As dores do parto começaram a atormentar o poeta e ele sentou-se, solitário, à janela do pequeno avião. Voava sobre a selva amazônica. Eu, quieto, dois bancos atrás, no corredor – só voo se for no corredor –, vi as contrações agitarem as entranhas do artista. Vi o silêncio expulsar daquele interior fervente as palavras que deram forma a um ser poético que se chama Centelha Fugaz.
A bordo de um jatinho, eu vi nascer um poema! O parto durou horas… Era verão, como agora. 1997. O poeta: Thiago de Mello.
Aturdido por uma cena brasileira, como só uma alma como a dele poderia estar, Thiago passou longo tempo do voo rabiscando o desenho de mais um filho literário. O poema começou a deixar sua alva placenta –Thiago só vestia branco— já a bordo de uma lancha, cruzando um paraná de rio a caminho de Barreirinha, onde morava, observado de perto pelas lentes do fotógrafo Alberto Araújo.
Acompanhando aquela gestação, conheci o tucano Flor da Mata. Na casa do poeta, tomamos café com amigos, Thiago contou sobre a dedicação a temas sul-americanos e à floresta amazônica. Falou do filho que morava em Brasília, das ausência com São Paulo e de um sábio nativo que ensinava tudo sobre madeiras. Nos mostrou sua casa, desenhada por Lúcio Costa, lembrou da velha militância política dos anos 60 e de parceiros antigos, como Armando Nogueira e Paulo Francis.
Depois, no quintal, numa manhã ensolarada, conversou com seu mascote colorido, pousado em galho baixo. E quem, como ele, fala com aves no quintal, pode até não saber, mas vive com a alma prenhe.
Thiago cortou o cordão umbilical de sua poesia na varanda de outra casa, na Freguesia do Rio Andirá, à beira das águas dos índios do guaraná.
Que nobre berço para a poesia, aquela Freguesia do Andirá!
“Adoro esta praia!”, disse o poeta, olhando o rio, antes de rabiscar, num papel-jornal, um regalo para mim. Na praia do Andirá, ouvi o choro da poesia – e vi o olhar aliviado do pai de um poema!
Para ler a reportagem, publicada em O Estado de S.Paulo, clique aqui.
Outro dia, de madrugada, assistindo aos desfiles de carnaval de São Paulo, lembrei de Luís Gama, poeta, escritor, jornalista e rábula, que viveu na cidade na segunda metade do Século 19. É uma das principais figuras do abolicionismo paulista, militou contra a escravidão e foi parceiro de escritos de gente importante naqueles dias, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa.
Já falei aqui sobre esse personagem histórico da cidade, que teve trágica infância (foi vendido pelo pai) e rica superação pessoal, além de contribuição importante para a humanidade. Não me lembro de ter visto Luís Gama na avenida. Mas mesmo que já tenha sido homenageado, não seria demais fazer-lhe, como dizem os artistas, “uma releitura”.
Fica a sugestão para o próximo carnaval. E, abaixo, fragmentos do poema Meus amores, do seu Trovas Burlescas. Como lembra texto de Heitor Martins, um dos estudiosos de Luís Gama, o poema foi publicado no jornal Diabo Coxo, a 3 de setembro de 1865, e inserido nas Primeiras Trovas Burlescas a partir da terceira edição (1904)”:
Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.
.
Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o universo gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.
.
Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.
A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se destila o grato olor.
.
O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.
.
A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
- E coisa de sentir, não de contar.
São Paulo adotou o dia 20 de novembro como feriado em homenagem à gente que lutou pelas liberdades em séculos de injustiça, quando humanos eram escravizados por serem negros ou índios. É a data dedicada a Zumbi dos Palmares, líder quilombola exterminado nessa data em 1695 pelo paulista Domingos Jorge Velho em campanha contra índios e escravos em terras do Nordeste.
Há trabalhos acadêmicos muito bons sobre esse período terrível da história de São Paulo. E há livros reveladores das intolerâncias vividas país a fora. Lembro aqui de dois ensaios que abrem o livro História de São Paulo, a cidade no Império (Paz e Terra, volume 2) e são uma aula sobre a escravatura.
O primeiro, de Alzira Lobo de Arruda Campos, trata de um detalhe de alta sensibilidade. Mostra como a sociedade escravocrata reagia a crimes nos quais se envolviam seus escravos. Os brancos proprietários de negros os defendiam da Justiça branca, mas não era porque acreditassem na inocência deles, mas sim para que seus patrimônios não fossem desvalorizados.
No segundo texto, de Maria Helena Machado, na mesma obra, mais pérolas daquela época. Ricas informações estatísticas mostram que em 1854 a cidade chegou a ter 30% de sua população composta por escravos. “A Freguesia da Sé, que era o local aonde estavam as famílias mais ricas, concentrava, em 1836, o maior número de escravos, 858 (370 crioulos e 488 africanos)”, diz a autora, citando Daniel Pedro Müller (Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo), editado em 1978.
Mas o que a mim tem chamado a atenção há algum tempo ao ler sobre o tema, além obviamente das barbaridades perpetradas, é a presença naqueles dias de um personagem único da cidade: Luís Gama. Outro dia, encontrei num sebo do Viaduto Nove de Julho, quase esquina com Rua da Consolação, uma edição do popular Trovas Burlescas, livro de poemas de Luís Gama, cujo título inteiro é Primeiras Trovas Burlescas do Getulino. Um achado.
Filho de mãe negra com pai branco, Luís Gama teria sido vendido como escravo pelo próprio pai, como pagamento de dívidas de jogo na Bahia, e mandado ao Rio. Dramático começo de vida para um adolescente. No Rio foi colocado num lote de negros vendidos a fazendeiro de São Paulo, para onde foi transportado de navio ao porto de Santos e, a pé, para Campinas.
No ensaio de Maria Helena Machado há detalhes da vida de São Paulo naqueles tempos. Ela também fala da maravilhosa superação pessoal de Luís Gama em tempos tão adversos. “De escravo doméstico a poeta, rábula, jornalista e militante político (…) Luís Gama valeu-se das relações de patronagem e proteção, que ele havia constituído em suas relações com gente branca e bem-nascida da cidade, para afrontar ao próprio modelo de branqueamento ao qual ele, mulato bem-sucedido, parecia fadado”, escreve Maria Helena Machado.
E a vida paulistana do ex-escravo, escritor e advogado, encontrou-se com a de outros abolicionistas, sendo ele elogiado por Raul Pompéia e tendo também se aproximado na empreitada da criação de jornais, como o Radical Paulistano, do Partido Radical. No Radical, fez política ao lado de Rui Barbosa.
Luís Gama morreu em 1882. “Em torno do caixão, se acotovelavam gente como Martinho Prado e Antonio Carlos, ladeados de escravos e forros, vestidos miseravelmente e descalços”, lembra a historiadora. Foi enterrado na rua 12, terreno 17, do então recente Cemitério da Consolação – veja no guia de visitação -, criado anos antes na Estrada da Consolação, área que à época era distante do Centro, caminho para Pinheiros, como relatam alguns dos observadores da geografia paulistana daqueles dias.
Luís Gama, poeta e militante antiescravagista, pode ser reverenciado na Consolação com outras pessoas de destaque em São Paulo, lembrados, por exemplo, em texto do professor José de Souza Martins.
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