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Blog da Garoa

O burgo dos estudantes, como ficou conhecida a São Paulo oitocentista, cultivou hábitos que até hoje podem ser encontrados no jeito paulistano de viver. Desse período ficaram na memória alguns dos principais personagens da República. Os livros de história estão cheios dos chamados “vultos históricos”, paulistas ou “estrangeiros”. Os museus e bibliotecas os guardam; as praças os ostentam.

Mas há lembranças que são mais do que ícones emoldurados, esculpidos ou descritos nos livros. Atualmente é possível recordar esse passado de maneira saborosa: com o delicioso picadinho, prato que fazia sucesso nas repúblicas de estudantes da vila imperial.

Hoje o picadinho é feito até com tomates descascados, molhos especiais e toques de chefs da alta gastronomia. É uma delícia. Mas o picadinho dos estudantes era diferente. Era prato de cozinheiras de fogão, da mistura fervente na escassez dos ingredientes.

São Paulo foi, durante três séculos, uma espécie de entreposto. Recebia populações oriundas do sul na direção de Minas e Rio ou que chegavam por mar no rumo do interior do país. Nos oitocentos, a cidade viveu mudanças fortes no modo de vida. Viu-se cercada por chácaras produtivas e fazendas.

Por esse caminho passou boa parte do crescimento paulistano. E, com ele, vieram os ventos da modernidade acadêmica, soprados principalmente pela criação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1827. Era a escola que “rivalizava” com o curso de Recife. Boa parte da mocidade com acesso à formação no país na época frequentou a São Francisco, e se alimentou do picadinho.

Cronista desse tempo, Almeida Nogueira, citado por Ernani Silva Bruno, estudou o picadinho, e sentenciou: “(sic)…os estudantes mineiros comiam-no com farinha, e os rio-grandenses também; os fluminenses, com pão; e os paulistas e paulistanos, com arroz. Alguns bebiam-no com colher.”

(texto publicado em O Estado de S.Paulo)

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Nestes dias de discussão sobre reforma na lei nacional da convivência privada, dos costumes, o Código Civil, fui aos arquivos relembrar essa adequação das normas à vida em curso. E encontrei Ruy Barbosa, no início da República, envolvido com o conjunto de princípios que tramitava no Legislativo.

Ruy era senador e foi crítico ferrenho do projeto do primeiro Código Civil brasileiro, que após anos no Congresso começou a valer em 1916. O documento produzido por ele é parte da história brasileira, sua famosa Réplica.

Ruy é personagem da formação paulistana. Sua história de vida foi, em parte, moldada na Faculdade do Largo de São Francisco. Partindo da obra para o autor, derivei para as impressões que ficaram da relação dele com a cidade, lugar que teria papel relevante no centro de seu pensamento: a troca de mãos no poder e o impacto dessa alternância no País.

Ruy era baiano, estudou no Recife, viveu no Rio, sede da máquina burocrática do poder de seu tempo (1849-1923). Mas conservou ligações com São Paulo, onde estudou (1867-70) e militou, mesmo de longe.

Era um jovem melancólico, como a cidade. Mas, também como a cidade, viveu aberto à mudança, como se observa nas décadas seguintes em temas caros a ele e a São Paulo, como a abolição e a República.

Por aqui, o Ruy-abolicionista colecionou adversários ao vetar, quando já ministro da Fazenda (1890), a criação de banco com fundos para indenização de ex-proprietários de escravos que reclamavam de prejuízos com a lei de 13 de maio de 1888. Essa ligação com a cidade aparece em diversos momentos das biografias do advogado, senador, diplomata e tribuno. E o acompanha até o fim da vida.

Entre páginas e páginas de homenagens, quando de sua morte, em 1.º de março de 1923, um artigo de O Tempo lembra que a doença já lhe provocava delírios. “(sic)Houve um terceiro discurso, em que Ruy imaginava-se numa das suas campanhas políticas. Elle fallava sempre com voz forte e com a eloquencia dos seus maiores dias da tribuna. Quando ia terminar, sentou-se na cama e bradou:

– Viva S. Paulo! Viva o dr. Washington Luiz!”

(Texto publicado em neste domingo, 28/03, em O Estado de S.Paulo)

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20.dezembro.2009 21:52:13

Viva a república!

São Paulo é um termômetro brasileiro. A grande metrópole dá as tintas na economia, dita o tamanho dos estoques e do consumo, mexe nas linhas do gráfico do PIB, não pode ficar de fora de nenhum cálculo sério sobre o rumo político nacional — e chama a atenção do país até nos dias de enchente. Os números são gigantes. Conta-se gente aos milhões, orçamentos aos bilhões, ruas aos milhares, restaurantes idem, espetáculos em cartaz às centenas, favelas também – e, às dezenas, os mortos pela violência diária.

Em São Paulo, como em muitos outros grandes centros urbanos, convivem os extremos da alegria e esperança com tristeza e desamparo. O problema é que na metrópole esses extremos ocorrem em larga escala. E, neste aspecto, a cidade – aqui peço licença a Claudia Belfort, do Sinapses – revela um comportamento bipolar.

Já me referi no Garoa ao fato de que há muita gente que enxerga a dureza dessas chagas que a sociedade ainda não curou, a despeito da discurseira e de alardeados programas sociais bem-intencionados, mas mal executados pelos poderes públicos.

Nestes dias de balanços e retrospectivas, certamente essa parte “vetusta”, como dizia o Barão do Rio Branco ao se referir a São Paulo colonial, há que ficar no horizonte, para nos lembrar da vida lá fora. Mas é preciso celebrar o alto-astral paulistano — igualmente festejado pelo Barão. Em discurso a estudantes, quando já era um influente líder do Itamarati, disse ele: “Revejo a cidade em que tive a fortuna de passar alguns dos melhores anos de minha vida”.

O Barão cursou, como Rui Barbosa, embora em ano diferente, a hoje centenária escola de Direito do Largo São Francisco. E viveu em repúblicas de estudantes. Dessas que hoje, 150 anos depois, ainda alegram a cidade, sustentadas na oferta de milhares de vagas universitárias, muitas delas em escolas de primeira, outras nem tanto.

No prédio onde moro há uma república. Animadíssima. Alguns síndicos e moradores conservam uma visão, digamos, jesuítica, quando reclamam das seculares habitações juvenis.

Alvaro Lins, na biografia do homem que há um século traçou o mapa nacional como é hoje, lembra que, em 1862, o então jovem Juca Paranhos, filho do senador José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, chegou a São Paulo como um dos 135 calouros do ano. Contando a vida do Barão, Lins revela um pedaço da vila colonial e lembra que já naqueles dias veteranos aplicavam trotes nos novatos. Mas as brincadeiras eram bem diferentes das de hoje. Ao chegarem, lembra o biógrafo do Barão, Rio Branco e seus colegas tiveram de recitar versinhos.

“Juro e prometo

Por esta zorra

Que hei de ser burro

Até que morra…”

A primeira república estudantil na qual morou o Barão foi na Rua Riachuelo. Depois, mudou-se para uma outra, numa esquina, que ficava na região da Sé: no Beco dos Cornos.

Como também dizia Emílio Zaluar, citado por Lins, São Paulo depende do viço cultivado na academia. “Tirem a academia de São Paulo e esse grande centro morrerá inanimado”, pregava Zaluar. Se, naquela época, Zaluar dizia que a vila era “triste, monótona e desanimada” e que precisava da estudantada para agitar o pedaço nos teatros e festivais, o gigantismo e a busca pela necessária excelência dos dias atuais tornaram a presença festiva da moçada ainda mais indispensável.

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