e em cujas administrações os arredores pouco ou nada mudaram.

Basta visitar a Brasilândia, o Campo Limpo, ou tantas outras regiões absurdamente abandonadas há tantos anos, para ver o tamanho da ausência dessa gente na hora de cumprir a parte deles no trato democrático. Como disse um velho professor de urbanismo, aqui mesmo no blog, o que falta para São Paulo é uma visão de estadista, alguém desprovido de interesses partidários miúdos (ou graúdos?). Um “estadista” para gastar com competência os R$ 50 bilhões colocados à disposição dos esfomeados de plantão.

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O recado das milhares de pessoas que foram às ruas na semana passada foi dado. Em muitas questões, a paciência acabou – e o bicho pegou! A partir do Movimento do Passe Livre, que conseguiu nada mais nada menos do que barrar um aumento da passagem de ônibus e metrô em 15 dias de ocupação das ruas, muitos grupos de descontentes com o serviço público se encorajam para defender seus interesses. E não se pode mais dizer, pelo menos por enquanto, que o povo brasileiro é cordeirinho, submisso. O buraco entre representantes e representados se revelou enorme, virou fosso, e dele emergiu um gigante meio atordoado.

O efeito mais claro do tamanho do problema é o que aconteceu nesta segunda-feira em Brasília. A presidenta da República, Dilma Rousseff, foi forçada pelas manifestações a chamar governadores e prefeitos para procurar uma saída para o brete no qual se meteram, todos, e tentar acalmar a voz rouca das ruas. E, rapidamente, encontrou R$ 50 bilhões para gastar.

Essa conta apresentada pela onda de protestos – que ecoa no grito “o gigante acordou” – , no entanto, não é só de quem está confortavelmente em berço esplendido, em posto de comando federal. Boa parte dessa insatisfação, que até derivou para a violência é, sim, da responsabilidade também de muita gente da atual Oposição.

Num sistema democrático, escolhe-se o ocupante do cargo público que, eleito, governa. É Situação. Quem não foi escolhido na urna vai para a Oposição. Uma das tarefas dessa Oposição é fiscalizar, organizar forças políticas para tentar oferecer seu projeto de sociedade na próxima eleição. Mas o que fez a Oposição brasileira quando o PT venceu eleições nacionais e, no poder, se fortaleceu?

Liderada pelo PSDB, essa Oposição não soube como se comportar diante do sucesso eleitoral do adversário, descolou-se da massa que os elegeu em dois mandatos de Fernando Henrique (1994 e 1998), encolheu-se, e fracassou como alternativa de poder. E o PT, desta vez com o PMDB, ganhou de novo.

Além dessa incapacidade em canalizar os descontentes, os tucanos enfrentam ainda outra contradição: também são Situação – têm poderosas máquinas, canetas e orçamentos. Cavalgam, principalmente, os contribuintes estaduais paulistas e mineiros. Mas nem assim encontram uma saída para o crescente descolamento entre governo e cidadania.

E milhares e milhares estão politicamente sem pai nem mãe, com ódio de partidos.

O próprio Fernando Henrique Cardoso cansou de alertar seus companheiros para isso. Disse inúmeras vezes que o PSDB precisava reencontrar-se com o povo. Mas…

Carona

É lícito que a Oposição ao governo federal venha tentar pegar uma carona no desgaste do Planalto.

Afinal, a turma de Dilma/Lula não nasceu ontem. Está assustada, mas está nisso até o pescoço e corre para evitar futuros danos à candidatura dela em 2014. Com o capital político se desfazendo nos últimos dias, como apontam as pesquisas de opinião, Dilma tenta botar a cabeça para fora do barral no qual a empáfia da aliança PT/PMDB, alimentada pelo inclusão de 40 milhões de pobres no consumo, se atolava até a semana passada sem perceber que sua “obra” era insuficiente.

Como ocorreu no início dos anos 50, depois que Vargas bombou o consumo com a legislação trabalhista, a CLT, e o pessoal da chamada classe média gostou muito do novo ambiente, veio o natural repique: quem não tinha e agora tem, quer mais e mais.

Em 1954, como hoje, com o país sem capacidade de manter o crescimento sustentado da economia, explodiu a frustração. E a “conquista” de Vargas começou a desandar. Foi só colocar na sopa quente da insatisfação popular ingredientes tipo a indignação contra a desmedida e endêmica vocação de alguns setores de se apropriarem do que é público sem nenhuma vergonha, a velha corrupção, e acrescentar uma pitada de reação de jagunços raivosos e desastrados – e deu no que deu.

Como já disse, é lícito, na atual conjuntura, a Oposição (o PSDB) tentar esfolar politicamente a Situação (o PT). O próprio PT cansou de fazer isso com FHC.

Mas é preciso lembrar também que, na excitação exagerada das massas nas ruas, a Oposição tem sim sua parcela de culpa no cartório.

Além de não conseguir se articular como alternativa de projeto de país, o PSDB, do pré-candidato Aécio Neves, de José Serra, de Geraldo Alckmin, é governo em São Paulo, palco de muitos quebra-quebras, há duas décadas, prazo mais do que suficiente para executar um largo plano, por exemplo, de obras de mobilidade urbana, ou seja, túneis e trilhos de metrô e trens da CPTM.

Tempo suficiente também para melhorar a saúde, a educação. Não esse serviço medido com a régua dos governantes, cuja propaganda sempre diz que está tudo ótimo. Mas aquele dimensionado pelo metro da necessidade do povo, aquele que leva gente às ruas.

É bom, portanto, que lulistas, dilmista, serristas e aecistas fiquem espertos. Se nada de objetivo for feito nos próximos meses, se a enrolação nossa de cada dia do Brasil prosperar mais uma vez, com propostas de comissões e pactos vazios, pode ser que o gigante – que hoje grita “sem partidos, sem partidos” – concebido no casamento da inoperância da Situação com a incompetência da Oposição, nem espere pelas urnas para se apresentar bem mais perturbador.

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