Há anos, viajando no interior de Portugal, encontrei no ambiente da fria Serra da Estrela um cenário de pequenas propriedades, com gente do campo vivendo em sítios cercados por muros de pedras. A bucólica paisagem pedrenta da bela região da Beira, que tem um parque nacional, levou-me a pensar nas dificuldades encontradas pelos desbravadores portugueses que aqui, no quinhentista planalto paulista, sem a abundância das pedras, tiveram de recorrer ao barro e às varas para erguer muros e paredes – na hoje escassa, porém famosa, engenharia da taipa.
Aquela São Paulo aparece em diversas obras literárias, ensaios, pesquisas, pinturas ensinando como um punhado de aventureiros d’além-mar criou do nada as bases da metrópole.
O Brasil não era Brasil e Portugal já tinha fronteira consolidada. Camões escrevia os cantos de seus Os Lusíadas mais ou menos nos mesmos dias, aí pelos 1550/70, nos quais Anchieta, por aqui, redigia suas cartas – que podem ser vistas no Mosteiro de São Bento. Pouco restou desse lastro português. Mas a São Paulo moderna soube conservar parte da gente ibérica, presente hoje menos na arquitetura e mais nos hábitos e costumes.
Semana passada, “viajei” novamente a Coimbra e região, desta vez pelas páginas de 90 anos do Clube Português, de São Paulo, livro lançado na sexta-feira. E encontrei lá diversas pistas da herança portuguesa na cidade. O clube, que tem rico acervo, foi fundado em 14 de julho de 1920, em Perdizes. Um almoço na Casa de Portugal, que fica na Av. Liberdade, 602, também comemorou o lançamento do livro. A Casa de Portugal reúne acervo sobre a presença portuguesa.
O livro sobre o Clube conta histórias de ancestrais dos Ermírio de Moraes, e de outros luso-paulistanos, como o arquiteto Ricardo Severo (1869-1940). Nascido em Lisboa, criado no Porto, mas que morreu em São Paulo.
“Queremos restaurar o clube”, diz o advogado José de Oliveira Magalhães vice-presidente da entidade, ele próprio “um brasileiro nascido em Portugal”. Magalhães é de Cabeceiras de Basto, Braga.

Reprodução de capa de obra do acervo do Clube Português
.

Retrato de Camões, óleo de A. Neves e Souza, do acervo do Clube
.(Texto publicado em O Estado de S.Paulo)
.(Texto corrigido e ampliado no blog em 28/07).
Um rico acervo mora no Clube Português. São obras raras, relacionadas no livro organizado por João Alves das Neves. Há adornos, coleções de revistas e jornais, telas e livros centenários, como Vocabulário Portuguez e Latino, de Raphael Bluteau, publicado em Coimbra em 1712, e as Rimas várias de Luis de Camões, comentadas por Manuel de Farias y Souza, edição de 1685, de Lisboa. Ou, ainda, o Poema Épico A Liberdade de Portugal defendida pelo Senhor Rey D. João I, da Real Officina da Universidade, em 1782. Há lá a história de Inês de Castro, a rainha morta do d. Pedro I português – os túmulos estão lado a lado no belo Mosteiro de Alcobaça.
(Texto publicado em O Estado de S.Paulo)
O domingo ensolarado em São Paulo lotou, mais uma vez, o Vale do Anhangabaú. Paulistanos foram ver, no telão, o Brasil avançar na Copa da África (Brasil 3 x 1 Costa do Marfim). E, após o apito final, as cornetas ecoaram pelas ruas e edifícios ainda por um bom tempo. Foi um belo final de tarde na cidade. Na próxima sexta, 25, será a vez de enfrentar Portugal. Aposto um pão na chapa que muita gente por aí não sabe bem para quem torcer.
Post atualizado às 10h54:
Ainda mais agora, depois do placar dos portugueses contra a Coreia do Norte: 7 x 0.
A Igreja de São Francisco, um dos prédios mais antigos de São Paulo, em taipa de pilão, oferece um belo espetáculo de arte em seu teto. Essa igreja é um monumento, dos tempos da São Paulo colonial, e traz para os dias de hoje uma forte ligação da cidade com Portugal. Foi de lá, segundo historiadores, que foi importada a técnica de usar barro na construção.

Teto da Igreja de São Francisco, no Centro / Foto: Pablo Pereira
2012
2011
2010
2009