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Blog da Garoa

Depois de perder 45 minutos dentro de um táxi e de ter de pagar R$ 36,80 por uma corrida de R$ 17, R$ 18, na região da Vergueiro, Zona Sul de São Paulo, no começo da tarde – vivendo uma irritação que certamente passou pela cabeça de, digamos, pelo menos 5/6 milhões de paulistanos que precisam de transporte para se deslocar na cidade -, fica a incômoda sensação de estar, mais uma vez, sendo enganado. E vem a vontade de abandonar a cidade, ir morar em qualquer outro lugar. Horas de uma greve de Metrô e trens e a manhã de sol se transforma numa enrascada!

Culpa de quem? Culpa do fracasso nas negociações do poder público estadual com os metroviários. O administrador público e o sindicato não se entendem no escritório por conta de acertos salariais e benefícios e o resto da massa (milhões), que já passa sufoco todo dia, paga a conta nos pontos de ônibus, nas estações de Metrô e CPTM, nos carros engarrafados, ou caminhando horas a pé na rua.

Quando um contribuinte infringe qualquer regra de convivência, com as quais muitas vezes nem concorda, é obrigado a pagar multas – além de arcar com os altíssimos impostos do dia a dia. É assim na democracia, argumentam. Tudo bem. Mas e na hora da contrapartida? Vale só o venha a nós? Ao vosso reino, nada?

Diga aí quem, em São Paulo, não caiu na farra da arrecadação no trânsito, dos seus radares marotos, de suas normas ultrapassadas, seu rodízio de placas que beira a extorsão? O rodízio de placas de carros desde sempre é a simples transferência do custo da incompetência dos governos da cidade (Gilberto Kassab e seus antecessores, entre eles os que estão hoje novamente em campanha – PT de Fernando Haddad e PSDB de José Serra) em planejar normas efetivas de controle de poluentes. Incapazes no serviço, mas empossados, claro, suas trupes de burocratas, com o aval dos chefes, usam a via mais fácil: mandam a conta para o modo de vida e o bolso do contribuinte.

É um absurdo que se conviva com isso há tanto tempo na cidade e não se veja que não se trata de outra coisa que não seja fazer a população pagar pela incompetência de décadas na administração pública em criar alternativas efetivas de se livrar da fumaça dos carros com obras de estrutura viária, transportes públicos eficientes e políticas de desconcentração demográfica. A fumaça, aliás, basta haver uma seca, continua sendo vista no horizonte da cidade.

Para terminar: de quem eu cobro pelo custo adicional de hoje (e nem vou falar nos demais dias preso no trânsito)? Com quem se fala lá na Secretaria da Fazenda para que devolvam o gasto que milhões de pessoas tiveram  com uma crise no transporte que o administrador não administrou?

(Texto publicado no Estadão Noite no iPad, edição de 23/05)

 

 

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Rodando pela Zona Leste num final de tarde, outro dia, peguei engarrafamento na Avenida Sapopemba.  Comércio  em plena atividade, longas e irritantes filas no trânsito. Lembrei de 15 anos atrás, quando a frota era a metade, com 2,8 milhões de veículos, e os recordes de pico da tarde, em um março de chuvas, eram de 95 /98 quilômetros.

Para lembrar clique  Página do Estado em 1995

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Outro dia, na semana passada, percorri a Linha 11 –  Coral, da CPTM, o Expressão Leste, em horários de pico do carregamento de passageiros. Pela manhã, logo depois das 6h, do bairro para o Centro, e à noite, logo depois das 18h, da Luz, no Centro, para Guaianases.

O que encontrei foi muito desconforto de milhares de pessoas que precisam de transporte e sofrem com a superlotação dos vagões e as filas de embarque. As pessoas chegam às plataformas e querem embarcar. Hoje ninguém mais aguenta esperar 10, 15 minutos por um trem. E ainda viajar em pé, prensado, grudado aos demais, respirando o mesmo ar. Uma parte desse sufoco foi editado em um vídeo.

  Percorri também a Linha 9, que beira as Marginais, ligando a Luz com a populosa Zona Sul, e é considerada gargalo do sistema ferroviário. O resultado é o mesmo: no pico, gente demais, serviço público de menos, desconforto, irritação, reclamações. O material foi publicado no Estado com as reclamações dos usuários e as explicações do governo.

Fora dos horários de pico, no entanto, o sistema de trens, Metrô e CPTM, que em março atingiu a marca dos 7,1 milhões de passageiros transportados por dia, na média dos dias úteis, é uma excelente alternativa de ir e vir confortável. O problema, obviamente, não é o trem. O problema é a gestão, a falta de financiamento, as políticas, enfim, a administração pública que não encontra o ponto de equilíbrio entre a demanda e a oferta no serviço.

Rodei também nas linhas em horários de menor estresse. É quando o trem é uma boa solução para milhares e milhares de passageiros que percorrem distâncias mais longas, entre municípios da região metropolitana, penariam nos ônibus caso viajassem no trânsito.

No final de semana, na região do Vale do Paraíba, serra de Santo Antônio do Pinhal, vi também a linha férrea que atravessa as montanhas. Há bucólicas estações, tranquilas no silêncio das matas, charmosas, um contraste fortíssimo com o que ocorre na grande metrópole. Há muito é assim. Como mostra a viajem às origens das estradas de ferro no estado, feita em site por um time de pesquisadores do Arquivo Público do Estado.

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26.março.2012 11:54:56

Guerra ou Paz?

É comovente ver a alegria no rosto das pessoas quando estão diante dos painéis gigantes de Portinari, expostos no memorial, em São Paulo, gratuitamente. Na tarde de domingo, dia de clássico no Pacaembu, havia na Barra Funda caravanas, cadeirantes, crianças. E fiquei com a sensação de que “Guerra” atrai mais atenção do que “Paz”. Será?
Domingo, 24 de março, Portinari no Memorial/Foto: Pablo Pereira

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No cinema, quando quer informar ao espectador que o que ele está vendo se passa num ambiente de cidade grande, o diretor costuma usar o truque sonoro das sirenes de ambulância de fundo. E o sujeito logo entende que a coisa ali é barra pesada, que trata-se de um modo de vida urbano com toda a complicação que dessa realidade advém.

São Paulo é assim. Complexa, gigante, com muitas sirenes e interesses de todos os tipos. Ricos, pobres, remediados, desamparados, todos convivendo num espaço que vem sendo adensado há 458 anos, completados nesta quarta-feira, sendo que seu crescimento vertiginoso – o que em parte explica muitas das atuais mazelas – ocorre a partir da década de 1940, quando a cidade tinha 1,3 milhão, e salta, em seis décadas, para 10,4 milhões (2000) e 11,2 milhões (2010), segundo os números do IBGE. É muita coisa.

Não é que o movimento criado por toda essa massa seja o culpado pelas dificuldades da vida na terceira maior aglomeração urbana do mundo (a cidade é polo atrativo e também influencia seus vizinhos, criando uma mancha que forma uma megalópole). Não. Essa montanha de gente, que é vítima cotidiana da violência, do trânsito, do abandono, das enchentes, fez riqueza e pagou seus impostos, encheu o caixa do poder público com seu suor. Produziu muito e em diversas áreas.

Tornou-se centro criador de um modo de vida de ponta no país. Atraiu imigrantes no passado como atrai investimentos no presente. A cidade tem um orçamento municipal de R$ 38,7 bilhões. Tem ciência top, gastronomia nota 10, arte fina, indústria avançada, emprego qualificado – e pelo menos três clubes de futebol com equipes de alto desempenho (São Paulo, Corinthians e Palmeiras). Ah, e tem a Lusa (de Antonio Manuel Leria, Flávio Gomes e Luiz Carlos Duarte)!

O que faltou foi produzir administrador público competente, honesto e com visão de estadista, gente com olho estratégico e sem a carga pessoal dos interesses de grupelhos ou partidos, à esquerda ou à direita.  Faltou foi gente de espinha ereta para administrar os conflitos, que se acumulam nesse mundão paulistano, pensando na cidade.

Deslumbrados pela importância da caneta que têm às mãos, os gerentes de São Paulo sentam-se naquela cadeira muito famosa, no Vale do Anhangabaú, com os olhos no estrelato de uma outra cidade, Brasília, e não em Sapopemba, Cracolândia  - ou nas águas do Ashton Kutcher.

Porém, mesmo com todas essas amarguras, o cachorrão vai adiante. E ainda oferece ambientes absolutamente bucólicos para se viver em diversos bairros. Dos elegantes e sofisticados aos mais simples e acolhedores. Há até locais nos quais se nota o barulho dos aviões, mas é raro o nervoso alerta das sirenes. E é possível, sim, curtir, não muito longe do Masp, a voz de sabiás e maritacas.

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19.janeiro.2012 11:32:19

É possível largar o crack

A jornalista Camila Tuchlinski entrevistou um ex-usuário de crack. É um excelente trabalho. Um depoimento tocante pelo drama de um personagem da Cracolândia paulistana, que perdeu anos da vida metido com as pedras. Mas é também um sopro de esperança nesse grave quadro de degradação humana que se vê todos os dias na cidade.

O vício do crack é uma doença. É difícil, mas tem saída. Já se conseguiu reverter o quadro do cancerígeno tabaco no mundo. Como não se consegue virar o jogo com esta droga derivada da cocaína? É preciso ação forte de governo para ajudar a quem não consegue se livrar sozinho. Ouça a entrevista.

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Para além do drama da cracolândia de São Paulo, a praga do crack começa a aparecer concretamente nas estatísticas mostrando a dura realidade do avanço das drogas no interior do Brasil. Um mapa da presença da droga, preparado pela Confederação Nacional dos Municípios, concluído no final do ano, mostra o tamanho da chaga município por município, segundo informações dos gestores de saúde das comunidades. Veja aqui.

No Estado, dos 645 municípios, 552 foram pesquisados. E 505 dizem que têm crack. O curioso é que o município de São Paulo, que tem pelo menos a mais dramática situação com a famigerada Cracolândia, não participa do mapa.

Reprodução do site Observatório do Crack

Os prefeitos recebem as senhas eletrônicas para atualização das informações, que são processadas online, e rapidamente dão conta se o sistema encontrou ocorrência da droga na comunidade. Ainda há municípios (na cor cinza no mapa), como São Paulo, que não informam a situação. É um indicador de que a situação da droga pode ser bem pior do que aparece no mapa, colorido de acordo com os formulários fornecidos pelas Prefeituras que aderiram ao estudo.

Os técnicos da CNM, que trabalham no Observatório do Crack (veja aqui o documento), acreditam que a ferramenta oferece o caminho para que todos os 5.563 prefeitos emprestem ao quadro a exata abrangência da droga.

Um outro mapa, com dados da Fiocruz, preparado pela equipe do estadao.com.br, mostra o quadro do crack nas capitais.

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“Maria, tem comida?”, disse um homem magro, barbado, agitado, que atravessou correndo a rua Dino Bueno, Centro de São Paulo, na direção da calçada onde Maria Moura Soares estava diante da porta de casa. “Ainda tem”, respondeu ela. “Mas é 5”. O homem, que saiu do meio do grupo que se aglomerava na rua Helvétia, coração da Cracolândia, tirou do bolso duas notas de R$ 2, entregou, e disse que depois voltaria para pegar o almoço e aí pagaria o restante.

Maria Moura, como gosta de ser identificada, tem 46 anos, mora na região há 11 e convive com a droga na porta de casa há pelo menos dois anos. Nos últimos dias, ela acompanha bem de perto a operação de combate ao consumo de crack na área.

Conhecida da vizinhança pela fala fácil e o tempero da marmita, a cozinheira fornece comida caseira, serviço que lhe garante o sustento de 7 crianças, 3 filhos e quatro netos, na pequena casa, quase na esquina mais agitada do bairro. Ela atende a todos com discurso envolvente de comerciante. “Aqui em casa eu tenho mesa e quatro cadeiras para servir o almoço”, afirmou. “Vai comendo e vai saindo, dando lugar a outro”, resumiu Maria Moura, explicando o negócio.

No almoço da última sexta-feira, após a correria da manhã dos viciados na pedra, espantados da Helvétia pela polícia para desobstrução da via, o “restaurante caseiro” de Maria Moura servia peixe frito, peito de frango e costela (de vaca) ao molho, com arroz, feijão e salada. “Prato feito é R$ 5, comercial (bandeja) é R$ 7”, dizia ela. E acrescentava “a Tubaína é R$ 2 e o copo de suco, R$ 1”.

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Maria Moura Soares na cozinha de casa/Foto Evelson de Feitas/AE

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Naquele dia, Maria Moura colocou a comida no fogo mais cedo. Teve de sair para levar o filho ao médico às 14h. “Meu menino faz tratamento na Santa Casa. Ele está com um problema no ouvido. Com a graça de Deus, vai ficar bom”, contou a baiana, da região de Feira de Santana. Ela sobrevive da renda da cozinha e de um arrendamento de um bar, que fica na esquida, ao lado da casa.

“O problema desse pessoal aí tem uns dois anos”, disse Maria Moura. “Agora, com essa operação, eles vão se tratar”, afirmou ela. Nos últimos meses, os “nóias”, como os chama Maria Moura, dormiam na calçada diante da porta dela. E havia muito lixo espalhado na rua. “Agora está mais limpo. Vai ser bom pra eles. O pessoal da saúde está encaminhando eles. E aqui agora está mais tranquilo, tem muita polícia, e o pessoal da Prefeitura”, declarou.

Maria Moura contou ainda que sofre na própria carne com a situação da droga. Uma filha e um filho dela estão presos, depois de se envolveram com a pedra. Mãe natural de 7 filhos, ela ainda teve coragem para criar filho de outros. “São 8. Um é de criação”, explicou, lembrando da família que deixou na Bahia, onde vivem a mãe dela e irmãos. “Isso aqui não era assim”, lamentou.

A vida dura de Maria Moura piorou ainda mais nos últimos meses. Ela pagava R$ 2 mil de aluguel pela casinha de dois quartos, sala, banheiro, e pela área do bar existente ao lado. “Mas faz 3 meses que parei de pagar o aluguel”, disse ela. Da porta de casa, que mantém trancada por dentro por temor de invasâo contra as crianças, Maria Moura assistia a tudo sob tensão.

Na tarde da quinta-feira, agentes de saúde contavam 18 pessoas na lista dos viciados que procuraram ajuda para banho, corte de cabelo ou atendimento médico. Na esquina da casa de Maria Moura, carros de polícia estacionados. Outros, circulando, além de motos e agentes da Guarda Metropolitana andando pela vizinhança.

Segundo um dos coordenadores do serviço social da Prefeitura, seis pessoas haviam concordado em receber internação naquela tarde – três deles menores de idade. Jonatan, de 11 anos, Abraão e Felipe, de 16, foram encaminhados para o Caps 1. Os três adultos que aceitaram ajuda foram levados para a AMA da Sé. Um era do Guarujá.

“Aos poucos eles nos procuram”, diz um dos funcionários encarregados do contato na rua. Olhando um grupo de cerca de 60 pessoas, que se aglomeravam na quadra da Helvétia, entre Dino Bueno e Barão de Piracicaba, ele não parecia muito animado.

“É uma situação muito difícil”, disse, observando a movimentação do grupo agitado. Atrás dele, caminhões continuavam a recolher o lixo retirado dos imóveis abandonados que eram usados como moradia pela turma do cachimbo. “Já saíram daqui 69 toneladas de lixo, contando as 3,5 toneladas que estavam nas ruas”, afirmou outro funcionário. “Mas ainda tem casarão aí que nem foi mexido”, completou. Maria Moura, na calçada, atenta, vigiava tudo.

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Quando ocorre uma grande enchente, um desabamento de morro, um incêndio de favela, terremoto, tsunami, calamidades de larga repercussão social, a sociedade costuma reagir rapidamente para tentar controlar os danos e abrir portas para a recuperação das perdas, sejam elas humanas ou materiais.

Aparecem mutirões, surgem rapidamente anúncios de dinheiro oficial, nascem iniciativas individuais de solidariedade – que podem não conter efetivas soluções, mas sempre serão elogiáveis por aliviarem o desconforto de alguns e servirem para disseminar a vontade coletiva de encontrar logo uma saída para a crise.

São Paulo, poupada até agora do drama das enchentes de verão, vive nos últimos dias o choque do crack. A iniciativa de mexer no problema concentrado bem no Centro da metrópole levantou o manto que estava sobre aquela chaga paulistana, largamente denunciada nos jornais, debatida dentro e fora do poder público, mas sem solução efetiva. Os usuários e seus abastecedores da droga derivada da cocaína agora estão perambulando pelas ruas aturdidos pela presença da polícia, que ocupa espaços nos quais os viciados convivem há muito com a leniência das autoridades (municipal, estadual e federal).

É certo que o problema é de grande complexidade. É certo também que antes tarde do que nunca. Mexer na ferida ajuda na cura. E cada uma daquelas pessoas que lá estão à mercê da degradação carrega um drama pessoal intenso. Cada um necessita de um tratamento que contemple sua condição humana, que ofereça oportunidade de recuperação, de alternativa de vida. É possível largar a pedra. Há exemplos de sucesso.

Na cracolândia de São Paulo, infelizmente, muitos dos viciados já estão com seus padrões sociais abalados, com suas convicções absolutamente atrapalhadas e, dizem os médicos especialistas, em muitos casos, até com prejuízos mentais irreversíveis. É um enorme pepino social que precisa ser descascado por ações de políticas públicas claras e abrangentes.

Qual é o ponto? O ponto é que essa iniciativa contra a expansão do crack deveria ter sido tomada lá atrás, bem antes que o problema atingisse tal escala, com milhares de envolvidos. Mas isso não ocorreu. Governantes e governantes, de diversos partidos e cores ideológicas, passaram ao largo da tragédia que grassava na cidade. A cracolândia só fez crescer. E se espalhou pelo país. Agora, é caso de tratamento de urgência.

Porém, mais uma vez, não aparece na iniciativa de São Paulo um sinal claro de ação salvadora para essa calamidade. O tsunami de cachimbantes, manipulados por aproveitadores, provoca mortes e danos bem nas barbas das autoridades. E precisou chegar o ano eleitoral dos municípios para que, com a campanha à vista, os poderes públicos começassem a se mover.

Os oportunistas vão, seguramente, propagandear as atuais ações na campanha até outubro. Por enquanto, a recente investida não mostra claridade além da ação policial.

É complexo? Óbvio que sim! É fácil? Claro que não.

Ainda se procura até um jeito adequado para tentar devolver normalidade à vida dessa comunidade bagunçada. Vai longe o debate sobre a melhor forma de combate, se com internação à força do usuário ou se com tratamento na rua mesmo, experiência que já tem algum tempo em andamento em algumas cidades.

O problema já tem anos, duas décadas, mas nem os poderes públicos (Executivo, Judiciário e Legislativo) sabem como agir coordenadamente. Engatinham, coagidos pela ignorância e por uma gestão de orçamentos pífios em um serviço público que não se entende.

Meses atrás, em setembro, encontrei no interior do Nordeste – e o Estado publicou – casos de pequenas cidades do sertão nas quais se espalha essa lamentável realidade da pedra. O diagnóstico, igualzinho ao de São Paulo. Pobreza e droga barata, juntas, desgraçando famílias e famílias, amputando sonhos, abreviando vidas. O quadro nacional do crack é igualmente dramático.

No caso paulistano, o tamanho do tumor deixa claro que não basta extirpá-lo com a repressão policial e o controle higienizante das áreas na base do jorro de água de mangueira e detergente. É preciso muito mais.

Cadê as clínicas, casas, abrigos (seja lá o nome que se queira dar), para internações? Cadê os profissionais de saúde treinados em número suficiente para cuidar de centenas de usuários? Onde estão os alojamentos limpos, a alimentação, a ocupação do tempo, as palestras? É preciso medicação apropriada e muita conversa para convencimento, paciência e perseverança. Bastam minutos de contato com qualquer um deles para se notar o tamanho da tarefa.

É preciso muito mais do que jogar a polícia sobre a turba enlouquecida pelo cachimbo. É preciso encarar o avanço do crack como uma tragédia social, uma catástrofe, e a partir disso pegar pesado nas ações complementares. Se não, passados os meses da marquetagem eleitoral, novas ondas da pedra de cocaína voltarão a soterrar as ruas de São Paulo.

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16.dezembro.2011 15:05:37

Passando a sacolinha…

A cidade tem acompanhado a polêmica sobre a distribuição de sacolinhas de supermercado. O comércio  será proibido de fornecer de graça a sacola plástica que o consumidor usa para carregar mantimentos – e que eventualmente serve para descartar lixo doméstico.

Agora o consumidor terá de pagar pelas embalagens das compras – são 1,7 bilhão de sacolinhas em 600 lojas de grandes redes, segundo dados do comércio. Ou seja, o consumidor vai continuar usando a tal embalagem para tirar o lixo, só que terá de desembolsar mais uns trocados. Isso, multiplicado por aquilo, dá uma boa quantia, não?

O argumento central da medida da campanha é o da proteção do meio ambiente.  A campanha é patrocinada pelo comércio. E muita gente que carrega a bandeira do ambientalismo embarca na ladainha. Jogam na sacolinha gratuita até a culpa pelas cheias na cidade. Falsa questão.

Já há material biodegradável para fazer sacolinha de supermercado que derreta no tempo. E as enchentes são coisa de incompetência de anos sem planejamento urbano – isso, sim, responsabilidade do poder público.

Na tal polêmica da sacolinha, é só trocar a de hoje, a famigerada poluidora e entupidora de bueiros, por uma que vire pó rapidamente. E deixar o comerciante livre para oferecer de graça a embalagem à freguesia.

 

 

 

 

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